quinta-feira, 1 de abril de 2021
100 anos (sem solidão, mas com solidariedade)
quarta-feira, 10 de março de 2021
Luz, cenário
Tenho pensado muito sobre o efeito do cenário e iluminação sobre o palco. Claro que, para quem é de teatro ou cinema, isto não é dúvida. É certeza. Mas trazendo para o nosso universo psicodramático talvez não seja tão óbvio assim. O nosso palco real é o mundo, é o nosso corpo. O palco numa sala ou num espaço qualquer é uma representação analógica do nosso mundo/corpo. Se aquela dúvida inicial for trazida para essa nova referência o que seria cenário e iluminação, então? Cenário seria o pano de fundo da sociedade onde viva o protagonista. E nesse caso pode haver, e há, cenários sobre cenários: mundial, nacional, regional, familiar e outros mais que possam ser identificados. A iluminação corresponderia ao clima afetivo do entorno, o zeitgeist. Se no palco teatral o cenário é comentário, ambientação, localização de onde se passa a cena, sugestão. Se no palco teatral a iluminação é um narrador e comentarista, um reforçador da cena, um indicativo, um criador de clima afetivo. Se tudo isto que dissemos sobre cenário e luz trouxermos para o palco psicodramático, abre-se um portal para sairmos de uma visão exclusivamente subjetiva, solipsista (eita !) e passarmos a ver a pessoa dentro de cenários múltiplos e iluminações cambiantes.
domingo, 21 de fevereiro de 2021
Sabedoria, conhecimento e esperteza
Assisti, novamente, ao filme Parasita. Afora qualquer discussão ou consideração sobre a estética cinematográfica, veio-me uma distinção nem sempre fácil de fazer ou entender. Sabedoria (wisdom), conhecimento (knowledgment), esperteza (slyness). O filme trata de esperteza (slyness). A sabedoria é o conhecimento englobado pela ética. Conhecimento é um instrumento de ação na Natureza. E esperteza? Esperteza tem a ver com a sobrevivência, com o imediato, com o presente. A esperteza não inclui o futuro. É "cada dia com sua pena". O horizonte da esperteza é curto. A sabedoria vê longe. E o conhecimento é o instrumento, o óculo para se ver. Isto é a minha visão de um segmento do filme. E o Psicodrama? Que tem a ver com isso? O que pode ter a ver com isso? Sempre podemos aprender com um campo da experiência e, a partir dele, olhar para outro campo experiencial. Dirigir uma ato psicodramático, um TE, exige conhecimento, profundo conhecimento do método socionômico. Mas, para o exercício da condução grupal, é fundamental a presença da esperteza, da sagacidade cênica, do pulo-do-gato. Entretanto, essas duas condições precisam ser complementadas pela sabedoria socionômica, a visão socionômico do viver. Sem essa sabedoria, ficaremos limitados ao desempenho técnico e a manha do dirigir. Psicodrama, TE, Sociodrama, atos socionômicos, enfim, precisam dos três: Esperteza, sagacidade na condução, conhecimento técnico e sabedoria socionômica.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
papéis e papéis
Há no Psicodrama, na teoria Socionômica, um conceito central derivado do teatro. O conceito de papel. Para o Psicodrama as pessoas se relacionam por meio de papeis que atuam na vida. Portanto, papel é um conceito relacional. Quando se estabelece um vínculo, ele acontece entre papeis. Sendo assim, os papéis que desempenhamos na vida são múltiplos. Tantos quantos os vínculos que estabelecemos. E são dinâmicos. Nós entramos e saímos dos papéis durante nosso tempo de relacionamento. Um pai é pai quando há seu papel complementar, o filho. Um professor o é, ao se relacionar com estudantes. Um médico é médico na relação com um paciente. Um psicoterapeuta é psicoterapeuta na relação psicoterápica. O mesmo com psicólogo ou quaisquer outros papéis sociais. Consideramos, no Psicodrama, na Socionomia, que a cristalização de um papel, sua persistência em todos os vínculos, é uma patologia do papel. Sou psiquiatra e psicodramatista quando me relaciono com pacientes ou com os temas psiquiátricos e/ou psicodramáticos. Mas, também, sou torcedor do Bahia, rosacruz, amigo de amigos, colega de colegas, amante de vinho, pai, marido, avô, tio, irmão e, ainda bem, muitos outros papeis que traduzem outros tantos vínculos. Não sou psiquiatra em toda conversa de mesa de bar, não sou sou psicoterapeuta com quem não me escolheu para sê-lo. Um ser humano é, sempre, sadiamente, ator de múltiplos papéis.
domingo, 7 de fevereiro de 2021
Snoopy, Física e Psicodrama
Em figuras geométricas, a conserva cultural moreniana é uma circunferência. O par Espontaneidade-Criatividade é uma espiral. Em uma tirinha de Charlie Brown e Snoopy, o Charlie Brown questiona à Snoopy ele sempre escolher o mesmo tipo de sorvete de baunilha quando a sorveteria oferece mais de 40 sabores. Responde Snoopy porque ele é conservador. A conserva, em culinária, serve para preservar, guardar, manter, um produto perecível. Portanto, a característica, e sua funcionalidade, da conserva é preservar e mante aquilo que seja perecível. E imobilizar, por consequência, a mudança. No caso da culinária, isto é desejável. No do comportamento humano, cria a cultura. Mas, uma cultura conservada torna-se estática e perece diante das mudanças que a vida, o transcorrer do tempo, traz. Paradoxalmente, a conserva cultural pode fazer a cultura sucumbir. Na vida humana, atitudes conservadas cristalizam comportamentos e os torna inadaptados e inadaptáveis. Então, precisamos reinventar a roda e A Espontaneidade-Criatividade transforma a circunferência da Conserva Cultural em um espiral. Inércia, em Física, é a manutenção de um estado de velocidade, direção e sentido, até que uma força se aplique sobre ele. A Conserva Cultural é um estado inercial. Se não lhe for aplicada uma força nova. a espontaneidade-criatividade, ela tende a manter seu estado de movimento inercial. A Conserva se conserva, inercialmente, até que lhe se aplique a espontaneidade criadora. A evolução das espécies deve-se à diversidade e ao erro da mutação. Sem a introdução do erro, do acaso mutacional, as espécies mantém-se e perecem. Assim é na vida relacional humana.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021
Psicodrama online
Realizando atividades psicodramáticas online percebo, no processo e em mim, diferenças da atividade psicodramática realizada presencialmente. A primeira diferença é a sensação de espacialidade, de concretude dada pela presença física. A segunda diferença é o plano de observação. Em um palco a cena, o protagonista, é observado tridimensionalmente. A cena é apreendida de uma só vez. Na tela, a experiencia é repartida em múltiplas telinhas. Uma fragmentação, um mosaico da cena. A terceira diferença ainda é no plano de visada: na tela é um plano americano, mais parecido com cinema do que com teatro: só se vê a parte superior do corpo. A quarta diferença é a ausência absoluta do toque físico, dependendo exclusivamente da voz, entonação, mensagem, mímica facial e do plano superior do corpo. A quinta diferença é a limitação quase total de movimentação A sexta diferença é a presença de múltiplos palcos, pequenos palcos, não um único que focaliza a atenção da plateia. A sétima é a presença constante e regular do acidental. O acidental passa a fazer parte inerente à cena, ao aquecimento. Seja esse acidental pela presença de pessoas passantes, de interrupções de internet, de lag, de um tempo, entre a voz e o gesto. Algo muito parecido com teatro espontâneo em rua, em ambiente aberto. Nesse momento, essas observações levam-me a crer que o uso da ferramenta virtual dependerá de uma visão mais cinematográfica do que teatral e de uma direção mais como teatro espontâneo. Cinema e Teatro Espontâneo.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
Fisioterapia, Psicodrama
Escutei de minha fisioterapeuta esta frase: "A melhor postura, a melhor posição corporal, é a próxima!". Na hora que escutei percebi que essa seria uma legenda para a intenção do Psicodrama. Nenhuma atitude corporal é correta se for mantida muito tempo. A flexibilidade é o que torna a atitude corporal mais ou menos sadia. Tal qual a expectativa do Psicodrama.
domingo, 3 de janeiro de 2021
Novidade, originalidade
Novidade, originalidade. Em dicionários são dados como sinônimos. Mas, serão? Novidade refere-se à temporalidade, ao mais recente no tempo, ao novo. Originalidade refere-se a dar origem a, a iniciar um rumo diferente. Fotografar a Mona Lisa em preto e branco pode ser uma novidade, mas será original? Mas quando o pintor dadaísta Marcel Duchamp pintou a Mona Lisa de cavanhaque e bigode foi original. Não era apenas algo recente, mas sim dava origem a uma visão diferente do ato de pintar. A criatividade tem a ver com a originalidade e não com a novidade. O que o Psicodrama/Teatro Espontâneo busca é a criatividade do ato original, da nova e adequada resposta a uma antiga questão ou a resposta adequada à uma questão antiga.. Nova? Contradição? O novo pode ser original e original é uma nova forma. Então, por que essa diferença? Um casal pode ter formas novas de brigar dentro do quadro antigo de relacionamento. Visto de fora do palco é mais do mesmo. Podem ser formas de briga novas, mas não serão respostas originais, criativas. Serão novas formas da mesma velha briga. Às vezes, a resposta criativa poderá ser uma formulação antiga já tornada obsoleta. A resposta dita nos evangelhos "Vai e não peques mais", sem culpa ou penitência, é antiga. Mas será que hoje em dia poderia ser a resposta criativa e original?
quinta-feira, 24 de dezembro de 2020
Natal e Psicodrama
A origem do Natal está nas comemorações do Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Solstícios são os pontos da trajetória terrestre em que os hemisférios estão mais próximos (verão) ou mais distantes (inverno) do Sol. Assim, para as tradições místicas do Hemisfério Norte, esse período era quando, em seu hemisfério, Dezembro, a inclinação da Terra em relação ao Sol, voltava a se aproximar, quando o Inverno anunciava o seu fim, quando as esperanças de um novo plantio, de um degelo, surgiam, respondendo à expectativa da espera. Nas tradições místicas isso era o símbolo da renovação, do anúncio de um novo tempo. Avatares e deuses eram comemorados nesse dia. Krishina, Mitra, por exemplo. Por isto a tradição cristã aproveitou-se desse simbolismo. E isso que tem a ver com o nosso Psicodrama/Teatro Espontâneo? Nada. E tudo. Moreno, o criador do Método Socionômico (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) era um judeu imbuído das tradições judaicas, principalmente da filosofia hassídica. E esse Hassidismo tinha por base a renovação, a fé na transformação, a esperança de um recomeço. Socionomia, Sociodrama, Psicodrama Morenianos são sempre fundados nessa atitude de mudança, transformação, um novo olhar, uma nova chance, um outro começo.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
Ah, o descanso!
Andei pensando sobre o descanso. E aí vi que talvez houvesse três formas de se falar de descanso. Uma seria não fazer nada e manter esse pensamento de deixar de fazer algo presente todo o tempo, como um dique represando a corrente do fazer algo. Outra seria oposta, fazer nada, ou seja, abster-se de fazer qualquer coisa e usufruir disso, sentir todo o prazer do nada. A outra forma seria o genuíno interesse por outro objeto. A primeira forma é a primeira que vem à mente ao se pensar em descanso e é a que maioria das pessoas buscam: um esforço imenso e cansativo para descansar. A segunda forma advém das práticas meditativas, o verdadeiro ócio, a suspensão de toda ação. A última maneira tem a ver com o Psicodrama. Quanto mais vínculos desenvolvemos, mais papéis podemos desempenhar. Quanto mais papéis, mais interesses. Quanto mais interesses, mais possibilidade de alterná-los. Assim, talvez descansemos do desempenho de um papel atuando outro papel. Se sou psiquiatra e psicoterapeuta, o descanso desse papel pode ser o papel de leitor, nadador, bate-papeador. E desses, o descanso adviria do papel de avô. E desse o descanso viria do papel de escritor. A séria é infinita para quem se torna aberto (espontâneo) ao desenvolvimento de interesses, vínculos, papéis, novos
sábado, 12 de dezembro de 2020
Lágrima e alegria
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
Prazer, dor, transformação
"O samba é o pai do prazer;
O samba é o filho da dor;
O grande poder transformador."
Desde que o samba é samba, Gil e Caetano
Hoje é dia do Samba. Essa música foi composta por Gil e Caetano comemorando os 25 anos do movimento tropicalista. Mais além da beleza da música e letra, há algo. A posição que eles colocam o samba, intermediária entre a dor e o prazer, chama a minha atenção. A acentuação que essa posição tem um poder transformador, chama a minha atenção. Transmutando a dor recebida no prazer criado. Algo bem alquímico, lato sensu. Isto é Arte. Essa alquimia é Arte. E o exercício psicodramático é isso. Dor em prazer, merda em adubo, paralisia em movimento, cristalização em mudança.
domingo, 22 de novembro de 2020
Música e filme
A antiga banda Engenheiros do Hawaii gravou uma música em que tem esses versos: "Ouça o que digo, não ouça ninguém!". Dito assim fica óbvia a contradição inerente à frase: obedecer a uma ordem de desobedecer. Mas se olharmos só a estrutura da frase, do verso, veremos como ela faz parte de todos os manuais de autoajuda, de pretensos gurus, de professores autotitulados. De todos que se consideram portadores de mensagens especiais e únicas. No filme "Advogado do Diabo, Al Pacino na personagem John Milton (o Diabo) diz " a vaidade é o meu pecado favorito". Em nossa área de atuação, a área PSI (Psiquiatria, Psicologia, Psicoterapia, Psicodrama), tanto os Engenheiros do Hawaii quanto John Milton podem ter, e têm, razão.
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
Sensação de segurança e segurança
Ontem e hoje, com dois clientes de Psicodrama, apareceu o binômio segurança-insegurança. E também surgiu a expressão "sensação de segurança". Durante o trabalho psicodramático, ao dramatizar situações de segurança ou insegurança é que brotou a expressão "sensação de segurança". A reflexão do paciente foi: "é, foi a sensação de estar seguro que perdi". Sensação de segurança é algo a priori, não é racional nem racionalizável. A ideia de segurança é racional, se traduz por ações para aumentar a segurança objetiva. Mas não traz, necessariamente, a sensação de segurança. A insegurança é racionalizável: estou inseguro por.... Para ficar seguro faço .... Mas, a sensação apriorística de segurança é sensação, é subjetiva, não demonstrável. E quando isso se perde? E como se recupera?
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
Pessoa e Moreno
Em um apontamento de Fernando Pessoa, por ele atribuído a Ricardo Reis, ele diz que Poesia não é um derramamento de emoção mas sim a emoção submetida à disciplina do ritmo e da métrica. Em outro poema - Isto – ele diz: “Dizem que finjo e minto tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração”. Não vejo melhor definição de Teatro Espontâneo. O protagonista sente com a imaginação e tem sua emoção sob a disciplina do ritmo e da estética. Este é o antídoto do espontaneísmo e da impulsividade histriônica. Em “Autopsicografia” diz Pessoa: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, na dor lida sentem bem. “Não as duas que ele teve, mas só a que eles não têm.” O protagonista finge a dor que, efetivamente, tem e estas são as suas duas dores: a sentida e a dramatizada. Os participantes, quando não aquecidos, não envolvidos, sentem apenas a que eles não tem. Em Medicina, quando se fala de alergia, há o conceito de Atopia: pessoas que, diante de estímulos comuns, de intensidade pequena, reagem de forma brusca e excessiva. O olhar poético é o olhar “atópico”. O poeta reage de forma marcante e profunda diante de estímulos banais ou simples ou comuns. Diante do grave, do pesado, todos reagem, mas diante do já visto e não enxergado, só o poeta. Mário Quintana diz: “O poeta não lê poesia. O poeta lê os classificados”.
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E assim é.
Experimentar e refletir. Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo. Há mais de trinta anos...
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