sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Psiquiatria e Psicodrama


 Quando uso um adjetivo, sua função é a de delimitar e qualificar um substantivo. Um navio verde não é todos navios, é apenas o navio verde. Quando digo que sou Psiquiatra Psicodramatista, não estou dizendo que sou Psiquiatra E Psicodramatista, dois substantivos separados. Estou dizendo que ao modo de exercer o papel de psiquiatra agrego um modificador, um qualificador: Psicodramatista. Todos os papéis sociais têm um denominador coletivo e um diferenciador subjetivo. Neste caso o diferencial é a atitude, o olhar psicodramático.

A prescrição, a medicação, a possível internação, a vigilância, o diagnóstico, nada disto é diferente do psiquiatra não psicodramista. O que difere é o como. Reconhecer que mesmo investidos de um poder aparente (muitas vezes real) continuamos a ter no paciente psiquiátrico uma outra pessoa, em um papel complementar, com seus quereres e haveres. Ter claro que se trata de um vínculo assimétrico (eu prescrevo, ele ingere) mas que continua sendo um vínculo complementar. Naquele momento, naquele contexto, naqueles papéis, estamos estabelecendo uma relação. O psiquiatra dá o remédio mas é o paciente quem o toma. E que mais é o remédio psiquiátrico que um Ego Auxiliar químico? Por algum tempo, por muito tempo ou por todo o tempo, o remédio irá suprir o paciente com algo que neste instante ele não o tem. Ela, a medicação, nem é Deus nem o Diabo na Terra do Sol.
Antes da prescrição, entretanto, há a consulta. De regra, o paciente psiquiátrico não vem à consulta. Ele é trazido, levado, empurrado, obrigado. Quase nunca desejoso de ali estar. Como, então, estabelecer um vínculo com ele? A minha primeira pergunta, sempre, ao paciente é: “Como você se sente agora neste consultório psiquiátrico?” É a partir daí que pode se estabelecer nossa relação. Neste instante aparecem as dúvidas, os preconceitos, os medos, as imposições e chantagens familiares, as piadas. Posso passar, e às vezes passo, quase toda a consulta discutindo sobre este tema ainda sem perguntar a razão da vinda ou da “trazida”. Quando ultrapassamos este ponto, sempre ou quase sempre, já teremos criado uma relação vincular. “Eu conheço Psiquiatria mas você conhece a sua Vida”. É assim que manifesto a assimetria de nosso vínculo.
Ele sabe mais de si do que eu. Eu sei mais de doenças que ele. O que proponho é que juntemos os nossos conhecimentos e transformemos nosso encontro em alguma coisa útil e prazerosa. Neste encontro uso todos os recursos que o Psicodrama nos dá. Seja pedindo seu solilóquio em um momento de silêncio, seja dando voz a um gesto significativo, seja realizando um duplo em um outro silêncio. Principalmente, é não ficando preso à cadeira de médico. A mobilidade corporal do Diretor Psicodramático incorporada no psiquiatra aparece numa ida à janela com o paciente, em uma caminhada pelo consultório durante a entrevista. Ele sabe mais de si do que eu. Eu é que preciso me esforçar para suprir esta lacuna. E nisto está a questão da confiança. Ela não é dada, é construída. Por que deve um paciente contar a uma outra pessoa que nunca viu e sabe apenas que é médico (quando sabe!), detalhes íntimos, perturbadores, vergonhosos, pessoais? Por que o paciente tem que falar tudo ao médico psiquiatra? “Ele é seu amigo, conte tudo a ele”. Assim falam os acompanhantes. Por isso, nestes momentos da consulta, eu me apresento, digo a ele quem sou, onde e como me formei, quais meus pontos de vistas sobre psiquiatria. No papel social de psiquiatra, abro e exponho ao paciente que psiquiatra sou eu. Tenho uma biblioteca em meu consultório. Frequentemente peço ao paciente para ir lá ver o que tem e trazer algo que lhe interesse. Às vezes um livro, às vezes um objeto de decoração, uma revista. “Veja a minha biblioteca e você vai conhecer um pouco de mim”. Quando voltam, nós temos algo em comum, já podemos falar “nós”.
Sou Psiquiatra psicodramatista para aqueles que me procuram no papel de paciente psiquiátrico. Posso ser, entretanto, Psicodramatista Psiquiatra quando no curso de uma relação psicoterápica configura-se uma síndrome psiquiátrica. Se concluirmos, eu e ele, e entendermos eu e ele, que o remédio será uma utilidade, uma necessidade, haverá a prescrição e o acompanhamento clínico se dará como mais um dos fatos da vida do paciente que trabalharemos no palco psicodramático.
Finalizando e resumindo, o exercício da Psiquiatria Clínica pode ser profundamente enriquecido, sem que se transforme em uma psicoterapia “selvagem”, com a visão Psicodramática do Encontro, do Vínculo, da Complementaridade de Papéis e da Corresponsabilidade.






















quinta-feira, 19 de setembro de 2019

neologismo

Hoje a palavra ou uma das palavras da moda é empatia. Às vezes vendida como uma habilidade, às vezes vendida como solução para todos os males relacionais. A palavra empatia surge no campo da Fenomenologia para significar a ação do fenomenólogo para conhecer de dentro e por dentro o fenômeno observado. Em lugar de uma explicação externa ao fato, uma descrição vivenciada no lugar do observado. Moreno, criador do Psicodrama/Teatro Espontâneo faz um jogo de palavras em alemão. Einfühlung é Empatia em alemão. Mas a primeira sílaba - EIN - também significa Um. assim, Moreno cria um neologismo - Zweifühlung.  Zwei é Dois em alemão. Assim, Zweifühlung é uma empatia em mão dupla. Uma relação em que os dois participantes estabelecem o vínculo com um conhecimento mútuo compartilhado. Em Português, Zweifuhlung transformou-se em Tele. Tele é uma relação em que os dois membros do vinculo se reconhecem dentro de um mesmo sinal, escolha, recusa ou indiferença. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

If

A música "IF" do  grupo Bread da década de 70 sempre foi  uma das minhas preferidas. Inclusive está em meu celular. Por acaso a estava ouvindo hoje. E há esse verso: "If a picture paints a thousands words". "Se  uma imagem pinta  mil palavras". Há quarenta anos a ouço, mas hoje a escutei. Essa ideia, essa frase é atribuída ao filósofo chinês Confúcio: "Uma imagem vale mais do que mil palavras". E deu-se uma epifania. É uma frase digna de ser o lema do Psicodrama/Teatro Espontâneo. A imagem trás mais informações do que a palavra. A cena, por ser dinâmica e tridimensional, trás ainda mais informações a serem vivenciadas. 

terça-feira, 27 de agosto de 2019

E se...

Se agora estivesse em um grupo como me sentiria? Estou sem ideias, sem algo de importante ou interessante a escrever. E vejo o espaço em branco me chamando, clamando, acusando. E se estivesse em um grupo, conduzindo um grupo? E se, e quando, estando dirigindo um grupo a mente se esvazia, nenhuma ideia surge, sentimos que não sabemos para aonde estamos indo? Pois é, isso acontece. com todos. A tal ponto isso pode acontecer que muitas pessoas, prevenindo-se, estipulam uma rígida condução, planejada, cronometrada. Com a única finalidade de se proteger do "branco" de ideias. A rigidez e o controle são sempre reações de proteção diante da ameaça do vazio, da falha. E não sendo assim? E não sendo assim, que faremos ou faríamos? Lembrar-se de que o diretor de psicodrama/teatro espontâneo são membros do grupo, apenas em papéis diferenciados. Então, no instante do "branco" criativo é o momento em que houve uma indiferenciação no papel de diretor e esse papel pode e deve ser ocupado por outro ou outros membros do grupo. Ou seja, pedir ao grupo um encaminhamento para aquela cena. Dirigir um grupo não é carregá-lo nas costas.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Canhoto e psiquiatra

Há um poema de Drummond - Poema das sete faces - que diz:
"Quando nasci, um anjo torto 
desses que vivem na sombra
disse; vai, Carlos! Ser gauche na vida."

Por coincidência ou não, estava lendo esse poema ontem. E ontem foi o Dia do Psiquiatra. E ontem, também, descobri depois, foi o dia Internacional dos Canhotos. Coincidência? Pode ser. Mas ilumina a relação das pessoas com os psiquiatras e com os canhotos. Gauche, sinistro, zurdo, canhoto. Sempre se temeu os canhotos. Tanto que dextra em latim é a mão direita e quem tem habilidade em algo é destro. E sinistro é o canhoto em latim e também algo atemorizante, ameaçador. Gauche é canhoto, mas também incapaz, sem aptidão. A destreza é da mão direita. O sinistro é da mão esquerda. E o que tem isso de milenar preconceito contra os canhotos com a Psiquiatria? Tanto quanto o canhoto, o psiquiatra é temido, é tido como um exercício sinistro, e, em geral, o psiquiatra é tido como inábil ou incapaz de um olhar mais abrangente ou refinado. Para a Medicina em geral, para o público em geral, o psiquiatra é o canhoto, o inábil, o sinistro. Por isso faz sentido comemorarmos no mesmo dia os canhotos e os psiquiatras

domingo, 11 de agosto de 2019

Dia do papel de Pai

Feliz Dia do papel de pai. O papel de pai inclui o papel biológico de doador de metade da contribuição genética da futura criança. Mas não se esgota nisso. Nem inclui apenas o patrimônio XY. Nem apenas a relação de consanguinidade. Ser pai é desempenhar a função, simultaneamente, protetora e estimuladora. Criativo no explorar novos mundos e conservador para preservar a continuidade. Gerador de confiança e primeiro desafio a ser enfrentado. Parceiro e mestre e aprendiz. Rigor e compreensão. Pode-se ser pai sem pai se ser. Pode-se desempenhar o papel de pai sem ter tido ou sido pai na expressão biológica. É possível, sim, ser pai de gente, de animais, plantas e coisas. Feliz dia daqueles que, em qualquer circunstância, são tudo isso. E tudo isso suportado pelo amor incondicional. 

domingo, 4 de agosto de 2019

Sociometria e liderança

Pensando sobre a Sociometria de Moreno vem à mente a distinção entre popularidade e estrela sociométrica. O teste sociométrico é feito a partir de um critério definido explicitamente. A partir daí cada pessoa faz suas escolhas de parceria: preferencia, rejeição ou indiferença. Realizado o teste sociométrico, a popularidade é reconhecida pela maior número de escolhas unilaterais feitas a partir daquele  critério explícito. A Estrela Sociométrica, entretanto, é a pessoa com maior número de escolhas recíprocas positivas. Ou dito de outra forma: o líder popular é resultado de escolhas unilaterais. A estrela sociométrica é um líder vincular. Como há reciprocidade entre ele e quem o escolheu mapeia-se, então, uma rede vincular. O que determina o grau de influência e genuína liderança naquele grupo. Portanto, popularidade, sociometricamente falando, é menos importante que capacidade de vinculação.

domingo, 28 de julho de 2019

Sanidade - proporcionalidade - adequação

Conversando, um dia, com uma paciente, digo-lhe, entre brincando e falando sério, que só quem quer ser normal é quem já foi a psiquiatra. As outras pessoas são o que são, nunca se avaliam se estariam sendo normais ou não. Só que já pôs os pés em um consultório psiquiátrico cria esse parâmetro inexistente que é ser 100 % "normal' em 100 % das situações. E aí ela me perguntou: o que é ou seria  estar sadio? Disse-lhe, sem pensar, mas com convicção: Sanidade é proporcionalidade. No mesmo instante, pensei comigo: é a isto que Moreno dizia ser adequação, resposta adequada. Não é conformação, mas, sim, proporcionalidade. A resposta adequada, proporcionalmente, à cena proposta pelo estímulo.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Hércules?

Uma vez, há muito tempo, ouvi em um painel um psicodramista dizer esta frase: "Dirigir um grupo é uma tarefa hercúlea!". Estava nos passos iniciais do Psicodrama e isto me chocou. Hercúleo remete à Hércules, aos Doze trabalhos de Hércules. Será a direção psicodramática o Décimo Terceiro trabalho de Hércules? Como estava nos meus começos do papel de Psicodramatista não tinha clareza para entender o meu incômodo. Com o tempo, participando de grupos dirigidos por pessoas diferentes, em múltiplos lugares, fui clareando meu antigo e ainda presente incômodo. Realmente. Há Diretores Psicodramáticos que fazem da Direção uma tarefa pesada, difícil, hercúlea mesmo. E há outros diretores em que no seu dirigir sentimos e vemos fluidez, leveza, delicadeza. Nada hercúleo. Talvez afrodítico (terrível, eu sei!). E o que faz essa diferença? Não é a formação em A ou B, não é a influência de Bermudez ou Moreno. Após mais de trinta anos nesse palco psicodramático penso que achei uma luz. Os diretores que transformam o ato de dirigir um grupo em uma tarefa pesada, hercúlea, literalmente consideram que o grupo depende deles, eles carregam o grupo em suas costas. Pesado, hercúleo, duro. Os diretores que compreendem ser a direção de um grupo algo que não inclui carregá-lo, mas compartilhar, direcionar, consultar, perceber-se num papel diferenciado de membro do grupo ao tempo em que é diretor. Esses diretores transmitem uma leveza, uma fluidez e delicadeza que não é de Hércules, mas de Baco ou Afrodite.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Pressa e rapidez

Um dia,  conversando com uma amiga em um bar em São Paulo, ela, brincando, fala da neta que diz: "A pressa é inimiga da rapidez". Quase caio da cadeira (embora já existisse varias bolachas de chopp ali). Realmente. Pela boca de uma criança saia uma assertiva profunda. O que é pressa? A que responde a pressa? Pressa é tentar se livrar de uma tarefa, pressa é sentir-se atrasado para algo, pressa é não poder atrasar, pressa é resposta à ansiedade. E o que é rapidez? É resultado do domínio de uma técnica ou de um método que faz com que alguém realize algo com eficácia e eficiência. É o resultado de se conhecer os caminhos ou os modos de andar. Rapidez tem a ver com precisão. Pressa é, geralmente, ineficaz e ineficiente. Há um ditado popular que diz: " o apressado come cru". A sabedoria popular tem razão. O apressado não dá o tempo de cozimento necessário e obtém um prato mal feito. Transpondo para a direção psicodramática a pressa no aquecimento, a pressa na busca da cena protagônica, a pressa na busca do protagonista, a pressa em fazer dar certo, leva o apressado a obter cenas cruas, dramatizações cruas, nada saborosos e, principalmente, indigestos.

terça-feira, 2 de julho de 2019

E quando?

E quando os olhares não mais convergem, não mais se olham, não mais se veem? E quando os atores estão em peças diferentes embora no mesmo palco? E quando os atores já não servem de escada um para o outro? E quando atuar transforma-se em um contínuo suportar, apenas suportar? E quando the show must go on? Isto seria um relacionamento qualquer em sua fase ou momento difícil, sob o olhar do Psicodrama.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Umberto Eco, again

Li há algum tempo, uma crônica de Umberto Eco em que ele fazia uma inteligente observação sobre o ato de reconhecimento. Reconhecer e ser reconhecido, dizia ele, era, até bem pouco tempo, algo referente a uma atitude, uma ação, um gesto feito por alguém que o notabilizava diante dos outros. Um descobrimento, uma invenção, uma posição política. E aí ele faz sua pequena e aguda observação. Ser reconhecido, hoje em dia, é literalmente ter seu rosto reconhecido, ter sua fisionomia reconhecida, pela recordação de alguma mídia em que haja saído sua imagem. Não mais se trata de reconhecer algum nível de grandeza humana no outro. Mas, sim, simplesmente, reconhecer um rosto já mostrado. É a própria sociedade do espetáculo em ação. Um rosto na mídia vale mais que um feito, uma realização importante. A imagem suplanta o conteúdo. 

sábado, 15 de junho de 2019

Soneto e Psicodrama

Soneto
Chico Buarque

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio


Chico é sempre Chico. Mas, ao lado de ser um Poeta, há o que pode ser lido nas entrelinhas de seu poema/letra. Em Psicodrama/TeatroEspontâneo, a ideia central é permitir ao protagonista um novo olhar. Isso porque o olhar cristalizado, o olhar conservado, o olhar petrificado, para nós, Psicodramistas, é  o núcleo dos problemas existenciais. Mas, psicoterapia não é salvação a todo custo. "Vou lhe salvar quer queira ou não". O poema/letra de Chico mostra que o risco e o medo de mudar, muitas e muitas vezes,impede a própria mudança. Nesse caso, o Psicodrama/Teatro Espontâneo permite que a mudança de vida ou de atitude seja realmente experimentada na realidade suplementar do palco psicodramático. E sem desafiar o medo/temor do protagonista. Mas dando a ele a segurança e a continência do como se Psicodramático.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Dia dos Namorados/Enamorados

Para nós Psicodramistas as relações se estabelecem entre papéis. Ou seja, não existe um eu sozinho, o eu é sempre relacional. E, em cada relação mediada por papéis há sempre instantes de tomada (aprendizado) do papel, desenvolvimento desse papel e criação sobre ele. Isto continuamente num loop existencial. Cada papel constitui seu papel complementar. E essa relação pode se construir de forma simétrica ou assimétrica. O nosso grande mestre Dalmiro Bustos, num grande saque, diz que papeis assimétricos são nomeados diferentemente e papeis simétricos são nomeados com uma mesma palavra, no plural. Assim, professor/aluno, marido /mulher, pais/filhos, terapeuta/paciente são vínculos assimétricos. Amigos, namorados, inimigos, irmãos são vínculos simétricos. Então, em vínculos simétricos os dois papeis se complementam de forma paritária. assim namorados é um vínculo simétrico caracterizado pelo enamoramento. Essa condição de enamorado/enamorada é o que dá a esse vínculo a nomeação de namorados. Portanto, no dia dos namorados estaremos celebrando a condição de enamoramento, estar enamorado, estar em amor. 

sábado, 1 de junho de 2019

Arte e/ou técnica

Desde cedo quando descobri que, em Grego, a palavra techné é arte, fica flutuando pelo meu espírito uma dúvida que nunca soube muito bem qual era. Sentia que havia algo, mas não estava claro o que. Passei a pensar e refletir.
Os gregos chamavam de techné àquilo feito com habilidade e destreza. Heródoto definia como: saber fazer de forma eficaz. Ars, já para os latinos, conserva a mesma acepção, com outra palavra. Na Idade Média, Ars Mechanica começou a corresponder ao que hoje chamamos de técnica. E aí começa uma divisão entre o técnico e o artístico. Ao primeiro termo é dada uma conotação de precisão e seriedade que parece faltar, no senso comum, ao artístico. Ser técnico é ser preciso, exato, científico. Sério, portanto. Ser artístico é ser sonhador, pouco racional, impreciso. Não sério. Um filho técnico faz o pai confiar no seu futuro. Um filho artista é uma preocupação constante. Entretanto, ao vermos ou lermos a descrição de um matemático da demonstração de um teorema, percebemos que há um sentido estético na apreciação. Uma bailarina é precisa, hábil. Há destreza em seu passo. Os longos anos de preparação de uma bailarina, suas dores, falam de técnica, precisão, exatidão. O exercício é Técnica. E Arte. E como Arte inclui a estética. O gesto preciso e econômico. Como o Artesão. O Artista sabe. E sabe fazer de forma eficaz. O Artista é exato. Chico Buarque diz da saudade: é o revés do parto. Econômico, preciso. Tal como E=mc2. Esta fórmula é bela. Chico é exato. Sempre o bem-feito traduz-se em sensação estética. Podemos estar em sala de psicoterapia, numa prancheta, em um papel escrito, um campo de futebol, uma tela, um barro ou mármore. Tanto a nossa Arte quanto a nossa Técnica confluem-se no bem-feito. Não nos esqueçamos que Poesia, também em Grego, provém do verbo Poesis com significado de fazer, fabricar. Arte ou Técnica? Arte/Técnica: exatidão e estética, rigor e espontaneidade, precisão e leveza.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...