quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O computador e o psicodrama

Há muito tempo li uma entrevista de um CEO de uma empresa grande da área de informática. E o entrevistador perguntou do futuro do computador. O CEO respondeu: desaparecerá. Essa resposta deu um susto no entrevistador. O argumento do CEO (há mais de 25 anos!) era que a entidade física do computador desapareceria e ele estaria embutido no dia a dia das pessoas. Previsão que se confirmou totalmente. Moreno tinha uma expectativa e um sonho que algo similar acontecesse ao Psicodrama. Que deixasse de ser uma ferramenta terapêutica, apenas, para se transformar em algo de uso cotidiano nas relações inter-pessoais, inter-grupais e inter-nacionais. Para o psicodramatista esse é e sempre será o desafio: incorporar os conceitos psicodramáticos a seu viver cotidiano. transcender o setting terapêutico, tornar o mundo o seu palco.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

O que resta é o mais importante

atendi essa semana uma pessoa que tem o diagnóstico há cerca de 20 anos de esquizofrenia paranoide. Ainda bastante sintomático, com atividade delirante e alucinatória intensa. Sua relação com a psiquiatria, os psiquiatras, os remédios, têm sido bastante tumultuadas. Todo o tempo altera as medicações, as posologias, para de tomar os remédios. E, tudo isto, ele lança sobre sua mãe. Nunca conversa ou discute com seus profissionais sobre os remédios. Ele e sua mãe. E diz, ainda, "não suporto vê-la sofrer". Ela, está desesperada, cansada, irritada. Esse foi nosso segundo contato após internação por quatro meses. Internou-se porque, suspendendo abruptamente os remédios, voltou a vivenciar crise psicótica severa. Em começo da conversa, diz ele "vc me pediu para entrar em contato, mas não suportei esperar". Volto a lhe dizer: "sua mãe pode lhe dar afeto e colo, mas divida comigo suas dificuldades." Às vezes, tudo o que o psiquiatra pode fazer é construir e manter o vínculo.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Chico César

 "Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, da bondade da pessoa ruim". Chico César nessa letra chama a atenção de uma coisa interessante, para os psicodramatistas, Não há "pessoa boa", não há "pessoa ruim". Há ações boas e ações ruins. Para os psicodramatistas, para Moreno, tudo se realiza pela ação, tudo se verifica na ação, tudo é validado pela ação. Pressupor que tudo que advém de "pessoa boa" necessariamente será bom ou tudo o que vem de "pessoa ruim' será ruim, é pressupor que tudo é imutável, nada nem ninguém se altera ao longo do tempo e das relações. Cada papel, cada relação é uma nova oportunidade de criar no papel, de alterar o modo de agir. Se não fora assim, para que psicoterapia? Tudo já estaria definido para todo o sempre. A visão Moreniana de papel, de papel cristalizado (pessoa boa, pessoa ruim), dá chance de se alterar formas de desempenhar nossos papéis, abre caminho de, com os pés fincados na realidade, abrir-se para mudanças.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Papel

Há uma passagem de Clarice Lispector, em A Hora da Estrela, em que ela escreve: "Todas as manhãs ela deixa seus sonhos na cama, acorda e põe sua roupa de viver". À parte a poesia e a verdade dessa passagem, ela abre, para mim, a possibilidade de tocar num assunto psicodramático. A Teoria dos Papéis Moreniana não é fácil de ser praticada, embora seja fácil, aparentemente, de ser entendida. Para ser compreendida há que se partir do conceito basilar da Socionomia; o ser humano é um ser relacional. Como tal, para ser compreendido o conceito tem-se que pensar, sempre e sempre, de forma relacional. E como as pessoas se relacionam? Por meio de papéis. Toda interação se dá por meio de papéis. Ou seja, o papel é a condensação de fala, conteúdo, afeto, gestual, na interação. Como um papel teatral, os papéis modificam-se à medida que o papel complementar se altera. Com um aluno, sou professor. Com meus filhos, sou pai. Com os amigos sou amigo. Com o chefe, sou subordinado. Com o subordinado, sou chefe. Ou seja, Moreno afirma que diante de nossas relações somos e devemos ser flexíveis. A cristalização do papel seria a grande patologia dos papéis. Ou seja, diante de filhos, amigos, alunos, subordinados, chefes, inimigos, sou SEMPRE,  por exemplo, pai. O foco aqui é no SEMPRE. Todo papel mantido indefinidamente sem se relacionar com o seu complementar, configura um sério problema relacional.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Palco, corpo

  O palco , para nós psicodramatistas, é um espaço cênico. Não há a necessidade formal de existir um praticável, uma estrutura física de palco. Havendo o corpo, há o espaço cênico. Por isso, qualquer lugar, havendo o psicodramatista, o protagonista e o grupo, pode-se realizar o Psicodrama.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Então, o que somos?

 Será que o uso das técnicas psicodramáticas fazem o Psicodrama? Apenas provocar vivências de conteúdo catártico emocional forte será Psicodrama? Se não, então o que faz o Psicodrama? O que faz com que um ato seja, efetivamente, psicodramático? Será uma fidelidade eclesiástica à memória de Moreno? Será tornar Moreno uma conserva psicodramática em seu estrito significado? Será ser um fiel da igreja moreniana? Se as técnicas não definem o Psicodrama, se não somos fiéis da igreja moreniana, então, o que somos nós? Talvez a resposta, pelo menos para mim, seja, sermos solidários a uma visão do mundo , do outro e do grupo. Sermos solidários à ideia da construção grupal. Sermos solidários à ideia de que nos relacionamos por meio de papéis.  Sermos solidários à ideia de que a criatividade aumenta à medida que a espontaneidade cresce. Sermos solidários à ideia de que a soma da visão do outro à minha, me enriquece e fecunda. Enfim, sermos solidários à uma visão da vida amorosa, construtiva, confiante na força grupal.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Parto e conforto

 Escutei de uma paciente em consultório: "Estou num útero, mas me sinto solitária!"  E lembrei-me de uma observação de Moreno sobre o nascimento em que ele diz que o estar no útero até um ponto é necessário e confortável para o feto, mas, ao crescer e desenvolver-se, o espaço diminui, a opressão aumenta. Aí o nascimento é a grande saída, a alegria do Espaço. Então, para Moreno o nascer não seria um ato de expulsão de um conforto e, sim, a abertura para o crescimento. E, também, lembrei-me da expressão "zona de conforto". Que nunca é sentida como confortável. Há vários e contínuos nascimentos em nossa vida. Em que precisamos de acolhimento , proteção, mas que o crescimento e desenvolvimento vai produzindo a mesma sensação do feto perto das 40 semanas. É a isto que as pessoas chamam de "zona de conforto". Já não é mais confortável, já não é mais proteção. Já é aperto, opressão, angústia. Para o Psicodrama, cada dramatização se comporta como novos e sucessivos nascimentos.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Minha visão

 Venho pensando, há muito tempo, como o Psicodrama/Sociodrama é curioso. A criação de Moreno vai além, muito além, das técnicas propostas e suas aplicações.  Sem a fundamentação da filosofia moreniana e da teoria desenvolvida a partir dessa filosofia aplicação de técnicas psicodramáticas soam vazias. Meras vivencias passageiras. O próprio Moreno assim dizia: "Minha filosofia tem sido mal-entendida e desconsiderada em muitos círculos científicos e religiosos. Isso não me impediu de continuar a desenvolver técnicas provenientes da minha visão de como o mundo realmente deveria ser estabelecido. É curioso o fato de que esses métodos - sociometria, psicodrama, terapia de grupo-, cria dos para implementar uma filosofia fundamental de vida subjacente, têm sido universalmente aceitos, enquanto a filosofia é relegada aos cantos escuros das estantes da biblioteca ou de todo esquecida". E qual a raiz do pensamento Moreniano?  O ser humano é um homem em relação. Sua interação com outras pessoas e objetos de interesse dá-se por meio de papéis. A Espontaneidade-Criatividade são base para a vida relacional. O grupo construído é fonte de criação e sustentação de cada pertencente. O grupo constrói o grupo. E o grupo maior é a população humana e sua relação com a natureza. É preciso, mais do que falar sobre algo, mostrar, atuar.  A concretização na cena promove a tridimensionalização do conflito, abarcando, além do verbal, o gestual, a entonação, a ação.  A comunicação analógica exibida em cena amplia e amplifica a comunicação verbal. Há sempre em cada pessoa um principio criativo capaz de promover a reabilitação e cura. Apreender a visão do outro pela inversão de papéis acrescenta muito e tanto à minha própria visão de mundo, sem perdê-la. A alegria não é um sentimento ou emoção bobo.  É o fundamento para o sim dado à vida. Cada escolha realizada pressupõe um critério para essa escolha, ainda que muitas e muitas vezes, o critério esteja obscuro, somente aparecendo em cena. Essa é a minha visão da filosofia moreniana implicada no método socionômico e instrumentalizada pelas técnicas psicodramáticas.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Moreno entra em cena - 18/05/1889

 


Fernando Pessoa escreveu: "Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra coisa todos os dias são meus".  Num ano civil comum, a data de morte de Moreno - 14 de maio - vem primeiro do que seu nascimento -18 de maio. Quando nasceu, como todos, era só um desejo e uma promessa. Fernando pessoa diz "todo começo é involuntário". Em seu início ele era um improvável filho de comerciante sefardita. Ao fim da vida, Moreno. Como todos os seres humanos somos construções de acasos, oportunidades e talentos. Moreno tornou-se isso: acasos e genialidade. E todos os dias foram dele.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Diretor dirige

 Há alguns dias estava conduzindo um psicodrama público. E, no compartilhamento, um participante fez uma brincadeira; "já que falamos de circo, vc às vezes, lembra o dono do circo. E, isto, deu oportunidade, no momento e agora, a refletir sobre as atribuições do papel do Diretor/Condutor em Psicodrama. Segundo Moreno há as funções de produtor, analista social e terapeuta. Mas, o nome do papel é Diretor (ainda que eu prefira Condutor). Diretor, dirige. Portanto, a função diretiva de iniciar, selecionar, organizar, escolher, cortar, interromper. Dirigir, conduzir, enfim. assim, a brincadeira de nosso participante/colaborador, fez ressaltar um aspecto muito importante do papel de Diretor/condutor. Sem exercer ou deixando de exercer essa função diretiva, corre-se o grande risco de, estética e terapeuticamente, perder-se na cena e/ou na atividade psicodramática.

domingo, 9 de maio de 2021

Dia do papel de mãe

 Hoje é Dia das Mães. Ou o Dia do Papel de Mãe. Pensando em termos psicodramáticos (socionômicos) o papel de mãe surge da relação com pessoas em que há os atributos de continência, aceitação, limite, disciplina, incondicionalidade do afeto e, sobretudo, magia de fazer da imaginação uma ferramenta de cura e resolução de problemas. É uma relação assimétrica entre os papéis - o de filho/a e o de mãe. Acolhimento de uma lado do papel e necessidade no outro lado dessa relação. Mas nesse papel materno cabem atores mães biológicas, mulheres, homens, amigos, amantes, profissionais de qualquer área. A função de acolhimento versus necessidade é a fundante no papel de psicoterapeuta, por exemplo. Pais podem e devem ser mães. Hoje é dia do papel materno, dia da mãe que cada um pode ser na sua relação com o outro. 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

"Meu Pai"

 "Ó árvores da vida, quando atingireis o inverno?" Este verso em Elegias de Duino de Rainer Maria Rilke sempre me impactou. Ao assistir esse novo filme, "Meu Pai", em que Anthony Hopkins, aos 83 anos, faz uma personagem com Demência de Alzheimer em seu início e progressão. Eu me comovi e me movi de forma intensa. Literalmente, me incomodou. Tirou-me do cômodo. Em seu final ele usa a expressão: "Eu estou perdendo as minhas folhas!". Foi o que me jogou nos braços de Rilke. O espectador de um filme, em geral, o vê da plateia. De fora. Como espectador. Nesse filme o espectador não é espectador: ele toma o lugar da personagem em sua confusão, angústia, medo e vulnerabilidade. Mas, também toma o lugar da filha em sua dor e incompreensão do que acontece. Assim também, toma o papel da cuidadora despreparada e insegura. O espectador/já personagem, vivencia a dor do outro sendo o outro. Isto é a inversão de papéis do Psicodrama.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

espontaneidade, criatividade

 Trabalhando com estudantes de Psicologia, um deles me perguntou o que seria Espontaneidade. Embora conceito central, pilar e objetivo do Psicodrama, não é facilmente definível. Entretanto é facilmente reconhecida. Eu só consigo me aproximar desse conceito por meio de analogias. Espontaneidade é como o verbo inglês May que denota e conota a possibilidade, a permissão. Criatividade seria algo como o verbo inglês Can denotando ação, realização. Ambos são traduzidos em Português como Poder. Esta nossa palavra reúne, em si, os dois conceitos de permissão e capacidade de realização. Espontaneidade é a permissão prévia, a priori, o conjunto universo das possibilidades. Criatividade é o conjunto intercessão que permite escolher de todas as possíveis, as melhores para o momento, para a circunstância. Quanto maior o conjunto universo, quanto maior a espontaneidade, mais as escolhas criativas poderão acontecer. A restrição da espontaneidade reduz drasticamente o universo de escolhas, resultando no empobrecimento da criatividade. That's all.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

"de volta para casa"

Durante uma conversa informal estava-se falando sobre home-working. e, no calor da discussão, para afirmar minha opinião, fiz um trocadilho em inglês. Disse eu "não é home-working, deveria ser house-working!". Home e house, em inglês, tem sentidos diferentes. Uma é a estrutura física, casa (house), a outra é a representação das relações afetivas, lar (home).  Um espaço físico torna-se um território quando é ocupado funcionalmente, habitado. Durante a pandemia, com a existência e prevalência do chamado home-working, percebemos que o espaço até então, exclusivo das relações afetivas, familiares, o lugar para onde se volta, o repouso, o lar, foi invadido pelos papéis profissionais (ou estudantis). Gradualmente, o sentido de lar, home, foi-se diluindo. Não mais "estamos indo de volta pra casa". Casa, lar, escola, escritório, consultório, palco. Tudo se misturou. E se perdeu. Gilberto Gil diz em Back in Bahia: "como se ter ido fosse necessário para voltar". Como não vamos, não voltamos. E não repousamos em paz.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

visão de mundo

O Psicodrama é mais do que um método psicoterápico. É mais do que uso de técnicas psicodramáticas. É uma weltanshauung. Esta palavra alemã significa uma visão de mundo, uma cosmovisão, um ponto de mirada, uma forma de encarar o mundo. Uma forma de encarar e lidar com as relações humanas, além do patológico, além do desconfortável, além do problemático. è uma forma de, não só ler as relações, mas também de lidar com elas. Simplificando, mas sem perder a essência, Psicodrama, a visão psicodramática do mundo, é que o ser humano é um ser em relação. Sempre. Em relação com o outro, presencialmente ou em fantasia. O mundo, visto pelo Psicodrama, não é um mundo apenas interno, mas um mundo que acontece entre as pessoas. É inter-relacional. E sempre contextualizado. o cenário, o que acontece, onde acontece, quando acontece, com quem acontece, para que acontece. Falando teatralmente, mesmo o monólogo pressupõe o outro, a relação, há uma presença, ainda que ausente fisicamente. Essa maneira de encarar e lidar com o ser humano, em que o social, o privado, o subjetivo e o objetivo estejam sempre e sempre presentes. Atravessando-se mutuamente. E é assim na vida.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...