segunda-feira, 26 de junho de 2017

Paralisias, impulsividades...

A angústia ou nos paralisa ou nos precipita num ação impulsiva. Essa polaridade de um mesmo estado afetivo pode ser melhor visto pelo Psicodrama (Teatro Espontâneo). De um lado, a espontaneidade, sendo a disponibilidade, a ausência de restrições prévias ou autorestrições, o estar pronto e aberto a tudo. E a outra face da moeda, a criatividade, a potencia de agir, de realizar a melhor ação possível, a mais adequada à circunstancia, a mais produtiva e fértil. Então, a paralisia e impulsividade, expressões da angústia, são, essencialmente, pouco ou nenhum desenvolvimento do par espontâneo criativo. Mas esse par, espontaneidade/criatividade, não é viver em um mundo ilusório, onírico ou fantasioso. Não é pairar acima das dores humanas. É, exatamente, o oposto, o contrário. É, diante de todos os entraves, das pedras pelo caminho, poder (espontaneidade) ter um repertório de respostas amplo e profundo e diversificado. E poder (criatividade) atuar aquela ou aquelas que melhor promovem sua vitalidade relacional, em seus múltiplos papéis. É reconhecer a merda e poder fazer dela adubo para a próxima ação. Sem ficar a reclamar do cheiro nem jogá-la no primeiro alvo que veja.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Método?

Método em grego significa por meio de (meth), caminho (hodos). Significa um caminho definido por meio do qual se chega a um objetivo. O Psicodrama (Socionomia) é um método de apreensão do mundo. Do mundo como um todo. Não apenas como psicoterapia. O próprio Moreno dizia que usar o Psicodrama apenas como psicoterapia seria como usar um avião para ir à esquina comprar algo. Então, mais, muito mais do que usar-se técnicas psicodramáticas, o Psicodrama necessita de uma visão de mundo, de uma filosofia. Apenas como usuário de técnicas psicodramáticas, essas podem a tudo servir. A ideia fundamental do Psicodrama, do ser humano como um ser em relação, ultrapassa a ação psicoterápica. Torna-se uma forma de viver a vida em seus vínculos. O conceito de papel como uma relação vincular em que os dois membros da equação (papéis complementares) se constituem mutuamente coloca-nos a responsabilidade da construção de nossas redes de vínculos. O conceito fenomenológico de tomar a realidade como ela se apresenta sem pressuposições; a ideia de todos terem, em potencial, a possibilidade de transformação; de reconhecer a imobilidade e fixidez como não criativos; de fazer da espontaneidade/flexibilidade a condição para uma vida saudável; de perceber que, em todos os papéis, há tempo de aprendizado, desenvolvimento e criação; que os papéis têm tempos de maturação diferentes. Psicodrama,Socionomia, é muito mais do que um método de tratamento. É uma forma peculiar de vivenciar as relações humanas.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Pai

Papel de pai. Suporte, ajuda, ombro, presença, distância próxima, proximidade distante, dor contida, dor expressa, alegria compartida, respeito. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Desenhos, séries, gente

"Não sou tão bom quanto gostaria de ser". "Se não puder ser ótimo não vale a pena ser bom". "Ficar doente é ser fraco". Olhando os desenhos animados, séries, filmes, vemos que os personagens mantêm suas características, pelas quais são reconhecidos, ao longo do tempo, das décadas. Pica-Pau, Popeye, Joey (Friends), Sheldon (Big Bang). Em qualquer que haja sido o tempo em que foi produzido, mesmo com diferenças de anos, nós os reconhecemos. O seu agir, suas ações são sempre as mesmas. Seres humanos reais e concretos se tiverem ao longo de suas vidas essa rigidez, fixidez, de ações e respostas, dos personagens citados, são para o Psicodrama papéis conservados, cristalizados. A essência da vitalidade relacional é a flexibilidade, adaptabilidade, fluidez. Para Moreno, criador do Psicodrama e Teatro Espontâneo, a patologia central geradora de outros problemas é a rigidez, a fixidez, a inflexibilidade, traduzida como falta de Espontaneidade e Criatividade. A definição moreniana para essa dupla é a capacidade de dar uma resposta nova a um problema antigo ou uma resposta adequada a um problema novo. Os personagens de desenhos, séries, filmes, são previsíveis, cristalizados. Não são espontâneos.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Senso de história

O senso de história existe desde sempre. Toda criança tem o ouvido atento para o ritmo de algo contado. Para ser história há que ter uma apresentação dos personagens, um problema, um clímax e uma finalização. Pode ser curta ou longa. Mas, qualquer criança cobra daquele que está contando algo: "Já terminou? E o final? História chata. O que a criança ou qualquer ouvinte percebe e cobra? Isto é o senso de história. Começo, desenrolar, clímax e final. Seja no Teatro Espontâneo, seja no TE aplicado à clínica que é o Psicodrama, trata-se sempre de história. História acontecida, história inventada. Só é possível dramatizar histórias. Histórias que se tornam cenas. Um simples estado de alma, um sentimento não é história, não dá para dramatizar. Um estado de espírito, um sentimento, devem ser localizado em uma cena. Uma cena que tenha esse sentimento/afeto como fundo. Dramatização = Ação de dramatizar. Precisamos transformar adjetivos em verbos de ação. Isto gera história. Histórias que se transformam em cenas dramatizadas. E isto é Teatro Espontâneo, Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Apenas bobagens

Bobagens, apenas bobagens. Puras bobagens. Numa sessão aberta de Psicodrama e/ou Teatro Espontâneo, num grupo com pessoas de 67 anos a 23 anos, todo o tempo foi uma revisitação à bobagens da infância, adolescência. Power Rangers, A Hard's Days Night, Sydney Sheldon, de repente 30, Caverna do Dragão, Sgt. Peppers, Belchior, Trés espiãs demais, O Patinho Feio, Beatles e Caetano Veloso, O lagarto na Barra, profecias infantis, igrejas, sonhos, medos, mais Belchior, liberdade, coragem de sair, coragem de voltar. E um conselho onírico: Vá viver! Puras, puras bobagens! Benditas e maravilhosas bobagens.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Diretor, membro grupal

Moreno, criador do Teatro Espontâneo, Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama, dizia em um momento: "O Diretor é um membro do grupo em papel diferenciado". Olhemos com cuidado. A primeira parte da expressão diz ser o Diretor um membro do grupo. Sendo um membro do grupo, tudo o que acontece naquele grupo, sentimentos e ações, também o atingem, o afetam, o mobilizam. Perpassa por ele, ele é atravessado por todos os acontecimentos grupais. Mas, e esse mas é fundamental, Moreno acrescenta um limitador: "em papel diferenciado". Indiferenciação, diferenciação no papel. E o que é isto? estar diferenciado em um papel é a percepção constante desse atravessamento grupal, dessa mobilização, dessa afetação, dentro de um vínculo. Estar indiferenciado é agir movido pela impulsividade, pela reatividade. Assim, o Diretor em Teatro Espontâneo, Psicodrama, Sociodrama, é solicitado em sentidos distintos. De um lado, por ser membro do grupo, sentir, deixar-se atravessar pelas ocorrências grupais, ser uma verdadeira antena grupal. Mas, por ter que estar diferenciado em seu papel, tem que ter essa nítida percepção do que acontece em si como parte do grupo e quando for intervir, fazê-lo dirigido pela necessidade da cena, não pela reação espontânea de um membro grupal apenas. Todo o trabalho em nossa área Socionômica visa estimular, desenvolver, ajudar a criar, a espontaneidade de todo e cada membro do grupal. Entretanto, o Diretor de Psicodrama ou Teatro Espontâneo desenvolve sua espontaneidade, mas quando está em seu papel, essa espontaneidade tem que ser a necessária para aquela cena, aquele momento grupal. A nossa  Espontaneidade como Diretor é funcional. O membro grupal pode agir de qualquer forma, mas o Diretor, por estar diferenciado em seu papel, atua não em benefício de si, mas do desenvolvimento da cena grupal.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Ignorância

Ignorar é desconhecer, não saber algo, desconsiderar. Quando falamos de algo relacionado a conhecimento, essa ignorância é da esfera cognitiva. Mas, nas definições dicionarizadas, aparece, também, desconsiderar. Desconsiderar é não considerar. E considerar é fazer caso de, respeitar, observar, atentar. Portanto, desconsiderar, ignorar, desrespeitar, não observar, não atentar, não fazer caso de, são sinônimos. Do ponto de vista relacional, há uma ignorância do outro, um não fazer caso do outro, não respeitar o outro, não atentar ao outro. Essa ignorância relacional é o foco das ações Socionômicas, seja Psicodrama, seja Sociodrama, seja Axiodrama. No Teatro Espontâneo esse foco aparece não como um objetivo, como é nas outras ações, mas no próprio mecanismo de construção coletiva de uma história grupal, na absoluta necessidade para o desenrolar da cena da plena atenção ao outro, na total consideração do outro, no respeito completo à atuação do outro. Todas as criações Morenianas são lastreadas na ideia de que todos ser humano se constitui em sua relação com os outros, vinculados em múltiplos papéis.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Honestidade

Pensava sobre desonestidade, honestidade. Em todas as definições dicionarizadas aparecem como significado honradez, sinceridade, pudor, pureza. Refletindo sobre esses termos, todos referem-se a um olhar de uma outra pessoa. É alguém diante do outro quem pode ou não ser honesto. Ainda que esse outro possa ser alguém vendo a si, sendo um espectador de si. Honestidade, então, é algo relacional, é atributo de uma relação que vivencia transparência em suas transações afetivas e/ou cognitivas.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Quem casa...

Quem casa, quer casa. Assim diz uma expressão popular. E não se trata, exclusivamente, de casa em sentido material, físico. O novo casal, o novo par necessita delimitar um espaço para se construir como uma nova singularidade. Esse espaço é físico, material. Mas, não só. É também, e principalmente, um separação dos vínculos originais, familiares, primários. Separação necessária para o desenvolvimento de um novo papel anunciado por esse novo vínculo. O papel de parceiro de um casal, de um par. Soma-se aos papeis originais de filhos e filhas um novo e outro papel. Partner, parceiro, amantes, companheiros. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Bukowski e outros

O poeta beatnik Bukowski escreveu: "O problema com o mundo é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, enquanto as pessoas estúpidas estão cheias de certezas". Dois psicólogos americanos descreveram o agora chamado Efeito Dunning-Kruger: "O incompetente é tão incompetente que não reconhece sua própria incompetência, enquanto os competentes duvidam muitas vezes da própria competência." Poetas falam melhor que os técnicos. 

domingo, 14 de maio de 2017

dia do papel de Mãe

Hoje é Dia das Mães. Ou o Dia do Papel de Mãe. Pensando em termos psicodramáticos (socionômicos) o papel de mãe surge da relação com pessoas em que há os atributos de continência, aceitação, limite, disciplina, incondicionalidade do afeto e, sobretudo, magia de fazer da imaginação uma ferramenta de cura e resolução de problemas. É uma relação assimétrica entre os papéis - o de filho e o de mãe. Acolhimento de um lado do papel e necessidade no outro lado dessa relação. Mas nesse papel materno cabem atores mães biológicas, mulheres, homens, amigos, amantes, profissionais  de qualquer área. A  função de acolhimento versus necessidade é a fundadora do papel de psicoterapeuta, por exemplo. Pais podem e devem ser mães. E é função do papel materno. Hoje é dia do papel materno, dia da mãe que cada um pode ser na sua relação com o outro.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Uma outra forma de olhar

Habitualmente vemos o Teatro Espontâneo (TE) colocado como um dos instrumentos da Sociatria Moreniana. E a Sociatria é a parte da Socionomia de intervenção no grupo. Assim, Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama são juntos com o TE postos como instrumentos Sociátricos. De uma certa forma, o TE é visto como algo de segundo plano. Apenas lúdico, apenas estético, apenas artístico, apenas para ser visto. Sem o peso consagrador da importância terapêutica atribuídos aos outros instrumentos. E se não for assim? E se pensarmos diferente? E se voltarmos à ideia original Moreniana da criação ou recriação no palco de uma situação para permitir um novo olhar? Isto resultou no Teatro Espontâneo. A partir de então Moreno viu o potencial da ação esteticamente trabalhada (TE) a ser aplicada em contextos específicos. No contexto de papéis sociais, o TE torna-se Sociodrama. No contexto de histórias individuais, o TE torna-se Psicodrama. No contexto de valores éticos de uma comunidade, o TE torna-se o Axiodrama. Todas estas intervenções são formas especializadas de Teatro Espontâneo. E do TE tem-se que aproveitar a visão estética da construção da cena, a atenção ao ritmo de desenvolvimento dessa cena, sua fluidez, atenção ao aquecimento da plateia como co-construtores da história. Pensar, agir, dirigir como Teatro Espontâneo faz todas as outras intervenções Sociátricas mais potentes e profundas. 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Nem tanto nem tão pouco

Ao longo da vida desempenhamos múltiplos papéis. Papeis que surgem na relação com outras pessoas, nos vínculos que se estabelecem. E cada um desses papéis tem seu tempo e trajeto de maturação. No momento em que estamos entrando em contato com este novo papel nada sabemos dele, somos inexperientes nele. Tudo parece algo difícil de ser alcançado. Quando vemos alguém exercendo esse papel com maestria sentimos ou tememos não conseguir atingir aquele desempenho. Este período ou momento chamamos em Socionomia/Psicodrama de Tomada do Papel (Role-Taking). Com o tempo percebemos que aprendemos a exercer bem o papel, sabemos fazer o necessário. temos confiança no que fazemos ou agimos. mas seguimos estritamente o modelo ensinado. Fazemos bem feito o que aprendemos. O que tememos neste período talvez seja aquilo que nos surpreenda, que não esteja no roteiro ensinado. temos segurança enquanto tudo se comporta como o apreendido. Esse é o que chamamos o período do Desempenho do Papel (Em inglês é melhor: Role-Playing). E talvez nos chegue o momento em que transcendemos o ensinado, nos autorizamos a inovar, a criar, a agir conforme a necessidade. Em que não mais seguimos o modelo ensinado e apreendido, mas inventamos, criamos o nosso jeito de desempenhá-lo. A Criação no Papel (Role-Creating).  A visão de Moreno da Teoria dos Papéis remete para uma vida dinâmica, em que estamos continuamente tomando, exercendo e criando em papeis novos. Cada nova situação de vida, cada novo vínculo, cada novo interesse faz com que esta ciranda de papeis esteja rodando, girando. a grande patologia para Moreno era a cristalização no papel. o congelamento, a imobilidade na atuação de papéis. O fluxo contínuo e constante e circular de Role-Taking, Role-Paying, Role-Creating dos papéis permite a Espontaneidade neste desempenho. Aceitar que nos desejáveis múltiplos papéis que desempenhamos não estaremos nos mesmos estratos no mesmo momento de vida. Como profissionais podemos estar mais desenvolvidos no papel, mas nas relações amorosas não. Exigir de si e do outro que o desempenho em todos os papéis sejam iguais; esperar que o mau desempenho em um papel necessariamente leve ao mau desempenho em outros papeis. Isto é a patologia dos papéis em Moreno. E isto abre o caminho para a esperança. Ninguém é tão bom ou tão ruim em tudo. Sempre há possibilidade de encontramos a flexibilidade que permita esta compreensão e aceitação. 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Engrenagens, vínculos


Assistindo mais uma vez a Tempos Modernos com Charlie Chaplin. A imagem das engrenagens girando permanece em mim. Carlitos girando preso nelas, embora com um sorriso no rosto. Olhando, o que vemos são rodas denteadas rodando em velocidades diferentes, com tamanhos diversos, com número de dentes variados. Girando ritmicamente. Pensando num sistema de engrenagens, quando uma delas muda seu passo todas as outras mudam também. Ou rangem, ou fazem barulho ou quebram. As relações humanas, nossos vínculos, são algo como sistema de engrenagens, Tal como essas, aquelas. Os vínculos tem seu tempo de amaciamento, em que as engrenagens no atrito mútuo, vão-se desgastando, amaciando-se, para que girem sem ruídos. Também os vínculos precisam de um tempo de cessões mútuas. E se uma delas altera seu passo, sua engrenagem complementar necessita alterar-se. Uma mudança em uma das pontas do vínculo obriga a mudança na outra ponta. Assim como na mecânica: não sendo feito o ajuste do passo, do ritmo, haverá ruído, barulho, rompimento, quebra. Estendendo a analogia, se uma das engrenagens é feita de uma material maximamente duro e e rígido, ela não se desgastará no processo de amaciamento. Não haverá ruído nem rangido, mas às custas do desgaste unilateral da engrenagem complementar, de sua destruição mesmo. Nos relacionamentos, a inflexibilidade, a rigidez, o autoritarismo de um dos lados promoverá o desgaste unilateral da engrenagem-vínculo complementar. Não haverá ruído nem rangido nem barulho. E tudo isto ás custas da destruição de um dos lados do vínculo. A paz dos cemitérios.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...