terça-feira, 18 de maio de 2021
Moreno entra em cena - 18/05/1889
Fernando Pessoa escreveu: "Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra coisa todos os dias são meus". Num ano civil comum, a data de morte de Moreno - 14 de maio - vem primeiro do que seu nascimento -18 de maio. Quando nasceu, como todos, era só um desejo e uma promessa. Fernando pessoa diz "todo começo é involuntário". Em seu início ele era um improvável filho de comerciante sefardita. Ao fim da vida, Moreno. Como todos os seres humanos somos construções de acasos, oportunidades e talentos. Moreno tornou-se isso: acasos e genialidade. E todos os dias foram dele.
segunda-feira, 10 de maio de 2021
Diretor dirige
Há alguns dias estava conduzindo um psicodrama público. E, no compartilhamento, um participante fez uma brincadeira; "já que falamos de circo, vc às vezes, lembra o dono do circo. E, isto, deu oportunidade, no momento e agora, a refletir sobre as atribuições do papel do Diretor/Condutor em Psicodrama. Segundo Moreno há as funções de produtor, analista social e terapeuta. Mas, o nome do papel é Diretor (ainda que eu prefira Condutor). Diretor, dirige. Portanto, a função diretiva de iniciar, selecionar, organizar, escolher, cortar, interromper. Dirigir, conduzir, enfim. assim, a brincadeira de nosso participante/colaborador, fez ressaltar um aspecto muito importante do papel de Diretor/condutor. Sem exercer ou deixando de exercer essa função diretiva, corre-se o grande risco de, estética e terapeuticamente, perder-se na cena e/ou na atividade psicodramática.
domingo, 9 de maio de 2021
Dia do papel de mãe
Hoje é Dia das Mães. Ou o Dia do Papel de Mãe. Pensando em termos psicodramáticos (socionômicos) o papel de mãe surge da relação com pessoas em que há os atributos de continência, aceitação, limite, disciplina, incondicionalidade do afeto e, sobretudo, magia de fazer da imaginação uma ferramenta de cura e resolução de problemas. É uma relação assimétrica entre os papéis - o de filho/a e o de mãe. Acolhimento de uma lado do papel e necessidade no outro lado dessa relação. Mas nesse papel materno cabem atores mães biológicas, mulheres, homens, amigos, amantes, profissionais de qualquer área. A função de acolhimento versus necessidade é a fundante no papel de psicoterapeuta, por exemplo. Pais podem e devem ser mães. Hoje é dia do papel materno, dia da mãe que cada um pode ser na sua relação com o outro.
quarta-feira, 28 de abril de 2021
"Meu Pai"
"Ó árvores da vida, quando atingireis o inverno?" Este verso em Elegias de Duino de Rainer Maria Rilke sempre me impactou. Ao assistir esse novo filme, "Meu Pai", em que Anthony Hopkins, aos 83 anos, faz uma personagem com Demência de Alzheimer em seu início e progressão. Eu me comovi e me movi de forma intensa. Literalmente, me incomodou. Tirou-me do cômodo. Em seu final ele usa a expressão: "Eu estou perdendo as minhas folhas!". Foi o que me jogou nos braços de Rilke. O espectador de um filme, em geral, o vê da plateia. De fora. Como espectador. Nesse filme o espectador não é espectador: ele toma o lugar da personagem em sua confusão, angústia, medo e vulnerabilidade. Mas, também toma o lugar da filha em sua dor e incompreensão do que acontece. Assim também, toma o papel da cuidadora despreparada e insegura. O espectador/já personagem, vivencia a dor do outro sendo o outro. Isto é a inversão de papéis do Psicodrama.
segunda-feira, 26 de abril de 2021
espontaneidade, criatividade
Trabalhando com estudantes de Psicologia, um deles me perguntou o que seria Espontaneidade. Embora conceito central, pilar e objetivo do Psicodrama, não é facilmente definível. Entretanto é facilmente reconhecida. Eu só consigo me aproximar desse conceito por meio de analogias. Espontaneidade é como o verbo inglês May que denota e conota a possibilidade, a permissão. Criatividade seria algo como o verbo inglês Can denotando ação, realização. Ambos são traduzidos em Português como Poder. Esta nossa palavra reúne, em si, os dois conceitos de permissão e capacidade de realização. Espontaneidade é a permissão prévia, a priori, o conjunto universo das possibilidades. Criatividade é o conjunto intercessão que permite escolher de todas as possíveis, as melhores para o momento, para a circunstância. Quanto maior o conjunto universo, quanto maior a espontaneidade, mais as escolhas criativas poderão acontecer. A restrição da espontaneidade reduz drasticamente o universo de escolhas, resultando no empobrecimento da criatividade. That's all.
sexta-feira, 16 de abril de 2021
"de volta para casa"
Durante uma conversa informal estava-se falando sobre home-working. e, no calor da discussão, para afirmar minha opinião, fiz um trocadilho em inglês. Disse eu "não é home-working, deveria ser house-working!". Home e house, em inglês, tem sentidos diferentes. Uma é a estrutura física, casa (house), a outra é a representação das relações afetivas, lar (home). Um espaço físico torna-se um território quando é ocupado funcionalmente, habitado. Durante a pandemia, com a existência e prevalência do chamado home-working, percebemos que o espaço até então, exclusivo das relações afetivas, familiares, o lugar para onde se volta, o repouso, o lar, foi invadido pelos papéis profissionais (ou estudantis). Gradualmente, o sentido de lar, home, foi-se diluindo. Não mais "estamos indo de volta pra casa". Casa, lar, escola, escritório, consultório, palco. Tudo se misturou. E se perdeu. Gilberto Gil diz em Back in Bahia: "como se ter ido fosse necessário para voltar". Como não vamos, não voltamos. E não repousamos em paz.
segunda-feira, 12 de abril de 2021
visão de mundo
quinta-feira, 1 de abril de 2021
100 anos (sem solidão, mas com solidariedade)
quarta-feira, 10 de março de 2021
Luz, cenário
Tenho pensado muito sobre o efeito do cenário e iluminação sobre o palco. Claro que, para quem é de teatro ou cinema, isto não é dúvida. É certeza. Mas trazendo para o nosso universo psicodramático talvez não seja tão óbvio assim. O nosso palco real é o mundo, é o nosso corpo. O palco numa sala ou num espaço qualquer é uma representação analógica do nosso mundo/corpo. Se aquela dúvida inicial for trazida para essa nova referência o que seria cenário e iluminação, então? Cenário seria o pano de fundo da sociedade onde viva o protagonista. E nesse caso pode haver, e há, cenários sobre cenários: mundial, nacional, regional, familiar e outros mais que possam ser identificados. A iluminação corresponderia ao clima afetivo do entorno, o zeitgeist. Se no palco teatral o cenário é comentário, ambientação, localização de onde se passa a cena, sugestão. Se no palco teatral a iluminação é um narrador e comentarista, um reforçador da cena, um indicativo, um criador de clima afetivo. Se tudo isto que dissemos sobre cenário e luz trouxermos para o palco psicodramático, abre-se um portal para sairmos de uma visão exclusivamente subjetiva, solipsista (eita !) e passarmos a ver a pessoa dentro de cenários múltiplos e iluminações cambiantes.
domingo, 21 de fevereiro de 2021
Sabedoria, conhecimento e esperteza
Assisti, novamente, ao filme Parasita. Afora qualquer discussão ou consideração sobre a estética cinematográfica, veio-me uma distinção nem sempre fácil de fazer ou entender. Sabedoria (wisdom), conhecimento (knowledgment), esperteza (slyness). O filme trata de esperteza (slyness). A sabedoria é o conhecimento englobado pela ética. Conhecimento é um instrumento de ação na Natureza. E esperteza? Esperteza tem a ver com a sobrevivência, com o imediato, com o presente. A esperteza não inclui o futuro. É "cada dia com sua pena". O horizonte da esperteza é curto. A sabedoria vê longe. E o conhecimento é o instrumento, o óculo para se ver. Isto é a minha visão de um segmento do filme. E o Psicodrama? Que tem a ver com isso? O que pode ter a ver com isso? Sempre podemos aprender com um campo da experiência e, a partir dele, olhar para outro campo experiencial. Dirigir uma ato psicodramático, um TE, exige conhecimento, profundo conhecimento do método socionômico. Mas, para o exercício da condução grupal, é fundamental a presença da esperteza, da sagacidade cênica, do pulo-do-gato. Entretanto, essas duas condições precisam ser complementadas pela sabedoria socionômica, a visão socionômico do viver. Sem essa sabedoria, ficaremos limitados ao desempenho técnico e a manha do dirigir. Psicodrama, TE, Sociodrama, atos socionômicos, enfim, precisam dos três: Esperteza, sagacidade na condução, conhecimento técnico e sabedoria socionômica.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
papéis e papéis
Há no Psicodrama, na teoria Socionômica, um conceito central derivado do teatro. O conceito de papel. Para o Psicodrama as pessoas se relacionam por meio de papeis que atuam na vida. Portanto, papel é um conceito relacional. Quando se estabelece um vínculo, ele acontece entre papeis. Sendo assim, os papéis que desempenhamos na vida são múltiplos. Tantos quantos os vínculos que estabelecemos. E são dinâmicos. Nós entramos e saímos dos papéis durante nosso tempo de relacionamento. Um pai é pai quando há seu papel complementar, o filho. Um professor o é, ao se relacionar com estudantes. Um médico é médico na relação com um paciente. Um psicoterapeuta é psicoterapeuta na relação psicoterápica. O mesmo com psicólogo ou quaisquer outros papéis sociais. Consideramos, no Psicodrama, na Socionomia, que a cristalização de um papel, sua persistência em todos os vínculos, é uma patologia do papel. Sou psiquiatra e psicodramatista quando me relaciono com pacientes ou com os temas psiquiátricos e/ou psicodramáticos. Mas, também, sou torcedor do Bahia, rosacruz, amigo de amigos, colega de colegas, amante de vinho, pai, marido, avô, tio, irmão e, ainda bem, muitos outros papeis que traduzem outros tantos vínculos. Não sou psiquiatra em toda conversa de mesa de bar, não sou sou psicoterapeuta com quem não me escolheu para sê-lo. Um ser humano é, sempre, sadiamente, ator de múltiplos papéis.
domingo, 7 de fevereiro de 2021
Snoopy, Física e Psicodrama
Em figuras geométricas, a conserva cultural moreniana é uma circunferência. O par Espontaneidade-Criatividade é uma espiral. Em uma tirinha de Charlie Brown e Snoopy, o Charlie Brown questiona à Snoopy ele sempre escolher o mesmo tipo de sorvete de baunilha quando a sorveteria oferece mais de 40 sabores. Responde Snoopy porque ele é conservador. A conserva, em culinária, serve para preservar, guardar, manter, um produto perecível. Portanto, a característica, e sua funcionalidade, da conserva é preservar e mante aquilo que seja perecível. E imobilizar, por consequência, a mudança. No caso da culinária, isto é desejável. No do comportamento humano, cria a cultura. Mas, uma cultura conservada torna-se estática e perece diante das mudanças que a vida, o transcorrer do tempo, traz. Paradoxalmente, a conserva cultural pode fazer a cultura sucumbir. Na vida humana, atitudes conservadas cristalizam comportamentos e os torna inadaptados e inadaptáveis. Então, precisamos reinventar a roda e A Espontaneidade-Criatividade transforma a circunferência da Conserva Cultural em um espiral. Inércia, em Física, é a manutenção de um estado de velocidade, direção e sentido, até que uma força se aplique sobre ele. A Conserva Cultural é um estado inercial. Se não lhe for aplicada uma força nova. a espontaneidade-criatividade, ela tende a manter seu estado de movimento inercial. A Conserva se conserva, inercialmente, até que lhe se aplique a espontaneidade criadora. A evolução das espécies deve-se à diversidade e ao erro da mutação. Sem a introdução do erro, do acaso mutacional, as espécies mantém-se e perecem. Assim é na vida relacional humana.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021
Psicodrama online
Realizando atividades psicodramáticas online percebo, no processo e em mim, diferenças da atividade psicodramática realizada presencialmente. A primeira diferença é a sensação de espacialidade, de concretude dada pela presença física. A segunda diferença é o plano de observação. Em um palco a cena, o protagonista, é observado tridimensionalmente. A cena é apreendida de uma só vez. Na tela, a experiencia é repartida em múltiplas telinhas. Uma fragmentação, um mosaico da cena. A terceira diferença ainda é no plano de visada: na tela é um plano americano, mais parecido com cinema do que com teatro: só se vê a parte superior do corpo. A quarta diferença é a ausência absoluta do toque físico, dependendo exclusivamente da voz, entonação, mensagem, mímica facial e do plano superior do corpo. A quinta diferença é a limitação quase total de movimentação A sexta diferença é a presença de múltiplos palcos, pequenos palcos, não um único que focaliza a atenção da plateia. A sétima é a presença constante e regular do acidental. O acidental passa a fazer parte inerente à cena, ao aquecimento. Seja esse acidental pela presença de pessoas passantes, de interrupções de internet, de lag, de um tempo, entre a voz e o gesto. Algo muito parecido com teatro espontâneo em rua, em ambiente aberto. Nesse momento, essas observações levam-me a crer que o uso da ferramenta virtual dependerá de uma visão mais cinematográfica do que teatral e de uma direção mais como teatro espontâneo. Cinema e Teatro Espontâneo.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
Fisioterapia, Psicodrama
Escutei de minha fisioterapeuta esta frase: "A melhor postura, a melhor posição corporal, é a próxima!". Na hora que escutei percebi que essa seria uma legenda para a intenção do Psicodrama. Nenhuma atitude corporal é correta se for mantida muito tempo. A flexibilidade é o que torna a atitude corporal mais ou menos sadia. Tal qual a expectativa do Psicodrama.
domingo, 3 de janeiro de 2021
Novidade, originalidade
Novidade, originalidade. Em dicionários são dados como sinônimos. Mas, serão? Novidade refere-se à temporalidade, ao mais recente no tempo, ao novo. Originalidade refere-se a dar origem a, a iniciar um rumo diferente. Fotografar a Mona Lisa em preto e branco pode ser uma novidade, mas será original? Mas quando o pintor dadaísta Marcel Duchamp pintou a Mona Lisa de cavanhaque e bigode foi original. Não era apenas algo recente, mas sim dava origem a uma visão diferente do ato de pintar. A criatividade tem a ver com a originalidade e não com a novidade. O que o Psicodrama/Teatro Espontâneo busca é a criatividade do ato original, da nova e adequada resposta a uma antiga questão ou a resposta adequada à uma questão antiga.. Nova? Contradição? O novo pode ser original e original é uma nova forma. Então, por que essa diferença? Um casal pode ter formas novas de brigar dentro do quadro antigo de relacionamento. Visto de fora do palco é mais do mesmo. Podem ser formas de briga novas, mas não serão respostas originais, criativas. Serão novas formas da mesma velha briga. Às vezes, a resposta criativa poderá ser uma formulação antiga já tornada obsoleta. A resposta dita nos evangelhos "Vai e não peques mais", sem culpa ou penitência, é antiga. Mas será que hoje em dia poderia ser a resposta criativa e original?
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E assim é.
Experimentar e refletir. Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo. Há mais de trinta anos...
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