Lendo um escrito de Umberto Eco: "Isto me parece muito instrutivo e muito poético e torna o universo da fantasia, onde para criar histórias imaginamos mundos, mais próximo do universo da realidade, onde para entender o mundo criamos histórias". Imaginação, histórias, entendimento. Esse elegante trecho traz à tona o que Moreno chamava de Brecha da fantasia e realidade. Brecha aí no sentido de fosso, algo que separa, fenda. Gap em inglês. Algo que é cavado ao longo do desenvolvimento da criança. Num primeiro momento os dois polos estão juntos e misturados. Num outro momento estão tão separados que talvez em uma mesma pessoa já não se consiga perceber (ainda que exista!) o outro lado da fenda, da brecha. O primeiro momento é a infância em seus inícios. Esse segundo momento já é o ser humano todo realidade ou o ser humano todo fantasia. O que o Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama, enfim o que a Socionomia faz, é construir uma ponte de mão dupla sobre essa fenda. That's all, folks.
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
Respeito é mais do que bom. É vital.
Respeito. Palavra que revela um conceito fundamental da vida em sociedade. O que nos diz a etimologia da palavra? Respeito provém do latim Re (outra vez) + spectare (olhar). Respeitar, é assim, permitir um segundo olhar. Não permanecer com apenas o primeiro olhar. Como se o primeiro olhar fosse o olhar impulsivo, o olhar inteiramente pessoal. É como se permitir um segundo olhar fosse admitir uma segunda opinião, uma outra opinião. Respeitar alguma opinião, atitude, pessoa,a própria dor, é se permitir um segundo olhar além do olhar habitual e já conhecido. Em Psicodrama dizemos que manter-se congelado, rígido em uma visão de mundo seria uma postura, uma atitude, um olhar conservado, cristalizado. Desrespeitar, não respeitar, seria desse modo, manter uma visão cristalizada, inabalavelmente rígido e inflexível. Todo o empenho de uma dramatização leva a percepção de novos olhares sobre coisas antigas ou diferentes olhares sobre coisas novas. Admitir, experimentar um outro ou outros possíveis olhares pode, tem a possibilidade, de descristalizar, desconstruir o não respeito favorecendo o desenvolver do respeito.
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
E as cebolas?
Uma imagem de uma simples cebola. Começamos a retirar camada após camada e aproveitamos cada uma delas e as comemos. Tiramos e tiramos. Até não mais haver cebola. Ela é a superposição de inúmeras camadas. E apenas isto. Não tem um centro oculto e primordial. A cebola são as camadas. As camadas não são parte da cebola. São a cebola. Em Psicodrama, em Socionomia, Moreno diz serem os papéis a parte tangível do Eu. Tangível é aquilo que toca. Uma tangente em Geometria é a reta que toca a circunferência em um único ponto. Papéis são a parte tangível do Eu. São a parte do Eu que tocam a experiência relacional. A experiência interior é acessada pela expressão dela na relação entre papéis. Socionomia, Psicodrama, são relacionais. Ao Psicodrama interessa o que acontece entre as pessoas, diz Moreno. Uma cebola será maior ou menor pela quantidade de camadas dela. Um ser humano quanto mais papéis desenvolver se traduz numa vida relacional mais rica. Com um pequeno esforço imaginativo, visualizemos a analogia: cebola, camadas, papéis socionômicos. Psicodrama, Sociodrama, Teatro Espontâneo, Socionomia.
domingo, 22 de outubro de 2017
Gelo e água
Gelo é água, mas também é diferente de água. Gelo é água cristalizada. Água líquida flui facilmente, sempre procura um caminho mais fácil ou possível para escorrer, se amolda aos obstáculos, contorna-os, passa por cima, torna-se irresistível quando é bloqueada. Assim é a água em sua forma líquida. Quando se congela adquire forma, e essa forma é a do recipiente em que está. Imóvel, rígida, dura, quebradiça por isso. Assim é a água em sua forma sólida, cristalizada. Para o Psicodrama, para a Socionomia, os papéis que atuamos na vida quanto mais fluidos e flexíveis mais perto do saudável. Quanto mais rígidos, mais cristalizados, mais assemelhados ao gelo, água sólida, menos saudáveis. A Espontaneidade é fluida, é líquida, é água líquida.
quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Temos nosso próprio tempo
Cada tempo tem o seu próprio olhar. E em cada tempo o olhar é o olhar do presente. Quando olhamos para trás ou para frente, para o passado ou para o futuro, levamos conosco o nosso olhar do presente. Olhar o nosso passado conservando o olhar do presente é como começar a ler uma história de suspense já conhecendo o final. Todas as ações parecem ou irrelevantes ou idiotas ou absurdas ou mágicas. O mesmo acontece ao olharmos para o futuro com olhos de presente. Levaremos a nossa visão impedindo ou dificultando a imaginação de criar algo novo. Por isto, ao dramatizarmos, aquecemos o protagonista e os egos auxiliares a usarem sempre e sempre o tempo presente, para enraizá-los no aqui e agora. Vivendo o presente daquele tempo criado e recriado no palco, em cena. Tudo está acontecendo, não apenas aconteceu ou acontecerá. Tudo no palco é presente, o tempo presente da cena.
domingo, 15 de outubro de 2017
Palco
O palco é um de nossos instrumentos. Mas o palco é mais do que um tablado. É mais do que isto. Bem mais. E nem precisa ser um tablado. Basta um espaço delimitado. E que para todos ali presentes seja reconhecido como palco. O palco é o espaço concretizado da fantasia, o espaço da imaginação criadora. Fora do palco é o locus da realidade, do que é. Dentro do palco é o locus da realidade do como se. Assim, entrar e sair do palco equivale a transitar entre realidade e fantasia, assumindo-as duas faces da mesma moeda, a do que é e a do como se. E só assim podemos entender a potência do uso da técnica do espelho. Sair do palco onde está sendo protagonista, ir para o domínio do real e ver um ego auxiliar fazendo seu espelho, ver-se atuando na fantasia, tendo um tempo para refletir e decidir os possíveis novos caminhos ou ver-se com a visão que os outros o veem, voltar para o palco reassumindo seu papel protagônico já agora enriquecido dessa experiência. Isto é o espelho. Em outros momentos, ainda que tomado pelo aquecimento e pela espontaneidade, perceber os limites impostos pela realidade do cenário dentro da realidade suplementar da cena. Se há uma parede na construção do cenário imaginário não se pode atravessá-la impunemente. Pode-se, reconhecendo a existência da parede imaginária, transformar-se magicamente e atravessá-la então. Sair e entrar do palco é tomar a direção de sua fantasia e deixá-la fecundar a realidade e, ao mesmo tempo, deixar a realidade factual colocar limites à fantasia. É experimentar estar sempre com os pés dentro e fora, fora e dentro, podendo circular entre os dois mundos, sem cristalizar-se na esterilidade da realidade ou na impulsividade do espontaneísmo.
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
Tele, outra vez.
O grande desafio, penso eu, de quem pratica o Psicodrama é, a todo tempo estar atento ao núcleo da Socionomia Moreniana. O Homem é um ser em relação. Pensar relacionalmente não faz parte dos hábitos mentais. Geralmente nos pensamos como agentes independentes de nossa vida, sem considerar nem levar em conta como quem me relaciono. E isto no meio psicodramático ganha alguns aspectos curiosos. Por exemplo, o conceito de TELE. Tele é relacional, algo que acontece no palco de uma relação. Na vigência de uma relação entre dois papéis pode haver um reconhecimento mútuo de sinais afetivos iguais, contrários ou indiferentes. Mas MÚTUOS. Quando isto acontece, aquele aqui agora relacional é Télico. Se porventura, esse reconhecimento não é mútuo ele é dito como uma relação Não-Télica. Com tudo isto que faz parte de nosso arsenal de conhecimentos Socionômicos, ainda assim ouvimos psicodramistas falando de tele como um atributo que alguns possuem e outros não, como alguém tendo mais ou menos tele. Tele não é um atributo individual. Tele é um atributo de uma relação entre dois papéis.
domingo, 8 de outubro de 2017
Tele, empatia
Em Socionomia (Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama) há um conceito central que não é fácil para ser compreendido e utilizado. Tele. Essa palavra em Moreno enunciava o conceito de empatia em mão dupla. Em Fenomenologia, empatia é uma ação de procurar apreender a visão de mundo do outro colocando-se em seu lugar, sentindo (pathos) o fenômeno de dentro (em) do outro. Em Moreno, como a base, o fundamento de seu método é o Homem é um ser relacional, ele avança no conceito de empatia original acrescentando a bilateralidade do ato. O Psicodramista e o o paciente se percebem mutuamente. Esse reconhecimento Moreniano que a relação psicoterápica é de mão dupla cobrou a criação desse neologismo, TELE. Em toda relação, terapêutica ou não, temos que considerar que os envolvidos podem ter múltiplas combinações de percepções mútuas. Eu e você podemos nos perceber, amando ou odiando ou indiferente, com o mesmo sinal, a mesma visão. Isto seria uma relação Télica. Existe mutualidade nessa relação. Mas, se, alguém ama e sente que o outro o ama, mas na percepção, no sentimento do outro existe indiferença ou ódio, seria uma relação Não-Télica. Seria uma relação em que os projetos dramáticos de ambos não coincidem. É como se fossem dois atores em um mesmo palco, em que um atua uma tragédia e o outro uma comédia. Em uma relação Télica os dois atuam no mesmo palco, ou atuando na mesma peça ou reconhecendo que apenas dividem o palco, mas não estão na mesma peça, ou estão na mesma peça como inimigos ou indiferentes. Tele representaria, a grosso modo, a honestidade e transparência das relações. Utópico? Possível?
terça-feira, 3 de outubro de 2017
amador, profissional
Andei pensando sobre amador e profissional. Em geral, o consenso é que profissional é aquele que cobra remuneração e amador o que faz por amor à arte. Curioso. É como se fossem coisas antípodas, impossíveis de conviver na mesma pessoa. Como ao se profissionalizar já não mais importasse amar o que se faz. Não é assim que penso. Profissional, para mim, é quem professa um compromisso de atendimento. Qualquer que seja ele. Compromisso ético. Isto é um profissional. E para se ter um compromisso ético com a atividade realizada penso ser fundamental ter amor à sua arte. Um profissional pleno é um amador de sua atividade. A remuneração de um vero profissional não é necessariamente grana: a estética do bem feito é que é o seu verdadeiro pagamento.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
O corpo no Psicodrama
Voltando à Autobiografia de um gênio, Moreno diz no prefácio:
"Alguns postulados para um ego criativo…(2) as ideias devem ser representadas com a ajuda do corpo para que se consiga todas as dimensões do próprio Eu no ato – qualquer que seja o meio – primeiro na forma bruta e espontânea em que elas apareçam. Em seguida, os estilhaços do momento devem ser recolhidos e feitos novamente, maiores e maiores a cada vez, reforçados por experiências espontâneas. Não deixe que a próxima vez saiba demais sobre as vezes anteriores. Cuidado com as conservas culturais".
Agora vamos pensar sobre o período inicial. Ideias devem ser representadas com a ajuda do corpo para que se consiga todas as dimensões do próprio Eu no ato. A posição vigente em toda psicoterapia à época de Moreno, e ainda hoje, era, e é, que toda manifestação física, toda ação, era, e é, vista como uma "atuação". Tradução (má) do "acting out", expressão Moreniana. O que seria "atuar"? Seria expressar por meio de ações o conflito mobilizado pela psicoterapia. Para Moreno, para o Psicodrama, o que sempre se fez e continuaria se fazer, era "acting in". Toda ação era interna, expressa apenas verbalmente. Quando o neologismo "acting out" foi usado por Moreno era para dar sentido à proposta psicodramática. "Acting out" (atuar para fora, numa tradução simplória) para o Psicodrama, para Moreno, é criar condições para que o corpo esteja presente em todas as suas nuances no setting terapêutico. Ou dito nas palavras de Moreno: as ideias devem ser representadas com a ajuda do corpo para que se consiga todas as dimensões do próprio Eu no ato. E não apenas verbalizadas. O ser humano em suas relações está presente verdadeiramente em corpo, sangue e pensamento. Todas as nossas relações, atitudes, ações são encarnadas em um corpo. E esse corpo está presente sempre no Psicodrama. Expressando suas ideias, afetos, conflitos, em todas as suas nuances no espaço terapêutico.
Agora vamos pensar sobre o período inicial. Ideias devem ser representadas com a ajuda do corpo para que se consiga todas as dimensões do próprio Eu no ato. A posição vigente em toda psicoterapia à época de Moreno, e ainda hoje, era, e é, que toda manifestação física, toda ação, era, e é, vista como uma "atuação". Tradução (má) do "acting out", expressão Moreniana. O que seria "atuar"? Seria expressar por meio de ações o conflito mobilizado pela psicoterapia. Para Moreno, para o Psicodrama, o que sempre se fez e continuaria se fazer, era "acting in". Toda ação era interna, expressa apenas verbalmente. Quando o neologismo "acting out" foi usado por Moreno era para dar sentido à proposta psicodramática. "Acting out" (atuar para fora, numa tradução simplória) para o Psicodrama, para Moreno, é criar condições para que o corpo esteja presente em todas as suas nuances no setting terapêutico. Ou dito nas palavras de Moreno: as ideias devem ser representadas com a ajuda do corpo para que se consiga todas as dimensões do próprio Eu no ato. E não apenas verbalizadas. O ser humano em suas relações está presente verdadeiramente em corpo, sangue e pensamento. Todas as nossas relações, atitudes, ações são encarnadas em um corpo. E esse corpo está presente sempre no Psicodrama. Expressando suas ideias, afetos, conflitos, em todas as suas nuances no espaço terapêutico.
sábado, 23 de setembro de 2017
Sim, mas não demais.
Em sua Autobiografia de um gênio, Moreno diz no prefácio:
"Alguns postulados
para um ego criativo…(2) as ideias devem ser representadas com a
ajuda do corpo para que se consiga todas as dimensões do próprio Eu
no ato – qualquer que seja o meio – primeiro na forma bruta e
espontânea em que elas apareçam. Em seguida, os estilhaços do
momento devem ser recolhidos e feitos novamente, maiores e maiores a
cada vez, reforçados por experiências espontâneas. NÃO DEIXE QUE
A PRÓXIMA VEZ SAIBA DEMAIS SOBRE AS VEZES ANTERIORES. Cuidado com as
conservas culturais." Sobre esse texto há muito o que pensar. Começando, nesse post, pelo fim. Cuidado com as conservas culturais. No dia a dia do psicodramista, frequentemente, ouvimos as pessoas referirem-se às conservas culturais de forma algo pejorativa. E o que são conservas culturais? O análogo às conservas alimentares. Algo preservado da ação do tempo, algo imutável, algo que sempre permanece o mesmo. Essa é a vantagem das conservas. E sua possível desvantagem. Nas conservas alimentares o objetivo, o desejo, aquilo que se quer, é que seja sim mesmo. Que daqui a um ano ela esteja preservada, igual a um ano antes. Moreno usou essa analogia das conservas alimentares para referir-se aos produtos da cultura. Eles são necessariamente conservados para fazer existir uma corrente contínua das conquistas e avanços culturais. Portanto, espera-se que algo seja preservado da ação do tempo. Mas também é seu risco. Precisa ser mantido, mas precisa estar aberto à mudança e alteração. De um lado espera-se que o tempo nada altere. E de outro lado, deseja-se que algumas coisas mudem. Por isto, Moreno alerta com a palavra cuidado. Toda ação psicodramática tem um eixo norteador: aquecimento, dramatização e compartilhamento/processamento. É a nossa conserva cultural, central ao nosso método. Mas, cuidado. Essa sequência existe e se conserva porque tem uma lógica. O aquecimento é vital para o desenrolar de qualquer atividade psicodramática. Seja ela psicodrama, sociodrama, teatro espontâneo ou axiodrama. Tenha natureza clínica,pedagógica ou lúdica. Entretanto, onde está o cuidado cobrado por Moreno? está expresso na frase anterior da citação: NÃO DEIXE QUE A PRÓXIMA VEZ SAIBA DEMAIS SOBRE AS VEZES ANTERIORES. Todo início é sempre um começo. Entrar em um grupo, ainda que conhecido, é sempre um começo. Sua configuração, suas relações, seu momento, sua história, nunca é igual à vez anterior. Repetir o já conhecido (conserva) num momento diferente é caminho certo para que o trabalho não se desenvolva. Moreno usa a palavra demais. Ou seja, claro que o que já sei sobre aquele grupo é importante para mim. Mas não que seja a ponto de congelar a minha espontaneidade criativa. E permita ler o presente não com olhos conservados do passado, mas com olhos de presente.
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Sujeito de, sujeito a
As preposições são engraçadas. Se não prestarmos atenção a elas. Há, também, uma palavra curiosa na língua portuguesa. Sujeito. O substantivo sujeito é o agente da oração. é o dono da história. O adjetivo sujeito é aquele que está entregue a, submetido a, condicionado a. E isso está expresso com as preposições. a regência da palavra. Sujeito de. Sujeito a. Todo processo psicoterápico, o Psicodrama em particular, visa a substituição do Sujeito a pelo Sujeito de. Quando alguém procura psicoterapia ele está sujeito à sua vida, sujeito à sua história, sentindo-se vítima de um destino, submetido a um domínio. Todo objetivo psicoterápico, no Psicodrama fundamentalmente, destina-se a ajudá-lo a transformar-se em Sujeito de sua vida, Sujeito de sua História, escolhendo como agente o direcionamento e o curso de sua vida.
sábado, 16 de setembro de 2017
Resgate e afogamento
Há coisas que sempre me intrigaram. Uma delas é a diferença entre entre segurança e insegurança. E aí faço um jogo de palavras: A pessoa segura pode se sentir insegura. A pessoa insegura não pode se sentir insegura. Uma pessoa qualquer sente-se segura em seu papel quando a falha, o erro, o equivoco, o engano, o esquecimento, não o destrói. A pessoa sente-se insegura em seus papéis quando não fazer o certo, o errar, o esquecer, o falhar, o equivocar-se, são vividos como destrutivos.
A desconstrução dessa obrigatoriedade ao acerto, a desconstrução da obrigação de saber-se de antemão a resposta correta, a desconstrução do medo destrutivo ao erro. Tudo isto é matéria efetiva do Psicodrama/Teatro Espontâneo: Resgatar a Espontaneidade afogada no mar do medo, da obrigação irreversível, da rigidez do certo e do correto.
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Psicodrama: Um e vários ponto(s) de vista
Lá
nos idos do 2º grau aprendi em Física algo chamado Paralaxe.
Trata-se da mudança de perspectiva entre figura e fundo pela mudança
de posição do observador. Algo que ocorre quando olhamos o dedo
indicador com apenas um olho aberto e depois alternamos o fechamento
dos olhos. Esta mudança de posição relativa entre dedo e o fundo é
a Paralaxe. E o que tem de análogo com o Psicodrama? Aqui quando
reencenamos uma história, quando experimentamos outro final para
ela, quando fazemos um espelho, duplo, inversão de papeis, quando
usamos todos estes instrumentos de trabalho psicodramático, sempre o
fazemos com o objetivo de permitir ao observador participante (grupo
e/ou indivíduo) uma ou várias outras miradas novas da mesma cena.
Isto é o que se torna o verdadeiro instrumento terapêutico do
Psicodrama: a possibilidade de que o grupo e/ou indivíduo possa sair
da visão única, cristalizada (talvez até patologizada) que até
então acontecia para um horizonte de outras formas de ver. Sim,
fazer Psicodrama é ajudar a construir múltiplos pontos de vista, é
descongelar a visão de mundo. É fazer um movimento de Paralaxe
existencial em que, sem que nada mude na superfície, algo se altere
profundamente.
sábado, 9 de setembro de 2017
Fernando Pessoa e Teatro Espontâneo
Em “Autopsicografia” diz Pessoa: "O poeta é um fingidor. Finge tão
completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve, na dor lida sentem bem. Não
as duas que ele teve, mas só a que eles não têm.”
Os participantes, quando não aquecidos, não envolvidos,
sentem apenas a que eles não tem. O
Protagonista finge (dramatiza)
a dor que ele
tem
e estas são as suas duas dores: a
sentida e a dramatizada.
Em um apontamento de Fernando Pessoa, por ele atribuído a Ricardo Reis, ele diz que Poesia não é um derramamento de emoção, mas sim a emoção submetida à disciplina do ritmo e da métrica. Em outro poema - Isto – ele diz: “Dizem que finjo e minto tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração”. Não vejo melhor definição de Teatro Espontâneo. O protagonista sente com a imaginação e tem sua emoção sob a disciplina do ritmo e da estética. Este é o antídoto do espontaneísmo e da impulsividade histriônica.
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