sábado, 25 de outubro de 2025

Surpresa

Várias turmas de psicologia me procuram para fazerem trabalhos sobre o Psicodrama. Inicialmente desejam que responda a questionários ou uma entrevista.  Muitas vezes me pedem que sugira "alguma dinâmica ou técnica" do Psicodrama para fazerem na sala de aula. Retruco que no Psicodrama, seu método e até suas palavras são desconhecidas. Imaginem os conceitos. Os outros métodos psicoterápicos, mesmo que as pessoas desconheçam seus conceitos, as meras palavras são conhecidas. Não há estranheza numa mesa ou painel. Psicodrama, provavelmente, num painel com cerca de 20 minutos para apresentá-lo, soaria estranho, confuso, mágico ou falso. Então, sempre proponho às equipes ou turmas que experimentem uma sessão de Psicodrama. Em geral, a curiosidade estudantil faz com que aproveitem a oportunidade de vivenciar, efetivamente, uma ação psicodramática. Uma ou outra vez me surpreendo com a indisponibilidade para experimentar. Por que fazer algo presencialmente, por que não responder apenas o questionário? O que realmente me surpreende é a falta de curiosidade, a aparente burocratização de, meramente, responder a uma demanda de sala de aula. A curiosidade é virtude indispensável para a mente científica. Sua falta traduz-se por preconceito, credulidade, passividade intelectual, enfim, contínua aceitação sem questionamento.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Significado

 O epitáfio de J.L.Moreno, criador do Psicodrama foi: "Aqui jaz aquele que trouxe a alegria à Psiquiatria". Será um bufão o psicodramatista, será um eterno sorridente, será um daqueles que riem da dor alheia? Será um eterno feliz? Refletindo, acho que não. A alegria de a que Moreno se refere é a alegria de Nietsche, alegria da potência da força vital, a alegria da potência da mudança, a alegria da vida significativa. Dentro da dor, do sofrimento, do risco, do perigo, da angústia, pode existir a consciência da potência, a consciência da possibilidade de mudança. Não é felicidade, não é sorriso constante. O escritor Saint Exupéry escreveu: "Aquilo que dá sentido à vida, dá sentido à morte"; Isso é vida significativa. Penso ser essa visão Moreniana.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

deu match

 Psicodrama não é novo. Mas sempre é inovador. Estar presente num ato psicodramático é, sempre ou quase sempre, capaz de mobilizar de forma permanente sua plateia ou protagonista. O grupo psicodramático é uma enorme e profunda caixa de consonâncias e ressonâncias. Consonância é aquilo da cena que bate comigo, dá liga, da match. Ressonância são todas as minhas respostas a esses pontos de contato com a cena. Essa relação entre plateia e cena é mutuamente fertilizadora. Em um ato psicodramático realizado em uma faculdade de Psicologia, a protagonista diz, em um momento: "eu estou sentindo tudo que senti na hora". Moreno chamava o instante em que o protagonista integra uma compreensão de sua situação de catarse de integração. Não é apenas um instante de ab-reação, de descarga emocional, mas de compreensão cognitiva de sua cena. "A ficha cai". Psicodrama não é apenas desafogar, descarregar, emocionar-se. É, sim, ter um  momento Aleph, como dizia Jorge Luís Borges. Aristóteles falava em peripécia, o instante em que tudo muda, aparece uma perspectiva inexistente, até então. E por que isso seria psicoterápico? Porque o protagonista e/ou a plateia saem do imobilismo da visão única, congelada, petrificada. Em linguagem psicodramática, sai da conserva em que estava imerso, da vida que "é assim mesmo". É assim mesmo, mas talvez possa ser algo mais. Isso é Psicodrama.


Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...