quinta-feira, 29 de junho de 2017

A armadura e o canastrão

O muro nos protege e nos limita. Armaduras medievais: tornaram-se cada vez mais pesadas e rígidas. Aumentaram a proteção e criaram um problema. Ao cair do cavalo  o cavaleiro tornava-se indefeso, qual uma tartaruga virada de costas. Sua incapacidade de se mexer o tornava presa fácil para o inimigo matá-lo a punhal. Entre o capacete e a armadura a garganta ficava exposta. Um muro protege para o inimigo ão entrar. Uma vez dentro o muro impede o auxilio e a fuga. Tal qual os papéis cristalizados. São úteis para a sobrevivência, porém imobilizam e dificultam o crescimento. Os canastrões de TV, Teatro ou cinema são exemplos de papéis cristalizados. Os atores canastrões são sempre os mesmos em qualquer personagem. São facilmente reconhecidos como sempre fazendo seu próprio  papel. Os vínculos medeiam as relações entre papéis. O desempenho cristalizado de um papel é como o de um ator canastrão: é sempre o mesmo. Não se adéqua à cena. Não deixa de ser mais fácil assumir a cristalização por não exigir o contínuo realinhamento em relação ao seu papel complementar. Mas, como canastrão, não transmite veracidade, não estabelece uma relação verdadeira. Protege, pode ser mais fácil, mas limita, apequena, reduz, impede o desenvolvimento do potencial das relações humanas.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Paralisias, impulsividades...

A angústia ou nos paralisa ou nos precipita num ação impulsiva. Essa polaridade de um mesmo estado afetivo pode ser melhor visto pelo Psicodrama (Teatro Espontâneo). De um lado, a espontaneidade, sendo a disponibilidade, a ausência de restrições prévias ou autorestrições, o estar pronto e aberto a tudo. E a outra face da moeda, a criatividade, a potencia de agir, de realizar a melhor ação possível, a mais adequada à circunstancia, a mais produtiva e fértil. Então, a paralisia e impulsividade, expressões da angústia, são, essencialmente, pouco ou nenhum desenvolvimento do par espontâneo criativo. Mas esse par, espontaneidade/criatividade, não é viver em um mundo ilusório, onírico ou fantasioso. Não é pairar acima das dores humanas. É, exatamente, o oposto, o contrário. É, diante de todos os entraves, das pedras pelo caminho, poder (espontaneidade) ter um repertório de respostas amplo e profundo e diversificado. E poder (criatividade) atuar aquela ou aquelas que melhor promovem sua vitalidade relacional, em seus múltiplos papéis. É reconhecer a merda e poder fazer dela adubo para a próxima ação. Sem ficar a reclamar do cheiro nem jogá-la no primeiro alvo que veja.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Método?

Método em grego significa por meio de (meth), caminho (hodos). Significa um caminho definido por meio do qual se chega a um objetivo. O Psicodrama (Socionomia) é um método de apreensão do mundo. Do mundo como um todo. Não apenas como psicoterapia. O próprio Moreno dizia que usar o Psicodrama apenas como psicoterapia seria como usar um avião para ir à esquina comprar algo. Então, mais, muito mais do que usar-se técnicas psicodramáticas, o Psicodrama necessita de uma visão de mundo, de uma filosofia. Apenas como usuário de técnicas psicodramáticas, essas podem a tudo servir. A ideia fundamental do Psicodrama, do ser humano como um ser em relação, ultrapassa a ação psicoterápica. Torna-se uma forma de viver a vida em seus vínculos. O conceito de papel como uma relação vincular em que os dois membros da equação (papéis complementares) se constituem mutuamente coloca-nos a responsabilidade da construção de nossas redes de vínculos. O conceito fenomenológico de tomar a realidade como ela se apresenta sem pressuposições; a ideia de todos terem, em potencial, a possibilidade de transformação; de reconhecer a imobilidade e fixidez como não criativos; de fazer da espontaneidade/flexibilidade a condição para uma vida saudável; de perceber que, em todos os papéis, há tempo de aprendizado, desenvolvimento e criação; que os papéis têm tempos de maturação diferentes. Psicodrama,Socionomia, é muito mais do que um método de tratamento. É uma forma peculiar de vivenciar as relações humanas.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Pai

Papel de pai. Suporte, ajuda, ombro, presença, distância próxima, proximidade distante, dor contida, dor expressa, alegria compartida, respeito. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Desenhos, séries, gente

"Não sou tão bom quanto gostaria de ser". "Se não puder ser ótimo não vale a pena ser bom". "Ficar doente é ser fraco". Olhando os desenhos animados, séries, filmes, vemos que os personagens mantêm suas características, pelas quais são reconhecidos, ao longo do tempo, das décadas. Pica-Pau, Popeye, Joey (Friends), Sheldon (Big Bang). Em qualquer que haja sido o tempo em que foi produzido, mesmo com diferenças de anos, nós os reconhecemos. O seu agir, suas ações são sempre as mesmas. Seres humanos reais e concretos se tiverem ao longo de suas vidas essa rigidez, fixidez, de ações e respostas, dos personagens citados, são para o Psicodrama papéis conservados, cristalizados. A essência da vitalidade relacional é a flexibilidade, adaptabilidade, fluidez. Para Moreno, criador do Psicodrama e Teatro Espontâneo, a patologia central geradora de outros problemas é a rigidez, a fixidez, a inflexibilidade, traduzida como falta de Espontaneidade e Criatividade. A definição moreniana para essa dupla é a capacidade de dar uma resposta nova a um problema antigo ou uma resposta adequada a um problema novo. Os personagens de desenhos, séries, filmes, são previsíveis, cristalizados. Não são espontâneos.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Senso de história

O senso de história existe desde sempre. Toda criança tem o ouvido atento para o ritmo de algo contado. Para ser história há que ter uma apresentação dos personagens, um problema, um clímax e uma finalização. Pode ser curta ou longa. Mas, qualquer criança cobra daquele que está contando algo: "Já terminou? E o final? História chata. O que a criança ou qualquer ouvinte percebe e cobra? Isto é o senso de história. Começo, desenrolar, clímax e final. Seja no Teatro Espontâneo, seja no TE aplicado à clínica que é o Psicodrama, trata-se sempre de história. História acontecida, história inventada. Só é possível dramatizar histórias. Histórias que se tornam cenas. Um simples estado de alma, um sentimento não é história, não dá para dramatizar. Um estado de espírito, um sentimento, devem ser localizado em uma cena. Uma cena que tenha esse sentimento/afeto como fundo. Dramatização = Ação de dramatizar. Precisamos transformar adjetivos em verbos de ação. Isto gera história. Histórias que se transformam em cenas dramatizadas. E isto é Teatro Espontâneo, Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Apenas bobagens

Bobagens, apenas bobagens. Puras bobagens. Numa sessão aberta de Psicodrama e/ou Teatro Espontâneo, num grupo com pessoas de 67 anos a 23 anos, todo o tempo foi uma revisitação à bobagens da infância, adolescência. Power Rangers, A Hard's Days Night, Sydney Sheldon, de repente 30, Caverna do Dragão, Sgt. Peppers, Belchior, Trés espiãs demais, O Patinho Feio, Beatles e Caetano Veloso, O lagarto na Barra, profecias infantis, igrejas, sonhos, medos, mais Belchior, liberdade, coragem de sair, coragem de voltar. E um conselho onírico: Vá viver! Puras, puras bobagens! Benditas e maravilhosas bobagens.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Diretor, membro grupal

Moreno, criador do Teatro Espontâneo, Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama, dizia em um momento: "O Diretor é um membro do grupo em papel diferenciado". Olhemos com cuidado. A primeira parte da expressão diz ser o Diretor um membro do grupo. Sendo um membro do grupo, tudo o que acontece naquele grupo, sentimentos e ações, também o atingem, o afetam, o mobilizam. Perpassa por ele, ele é atravessado por todos os acontecimentos grupais. Mas, e esse mas é fundamental, Moreno acrescenta um limitador: "em papel diferenciado". Indiferenciação, diferenciação no papel. E o que é isto? estar diferenciado em um papel é a percepção constante desse atravessamento grupal, dessa mobilização, dessa afetação, dentro de um vínculo. Estar indiferenciado é agir movido pela impulsividade, pela reatividade. Assim, o Diretor em Teatro Espontâneo, Psicodrama, Sociodrama, é solicitado em sentidos distintos. De um lado, por ser membro do grupo, sentir, deixar-se atravessar pelas ocorrências grupais, ser uma verdadeira antena grupal. Mas, por ter que estar diferenciado em seu papel, tem que ter essa nítida percepção do que acontece em si como parte do grupo e quando for intervir, fazê-lo dirigido pela necessidade da cena, não pela reação espontânea de um membro grupal apenas. Todo o trabalho em nossa área Socionômica visa estimular, desenvolver, ajudar a criar, a espontaneidade de todo e cada membro do grupal. Entretanto, o Diretor de Psicodrama ou Teatro Espontâneo desenvolve sua espontaneidade, mas quando está em seu papel, essa espontaneidade tem que ser a necessária para aquela cena, aquele momento grupal. A nossa  Espontaneidade como Diretor é funcional. O membro grupal pode agir de qualquer forma, mas o Diretor, por estar diferenciado em seu papel, atua não em benefício de si, mas do desenvolvimento da cena grupal.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...