Hoje cedo encontrei um título de livro, na verdade uma coleção, com o título de "Física para quem tem pressa". A coleção de todas as ciências , filosofias inicia sempre com "Para você que tem pressa". E é escrito (?) pela mesma pessoa! E o que é pressa, o que é tempo? Viajando na maionese, pensei no autor dessa série de livros, em como os escreveu. Será que ele, apenas, foi um coletor de informações? Será que ele refletiu sobre o tudo que leu? Será que ele integrou as informações sob a forma de conhecimento? Será que ele vivenciou, maturou os dados? agora olhemos seu papel complementar. o leitor que o lê. Trocando de lugar com essa pessoa faço um solilóquio: "Ops, posso aprender tudo rapidamente!", "não tenho muito tempo para essas coisas, assim tenho que otimizar meu tempo". E outros e outros possíveis solilóquios. Informação não é conhecimento. Informação são dados. Apenas dados. A integração dos dados junto com outros já conhecidos pode se transformar em conhecimento. A informação é dado solto, perde-se com facilidade. E as pessoas culpam a pobre da memória. Quando as informações, os dados tornam-se conhecimento, por estarem integrados, conectados, enraizados, constroem um solo seguro. O Conhecimento está firmemente instalado, formando um lastro, para novos conhecimentos. Quanto mais se conhece, mais se pode conhecer, até reconhecer socraticamente que nada sabe, verdadeiramente. O Conhecimento difere da crença por que ele é firme, mas flexível, está sempre captando, capturando, ligando, novos conhecimentos. Da Vinci por conhecer muito, conhecia mais. O conhecimento vive da curiosidade e da coragem de desafiar-se. Em Psicodrama (Em Socionomia) há a técnica de "câmara lenta". Quando um participante age de forma rápida ou impulsiva, solicitamos que refaça a cena, o gesto, o ato, em câmara lenta, fazendo seu solilóquio, ou seja expressando em voz alta o que está acontecendo com ele enquanto faz seu movimento lentamente. "A pressa é inimiga da perfeição". O artesão difere da linha montagem. A impulsividade do gesto, por meio da câmara lenta, pode ser aprofundado, percebendo-se a a pressa não só é inimiga da perfeição, mas também do conhecimento e da autopercepção.
sábado, 18 de abril de 2026
quarta-feira, 8 de abril de 2026
Nem tudo que reluz...
Há um ditado antigo: "Nem tudo que reluz é ouro". Nem tudo que aparenta ser, é. O que é Psicodrama, Sociodrama, Sociopsicodrama, Socionomia? É um método (não apenas técnicas) lastreado na filosofia moreniana. Nem tudo que se autodeclara Psicodrama, se observarmos o ato em si, seria denominado, realmente, Psicodrama ou outra palavra congenere. Apenas usa a denominação. Principalmente, vivências usando técnicas psicodramáticas, podem não ser, efetivamente, Morenianas. E por que esta importância toda em ser Moreniana? Porque o Psicodrama nasceu vinculado à ideia do par espontaneidade/criatividade. Atos programados, estudados, com fim pré-estabelecidos, não são da natureza do Psicodrama. E isto não é saudosismo. É definir, claramente, os termos. E isto não é se opor à evolução do Método. Zerka modificou substancialmente a direção psicodramática. Mas, modificou preservando o par espontaneidade/criatividade. Sem isto será qualquer outra coisa, mas não será Psicodrama (ou Sociodrama ou Sociopsicodrama ou Axiodrama). O grupo precisa criar seu tema protagônico. O tema será capturado pelo momento do grupo, pela gestalt criada naquele instante. É irrepetível, porque se dá pela combinação de participantes do grupo, naquele instante, naquela circunstância. Não deveria ser imposto pela direção. Não deveria ser objeto de planejamento. Os atos psicodramáticos são atos que envolvem liberdade, espontaneidade, criatividade, ousadia de pisar onde não há chão, criar pontes onde antes existia vazio, Coragem, enfim.
sábado, 21 de março de 2026
É
Um escritor italiano Ítalo Calvino tem um livro com o título Um, Nenhum, Cem mil. Psicodrama é assim. O método, embasado, enraizado, embebido da filosofia Moreniana, é assim. Funciona em um, às vezes em nenhum, e muitos cem mil. Hoje, em nosso encontro, foram quase quatro horas de uma atividade maratonal. A tal ponto que qualquer hora mencionada poderia ser crível. O tempo esteve, não parado, mas imerso na intensidade, tão imerso que ele contava pelo relógio da fantasia moreniana. Duas histórias humanas. Ricas, intensas, humanas. Terêncio, poeta romano, dizia que "Nada do que é humano me é estranho". Tudo nos conecta. A sua história, a tua história, a minha história, se entrelaçam no roteiro de todos os humanos. Por isso o Psicodrama é possível. Por isso o Teatro é possível. Por isso o cinema é possível. Por isso a Arte é sempre possível. Como diria Raul e P. Coelho em Gita: "Raso, largo, profundo". Meu coração estava entre a minha boca e minha mão. Conduzido, qual cego, pela intensidade das protagonistas sequenciais. Seguindo-as, como cego, guiando-as, como cego. Sentindo, tatilmente, o que cada uma delas sentia. Deixando o Diretor ser guiado. E chegamos duas vezes ao porto. Anunciado por sorrisos em semblantes antes tão sofridos, marcados de lágrimas e dor. Sorrisos de "Ops, então pode ser isto!". Sorrisos em mundo de dor cristalizada, antes um sorriso não cabia. Chorar, numa palavra moreniana pode ser uma conserva. Uma maneira conservada de assistir sua própria história. Cristalizada, repetitiva, imutável. Sorrir diante de sua própria história pode ser um áureo alvorecer, um anúncio, uma contramão em nossa maneira de nos enxergarmos. E repetindo os muros da França em 1968: "Por que não?"
quinta-feira, 19 de março de 2026
coisas
Em uma hipervisão (como denomino uma supervisão ampla, que olhe não apenas a técnica, mas desde o atendimento ao lidar com o paciente) apareceram dois casos que tinham algo de similar. Em ambos a demanda do paciente não era clara, Aí me veio à lembrança uma imagem de infância. Era uma vista lateral de um corte de uma porta de entrada. Fora, havia uma imagem crística batendo na porta. porta sem maçaneta externa. E via-se a pessoa dentro, com o braço e mão a caminho da porta. Porta com maçaneta. Era uma imagem de cunho religioso para demostrar a fé individual. Mas, retirando-se a conotação religiosa, pode exemplificar, graficamente, a relação terapêutica. Infelizmente, não encontrei reproduções desse quadro. Mas, voltando, em toda área terapêutica, tirando as situações emergenciais ou de urgência, o contrato é sempre e sempre, 51%( paciente) - 49% (profissional). Os seja, a maçaneta é do lado de dentro. E, como nesses casos e em outro relatado, ficava nítido que a dificuldade, em quaisquer que sejam as formas de tratamento, não é o problema em si, mas como a própria pessoa lida com o problema. Esta frase refere-se ao paciente, mas a viramos contra o profissional, aí veremos que, sem reconhecer e conhecer a pessoa e sua forma de viver sua vida, fica-se girando em círculos como um cachorro correndo atrás do rabo. Considerando como dificuldade o problema apresentado. Sendo médico, é trocando infinitamente de prescrição e desesperando-se. Sendo psicoterapeuta fica-se buscando, inutilmente, saídas técnicas, sempre fechadas pelo próprio paciente. E desesperando-se. Arrombar a porta, seja para o visitante da imagem, do médico com seu paciente, do psicoterapeuta com seu paciente, é sempre e será sempre, uma violência. Sendo assim e sentida assim pelo paciente. É nosso trabalho.
sábado, 21 de fevereiro de 2026
O que me preocupa?
O que me preocupa? Há uma palavra em alemão - Weltanschauung - que significa visão de Mundo. É de onde vejo, é o como vejo, é a minha forma de perceber o mundo, o em entorno, eu e o entorno. As técnicas são instrumentos. Os métodos são visão de mundo. Odos, em grego, é caminho e meth é por meio de. Portanto, as técnicas podem ser usadas por vários caminhos, mas obviamente, não conduzem ao mesmo destino. As mesmas técnicas usadas por métodos diferentes, conduzirão a resultados diferentes. A Socionomia (e sua metonímia o Psicodrama) por ser método, por ser visão de mundo, sempre tem que estar fundamentando o exercício técnico. O exercício das técnicas psicodramáticas não serão, nunca, atos socionômicos, psicodramáticos, estando descolados de sua filosofia que embasa seu método, sua cosmovisão. Ser radical não é ser obstinado nem teimoso. Essencialmente, ser radical é voltar às raízes (radices), ter clareza dos fundamentos. Aí, então, pode-se crescer e desenvolver. O que me preocupa? É que o exercício de técnicas e vivências ditas psicodramáticas, descolem-se da visão da criação coletiva, desgarrem-se da força da espontaneidade criadora e sejam deslocados para obter-se resultados previamente planejados, sem a confiança que, parodiando o grande compositor Accioly Neto, no ato socionômico/psicodramático "tudo pode acontecer, inclusive nada".
sábado, 24 de janeiro de 2026
Um Método
Conta-se que Picasso em seu início de vida artística passava os dias no Louvre copiando e copiando os mestres l[a expostos. Copiando e aprendendo e apreendendo as técnicas. depois criou sua forma de ver e pintar o mundo. Voltemos ao mundo psicodramático. Parece-me que as coisas andam um tanto "antiPicasso". Escutei de um mestre do jiujitsu uma analogia interessante e apropriada para nossa situação. Ele falava dos 10 números básicos. Seu domínio e combinação permite a criação de séries infinitas de números. O Psicodrama Moreniano-Zerkiano (lembrando que a companheira de Moreno deu a nossa forma moderna de compreender e praticar o Psicodrama) é um Método. Não são apenas as técnicas psicodramáticas que fazem o Psicodrama. Há um Por Que. Um Para Que e um Como fazer. O Próprio Moreno referia-se a isso quando lamentava que a filosofia do Psicodrama estava relegada às bibliotecas. O Psicodrama, o Método Socionômico, tem uma fundamentação que embasa o Olhar Psicodramático, a maneira de perceber a gestalt do mundo como uma sistema de relações interpessoais e intergrupais. Como um método que coloca no grupo a potência da criação lastreada na espontaneidade. Como um método que confia no grupo como criador e gestor de si. Um método que reconhece no sistema de relações entre papéis a base de compreensão das relações individuais. Um método que reconhece a interpenetração dos contextos social, grupal e psicodramáticos. Um método, um caminho, em que a bússola, necessariamente, é a filosofia Moreno-Zerkiana.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Humanos ou psicoterapeutas?
O psicoterapeuta é um ser humano. Igual ao paciente que o procura? Este que vai em busca de ajuda sente-se, de alguma forma, desorganizado, confuso, em um estado nebuloso. E o psicoterapeuta? Pelas mesmas circunstâncias do paciente ou similares pode estar vivenciando um momento assim em sua vida de ser humano, fora do papel profissional. Então, para exercer esse papel há que ser um supra ser humano, "resolvido", inabalável, acima das dores humanas? Penso que não. Então, o que? Aí, a compreensão dos papéis, psicodramaticamente falando, é proveitosa. Todo papel é aquela forma de atuar em relação á pessoa em papel complementar. Papel, estamos no teatro, no cinema? Não. O termo adveio do teatro em que cada personagem desempenha múltiplos papéis. Por exemplo, o protagonista pode ser o advogado, o filho, o pai, o irmão, o amigo, o assassino, o ladrão. Cada um desses papeis tem script diferente dos outros, embora desempenhado pelo mesmo personagem. Com características, próprias. E cada papel tem seu complementar, que existe por causa dele e o faz existir: advogado/cliente, filho/pai, pai/filho, irmão/irmão, amigo/amigo, assassino/vítima, ladrão/ vítima.. Os papeis se constituem mutuamente. Um dos aspectos importantes no desempenho de cada papel é o binômio diferenciação/indiferenciação. Estar diferenciado é ter percepção dos fluxos que passam por vc, é perceber quando sua resposta a seu papel complementar é a resposta adequada ao papel ou está sendo impulsivamente movida pela mobilização interna. Claro que não é fácil no dia a dia de todas as pessoas. Nossas respostas e ações em cada papel é, continuamente, interferida pelo desempenho dos outros papéis. Machado de Assis tem um conto em que um esporro de um ministro em seu chefe de gabinete vai descendo na escala funcional até um cachorro, no final, ser chutado, pelo auxiliar de limpeza. Mas, no papel profissional há que haver a busca da diferenciação no papel. principalmente no papel profissional de psicoterapeuta, psicóloga/o psiquiatra. Sim. Podemos estar sofrendo, putos da vida, felizes, tristes. Mas, necessitamos de manter esta contínua vigilância da diferenciação, de perceber-se transferindo (e esta é acepção que Moreno utiliza para a palavra transferência) de outra relação de papéis a resposta que estamos dando a nosso papel complementar. Diferenciar-se ou indiferenciar-se, that's the question.
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