domingo, 14 de abril de 2024

Professor, Estudante

 Há alguns dias um grupo de estudantes de Psicologia me procurou porque querem fazer uma intervenção grupal usando o teatro espontâneo. Eles fizeram o trabalho intelectual, leram livros do mestre Moysés Aguiar, treinaram entre si. Enfim,  nos reunimos, presencialmente, como foi uma demanda minha. Durante cerca de três horas estivemos juntos experimentando o Psicodrama. Ao final, quando lhes peço o compartilhamento da noite, recebo algumas observações: "Não esperava que fosse assim, pensei que seria uma aula", Há no Sufismo (uma corrente mística muçulmana) uma expressão que diz: "Ensina-me a aprender." No papel complementar ao de professor não está o de aluno e, sim, o de estudante. Aluno é passivo na relação com quem ensina, apenas deixa-se encher e preencher com aquilo que vem do professor. Estudante é papel ativo, ele busca o conhecimento, não espera que ele venha até ele. Educação, Maestria são profundamente diferentes de instrução. Instrução é alguém pegar seu conhecimento e colocá-lo dentro do instruído/aluno. Educação, etimologicamente ex-ducere, conduzir para fora. Ajudar a trazer de DENTRO do Estudante o que lá está ou pode estar, a seu modo e tempo. Construir com ele o conhecimento. E aí ambos aproveitam e crescem em conhecimento. Um complementa o outro. Papéis complementares assimétricos.  Professor - Estudante.

sábado, 6 de abril de 2024

Sagan, Heráclito, Medusa, Conserva Cultural


Carl Sagan era um astrofísico dedicado à divulgação do pensar científico, que se contrapõe ao pensar dogmático das crenças. Em uma de suas inúmeras palestras captei esta frase: "As nossas preferências não determinam o que é verdade." Não é porque gosto ou não gosto, me contraria ou não, me agride ou não, que os fatos são ou deixam de ser verdadeiros. Ciência é sempre e sempre uma aproximação de uma verdade. Jamais será uma verdade absoluta. A essência da Ciência é a dúvida. Não a dúvida da descrença. mas a dúvida metódica, que abre novos caminhos, que não se satisfaz com: "É assim e pronto!", que aguça a curiosidade. Aliás, esta palavra curiosidade, tem sua raiz etimológica na palavra latina "CUR", que significa "Por Que?". Ciência é pergunta, é curiosidade, é desafio ao já sabido, é o antidogma. E isso me lembra muito à Moreno e a postura e atitude psicodramática. Moreno referia-se às "Conservas Culturais", ao conhecimento cristalizado e imóvel. É o nunca questionar, é o nunca perguntar-se " e por que não?", é o " E se experimentarmos diferente?", é o "se fizermos diferentes?", é o "vamos experimentar e ver?". No palco psicodramático chagam histórias de vida prontas. Tom Zé diz em "Parque Industrial": "É somente requentar e usar". Isso é conserva Cultural. Requentar e usar. Mas, cuidado. às vezes tem-se que usar e comer a comida requentada. Mas, e se experimentássemos, na própria comida requentada descobrir um sabor novo, comê-la de outra maneira, perceber o verdadeiro sabor do prato, mesmo requentado? A Conserva Cultural não é o objeto, a palavra. A Conserva Cultural propriamente dita é a nossa atitude conservadora, strictu sensu, que paralisa a vida. Heráclito já dizia: "Não se entra duas vezes no mesmo rio". A Vida, o Mundo, são mutantes, flexíveis. O olhar de Medusa é que petrificava. É o nosso olhar, a nossa forma de experienciar o mundo que petrifica e o torna uma conserva cultural.

terça-feira, 19 de março de 2024

Pais

 Hoje seria aniversário de meu pai. 112 anos faria. E hoje, aos 70 anos, sinto falta de ter uma pessoa mágica, que tudo resolve, em que confiava plena e totalmente. Hoje pesa estar nesse lugar. Lugar que para outros é mágico, poderoso, solucionador de problemas. Dá para entender, mutatis mutandis, a expressão evangélica que todos tem um lugar para dormir e só o Filho do Homem não tem onde repousar. Em escala, a tarefa dos pais é assim. É o fim da linha, posto da último esperança. E eles não têm onde repousar. A missão torna-se maior que o bem estar pessoal. O outro se torna mais importante do que meu próprio estar bem. É fácil gerar pessoas. Mas, não é fácil ser pais. Transcender-se por amor.

domingo, 10 de março de 2024

Notícia de jornal

 "A dor da gente não sai no jornal". Trecho da música, "Noticia de jornal", de Haroldo Barbosa, também gravada por Chico Buarque (procurem ouvir). Pois é. A dor pode não se revelar à visão dos outros. "Quem vê cara, não vê coração". Ditado popular e verdadeiro. Olhar-se no espelho é uma   mão dupla. Vejo meu reflexo e esse reflexo produz em mim uma reação de similaridade. A Neurociência fala de neurônio espelho.  Algo como "me torno o que vejo em mim". Então, uma imagem especular cuidada pode levar a pessoa que olha a sentir-se algo melhor. E o contrário também é verdadeiro. Ver-se descuidado, semblante triste, reforça a sensação depressiva. E o nosso Psicodrama? Ele tem entre suas técnicas fundamentais o chamado Espelho. E o Espelho usa o palco como se tornasse possível a pessoa ver-se agindo de fora, sendo plateia de si. O Diretor/Condutor, após uma cena determinada, solicita ao protagonista que saia do palco para ver, em seu lugar, um ego Auxiliar reencenando o que aconteceu antes. Ao sair do palco, saindo do mundo do Como Se, indo para a plateia, o protagonista vê-se em ação. Seu gestual, sua expressão facial, seu tom de voz, sua prosódia sua interação. Vê-se, enfim. E para que? Ao contrário da interpretação de uma história contada que traduz o ponto de vista do psicoterapeuta, aqui é a própria pessoa que tem a chance de ver-se e ter uma nova opinião, uma nova dúvida. Muda-se algo na mirada da vida. Inclui-se o ponto de vista observacional e relacional do outro. Não, a dor da gente não sai no jornal. Mas, no palco psicodramático o protagonista tem a possibilidade de perceber isto. Que, como dizia Moreno , a nossa cabeça não é transparente. E por assim ser, a dor transforma a todos em ilhas, isoladas sem relações entre elas. O vínculo é o istmo/ponte que muda a ilha em continente. O palco psicodramático e todas as suas técnicas fundamentais promovem essa construção de pontes vinculares, transformando ilhas em penínsulas.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Alunos? Mestres

O Pai do Psicodrama, Jacob Levy Moreno, e a Mãe (sim, Zerka Moreno foi a Mãe do Psicodrama atual) quando falavam de papeis. E Papel é  a maneira pela qual pessoas envolvidas em um vínculo exibem traços culturais e pessoais, de forma  ativa e  complementar. E ao falarem da dinâmica dos papéis nos ensinam que ao entrarmos numa relação vincular qualquer, pessoal ou profissional, no primeiro momento, Role Taking (Tomada de Papel), há tanto temores quanto desejos. É quando apreendemos e aprendemos o be-a-ba do papel. É quando parece inalcançável, é quando se precisa persistir ainda que a voz interior diga que não dará certo. Em algum momento, a relação começa a fluir, percebemos, ainda com temor, mas já com alegria e prazer que fazemos direitinho. Esse momento chamamos Role Playing. Um parêntese: a tradução habitual é desempenho. To Play é um verbo muito mais rico do que o verbo desempenhar. To play é atuar (cenicamente), é tocar um instrumento, é jogar, é brincar. Não é, tão só e friamente, desempenhar mecânica e assepticamente. Role-Playing inclui todos aqueles sentidos que perdemos na tradução. Eventualmente, em circunstâncias cruciais, quando os manuais já não nos dão suporte, o supervisor já não tem respostas, algumas criam soluções originais, fora do script. Um salto sem paraquedas na certeza de voar. Role Creating (Criação no papel).  Coração dispara, garganta seca. O estômago contrai. Um parto.  Maiêutica (partejar em grego e em Sócrates) psicodramática. Como os partos, não acontecem sempre. Como os partos, alegria faz par com temor. Como os partos damos à luz uma ação original. Com prazer, alegria e um sincero "como pude fazer isso?". E voltamos a desenvolver a ação partejada. Uma cria nova. E essa história não nem deve ser vista como sucessão de fases. A vida é dinâmica, as relações são dinâmicas. A cada momento podemos passar pelos modos de funcionar. É uma dança circular e continua. E sendo assim, vitaliza as relações entre papéis, elas não se cristalizam, não se fossilizam. Desejar, aprender/apreender, fazer, desejar, aprender, fazer. E criar quando nos permitimos colocar o pé no vazio. A imagem do filhote de passarinho que nunca voou saindo do ninho. As asas foram criadas, mas quem as bate somos nós. Isso não é crença que visa sempre o resultado. Isso é Fé, confiança no método. Salto no escuro.
Esse texto é dedicado aos membros da PROFINT. Alunos? Não. Mestres.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Carnaval e Psicodrama

Carnaval. "Carnis levare", Início dos quarenta dias da Quaresma, quando o comer carne é proibido. Cristianização da Lupercália romana. E nessa festa há o que falar. O calendário romano iniciava-se em março, mês dedicado à principal divindade romana, o deus Marte. Então, no mês anterior era o mês da purificação e da fertilidade. Em 15 de fevereiro (Februarius em Latim, februs = purificação) Era a Lupercália, terceiro dia dessa comemoração. Rito em que homens nus corriam açoitando com tiras de pele de animal todos e, principalmente as mulheres. Ser açoitada por esses chicotes e marcadas pelo sangue do sacrifício, era sinal de fertilidade. Mas, o caos era completo. Caos, sem organização, em que os hábitos eram invertidos, papéis eram invertidos, exibição de uma desinibição sem freios. Esgotava-se o ano civil com essa explosão catártica e fértil. E o nosso Psicodrama? Durante muito tempo o Teatro da Espontaneidade de Moreno foi associado a um happening, a um "laissez faire". A um caos. A quase uma lupercália onde nada é proibido e tudo é permitido. E ainda agora,  a maioria das pessoas associa espontaneidade com descontrole e exposição, "fazer o que dá na cabeça". Algo atemorizante muitas vezes. Espontaneidade, para Moreno, é ter liberdade de se fazer e Criatividade, sempre associada, a capacidade, o poder de fazer a melhor escolha, para a cena, para a vida. Ser mais espontâneo, diminuindo as restrições, é ter mais possibilidades de escolha para o ato criativo. Não falamos nem pensamos, no Psicodrama, na espontaneidade solta, descolada da ação criativa. Espontaneidade sem criatividade é espontaneísmo. Desenvolver, aumentar a Espontaneidade é diminuir as  restrições prévias, os "não pode" antecipados, os prejulgamentos, as pressuposições. Numa atividade psicodramática esse é o objetivo de nosso Aquecimento (Caldeamento, Warming up). E para que? Para possibilitar a escolha da melhor ação criativa na Cena. Seja na Cena, seja na Vida. Espontaneidade é um estado, Criatividade é uma ação. 

domingo, 21 de janeiro de 2024

O côncavo e o convexo

Escrevo sobre Psicodrama, sempre relacionado com as coisas da vida, no consultório e além consultório. E por que faço isto? Porque, apesar do psicodrama ser mais que centenário, ainda é um ilustre desconhecido para o senso comum. Como entre a palavra psico e a palavra drama parece que a palavra drama chama mais a atenção. Drama, dramático, teatro, teatrinho, banalidade. E psico, remete à psicologia, psicoterapia. Seria um teatrinho em que apenas se representa uma atitude dramática? E olhem que a palavra drama e dramático já tem algo de desqualificante, leviano, no uso cotidiano. Não. O Psicodrama advém do Teatro, mas não é Teatro. Teatro é re(a)presentação de algo escrito ou imaginado, por um autor,e atuado por um ator ou atriz. As técnicas psicodramáticas vêm do fazer teatral, o palco é do Teatro. Mas a peça é a história daquela pessoa ou grupo. O protagonista em uma peça teatral é a personagem central re(a)presentada por um ator. No Psicodrama o protagonista/autor atua sua vida no aqui e agora. O texto é vivido naquele instante. No palco teatral, tal como descrito por Aristóteles, é a plateia que sente o impacto da catarse da história. Não o ator/atriz. Esse sentiu o impacto na leitura, nos ensaios, na criação da personagem. Não na hora da atuação. Naquele momento é a personagem quem atua.. No Psicodrama é o protagonista e o grupo que vivenciam o impacto catártico de sua própria história. As técnicas psicodramáticas são para o protagonista/autor também ser a plateia de si. ver-se em cena. O Psicodrama, fenomenologicamente, põe o protagonista para experimentar os múltiplos papéis em cena. As várias posições de olhar de cada papel com o qual se relaciona. O palco no Psicodrama é experiência de multiplicar miradas e visões, de incorporar, além da sua já existente, outras formas e maneiras de conhecer e experienciar o mundo e suas relações. O drama que cuidamos é o Drama do existir de cada um em seus múltiplos papéis e vínculos. É o dentro e o fora, o subjetivo e o objetivo, o côncavo e o convexo.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Além, muito além...

 Além, muito além daquela serra que ainda azula no horizonte...". Por acaso, reli esse trecho inicial de Iracema, obra de José de Alencar. E esse trecho, pequeno trecho, me remeteu ao Psicodrama. Moreno, criador do Psicodrama, e Zerka, grande renovadora do Psicodrama, tinham pontos de vista, posturas, atitudes, que não são fáceis de entender e muito menos de atuá-las. Talvez por isto, certamente por isto, fazer Psicodrama e tudo relacionado a ele, não é apenas aprender uma técnica ou várias técnicas. Não é só um saber a ser aprendido. Além, muito além disto, é ter como fundamento a ideia que todos podem ser agentes da própria mudança. É ter como fundamento ser o grupo senhor de seu destino, sendo o condutor/diretor um organizador, um iluminador de cenas, um estimulador de novas aventuras. É ter como fundamento o respeito integral a tudo o que aconteça no e com o grupo. É ter como fundamento ser ele, o condutor, um sensor do clima do grupo, por estar em papel diferenciado, sendo simultaneamente o diretor e membro do grupo. É ter como fundamento ser o aqui e agora o tempo e espaço do Psicodrama, mantendo todo o tempo o protagonista e o grupo nesse aqui e agora, palco da vida. É isto: Além, muito além das técnicas psicodramáticas que ainda azulam no horizonte.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Inícios e fins

   O ano do calendário está se encerrando. Chegará, enfim, amanhã, o dia número 365. E depois o Dia 1 estará aí. O calendário diz que as coisas terminam e recomeçam. Todo ano há um fim de ano  e há um primeiro dia do novo ano. Mas, em nós, parece que vivemos como se a estrada da vida fosse uma linha reta de mão única. Parece-nos que os começos são novidades e os fins são definitivos. Talvez por isso a culpa esteja presente sempre em nós, como se o passado fosse sempre passado, irremediavelmente passado. E o futuro nos chega como sempre oportunidades únicas, irrepetíveis, o tal do cavalo selado que só passa uma vez. "Perdeu, playboy!". E se, realmente, olharmos para as coisas como se houvesse, sempre, a possibilidade, de fazer de forma diferente aquilo que se fez e não deu certo? E se pudéssemos experimentar novos erros, em lugar de imobilizarmo-nos na culpa penitencial? Na filosofia Moreniana que embasa o Psicodrama está sempre o presente, palco do passado e da expectativa do futuro. Mas sempre o presente. Onde, ajudados pela louca da casa, a imaginação, podemos experimentar a re-visão do passado e viver o futuro. E, por fim, sair da imobilidade da culpa e da dor (do passado) e da imobilidade do temor (do futuro). Psicodrama é mais do que exercício de técnicas psicodramáticas. Psicodrama é o exercício contínuo da flexibilidade como instrumento do viver. Que possamos cometer erros novos. Porque repeti-los não é inteligente, e não tê-los é estarmos imóveis e imobilizados na vida.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Natal e Psicodrama

 A origem do Natal está nas comemorações do Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Solstícios são os pontos da trajetória terrestre em que os hemisférios estão mais próximos (verão) ou mais distantes (inverno) do Sol. Assim, para as tradições místicas do Hemisfério Norte, esse período era quando, em seu hemisfério, Dezembro, a inclinação da Terra em relação ao Sol, voltava a se aproximar, quando o Inverno anunciava o seu fim, quando as esperanças de um novo plantio, de um degelo, surgiam, respondendo à expectativa da espera. Nas tradições místicas isso era o símbolo da renovação, do anúncio de um novo tempo. Avatares e deuses eram comemorados nesse dia. Krishina, Mitra, por exemplo. Por isto a tradição cristã aproveitou-se desse simbolismo. E isso que tem a ver com o nosso Psicodrama/Teatro Espontâneo? Nada. E tudo. Moreno, o criador do Método Socionômico (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) era um judeu imbuído das tradições judaicas, principalmente da filosofia hassídica. E esse Hassidismo tinha por base a renovação, a fé na transformação, a esperança de um recomeço. Socionomia, Sociodrama, Psicodrama Morenianos são sempre fundados nessa atitude de mudança, transformação, um novo olhar, uma nova chance, um outro começo. Que seja assim e assim seja para cada pessoa e para todas as pessoas.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

O boomerang

 Quanto eu aprendo com meus pacientes? Quanto o que digo a eles se dirige, como um boomerang, para mim? Quanto o que eles concluem sobre si reflete em mim? Assim como ele é o outro para mim, eu sou o outro para ele. Ao contrário de outras abordagens, o corpo do Diretor/Condutor, verdadeiramente em carne e sangue,  está presente todo o tempo. É possível, não sei, que em outras abordagens a presença da pessoa do psicoterapeuta não seja tão visível, que a técnica possa se sobrepor ao estilo. E dizia o Conde de Buffon que "o estilo é o Homem". A relação terapêutica no Psicodrama se faz entre duas pessoas que atuam em papeis diferenciados.  Em nossa abordagem, seja a forma Bipessoal ou a forma Grupal, há diferenças marcantes no uso das técnicas psicodramáticas entre condutores diferentes. Ritmo, estética, olhar, vivência da filosofia psicodramática. No Psicodrama não é difícil encontrar-se conduções psicodramáticas sem nada ter a ver com o cerne, o centro do Psicodrama. E esse cerne, esse centro, necessariamente, tem a ver com as ideias de Moreno que podem se expressar pelas técnicas. Mas, o exercício, apenas, da técnica não faz, necessariamente, um Psicodramatista. 

terça-feira, 28 de novembro de 2023

la Fontaine

 Sempre considerei os poetas, escritores, artistas em geral, como os que chegam,  primeiro e melhor esteticamente, ao ser humano e seu existir, comparando com os técnicos, como nós. Há uma fábula de la Fontaine, as Raposas e as Uvas. essa fábula, em que a raposa, por não conseguir alcançar o galho da parreira onde estavam as uvas desejadas, sai dizendo: "Mas, também, elas estão verdes!". Quanta humanidade nessa fábula! Há uma outra expressão popular que diz: "Quem desdenha, quer comprar!". .A mesma coisa. Desqualifica-se aquilo que não se pode ter ou alcançar. E isto acontece corriqueiramente. E esta é uma das situações em que, propondo-se a cena em ação, o protagonista saindo do palco, um ego auxiliar ocupando seu papel e ele, o protagonista  vendo e enxergando de fora do palco, de fora da cena, sua vida passando ante seus olhos. A isto chamamos de Espelho. E por que? E Para que? Porque é sempre difícil ver-se de fora, ver-se como em cena, ver-se com os olhos da plateia. E essa técnica psicodramática, uma das três fundamentais, propicia isto. Sem interpretações do diretor/condutor/terapeuta. Ele, o protagonista tem a chance de ver-se. E perceber que seu desdém, seu enverdecimento de seu desejo, é uma manobra para não sofrer pela impossibilidade ou incapacidade. La Fontaine e Moreno. Duas visões analógicas do drama humano.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Hoje no Psicodrama

Hoje, numa sessão psicoterápica, uma pessoa me fala sobre sua relação com seu enteado, portador de gravíssima quadro psiquiátrico, Diz ela: "Me sentei longe". Pedi para refazer a cena: Piscina, estirada numa cadeira, tomando sol, óculos escuros. Seguida por outra: respondendo a solicitação vai para a piscina com o enteado, senta-se no primeiro degrau, muda. Paro a cena e pergunto: Que está acontecendo agora com vc? Responde: " estou irritada, não queria estar aqui, acho desagradável estar com ele". Peço-lhe que capture esse estado e veja em sua vida onde mais esse estado esteve presente. "Claro, nas reuniões obrigatórios com meu pai". " E no meu ciúme de minha irmã com minha mãe". E continuamos. Mais do que a história acontecida e verbalizada, o acréscimo da cena deu-lhe uma chance de perceber no aqui e agora os afetos envolvidos e pôde fazer a ligação entre cenas anteriores e as atuais. é o que me encanta em nosso Psicodrama. Sua potência terapêutica.  Potência de, ao presentificar o passado, poder vivenciar as múltiplas camadas que a cena traz e tem e contém. Sem que houvesse interpretações de minha parte. Era sua cena, vista e enxergada por ela. Era sua a compreensão.

domingo, 12 de novembro de 2023

Onde se fala de agricultura e outras coisas

 Espontaneidade, espontâneo, Teatro da Espontaneidade, Teatro Espontâneo. A espontaneidade é como a humildade: quando as percebemos, as perdemos. Quando mais temos delas consciência, menos elas serão reais. É que, tanto uma quanto a outra, não são atos, ações. São estados de alma pré-existentes que servem de chão e base para as ações que a criatividade e a necessidade e a adequação à circunstância/cena requeiram. Humildade e Espontaneidade são estados a serem cultivados. Como se cultiva alguma planta qualquer. Deixa-se a semente, aguamos, damos sustentação e esperamos que venha à luz a planta, a espontaneidade, a humildade. Elas não são objetivos a serem alcançados, perseguidos.. Elas são as condições para que a Criatividade  tenha à mão todos os recursos possíveis para poder escolher o melhor ato criativo. A Espontaneidade é uma condição humana para se adequar ao ambiente. Talvez por isso, ao se fazer Teatro Espontâneo, em que não há roteiro escrito, não há metas a serem alcançadas, não há fins previstos, em que o grupo tem o coração e o motivo para criarem algo coletivamente, em que o Diretor/Condutor está despido de qualquer veste autoritária, viés autoral. Tal como o Jardineiro Fiel ele cuida do grupo, da cena, poda algumas folhas/imagens para ajudar no crescimento da  planta/cena, o aquecimento é o preparo da terra, a fertilização do solo, a correção das deficiências que porventura haja no solo/grupo. Ele está a serviço do grupo, como um jardineiro fiel está para a sua planta. O Jardineiro conhece a melhor maneira para ajudar sua planta, mas não pode forçá-la, fazê-la ser o que ele quer e não o que ela pode ser e quer ser. Por isso, em todos os tempos a agricultura é símbolo da paciência, confiança, humildade. E, em nosso caso, da Espontaneidade. PS. A Alquimia era também conhecida como Agricultura Celeste. Pelas mesmas razões: Paciência, confiança, humildade, a espera pelo melhor tempo para a a Grande Obra. A nossa Grande Obra é a Cena.

sábado, 4 de novembro de 2023

Tempos

 "Tempo, Tempo, Tempo. És o Senhor do Destino". (Caetano Veloso). Sete décadas de minhas voltas em redor do Sol. E o que significa? Experiência? Já li definições de experiência como: "um pente que é dado ao ser humano quando ele  já está ficando careca". Hipócrates dizia que "toda experiência é enganosa". Outro dia, conversando com algumas pessoas sobre algo da década de 50/60 disse: "a minha vantagem é que não li em livros, eu vivi a mudança paradigmática dos anos 50/60." O velho é testemunha da História. Se tiver olhos para enxergar além de ver, apenas. Mas, todos nós, qualquer que seja a nossa idade, somos testemunhas da História. Talvez, a questão central não seja a duração cronológica de nossas vidas. Talvez a questão central seja vivenciar o vivido. Moreno, criador do Psicodrama, referia-se a isso como "Momento". O tempo do vivido. Kairós, em Grego, diferente do Chronos, tempo marcado em relógio. O Momento Moreniano, o vivido e experienciado, diferente do tempo cronológico automatizado das conservas culturais. Existir, viver, vivenciar, Momento Moreniano.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...