Força é autoridade? Alguém tem autoridade? A autoridade pertence a alguém? Ou será a autoridade e o respeito algo dado pelo seu papel complementar? Um pai tem autoridade sobre o filho ou o filho dá autoridade ao pai? Reconhece a autoridade de seu papel complementar? Um chefe tem autoridade ou são seus subordinados que lhe emprestam autoridade? Não se pode impor autoridade ou respeito. Pode-se impor a força. A autoridade e o respeito não são pertencentes a quem pensa que os têm. A autoridade e o respeito são reconhecimento do outro sobre mim. Não são meus. Eu posso construir as pontes para que o outro me reconheça como autoridade e me tenha respeito. Mas o poder final concedente é o outro.
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Ufa!!!
Pensando sobre o que Moreno escreveu. Ele retoma um conceito que sempre pertenceu ao teatro e depois à sociologia. o conceito de papéis. Em teatro, nas artes cênicas, o papel (role, em inglês), o personagem (character, em inglês) nem sempre têm definições claras. Mas, talvez forçando a barra um pouco e trazendo para a nossa realidade psicodramática, simplifique assim: Personagem é o ser encarnado pelo ator. Papel é a sua maneira de proceder, atos que ele pratica, sua função no enredo. Como tal, o mesmo personagem poderia ter alguns papéis diferentes. O personagem Fulano, com sua história pessoal, pode desempenhar papéis de pai, namorado, ciumento, patrão, empregado ou outros. Pode ser o papel de antagonista, aquele que enfrenta o protagonista, pode ser o próprio protagonista. pode ser o papel de coadjuvante. E em nosso campo, o Psicodrama/Sociodrama/Teatro Espontâneo? Para Moreno,o papel seria algo continuamente dinâmico, resultado da interação de cada pessoa com outro ser, humano ou não. O que Moreno avança e surpreende. é trazer que papel é sempre relacional. E traz em si sempre e sempre, duas dimensões. Uma convexa,voltada para fora, objetiva, social, prescrita socialmente. Outra concava, voltada para dentro, subjetiva, pertencente à nossa história pessoal. Toda a historia social está presente em cada história pessoal. Em toda relação estabelecida, ela se dá por meio de papéis. Ou seja, cada personagem da relação complementa o papel do outro personagem. Ou não complementa, personagens falando textos de peças diferentes no mesmo palco. É impossível ser professor se não há o papel de estudante o complementando. E vice-versa, um estudante , o papel de estudante se constitui existindo alguém que esteja no papel de professor. Um complementa o outro. Um constitui o outro. Um cria o outro. Mas Moreno insistia em que esse jogo de papéis (veja o item do blog em que escrevo sobre a palavra play) era dinâmico. Todo o tempo os papéis podem intercambiar entre os personagens. A todo instante estamos entrando e saindo de papéis. Quanto mais relações, vínculos, estabelecemos, mais papéis podemos desempenhar. Quanto menos vínculos, menos papéis, mais pobre é o personagem. E ele era enfático nisso. E esquecemos isso. O personagem atua em papéis, os papéis sempre são um concavo/convexo. O convexo é social. O concavo é subjetivo. Fazemos Psicodrama, quando a dimensão subjetiva do personagem é privilegiada. Fazemos Sociodrama, quando a dimensão social de cada papel é enfatizada. fazemos Teatro Espontâneo quando fazemos isso de forma ludicamente transformadora.
terça-feira, 29 de agosto de 2017
Qual o antônimo, finalmente?
Pensando com meus botões, veio a mente uma conversa que ouvi durante um encontro de Sociodrama. A questão sempre em tela era o sentimento de impotência expressado por inúmeras pessoas. E eu, dialogando comigo, disse-me: "Qual é o antônimo de impotência?". A todos a quem fiz essa pergunta de todos escutei essa resposta: "potência". E disse-me então: "não é potência o antônimo de impotência. O antônimo de Impotência é Onipotência". A Onipotência é uma exigência de tudo saber, tudo fazer, de tudo ser responsável, de tudo ter que dar conta. Como isto é atributo divino e não humano, o resultado de uma busca onipotente é um achado de impotência. Reconhecer, perceber, aceitar, a existência de limites para nós em todos os papéis é sair do personagem messiânico, pura e nítida expressão do sentimento onipotente. Nós, do Psicodrama, Sociodrama, Teatro Espontâneo, da Socionomia, enfim, precisamos desenvolver, sim, a nossa Potência de ação, reconhecendo alcance, limite, avançando sempre que puder. Potência, apenas e tão somente, Potência.
sexta-feira, 18 de agosto de 2017
a lebre e a tartaruga
Será procurar e achar verbos e ações equivalentes? Haverá pessoas que procuram e outras que acham? Haverá situações em que procurar poderia ser substituído pelo achar? "Uma tartaruga sabe, mais do que a lebre, falar da estrada". Um provérbio chinês (esse é mesmo chinês). A lebre sai do ponto de saída e vai direto e rápido ao ponto de chegada. A tartaruga olha as margens da estrada. A lebre procura, busca. A tartaruga acha, encontra. A lebre sabe para onde vai, seu olhar está preso na linha de chegada. A tartaruga pode olhar em volta, pode olhar coisas diferentes antes da chegada. Quem procura tem muito claro o que quer, quem acha valoriza coisas que nem sabia que existia. Quanto mais rígida é a nossa forma de desempenhar nossos papéis, quanto mais cristalizado ele está, mais se parece com a lebre. Tal como a lebre se, porventura, a linha de chegada se deslocar, lá não estiver, for diferente do que supunha, do que imaginava, o caos se instala, a angústia aparece avassaladora, o desespero se torna dominante. Quanto mais nosso desempenho de papéis se torna flexível, espontaneamente flexível, mais se parece à tartaruga. E, como a tartaruga, a Espontaneidade possibilita que se enxergue coisas à margem da estrada. E, talvez, essas coisas possam se tornar o objetivo não buscado, mas encontrado.
domingo, 13 de agosto de 2017
Dia do papel de pai
Feliz
Dia do papel de pai. O papel de pai inclui o papel biológico de
doador de metade da contribuição genética da futura criança. Mas
não se esgota nisso. Nem inclui apenas o patrimônio XY. Nem apenas a
relação de consanguinidade. Ser pai é desempenhar a função,
simultaneamente, protetora e estimuladora. Criativo no explorar novos
mundos e conservador para preservar a continuidade. Gerador de
confiança e primeiro desafio a ser enfrentado. Parceiro e mestre e aprendiz.
Rigor e compreensão. Pode-se ser pai sem pai se ser. Pode-se
desempenhar o papel de pai sem ter tido ou sido pai na expressão
biológica. É possível, sim, ser pai de gente, de animais, plantas
e coisas. Feliz dia daqueles que, em qualquer circunstancia, são
tudo isso. E tudo isso suportado pelo amor incondicional.
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
O presente e o vivenciar
O que é reviver? O que seria presentificar uma imagem do passado ou uma imagem do futuro? Todas essas duas imagens tem um ponto em comum: seu presente é onde seu corpo está. O corpo é o que nos ancora no presente enquanto as imagens correm do passado ao futuro. Mas vividas no presente. O vivido é sentido. Aquilo vivido e percebido quando sentido é o vivenciado. Então, de nosso passado ao nosso futuro, vivenciamos todas essas imagens no presente. Seja no Teatro Espontâneo ou seja no Psicodrama ancorar-se no presente liberta a espontaneidade para encontrar novas ou diferentes expressões dessas imagens remontadas do passado ou antecipadas do futuro.
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
A propósito de Barcelona e PSG
O que se faz com mais dinheiro? E o que se faz com muito mais dinheiro? E com muitíssimo mais dinheiro? À primeira questão todos talvez tenham já uma resposta pronta. E se depois perguntarmos a segunda e terceira questões? Provavelmente a maioria das pessoas teria dificuldade de ser explícita. Com mais dinheiro a vida pode ter uma mudança significativa. Com muito mais dinheiro o que se acresceria já não seria tão importante. Seria mais do mesmo, ou muitíssimo mais do mesmo. Se com mais dinheiro aparece uma casa nova, com muito mais dinheiro continuará sendo uma casa, mas muito maior. E com muitíssimo mais dinheiro? Um palácio, trés palácios, pias de ouro, jatos maiores e maiores. Essa é a diferença entre uma ambição de melhoria e a ostentação desmedida. Simplesmente , mais e muito mais dinheiro não faz mudanças significativas de ordem material. Mas na ordem da afetividade, sim. Na ordem das relações, sim. Traz mudanças e, provavelmente, mudanças não construtivas e, até, destrutivas. Algo de muito importante se perde. Mas, como não se sabe que perdeu, talvez nunca houvesse tido.
terça-feira, 1 de agosto de 2017
poltrona e bicicleta
Em Física há diferença entre o equilíbrio estático e o dinâmico. O primeiro é fruto da imobilidade, da estabilidade. O segundo é construído pelo ritmo. Exemplo do equilíbrio estático é uma poltrona. Ela mantém sua posição quase indefinidamente. Está complemente equilibrada e imóvel e estável. Exemplo do equilíbrio dinâmico é uma bicicleta rodando. Movimenta-se, desloca-se, graças ao ritmo das pedaladas e o constante realinhar do corpo sobre o selim. Uma poltrona é duradoura, confiável em sua quase eternidade. Mas só está lá. De lá não sai. Uma bicicleta rodando é móvel, ágil. Mas tem seu risco de queda. O preço da estabilidade da poltrona é a imobilidade. O preço de andar de bicicleta é cair. Segurança e liberdade guardam as mesmas diferenças. Têm seus ganhos e têm seus preços. A escolha é humana.
terça-feira, 25 de julho de 2017
Desconstruindo...
Desconstruir está sempre presente em toda atividade Socionômica (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Socionomia). O que se desconstrói? A conserva cultural. Dito de outra maneira, aquilo que alguém já se habituou a sentir, pensar ou agir. Seja a dor ou alegria, o conceito ou o preconceito, a fé ou a crença. A intenção de balançar as raízes cristalizadas, de propor o acréscimo de um novo olhar, de um novo pensar, de um novo agir. De somar àquilo que já se conhece ou se pensa conhecer o risco de um "por que não?" O risco da experiencia, do experimentar antes de recusar. Quando Moreno diz que "a segunda vez liberta a primeira" mostra, poeticamente, isso. A possibilidade de experimentar um novo sentir ou pensar ou agir liberta ou abre o caminho para livrar-se do congelamento, da cristalização, da imobilidade das memórias e das intenções.
quarta-feira, 19 de julho de 2017
Segurança, insegurança
Uma dupla, segurança versus insegurança, em que a escolha parece óbvia. Só parece. O que chamamos de segurança? Damos esse nome à ideia de que estamos corretos, que a escolha é acertada, que sabemos exatamente como fazer, à fixidez, enfim. Chamamos de insegurança à indecisão, hesitação, à mudança de planos, à troca de objetivos, à incerteza. Enfim. Buscamos aflitos a certeza, a inalterabilidade, a imobilidade. Corremos às léguas da incerteza, da mutabilidade, da mobilidade. Até na linguagem comum fazemos essa enorme diferença. Quem troca de posições ou ideias é vira-casaca, traíra. Quem desiste de algo é fraco, fracassado. Quem muda seu querer é volúvel. Tudo é para sempre. Tudo tem que ser previsível. "Procurou, agora aguente!". "Quem pariu Mateus que o embalance!". Tudo linear, tudo irreversível, tudo unidirecional, tudo sempre em frente. "Quem não avança, fracassa!". Então, se pensarmos diferente? Se considerarmos que mais do que a certeza, mais do que a segurança, mais do que a solidez, mais do que a fixidez, buscarmos a flexibilidade, o aprendizado dos planos B, a confiança no método, no conhecimento adquirido, o exercício da redefinição, a reflexão contínua sobre o caminho escolhido, a abertura da possibilidade de deixar de fazer o que se está fazendo sem pensar na palavra fracasso ou desistência. Segurança é irreal no nosso Universo, físico, afetivo e relacional. Diz o mestre Chico Buarque, em Beatriz: "Para sempre é sempre por um triz".
segunda-feira, 17 de julho de 2017
Plateia, público
Plateia e Público não são sinônimos. Plateia, em grego, significa praça., com tudo o que acontece de interação entre pessoas numa praça.. Público é o que é feito diante de outras pessoas, assistência, auditório. Dos dois conceitos, um, a plateia, pressupõe a interatividade. O outro, o público, pressupõe a mera assistência, a passividade de um auditório diante de um evento qualquer. Plateia = interação. Público = assistência passiva. A alquimia que promove a transformação de um público passivo numa plateia interativa chama-se, em Psicodrama e Teatro Espontâneo, de aquecimento (warming-up, caldeamento). Essa alquimia é fundamental, vital, para a nossa atividade. Do chumbo do público ao ouro da plateia. A dramatização só pode ocorrer, só é possível, numa plateia. Jamais num público. Ao condutor/diretor de Psicodrama e Teatro Espontâneo cabe ter claro que poupar tempo e investimento no aquecimento gera o fracasso da dramatização. Esse é o coração do Psicodrama/TE.
quarta-feira, 12 de julho de 2017
Reinventando a roda
Já escutei muito essa expressão: "Não vamos reinventar a roda". Se já existe uma saída conhecida por que procurar outra solução? A roda está aí. Esse contínuo e imutável uso de conceitos, desempenhos, instrumentos, obras de arte; essas tantas rodas já inventadas e, portanto, inquestionáveis; a isso tudo Moreno chamou de Conservas Culturais. " A Mona Lisa é o maior quadro do mundo". Pronto. "Viver é sofrer". Pronto. "Quem não trabalha é vagabundo". "Se não parar vou falar com seu pai". Pronto. "Homem não chora". Pronto. "Guimarães Rosa é o maior escritor brasileiro". Pronto. "Isto é coisa de homem, isto é coisa de mulher". Pronto. Uma conserva culinária é conserva porque o conteúdo é conservado, não se alterará. Muito útil e necessário. A conserva cria e mantém a cultura. Mas também traz a imobilidade e inflexibilidade. "O que houve é o mesmo que há de ser". Para a tal inflexibilidade, rigidez, é que o Psicodrama estimula a espontaneidade e criatividade para reinventar a roda. O inalterável pode ser mudado. A conserva precisa existir para haver a rotina de vida, mas em relação ao desempenho de papéis abre o Psicodrama o lampejo do Role-Creating, criação no papel. Podemos criar a nossa forma de atuar o papel, quaisquer que sejam eles. O olhar pode ser descristalizado, desconservado, permitindo uma nova forma de ver. Reinventar a roda. Sem deixar de ser roda, ela também pode ser mesa.
domingo, 9 de julho de 2017
Condutor
Por que condutor, por que não apenas diretor? Conductor, em inglês, é maestro. Condutor em português pode ser o condutor de ônibus, de veículo qualquer. No primeiro sentido, maestro, acentua-se a função de harmonizar instrumentos diferentes, de diferentes sonoridades. De fazê-los produzir algo juntos. Sem perder sua sonoridade essencial usá-la a serviço da obra conjunta. No segundo sentido, motorista, mostra a função diretiva em si, de escolher caminhos, velocidades, pontos de paradas, respeito à sinalizações externas. Em Psicodrama e tudo o que se relaciona com ele, penso ser a palavra Condutor mais completa e menos autoritária do que diretor.
sábado, 8 de julho de 2017
Além, muito além
Além, muito além daquela serra que ainda azula no horizonte...". Por acaso, reli esse trecho inicial de Iracema, obra de José de Alencar. E esse treco, pequeno trecho me remeteu ao Psicodrama. Moreno, criador do Psicodrama, e Zerka, grande renovadora do Psicodrama, tinham pontos de vista, posturas, atitudes, que não são fáceis de entender e muito menos de atuá-las. Talvez por isto, certamente por isto, fazer Psicodrama e tudo relacionado a ele, não é apenas aprender uma técnica ou várias técnicas. Não é só um saber a ser aprendido. Além, muito além disto, é ter como fundamento a ideia que todos podem ser agentes da própria mudança. É ter como fundamento ser o grupo senhor de seu destino, sendo o condutor/diretor um organizador, um iluminador de cenas, um estimulador de novas aventuras. É ter como fundamento o respeito integral a tudo o que aconteça no e com o grupo. É ter como fundamento ser ele, o condutor, um sensor do clima do grupo, por estar em papel diferenciado, sendo simultaneamente o diretor e membro do grupo. É ter como fundamento ser o aqui e agora o tempo e espaço do Psicodrama, mantendo todo o tempo o protagonista e o grupo nesse aqui e agora, palco da vida. É isto: Além muito além das técnicas psicodramáticas que ainda azulam no horizonte.
terça-feira, 4 de julho de 2017
Delicadeza
Conta-se que um antigo governador da Bahia, na década de 40, Octávio Magabeira, ao sair do cargo, recebeu como parabéns pelo seu desempenho essa frase dita por um baiano: "O Senhor governou a Bahia com delicadeza". Dirigir um grupo em qualquer circunstância (Teatro Espontâneo, Psicodrama, Sociodrama) exige isto do seu condutor: Delicadeza. E delicadeza não é frouxidão ou lerdeza. A delicadeza é o exercício da firmeza com mão leve. Leveza no olhar, ternura no conduzir, amorosidade no acolher, segurança no agir. Isto é dirigir em Psicodrama/Teatro Espontâneo.
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