segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A agulha do real

 Uma das coisas que me incomodam e surpreendem nas redes é a contínua cobrança de que tudo é possível, tudo só depende da pessoa, que a derrota é sempre consequência de inação pessoal. Surpreso porque uma das coisas importantes num trabalho psicoterápico é o reconhecimento dos limites. Claro, esses limites podem ser imaginários, serem criações pessoais. Mas há os limites impostos pela realidade. Reconhecer o limite não é ser limitado por eles, necessariamente. Simplesmente, é saber contra o que está brigando.  A falta do limite gera o espontaneísmo das ações. No Psicodrama,  onde a fantasia é estimulada, o próprio palco exerce um limite à ação espontânea. Fora do palco é a realidade "real". No palco é a realidade dramática, a nossa chamada realidade suplementar. Ao se montar uma cena delimitando-se, por exemplo uma parede, podemos atravessá-la por uma ação magica, mas sabemos que há uma parede. Se porventura, o protagonista a ultrapassa, impulsivamente, a cena será remontada para incluir a solução espontânea, porém adequada ao real. O que vemos nas redes é um estimulo à ação impulsiva junto à culpabilidade pela não obtenção do que deseja. Como se dissesse: você pode tudo, se não consegue é por fraqueza, falta de persistência, falta de vontade. Ou seja, o mundo é onipotentemente seu. E o contrário, o antônimo de onipotência é impotência, é a sensação de fracasso. Por isso volto ao mestre Gilberto Gil: "A agulha do real nas mãos da fantasia", em  A Linha e o Linho. É isto.

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