sábado, 24 de janeiro de 2026

Um Método

 Conta-se que Picasso em seu início de vida artística passava os dias no Louvre copiando e copiando os mestres l[a expostos. Copiando e aprendendo e apreendendo as técnicas. depois criou sua forma de ver e pintar o mundo. Voltemos ao mundo psicodramático. Parece-me que as coisas andam um tanto "antiPicasso". Escutei de  um mestre do jiujitsu uma analogia interessante e apropriada para nossa  situação. Ele falava dos 10 números básicos. Seu domínio e combinação  permite a criação de séries infinitas de números. O Psicodrama Moreniano-Zerkiano (lembrando que a companheira de Moreno deu a nossa forma moderna de compreender e praticar o Psicodrama) é um Método. Não são apenas as técnicas psicodramáticas que fazem o Psicodrama. Há um Por Que. Um Para Que e um Como fazer.  O Próprio Moreno referia-se a isso quando lamentava que a filosofia do Psicodrama estava relegada às bibliotecas. O Psicodrama, o Método Socionômico, tem uma fundamentação que embasa o Olhar Psicodramático, a maneira de perceber a gestalt do mundo como uma sistema de relações interpessoais e intergrupais. Como um método que coloca no grupo a potência da criação lastreada na espontaneidade. Como um método que confia no grupo como criador e gestor de si. Um método que reconhece no sistema de relações entre papéis a base de compreensão das relações individuais. Um método que reconhece a interpenetração dos contextos social, grupal e psicodramáticos. Um método, um caminho em que a bússola, necessariamente, é a filosofia Moreno-Zerkiana.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Humanos ou psicoterapeutas?

O psicoterapeuta é um ser humano. Igual ao paciente que o procura? Este que vai em busca de ajuda sente-se, de alguma forma, desorganizado, confuso, em um estado nebuloso.  E o psicoterapeuta? Pelas mesmas circunstâncias do paciente ou similares pode estar vivenciando um momento assim em sua vida de ser humano, fora do papel profissional. Então, para exercer esse papel há que ser um supra ser humano, "resolvido", inabalável, acima das dores humanas? Penso que não. Então, o que? Aí, a compreensão dos papéis, psicodramaticamente falando, é proveitosa. Todo papel é aquela forma de atuar em relação á pessoa em papel complementar. Papel, estamos no teatro, no cinema? Não. O termo adveio do teatro em que cada personagem desempenha múltiplos papéis. Por exemplo, o protagonista pode ser o advogado, o filho, o pai, o irmão, o amigo, o assassino, o ladrão. Cada um desses papeis tem script diferente dos outros, embora desempenhado pelo mesmo personagem. com características, próprias) E cada papel tem seu complementar, que existe por causa dele e o faz existir: advogado/cliente, filho/pai, pai/filho, irmão/irmão, amigo/amigo, assassino/vítima, ladrão/ vítima.. Os papeis se constituem mutuamente. Um dos aspectos importantes no desempenho de cada papel é o binômio diferenciação/indiferenciação. Estar diferenciado é ter percepção dos fluxos que passam por vc, é perceber quando sua resposta a seu papel complementar é a resposta adequada ao papel ou está sendo impulsivamente  movida pela mobilização interna. Claro que não é fácil no dia a dia de todas as pessoas. Nossas respostas e ações em cada papel é, continuamente, interferida pelo desempenho dos outros papéis. Machado de Assis tem um conto em que um esporro de um ministro em seu chefe de gabinete vai descendo na escala funcional até um cachorro, no final, ser chutado, pelo auxiliar de limpeza. Mas, no papel profissional há que haver a busca da diferenciação no papel. principalmente no papel profissional de psicoterapeuta, psicóloga/o psiquiatra. Sim. Podemos estar sofrendo, putos da vida, felizes, tristes. Mas, necessitamos de manter esta contínua vigilância da diferenciação, de perceber-se transferindo (e esta é  acepção que  Moreno utiliza para a palavra transferência) de outra relação de papéis a resposta que estamos dando a nosso papel complementar. Diferenciar-se ou indiferenciar-se, that's the question.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Promessas ou Erros?

 Promessas (Erros} de Ano Novo! Já nos habituamos à rotina de, na virada do calendário Gregoriano, fazermos promessas de mudanças, propormos intenções nova, blá, blá, blá.. Como se pudéssemos antecipar o fluxo da vida com suas idas e vindas. Como se pudéssemos saber como nos comportaremos nas novas e, com certeza, inesperadas, mudanças no nosso entorno. A Espontaneidade Moreniana não se refere a um planejamento metódico do futuro com todas as possíveis alternativas previstas com planos alternativos de resolvê-las. Mas a experimentar e refletir. Assim, ao revés do hábito de novas promessas, desejo a todos erros novos. Cometam erros novos. Não tê-los é viver uma vida conservada, mecânica. Repeti-los é não refletir sobre suas ações e seguir em frente desconsiderando os fatos e contextos e relações. Desejo que estejam sempre abertos ao futuro, agindo e ponderando. Experimentando e Refletindo.

Felizes Erros Novos

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Solstícios, Natal e Psicodrama

Parodiando Fernando Pessoa, o Símbolo é o nada que é tudo. A origem do Natal está nas comemorações do Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Solstícios são os pontos da trajetória terrestre (a Terra tem seu eixo inclinado) em que os hemisférios estão mais próximos (verão) ou mais distantes (inverno) do Sol. Assim, para as tradições místicas do Hemisfério Norte, esse período era quando, em seu hemisfério, em Dezembro, a inclinação da Terra em relação ao Sol, voltava a se aproximar, quando o Inverno anunciava o seu fim, quando as esperanças de um novo plantio, de um degelo, surgiam, respondendo à expectativa da espera. Nas tradições místicas isso era o símbolo da renovação, do anúncio de um novo tempo. Avatares e deuses eram comemorados nesse dia. Krishina, Mitra, por exemplo. Por isto a tradição cristã aproveitou-se desse simbolismo. Entre nós. no Hemisfério Sul, é o Solstício de verão, dia mais longo, noite, qualquer que seja o tipo de noite, mais curta. E isso que tem a ver com o nosso Psicodrama/Teatro Espontâneo? Nada. E tudo. Moreno, o criador do Método Socionômico (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) era um judeu imbuído das tradições judaicas, principalmente da filosofia hassídica. E esse Hassidismo tinha por base a renovação, a fé na transformação, a esperança de um recomeço. Socionomia, Sociodrama, Psicodrama Morenianos são sempre fundados nessa atitude de mudança, transformação, um novo olhar, uma nova chance, um outro começo. Noites mais e mais curtas, dias e dias mais longos. Que seja assim e assim seja para cada pessoa e para todas as pessoas.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Crítica bem crítica

Estive vendo um vídeo em que há fortes críticas ao exercício do Psicodrama feitas em tom irônico. Ao terminar de vê-lo, o primeiro sentimento foi algo irritado ou raivoso. "Estão mexendo com meu "precioso"". Mas, a seguir parei para refletir. O que poderíamos aproveitar do que foi dito? Como transformar merda em adubo?. A primeira questão é: "Estamos, enquanto Psicodramatistas, prontos para fundamentar o que fazemos?". A outra seria, quanto do que fazemos já não se tornou uma conserva psicodramática? Esse termo designa em psicodramatês aquelas produções humanas que são repetidas e repetidas já havendo perdido o sentido ou sendo feitas apenas "porque é assim". Ou seja, algo estático no tempo sem ser vivificado pela experiência e reflexão. A sequencia psicodramática é realizada dissociada do olhar sobre o grupo. Outra ainda seria a  banalização das vivências. Essas são programadas, não extraem seu resultado diretamente da experiência psicodramática. Mas são atos programados, pensados, desenhados, com início, meio e fim. Marcia Karpp diz em uma de suas entrevistas a Sérgio Guimarães que Moreno falava: "Throw away the script" Jogue fora o roteiro). Zerka Moreno em outra entrevista a Sérgio refere-se a essa necessidade da construção psicodramática ser fruto da experiência grupal imediata. Quantas vezes o ato psicodramático é transformado em jogos apenas, sem nem serem jogos psicodramáticos, em que o jogo é aquecimento para o desenrolar. Ou seja, colocando-se no palco dois personagens, um psicodramatista e um crítico do Psicodrama como seria esse ato psicodramático? seria a cadeira vazia dos tempos de hoje. Como tornar nosso conhecimento e ação lastreados suficientemente para nos dar maneiras de responder às críticas, sem usar argumentos ad hominem? Quanto a carapuça nos cabe?

domingo, 14 de dezembro de 2025

Pontes entre mundos

 Por que palco? Por que não apenas cadeiras? vamos voltar para as origens gregas. . Era Theatron e Skené (Cena ou palco). Theatron significa "lugar de onde se vê". Skené, cena ou palco, lugar onde a história acontece. Na cena teatral habitual assim é. Mas, a chamada quarta parede, o muro invisível que separa o palco da plateia, é rompida. No cinema , o filme Rosa púrpura do Cairo faz a de Woody Allen, faz a personagem sair da tela para a vida e relação coma personagem feminina. Em um dos episódios da série Além da Imaginação (Twilight zone) faz o contrário. Na realidade esse episódio precedeu em mais de 20 anos o filme de Allen. O Psicodrama, tendo se originado do Teatro, lhe guarda semelhanças. E diferenças. Uma dela delas refere-se à quarta parede. Ela não existe. Todo o tempo o que acontece no palco pode transitar para a plateia e vice-versa, da plateia para o palco. Esta mútua fertilização, do protagonista no palco e da plateia grupal, enriquece, fecunda, potencializa a ação psicodramática. Neste ambiente psicodramática a plateia funciona como a realidade compartilhada, a "realidade real". E o palco como a realidade dramática, a realidade poética, no dizer de Moreno. Só assim poderemos compreender a profunda importância da técnica do Espelho. Nela, o protagonista sai do palco. Fisicamente sai. e de lá da plateia, de sua realidade "real", pode ver-se psicodramatizado por um ego auxiliar, vendo sua cena, podendo ponderar, refletir, escolher, decidir a próxima ação ao regressar ao palco. Entrar e sair do palco é transitar entre a realidade vivida e a realidade poética, aquela brecha, aquele fosso, criado desde a infância, onde ainda não existe, para a realidade "adulta, madura", em que pode se tornar e se torna, intransponível, quase intransponível. Em que o sonho, a fantasia, a imaginação, o "faz-de-conta", o "era uma vez", estão definitivamente separadas da "vida real".  Para quem conhece a mitologia nórdica, existe a Bifrost, a ponte de vidro que liga o Mitgard o reino dos seres humanos ao Asgard,  o reino do deuses.  Psicodrama é algo como uma Bifrost religando o que já foi uno, tonou-se dois, e pode fazer voltar a ser possível o transito entre os mundos.

sábado, 6 de dezembro de 2025

A esperança e a fé


 Os Semeadores do Psicodrama. Esta peça, criada pelo belo Nori Cepeda junto com outros psicodramatistas retrata o momento histórico que os primeiros psicodramatistas brasileiros foram se formando e, a partir deles, foi sendo gerada a grande prole dos psicodramatistas. Não estive presente em corpo, mas sim em coração e espírito. Mas, essa foto, publicada por Nori me tirou do sério. Em psicodramatês diria que esse foi um Momento Moreniano. O verde da iluminação pode 9 e para mim é) a própria esperança que regou o terreno dos primeiros psicodramatistas. E esse legado de esperança, de fé na construção coletiva, na força e potência que o grupo tem, na capacidade autoregenerativa de cada ser humano, na fé na liberdade, na rejeição ao autoritarismo. Quem conhece a história do Psicodrama e de Moreno, a história do psicodrama brasileiro, se vê representado na foto (eu me vejo). Quem não conhece essas histórias deixe-se levar pela foto e pelo título. Assim, vc recriará em vc esse passado presentificado pela sua experiência.

domingo, 23 de novembro de 2025

Atrasados

Quando estou para iniciar uma atividade psicodramática a organização me pergunta o que fazer com os retardatários. Minha resposta, na maioria das vezes, é "deixe entrar". Por que isso? faz parte de uma curiosidade minha: Como aquele que chega sem ter participado do aquecimento ou mesmo das cenas desenroladas, capta o clima do grupo.
E quando peço exatamente isso o que tenho encontrado é uma consonância e uma ressonância totalmente harmônicas com o que aconteceu, mas não foi presenciado. O que me demonstra que o Coincosciente Moreniano, aquilo amorfo, porém construído por tudo o que aconteceu na construção grupal, é uma realidade que pode e é capturada pelos membros grupais. Algo que existe, criado pelo grupo e durando o que o grupo dura. Mas uma realidade psicodramática.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Espelho que não é espelho

 Durante esse período de alguns dias sem postar estive em várias atividades publicas de Psicodrama. Em uma, particularmente, me chamou a atenção o uso que um participante fez de uma técnica psicodramática. Ele disse: "quero fazer um espelho". O que ele fez a seguir foi uma admoestação moral do comportamento do protagonista. O psicodrama tem três técnicas básicas. A dublagem (duplo), o espelho e a inversão de papéis. Vou-me deter aqui no espelho. Para isso preciso falar do palco, um dos instrumentos do psicodrama. Por que palco? O palco tem uma função cênica, de realçar, amplificar, aquilo que lá acontece. Mas, no Psicodrama, delimita a fronteira entre a realidade real, que está na plateia, e a realidade dramática que está no palco. Entrar e sair do palco NÃO é um mero ato físico. É sair e entrar em dois mundos. A criança faz assim com extrema facilidade. Mas o adulto, não. O espelho, como técnica, possibilita que o protagonista se veja em ação. Mas, ele tem que estar FORA do palco. Ver-se como a plateia o vê. Ver-se em ação. Então, a proposta de fazer um espelho exige a saída do protagonista do palco, um ego auxiliar tomando seu papel e repetindo sua cena. Ver-se em cena e daí poder deslocar sua observação e propor saídas outras até então invisíveis dentro da cena. É ver-se filmado e dizer: "Porra, fiz isso mesmo? Falo assim mesmo?". Mas, em nenhum lugar, absolutamente nenhum lugar do Psicodrama cabe dizer ao protagonista o que ele deve sentir ou fazer. Essa é um achado, uma descoberta que há que ser feita pelo protagonista. E só assim cumprirá a meta psicoterápica: acrescentar ou mudar seu ponto de vista

sábado, 25 de outubro de 2025

Surpresa

Várias turmas de psicologia me procuram para fazerem trabalhos sobre o Psicodrama. Inicialmente desejam que responda a questionários ou uma entrevista.  Muitas vezes me pedem que sugira "alguma dinâmica ou técnica" do Psicodrama para fazerem na sala de aula. Retruco que no Psicodrama, seu método e até suas palavras são desconhecidas. Imaginem os conceitos. Os outros métodos psicoterápicos, mesmo que as pessoas desconheçam seus conceitos, as meras palavras são conhecidas. Não há estranheza numa mesa ou painel. Psicodrama, provavelmente, num painel com cerca de 20 minutos para apresentá-lo, soaria estranho, confuso, mágico ou falso. Então, sempre proponho às equipes ou turmas que experimentem uma sessão de Psicodrama. Em geral, a curiosidade estudantil faz com que aproveitem a oportunidade de vivenciar, efetivamente, uma ação psicodramática. Uma ou outra vez me surpreendo com a indisponibilidade para experimentar. Por que fazer algo presencialmente, por que não responder apenas o questionário? O que realmente me surpreende é a falta de curiosidade, a aparente burocratização de, meramente, responder a uma demanda de sala de aula. A curiosidade é virtude indispensável para a mente científica. Sua falta traduz-se por preconceito, credulidade, passividade intelectual, enfim, contínua aceitação sem questionamento.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Significado

 O epitáfio de J.L.Moreno, criador do Psicodrama foi: "Aqui jaz aquele que trouxe a alegria à Psiquiatria". Será um bufão o psicodramatista, será um eterno sorridente, será um daqueles que riem da dor alheia? Será um eterno feliz? Refletindo, acho que não. A alegria de a que Moreno se refere é a alegria de Nietsche, alegria da potência da força vital, a alegria da potência da mudança, a alegria da vida significativa. Dentro da dor, do sofrimento, do risco, do perigo, da angústia, pode existir a consciência da potência, a consciência da possibilidade de mudança. Não é felicidade, não é sorriso constante. O escritor Saint Exupéry escreveu: "Aquilo que dá sentido à vida, dá sentido à morte"; Isso é vida significativa. Penso ser essa visão Moreniana.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

deu match

 Psicodrama não é novo. Mas sempre é inovador. Estar presente num ato psicodramático é, sempre ou quase sempre, capaz de mobilizar de forma permanente sua plateia ou protagonista. O grupo psicodramático é uma enorme e profunda caixa de consonâncias e ressonâncias. Consonância é aquilo da cena que bate comigo, dá liga, da match. Ressonância são todas as minhas respostas a esses pontos de contato com a cena. Essa relação entre plateia e cena é mutuamente fertilizadora. Em um ato psicodramático realizado em uma faculdade de Psicologia, a protagonista diz, em um momento: "eu estou sentindo tudo que senti na hora". Moreno chamava o instante em que o protagonista integra uma compreensão de sua situação de catarse de integração. Não é apenas um instante de ab-reação, de descarga emocional, mas de compreensão cognitiva de sua cena. "A ficha cai". Psicodrama não é apenas desafogar, descarregar, emocionar-se. É, sim, ter um  momento Aleph, como dizia Jorge Luís Borges. Aristóteles falava em peripécia, o instante em que tudo muda, aparece uma perspectiva inexistente, até então. E por que isso seria psicoterápico? Porque o protagonista e/ou a plateia saem do imobilismo da visão única, congelada, petrificada. Em linguagem psicodramática, sai da conserva em que estava imerso, da vida que "é assim mesmo". É assim mesmo, mas talvez possa ser algo mais. Isso é Psicodrama.


sexta-feira, 26 de setembro de 2025

personagem e papel. Um esboço.

 Hoje, num atendimento, a pessoa, que convive com seu namorado há alguns anos, vai se casar em poucos dias. E ela está muito e muito nervosa, como ela diz. E pergunta, é diferente agora? Por que estou tão nervosa se já estamos juntos há tanto tempo? os papeis teatrais (role, em inglês) são desempenhados por personagens (characters}. Por exemplo, o papel de mãe em uma peça pode ser desempenhado, inicialmente, pela personagem X. Posteriormente, outra personagem Y a sequestra e a substitui no papel de mãe. O papel tem funções prescritas pelo autor.  Fora dos palcos, os papéis também têm sua expectativa de desempenho, têm seu script definido. Há papéis com alto grau de prescrição social que, praticamente congela o personagem que irá desempenhá-lo. A margem de criatividade torna-se reduzida. Há outros papéis, entretanto, em que a prescrição é somente um esboço, abrindo espaço para atuações variadas. O papel social matrimonial tem alta prescrição social. E isso inclui escolhas, ações, vestuário, comportamento e mais outros tantos. Essa paciente a que me referi, funciona com cônjuge há anos. Porém, sua titulação é de namorada e namorado. Ao casar-se, incorpora um novo papel com outra cota de demandas sociais e pessoais. A formalização do ato traduz-se pela assunção de novo papel. E a personagem (ou o personagem). A personagem desempenha múltiplos papeis. namorada, profissional, familiar, amiga. E em todos eles sua personagem é vista no desempenho de todos seus papéis. Em cada um desses papeis é possível reconhecer-se o personagem que o desempenha. Ele imprime sua marca em todas as atuações. Personagem, em português, como vejo, é o mais próximo conceito psicodramático do conceito de personalidade nas outras visões psicológicas

sábado, 6 de setembro de 2025

Tempo, Espaço, Condução

Tempo, Espontaneidade, Espaço, Espontaneidade. Às vezes, parece que fazer Psicodrama é vivenciar um happening, apenas usufruindo da vivência sem nenhuma forma de organização. Não é assim. Parodiando Polonio no Hamlet "é louco, mas tem seu método". Ao Diretor cabe manter o total controle do tempo e do espaço. Embora ele seja um membro do grupo, em seu papel diferenciado ele não deve deixar-se levar pelo encantamento do momento e perder-se dentro dos critérios de tempo e espaço. O absoluto controle do tempo é vital para saber a cada momento, se há tempo para uma nova imagem, um desdobramento cênico, uma ressonância maior. Saber se cabe dar início a algo novo ou apenas acolher a manifestação. E no espaço há que se lembrar que o palco delimita os dois mundo. o Real "real" e o Real "cênico". A mais que famosa brecha realidade fantasia traduzida em um espaço concreto. Os membros da atividade não devem consultar o relógio. Se o fizerem e isso for percebido pelo Condutor ou sua unidade funcional sinaliza que o aquecimento está fraquejando. Mas a unidade funcional, a codireção, precisa saber, a cada momento onde a atividade está em relação ao tempo disponível ou contratado. Dirigir, Conduzir uma atividade socionômica é como um equilibrista que tem um olhar genérico e um um olhar específico para cada um dos malabares que esteja jogando. A visão do grupo e a visão do membro do grupo. Não é fácil, à primeira vista. Mas, é possível. Treinando, repetindo, observando e repetindo e observando. 

domingo, 17 de agosto de 2025

Não pode e não deve acontecer

 Por que o Psicodrama não tem tanta difusão no meio Psi? talvez porque o Psicodrama ser um método de ação ele necessite ser experimentado antes de ser valorizado. pelos aspectos teóricos literários não parece ser algo muito atraente á simples leitura. E como, dia a dia, o próprio exercício do Psicodrama pelo Psicodramatista vai se tornando mais psicoterapia de fala e escuta e menos de ação e cena, vai perdendo e deixando de ganhar espaços no ambiente Psi. Há muito tempo o Mestre Moysés Aguiar alertava que o Psicodrama tornava-se cada vez mais Psi e menos Drama. E isso é um enorme risco para a a continuidade desse Método. Caricaturalmente, tirar ou diminuir a sua principal ferramenta diferencial  é como emudecer e ensurdecer a Psicanálise. Simplesmente não faz sentido. A cena torna o Psicodrama o único método tridimensional, capaz de colocar e acentuar nuances de expressão impossíveis de serem percebidas num relato verbal. O Psicodrama não é uma psicoterapia corporal, mas é uma psicoterapia em que o corpo, o tom da voz, a prosódia de emissão da fala, a postura, o movimentar-se, traduz-se como expressão total de um ser humano. Em que é possível a vivência plena, no aqui  e agora, do passado vivido ou não, do presente vivido ou não, do futuro desejado ou temido. Só e exclusivamente porque temos a Cena, o mundo tridimensionalmente vivido. 

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...