Ignorar é desconhecer, não saber algo, desconsiderar. Quando falamos de algo relacionado a conhecimento, essa ignorância é da esfera cognitiva. Mas, nas definições dicionarizadas, aparece, também, desconsiderar. Desconsiderar é não considerar. E considerar é fazer caso de, respeitar, observar, atentar. Portanto, desconsiderar, ignorar, desrespeitar, não observar, não atentar, não fazer caso de, são sinônimos. Do ponto de vista relacional, há uma ignorância do outro, um não fazer caso do outro, não respeitar o outro, não atentar ao outro. Essa ignorância relacional é o foco das ações Socionômicas, seja Psicodrama, seja Sociodrama, seja Axiodrama. No Teatro Espontâneo esse foco aparece não como um objetivo, como é nas outras ações, mas no próprio mecanismo de construção coletiva de uma história grupal, na absoluta necessidade para o desenrolar da cena da plena atenção ao outro, na total consideração do outro, no respeito completo à atuação do outro. Todas as criações Morenianas são lastreadas na ideia de que todos ser humano se constitui em sua relação com os outros, vinculados em múltiplos papéis.
terça-feira, 30 de maio de 2017
segunda-feira, 29 de maio de 2017
Honestidade
Pensava sobre desonestidade, honestidade. Em todas as definições dicionarizadas aparecem como significado honradez, sinceridade, pudor, pureza. Refletindo sobre esses termos, todos referem-se a um olhar de uma outra pessoa. É alguém diante do outro quem pode ou não ser honesto. Ainda que esse outro possa ser alguém vendo a si, sendo um espectador de si. Honestidade, então, é algo relacional, é atributo de uma relação que vivencia transparência em suas transações afetivas e/ou cognitivas.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Quem casa...
Quem casa, quer casa. Assim diz uma expressão popular. E não se trata, exclusivamente, de casa em sentido material, físico. O novo casal, o novo par necessita delimitar um espaço para se construir como uma nova singularidade. Esse espaço é físico, material. Mas, não só. É também, e principalmente, um separação dos vínculos originais, familiares, primários. Separação necessária para o desenvolvimento de um novo papel anunciado por esse novo vínculo. O papel de parceiro de um casal, de um par. Soma-se aos papeis originais de filhos e filhas um novo e outro papel. Partner, parceiro, amantes, companheiros.
quinta-feira, 18 de maio de 2017
Bukowski e outros
O poeta beatnik Bukowski escreveu: "O problema com o mundo é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, enquanto as pessoas estúpidas estão cheias de certezas". Dois psicólogos americanos descreveram o agora chamado Efeito Dunning-Kruger: "O incompetente é tão incompetente que não reconhece sua própria incompetência, enquanto os competentes duvidam muitas vezes da própria competência." Poetas falam melhor que os técnicos.
domingo, 14 de maio de 2017
dia do papel de Mãe
Hoje é Dia das Mães. Ou o Dia do Papel de Mãe. Pensando em termos psicodramáticos (socionômicos) o papel de mãe surge da relação com pessoas em que há os atributos de continência, aceitação, limite, disciplina, incondicionalidade do afeto e, sobretudo, magia de fazer da imaginação uma ferramenta de cura e resolução de problemas. É uma relação assimétrica entre os papéis - o de filho e o de mãe. Acolhimento de um lado do papel e necessidade no outro lado dessa relação. Mas nesse papel materno cabem atores mães biológicas, mulheres, homens, amigos, amantes, profissionais de qualquer área. A função de acolhimento versus necessidade é a fundadora do papel de psicoterapeuta, por exemplo. Pais podem e devem ser mães. E é função do papel materno. Hoje é dia do papel materno, dia da mãe que cada um pode ser na sua relação com o outro.
quinta-feira, 11 de maio de 2017
Uma outra forma de olhar
Habitualmente vemos o Teatro Espontâneo (TE) colocado como um dos instrumentos da Sociatria Moreniana. E a Sociatria é a parte da Socionomia de intervenção no grupo. Assim, Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama são juntos com o TE postos como instrumentos Sociátricos. De uma certa forma, o TE é visto como algo de segundo plano. Apenas lúdico, apenas estético, apenas artístico, apenas para ser visto. Sem o peso consagrador da importância terapêutica atribuídos aos outros instrumentos. E se não for assim? E se pensarmos diferente? E se voltarmos à ideia original Moreniana da criação ou recriação no palco de uma situação para permitir um novo olhar? Isto resultou no Teatro Espontâneo. A partir de então Moreno viu o potencial da ação esteticamente trabalhada (TE) a ser aplicada em contextos específicos. No contexto de papéis sociais, o TE torna-se Sociodrama. No contexto de histórias individuais, o TE torna-se Psicodrama. No contexto de valores éticos de uma comunidade, o TE torna-se o Axiodrama. Todas estas intervenções são formas especializadas de Teatro Espontâneo. E do TE tem-se que aproveitar a visão estética da construção da cena, a atenção ao ritmo de desenvolvimento dessa cena, sua fluidez, atenção ao aquecimento da plateia como co-construtores da história. Pensar, agir, dirigir como Teatro Espontâneo faz todas as outras intervenções Sociátricas mais potentes e profundas.
terça-feira, 9 de maio de 2017
Nem tanto nem tão pouco
Ao longo da vida desempenhamos múltiplos papéis. Papeis que surgem na relação com outras pessoas, nos vínculos que se estabelecem. E cada um desses papéis tem seu tempo e trajeto de maturação. No momento em que estamos entrando em contato com este novo papel nada sabemos dele, somos inexperientes nele. Tudo parece algo difícil de ser alcançado. Quando vemos alguém exercendo esse papel com maestria sentimos ou tememos não conseguir atingir aquele desempenho. Este período ou momento chamamos em Socionomia/Psicodrama de Tomada do Papel (Role-Taking). Com o tempo percebemos que aprendemos a exercer bem o papel, sabemos fazer o necessário. temos confiança no que fazemos ou agimos. mas seguimos estritamente o modelo ensinado. Fazemos bem feito o que aprendemos. O que tememos neste período talvez seja aquilo que nos surpreenda, que não esteja no roteiro ensinado. temos segurança enquanto tudo se comporta como o apreendido. Esse é o que chamamos o período do Desempenho do Papel (Em inglês é melhor: Role-Playing). E talvez nos chegue o momento em que transcendemos o ensinado, nos autorizamos a inovar, a criar, a agir conforme a necessidade. Em que não mais seguimos o modelo ensinado e apreendido, mas inventamos, criamos o nosso jeito de desempenhá-lo. A Criação no Papel (Role-Creating). A visão de Moreno da Teoria dos Papéis remete para uma vida dinâmica, em que estamos continuamente tomando, exercendo e criando em papeis novos. Cada nova situação de vida, cada novo vínculo, cada novo interesse faz com que esta ciranda de papeis esteja rodando, girando. a grande patologia para Moreno era a cristalização no papel. o congelamento, a imobilidade na atuação de papéis. O fluxo contínuo e constante e circular de Role-Taking, Role-Paying, Role-Creating dos papéis permite a Espontaneidade neste desempenho. Aceitar que nos desejáveis múltiplos papéis que desempenhamos não estaremos nos mesmos estratos no mesmo momento de vida. Como profissionais podemos estar mais desenvolvidos no papel, mas nas relações amorosas não. Exigir de si e do outro que o desempenho em todos os papéis sejam iguais; esperar que o mau desempenho em um papel necessariamente leve ao mau desempenho em outros papeis. Isto é a patologia dos papéis em Moreno. E isto abre o caminho para a esperança. Ninguém é tão bom ou tão ruim em tudo. Sempre há possibilidade de encontramos a flexibilidade que permita esta compreensão e aceitação.
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Engrenagens, vínculos
Assistindo mais uma vez a Tempos Modernos com Charlie Chaplin. A imagem das engrenagens girando permanece em mim. Carlitos girando preso nelas, embora com um sorriso no rosto. Olhando, o que vemos são rodas denteadas rodando em velocidades diferentes, com tamanhos diversos, com número de dentes variados. Girando ritmicamente. Pensando num sistema de engrenagens, quando uma delas muda seu passo todas as outras mudam também. Ou rangem, ou fazem barulho ou quebram. As relações humanas, nossos vínculos, são algo como sistema de engrenagens, Tal como essas, aquelas. Os vínculos tem seu tempo de amaciamento, em que as engrenagens no atrito mútuo, vão-se desgastando, amaciando-se, para que girem sem ruídos. Também os vínculos precisam de um tempo de cessões mútuas. E se uma delas altera seu passo, sua engrenagem complementar necessita alterar-se. Uma mudança em uma das pontas do vínculo obriga a mudança na outra ponta. Assim como na mecânica: não sendo feito o ajuste do passo, do ritmo, haverá ruído, barulho, rompimento, quebra. Estendendo a analogia, se uma das engrenagens é feita de uma material maximamente duro e e rígido, ela não se desgastará no processo de amaciamento. Não haverá ruído nem rangido, mas às custas do desgaste unilateral da engrenagem complementar, de sua destruição mesmo. Nos relacionamentos, a inflexibilidade, a rigidez, o autoritarismo de um dos lados promoverá o desgaste unilateral da engrenagem-vínculo complementar. Não haverá ruído nem rangido nem barulho. E tudo isto ás custas da destruição de um dos lados do vínculo. A paz dos cemitérios.
terça-feira, 25 de abril de 2017
Dentro e fora
Moreno, criador do Psicodrama, escreve: "O Diretor é um membro do grupo em papel diferenciado". Pensemos um pouco. Membro do grupo. Então, como todos os participantes do grupo, também o Diretor tem uma relação de pertinência com esse grupo. Tudo o que acontece ao grupo e no grupo o atinge, o afeta, consoa no Diretor. Papel diferenciado. No Psicodrama diz-se que alguém está diferenciado no papel quando tem consciência, percepção, daquilo que lhe acontece, daquilo que o afeta, daquilo que o toca. E que portanto, sua ação não será uma simples reação impulsiva movida exclusivamente pelo afeto dominante. A indiferenciação seria, assim, seu oposto. O Diretor de Psicodrama está, em relação ao grupo, dentro e fora. Dentro por ser um membro do grupo, atravessado por todas as contingências grupais. Fora por estar diferenciado em seu papel, mantendo sua autopercepção permanentemente ligada nos seus atravessamentos grupais. Dentro o necessário para tudo consoar em si. Fora o suficiente para agir diferenciadamente. Ou seja, o participante do grupo desenvolve e é estimulado a agir espontaneamente. Ao Diretor cabe escolher dentre suas ações possíveis espontaneamente estimuladas pelo efeito grupal, aquelas que são operacionalmente, criativamente, mais úteis, cabíveis, necessárias ao trabalho diretivo.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Amar, Respeitar...
Penso há tempos na impossibilidade do amar a todas as pessoas. Esta quase exigência nos faz sentir ou culpados ou não-seres humanos. Amar é uma relação bilateral. Em termos psicodramáticos, uma relação Télica: Em que eu e o outro nos reconhecemos e interagimos dentro do mesmo vínculo, em relação complementar e com o mesmo tipo de afeto e intensidade. Isto seria amar em sentido relacional. Usamos a mesma palavra para também nos referirmos ao cuidado a todos os seres da Natureza e à própria Natureza. Essa relação não necessita ser bilateral, complementar. Pode ser unilateral. E talvez seja melhor chamá-la não de amor, por ser este um afeto necessariamente espontâneo. O respeito, prefiro esta palavra, não precisa ser espontâneo, podendo ser ensinado, aprendido e cobrado. O respeito é o reconhecimento do outro, da existência do outro. Respeitar é reconhecer e aceitar a existência do outro, sob qualquer forma. É o respeito que pode conduzir à harmonia ou à discordância, ambas construtivas para o processo humano. Se nulificamos, reificamos o outro, o tornamos coisas, tudo se admite e nada é proibido. No julgamento em Nuremberg ficou visível essa nulificação como forma de proteger-se da culpa. Hannah Arendt chamou a isto de banalização do mal. Respeitar é reconhecer a humanidade intrínseca de todos. E o Psicodrama por ter a sua base, seu alicerce, na ideia de que somos seres relacionais, seres em relação, constrói a possibilidade do respeito com suas inversões papel e consequentes multiplicações das visões de mundo.
segunda-feira, 10 de abril de 2017
Teatro Espontâneo e Psicodrama
Sempre
temos visto escritos sobre o TE
e todos dentro da perspectiva da ressonância junto à plateia, do
potencial de transformação grupal ou dos protagonistas por meio da
estética do momento. Quero agora refletir sobre outra vertente
possível. O que muda no Diretor psicodramático que se dedica ao TE?
O que se altera na sua prática, ainda que não seja teatro
espontâneo que ele esteja realizando? Que especificidade de olhar
psicodramático tem o diretor praticante de TE?
Há alguma especificidade? Que importância tem para o psicodramista
in
status nascendi
participar de TE?
Utilizando
estas perguntas como iniciadores verbais, passemos a refletir. A
rigor, o primeiro combatente (proto-agonista) é o que primeiro põe
o pé no palco. Assim, o primeiro a proto-agonizar é o Diretor
Psicodramático. Ele, naquele momento, é o que mais arrisca, o foco
da atenção está sobre ele, espera-se um algo qualquer dele. Neste
primeiro momento, a espontaneidade/criatividade do Diretor encontra
seu maior espaço de desafio. O ritmo, a estética, a linha condutora
advirá desta mesma espontaneidade criativa. Para saber enxergar e
ouvir o grupo o Diretor precisa estar aberto, disponível, sem
armaduras ou defesas prévias. E isto é exatamente o que o trabalho
com o TE
ajuda
a desenvolver. O foco estético no TE
é o eixo onde gira a Direção. Por isto, o cuidado com o ritmo, a
fluidez, a ressonância junto ao grupo, a atenção particularmente
quanto à manutenção do aquecimento grupal. Isto é vital. Porque
se corre o risco, ao não se atentar para o aquecimento, que a
plateia se esvazie. Como não há compromisso terapêutico, a plateia
permanece enquanto se encontra motivada, interessada. Outro aspecto
importante e curioso é que o público se apropria de partes ou
trechos do acontecido. No compartilhamento é que se percebe que, da
obra realizada, cada pessoa, cada parte da plateia, pinçou,
apropriou-se de algo diferente.
Para
o Diretor é necessário não ter uma postura autoral, quem dá (ou
não dá) sentido ao acontecido é o público. Como o Diretor de TE
trabalha fora da psiquiatria/psicologia, apresentando-se sem este
aval, fica totalmente entregue ao que ele consegue construir junto
com o grupo. Sua segurança virá da sua confiança em que o grupo é
senhor e construtor de seu destino cênico. O grupo é que se dirige.
Cabe ao Diretor, tão somente, dar forma esteticamente resolvida à
dramatização.
Os
psicodramistas não precisam todos fazer TE,
mas se beneficiariam muito ao trabalhar com a ideia de ritmo e
estética, de atentar sempre e sempre para o aquecimento grupal, de
diminuir sua importância pessoal e ampliar sua confiança na
capacidade de construção grupal.
Por
isto, fazendo Teatro Espontâneo farão um melhor Sócio Psicodrama.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
falar e mostrar
"Se você me disser, é um ensaio, uma tese. Mas se você me mostrar é uma história" (Bárbara Greene). Há tempos anotei esta frase. Não conheço a autora. Mas ela define, de uma forma elegante e sintética, o olhar, as ações e o objetivo de um condutor de Psicodrama ou Teatro Espontâneo. Ajudar a construir histórias que possam ser vistas. E ao serem vistas poderem ser vivenciadas. E ao serem vivenciadas possibilitar uma nova mirada, um redimensionamento das relações.
segunda-feira, 3 de abril de 2017
O sozinho e o solitário
Estar só, sentir-se só. Sozinho, solitário. Estados de espírito não iguais, muito diferentes. Estar só é algo espacial, geográfico. É não ter pessoas em volta. Apenas isto. Sentir-se só é outra coisa. Nada tem a ver com quantidade de pessoas. Sentir-se só é consequência de uma pobreza relacional. Solidão é não ter vínculos com nada. Uma pessoa isolada geograficamente vive e sobrevive das certezas de seus laços afetivos, das lembranças e desejos. Sentir-se só, o estar em solidão, é reconhecer a inexistência, é sentir o peso da ausência de vínculos que o ancore com o mundo.
"É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte" (Fernando Pessoa)
sábado, 1 de abril de 2017
1 de Abril de 1921 é a data inaugural do PSICODRAMA. Iniciou com uma sessão aberta em um teatro, em Viena, com um convite para a discussão sobre a realidade caótica do país àquela época. Cortinas abertas, uma única cadeira vermelha em cena, uma coroa sobre ela. Moreno convida a quem quiser assumir a coroa que suba ao palco. E com este gesto de desafio, coragem e comprometimento nasceu o PSICODRAMA.
quarta-feira, 29 de março de 2017
Mitologia e reflexões
Lendo sobre Mitologia Grega refletimos e aprendemos. Harmonia é uma Deusa. E é filha de Afrodite, Deusa do Amor, erótica, sensual e bela, com Ares, Deus da Guerra, impulsivo, violento e sanguinário. Harmonia é filha de pais antagônicos, opostos. Mas, no final das contas, como para haver prole há que haver sexo, quem terminou prevalecendo foi Afrodite.
Assinar:
Postagens (Atom)
Postagem em destaque
E assim é.
Experimentar e refletir. Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo. Há mais de trinta anos...
-
Em Socionomia (Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama) há um conceito central que não é fácil para ser compreendido e utilizado. Tele. Essa pala...
-
CONVITE AO ENCONTRO ( JACOB LEVY MORENO) Mais importante do que a ciência, é o que ela produz, Uma resposta provoca uma centena de p...
-
AS PALAVRAS DO PAI – XX (Jacob Levy Moreno) Esta é a minha oração: Que todos os seres sejam benditos Com um lugar no Universo, ...

