Selfie ou autorretrato (quando falávamos português) é ver-se numa imagem fotografada por si. O que difere de uma foto tirada por outra pessoa? Penso ser o ângulo. Numa fotografia qualquer nos vemos como algo fora de nós. Vemo-nos como os outros nos veem. Num autorretrato (selfie) somos o agente e e o objetivo. Aquele que faz e, simultaneamente, é o centro da atenção. Estamos sempre mais próximos na selfie que numa foto comum. O olhar de quem fotografa é o olhar fotografado. E daí? Há esta ideia pairando em minha cabeça. A interpretação é como uma foto tirada de nós por outra pessoa. A experiência psicodramática é como uma Selfie, um autorretrato. Somos nós vendo a nós. O foco é dado por mim, O ângulo é orientado por mim. Sou autor e ator de minha foto: Selfie. Sou autor e ator de minha história: Psicodrama/Teatro Espontâneo
domingo, 27 de outubro de 2019
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Que viva o Teatro Espontâneo!
Interessante (ou doloroso) que o Teatro Espontâneo seja colocado como uma outra forma de instrumento de intervenção na Sociatria, denominação dada em Socionomia ao conjunto de Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama e TE. Na prática, no dia a dia, o TE é colocado como o filho meio cabeça de vento, criativo, mas pouco sério, sem muito futuro. As pessoas sérias, os psicodramistas sérios fazem Psicodrama, Sociodrama ou Axiodrama. TE não. TE é para artista, extrovertido, diversão. Bom de se ver. Apenas. E como isto tem sido ruim e danoso ao desempenho da direção de qualquer ato socionômico. O sempre lembrado, por mim e por muitos, Moysés Aguiar, costumava dizer que o Psicodrama tornava-se cada vez mais Psico e cada vez menos Drama. O nosso diferencial, nosso sustentáculo, nosso pilar, o palco, a cena estavam sendo deixada cada vez mais de lado em nome do enfoque Psico. E o que podemos com o TE? Teatro Espontâneo é bom, é necessário, é vital, para todos os que trabalham com a Sociatria e a visão Socionômica de vida. Não é só para a plateia que o TE é importante. mas para o profissional socionômico. E por que? Por que ao dirigir um TE aprende-se a construir e dramatizar histórias. Aprende-se a desenvolver o senso de história. Aprende-se a descobrir o que pode ser dramatizado e o que não pode. Aprende-se a manter atenção plena do aquecimento grupal, sob pena de nada acontecer. Aprende-se que a atenção à estética da cena aumenta, potencializa a eficácia da dramatização. Aprende-se que o ritmo da cena é tudo. Aprende-se que não levar o ritmo em conta compromete terrivelmente o aquecimento grupal. Enfim, fazer TE, para qualquer que seja o psicodramista, faz com que ele faça o que faz melhor e com maior potência. Teatro Espontâneo é o tronco central onde corre a seiva da Socionomia. Dele saem os ramos de Psicodrama (TE aplicado à clínica, a uma história individual), o Sociodrama (TE aplicado a temas de papeis sociais), o Axiodrama (TE em que o tema da sua história são valores éticos). E também ao lado pedagógico/organizacional. Tudo é Teatro Espontâneo, aplicado a situações especificas ou grupos específicos ou temas específicos.
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
As voltas que o mundo dá: A estrada enevoada
Motivo: Teatro Espontâneo (TE) na Jornada de Psicodrama da PROFINT. Espaço: Uma sala cheia de obras de arte deixando um espaço central para o palco. Público: Estudantes de Psicodrama, estudantes de Psicologia, profissionais. Todos expectantes. Pouquíssimos haviam experimentado um TE. Sentimento prévio da Direção: Privilégio e temor. Privilégio pela beleza do espaço e temor pela possibilidade de dano a alguma peça pela movimentação dos participantes. Fala o Diretor: propõe um aquecimento minimalista evitando grandes rompantes físicos. Depois de algumas ações aparece uma imagem escolhida pelos participantes: Uma estrada enevoada. Apenas isto. E é esta imagem que conduz o resto do trabalho. O Diretor pede quatro voluntários para “fazer qualquer coisa”. Risadas depois, surgem os quatro atores. Constrói-se uma primeira cena experimental. Caminhoneiro e ajudante numa estrada esburacada. Os dois atores, desaquecidos, são caricaturalmente engraçados. Cena congelada. Ao grupo é perguntado a sensação, o sentimento do momento. “Perdida, não sei aonde vai dar”: O sentimento mais presente no grupo naquele instante. Peço que compartilhem histórias com este clima de se estar perdido, não se ver à frente, não ver saída. Aparecem várias histórias. Uma com forte intensidade emocional: Mãe falece, filhas em casa, filho, único homem, é obrigado a retornar de outro estado, abandonando a vida já construída para cuidar de tudo o que ficou. Clima pesado. Peço ao dono da história para usá-la como enredo inicial de nosso TE.
O grupo escolhe dois personagens, André (o filho) e Ana (a filha). Uma atriz espontânea escolhe ser André, 30 anos. Outra atriz espontânea escolhe ser Ana, 18 anos. Espaço e tempo: Quarto de Ana, dia seguinte ao sepultamento da mãe. Ana chorosa na cama. André tenta animá-la e a consolar: “Você precisa voltar à realidade, encarar a realidade”. Diz isto em voz baixa e contida, com gestual discreto. Ana responde aos gritos: “Eu perdi a minha mãe!”. A cena prossegue com André pouco incisivo, com argumentos racionais, balançando a cabeça de um lado ao outro, lentamente. Peço-lhe seu solilóquio. “Estou sem saber o que fazer, eu também sofro por ela ter só 18 anos, mas ela devia compreender!”. O incômodo da plateia é perceptível. Congelada a cena, peço um duplo da plateia para o personagem que quisesse. “Estou irritado, muito irritado com você! “, fazendo o duplo de André dirigindo-se a Ana. Com a cena congelada pergunto se alguém quer ocupar algum lugar na cena. A primeira pessoa entra no palco com muita disposição. Entretanto, quando a cena começa ela começa a diminuir o ritmo e a repetir o mesmo gesto de balançar a cabeça. Seu solilóquio: “Não sei mais o que fazer”. Em seguida, o dono do duplo “estou irritado” se apresenta. Entra no quarto, dirige-se a Ana deitada, chorando e fala em tom autoritário e incisivo: “Você não só tem 18 anos, você já tem 18 anos”. “Só temos nós agora”. Ana retruca com violência: “eu perdi minha mãe ontem, você que mais o quê?”. Este dialogo é congelado pela violência das palavras, intensidade emocional e proximidade física das personagens. E é pedido que continue em câmara lenta gestual, mas acentuando a intensidade verbal. Uma pessoa entra, no papel de uma vizinha, D. Maria. Ela entra no quarto, no palco, abruptamente, dirigindo-se a Ana. André grita:”Como você entrou, o que você está fazendo aqui?”. .D. Maria abraça Ana, a beija, a conforta. Peço a André seu solilóquio: “O que esta mulher está fazendo, este problema é só nosso, que invasão é essa!” Diz isto balançando a cabeça veementemente. Pergunto se mais alguém quer experimentar e uma pessoa ocupa o lugar de Ana. Recomeça a cena da briga, sem a vizinha. Mas agora Ana agride a André: “Você não estava aqui, você foi fazer sua vida longe daqui, eu estive aqui, eu fiquei com minha mãe!”. A cena continua com Ana acuando a André: “Você quer que eu fique logo bem para poder voltar a sua vida!”. André a olha sem resposta. Seu solilóquio: “Não tenho saída”. Solilóquio de Ana: “Te peguei!”. Paro a cena aqui e olhando a plateia há uma participante francamente comovida, tremendo. Diz em seu solilóquio:”Foi isso que vivi quando meu irmão foi assassinado”. Chora muito, mas dá-se por satisfeita com a continência grupal. Dirijo-me ao dono da história e ele diz: “Foi sofrido e doloroso ver tudo de novo, mas foi bom para poder continuar lidando com tudo”. A vizinha Maria diz ter pedido o pai há dois meses e não suportar ver uma família desfeita. O primeiro André compartilha sua grande necessidade de controlar e controlar-se, de manter o equilíbrio. A primeira Ana (estudante de Psicodrama) conta ser sua primeira vez que se dispõe voluntariamente para entra em um papel e ficou surpresa em perceber que tudo era real para ela. O “irritado” André, o segundo André, fala de sua própria experiência quando ele teve que ser o “André” durante uma crise familiar, “escondendo o que sentia para ajudar aos outros”. A última Ana conta sua história de abuso, bullying e incapacidade de reagir diante de agressões. O grupo me pergunta: “Tom, você não vai compartilhar?”. Conto-lhes, então, ser esta também minha história. Também fui ”André”, também tive que engolir o sofrimento em função de lidar com a situação, também fui obrigado a deixar coisas para fazer coisas, em um tempo de minha vida. A plateia olha-me com perplexidade e simpatia.
Tudo isto que aconteceu durou uma hora e 15 minutos.
E agora? O que é TE (Teatro Espontâneo)? É a alma-mater da Sociatria. No método socionômico as intervenções são agrupadas no título Sociatria. Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama. Geralmente aí é incluído o TE, como se fora outro instrumento de intervenção grupal. O que proponho é não ser o TE um outro instrumento sociátrico, mas, sim, o verdadeiro tronco de onde se originaram os ramos Psicodrama, Sociodrama e Axiodrama. Ou como Moysés Aguiar dizia, um guarda-chuva sob o qual estavam as modalidades citadas. Desta maneira de ver, um TE em que a história e o papel protagônico são desempenhados pelo representante grupal, ou dito de outra forma, quando o enredo pertence ao ator, tem-se um Psicodrama. Se o TE é tematizado em papeis sociais, num grupo em que o foco está nesses papeis sociais, na história daquele grupo, teremos um Sociodrama. Se enfim, o TE está centrado em temas de natureza ética, valores éticos, aí teremos um Axiodrama.
Mas, o que é TE? É a dramatização de uma historia criada pelo grupo. É uma obra coletiva na criação e execução. O aquecimento leva a imagens, histórias. Ao grupo cabe transformá-las em narrativas dramatizáveis. Isto é o fundamento do TE. Recriar, retomar, a capacidade infantil de criar e contar histórias. O senso de história: início, desenrolar, conflito, resolução. Em nosso TE vivenciado naquela Jornada Sergipana, após o aquecimento o grupo escolhe sua imagem-tema daquela tarde: uma estrada cheia de neblina. A primeira encenação foi literal. Uma estrada, a neblina, um caminhão, dois personagens. Em seguida a esta cena, o grupo diz-se, sente-se, demonstra estar perdido, sem saber aonde ir. O clima de desnorteamento passa pelo grupo. Essa primeira ação dramatizada produziu o aquecimento necessário para a dramatização de outro tipo de estrada enevoada, a estrada da vida. Como este era o tema protagônico daquele grupo, naquele momento, houve consonância e ressonância da plateia. Em cada instante em que havia um ponto de tensão maior, um ponto de paralisia de ação, ao grupo era devolvido a possibilidade de intervir, introduzindo atores novos ou personagens novos. O aparecimento da personagem Maria, elemento salvador no triangulo dramático (perseguidor-vítima-salvador); dos novos André, da nova Ana conduzem a um clímax dramático. E no TE, como em qualquer manifestação artística, cabe ao espectador, à plateia, dar sentido, dar significado àquilo mostrado e vivenciado.O grupo coloca a legenda na foto.O grupo no TE ou o protagonista no TE chamado de Psicodrama. A primeira imagem escolhida , da estrada enevoada, pode ser a legenda dos gestos desesperançosos de balançar a cabeça dos André, na fala “não sei mais o que fazer”, na violência da impotência.
“No meio da estrada da vida”. Assim começa a Divina Comédia de Dante Alighieri. O filme de Fellini “A estrada” tem o mesmo tema. Na maturidade ou em qualquer momento, a estrada pode tornar-se cheia de neblina. Em que tudo parece incerto e duvidoso. Em que não se vê propriamente o caminho. Quando os sentimentos vigentes são de perdição, impotência, raiva.
Assim foi o nosso TE. Assim é o Teatro Espontâneo.
“Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro.” Mensagem, Fernando Pessoa
terça-feira, 8 de outubro de 2019
Felicidade?
Estava lendo um livro besta, policial. Mas, neste livro, apareceu um conceito que me deixou intrigado. Lá estava numa fala de um personagem: "A felicidade é resultado de uma relação entre expectativa e realidade". Ou seja, pensando um pouco, quanto menor a expectativa e menor a realidade, menor será a felicidade? Uma pessoa dentro de seu mundo delirante, em que a realidade compartilhada pelos outros não é vivenciada por ela, sua expectativa é limitada pela sua realidade delirante, apenas. Ou uma pessoa com zero expectativa quanto a si, caso sua realidade lhe oferte cem por cento, ele será feliz? E afinal de contas o que seria felicidade? O poeta Rilke tem um verso em que diz: "todos conhecem a espera angustiosa diante de um palco vazio: ergue-se o pano sobre o cenário de um adeus". Martinho da Vila diz: "Felicidade, passei no vestibular, mas a faculdade é particular". Vinícius, o poetinha Vinícius: "A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar, gira tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar". Felicidade não é um conceito da área PSI. Felicidade é um conceito existencial. "Pursuit to happiness" . Perseguir, buscar a felicidade, ir atrás, é dar concretude a algo que é resultado de algo e não causa de alguma coisa. Buscar felicidade é esquecer que felicidade é o resultado de uma ação. Não é a condição para a ação. Desta forma de pensar, felicidade não é objetivo para psicoterapia ou psiquiatria. Pode-se ser assintomático e infeliz. E vice-versa, sintomático, mas feliz.
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
Psiquiatria e Psicodrama
Quando uso um adjetivo, sua função é a de delimitar e qualificar um substantivo. Um navio verde não é todos navios, é apenas o navio verde. Quando digo que sou Psiquiatra Psicodramatista, não estou dizendo que sou Psiquiatra E Psicodramatista, dois substantivos separados. Estou dizendo que ao modo de exercer o papel de psiquiatra agrego um modificador, um qualificador: Psicodramatista. Todos os papéis sociais têm um denominador coletivo e um diferenciador subjetivo. Neste caso o diferencial é a atitude, o olhar psicodramático.
A prescrição, a medicação, a possível internação, a vigilância, o diagnóstico, nada disto é diferente do psiquiatra não psicodramista. O que difere é o como. Reconhecer que mesmo investidos de um poder aparente (muitas vezes real) continuamos a ter no paciente psiquiátrico uma outra pessoa, em um papel complementar, com seus quereres e haveres. Ter claro que se trata de um vínculo assimétrico (eu prescrevo, ele ingere) mas que continua sendo um vínculo complementar. Naquele momento, naquele contexto, naqueles papéis, estamos estabelecendo uma relação. O psiquiatra dá o remédio mas é o paciente quem o toma. E que mais é o remédio psiquiátrico que um Ego Auxiliar químico? Por algum tempo, por muito tempo ou por todo o tempo, o remédio irá suprir o paciente com algo que neste instante ele não o tem. Ela, a medicação, nem é Deus nem o Diabo na Terra do Sol.
Antes da prescrição, entretanto, há a consulta. De regra, o paciente psiquiátrico não vem à consulta. Ele é trazido, levado, empurrado, obrigado. Quase nunca desejoso de ali estar. Como, então, estabelecer um vínculo com ele? A minha primeira pergunta, sempre, ao paciente é: “Como você se sente agora neste consultório psiquiátrico?” É a partir daí que pode se estabelecer nossa relação. Neste instante aparecem as dúvidas, os preconceitos, os medos, as imposições e chantagens familiares, as piadas. Posso passar, e às vezes passo, quase toda a consulta discutindo sobre este tema ainda sem perguntar a razão da vinda ou da “trazida”. Quando ultrapassamos este ponto, sempre ou quase sempre, já teremos criado uma relação vincular. “Eu conheço Psiquiatria mas você conhece a sua Vida”. É assim que manifesto a assimetria de nosso vínculo.
Ele sabe mais de si do que eu. Eu sei mais de doenças que ele. O que proponho é que juntemos os nossos conhecimentos e transformemos nosso encontro em alguma coisa útil e prazerosa. Neste encontro uso todos os recursos que o Psicodrama nos dá. Seja pedindo seu solilóquio em um momento de silêncio, seja dando voz a um gesto significativo, seja realizando um duplo em um outro silêncio. Principalmente, é não ficando preso à cadeira de médico. A mobilidade corporal do Diretor Psicodramático incorporada no psiquiatra aparece numa ida à janela com o paciente, em uma caminhada pelo consultório durante a entrevista. Ele sabe mais de si do que eu. Eu é que preciso me esforçar para suprir esta lacuna. E nisto está a questão da confiança. Ela não é dada, é construída. Por que deve um paciente contar a uma outra pessoa que nunca viu e sabe apenas que é médico (quando sabe!), detalhes íntimos, perturbadores, vergonhosos, pessoais? Por que o paciente tem que falar tudo ao médico psiquiatra? “Ele é seu amigo, conte tudo a ele”. Assim falam os acompanhantes. Por isso, nestes momentos da consulta, eu me apresento, digo a ele quem sou, onde e como me formei, quais meus pontos de vistas sobre psiquiatria. No papel social de psiquiatra, abro e exponho ao paciente que psiquiatra sou eu. Tenho uma biblioteca em meu consultório. Frequentemente peço ao paciente para ir lá ver o que tem e trazer algo que lhe interesse. Às vezes um livro, às vezes um objeto de decoração, uma revista. “Veja a minha biblioteca e você vai conhecer um pouco de mim”. Quando voltam, nós temos algo em comum, já podemos falar “nós”.
Sou Psiquiatra psicodramatista para aqueles que me procuram no papel de paciente psiquiátrico. Posso ser, entretanto, Psicodramatista Psiquiatra quando no curso de uma relação psicoterápica configura-se uma síndrome psiquiátrica. Se concluirmos, eu e ele, e entendermos eu e ele, que o remédio será uma utilidade, uma necessidade, haverá a prescrição e o acompanhamento clínico se dará como mais um dos fatos da vida do paciente que trabalharemos no palco psicodramático.
Finalizando e resumindo, o exercício da Psiquiatria Clínica pode ser profundamente enriquecido, sem que se transforme em uma psicoterapia “selvagem”, com a visão Psicodramática do Encontro, do Vínculo, da Complementaridade de Papéis e da Corresponsabilidade.
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
neologismo
Hoje a palavra ou uma das palavras da moda é empatia. Às vezes vendida como uma habilidade, às vezes vendida como solução para todos os males relacionais. A palavra empatia surge no campo da Fenomenologia para significar a ação do fenomenólogo para conhecer de dentro e por dentro o fenômeno observado. Em lugar de uma explicação externa ao fato, uma descrição vivenciada no lugar do observado. Moreno, criador do Psicodrama/Teatro Espontâneo faz um jogo de palavras em alemão. Einfühlung é Empatia em alemão. Mas a primeira sílaba - EIN - também significa Um. assim, Moreno cria um neologismo - Zweifühlung. Zwei é Dois em alemão. Assim, Zweifühlung é uma empatia em mão dupla. Uma relação em que os dois participantes estabelecem o vínculo com um conhecimento mútuo compartilhado. Em Português, Zweifuhlung transformou-se em Tele. Tele é uma relação em que os dois membros do vinculo se reconhecem dentro de um mesmo sinal, escolha, recusa ou indiferença.
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
If
A música "IF" do grupo Bread da década de 70 sempre foi uma das minhas preferidas. Inclusive está em meu celular. Por acaso a estava ouvindo hoje. E há esse verso: "If a picture paints a thousands words". "Se uma imagem pinta mil palavras". Há quarenta anos a ouço, mas hoje a escutei. Essa ideia, essa frase é atribuída ao filósofo chinês Confúcio: "Uma imagem vale mais do que mil palavras". E deu-se uma epifania. É uma frase digna de ser o lema do Psicodrama/Teatro Espontâneo. A imagem trás mais informações do que a palavra. A cena, por ser dinâmica e tridimensional, trás ainda mais informações a serem vivenciadas.
terça-feira, 27 de agosto de 2019
E se...
Se agora estivesse em um grupo como me sentiria? Estou sem ideias, sem algo de importante ou interessante a escrever. E vejo o espaço em branco me chamando, clamando, acusando. E se estivesse em um grupo, conduzindo um grupo? E se, e quando, estando dirigindo um grupo a mente se esvazia, nenhuma ideia surge, sentimos que não sabemos para aonde estamos indo? Pois é, isso acontece. com todos. A tal ponto isso pode acontecer que muitas pessoas, prevenindo-se, estipulam uma rígida condução, planejada, cronometrada. Com a única finalidade de se proteger do "branco" de ideias. A rigidez e o controle são sempre reações de proteção diante da ameaça do vazio, da falha. E não sendo assim? E não sendo assim, que faremos ou faríamos? Lembrar-se de que o diretor de psicodrama/teatro espontâneo são membros do grupo, apenas em papéis diferenciados. Então, no instante do "branco" criativo é o momento em que houve uma indiferenciação no papel de diretor e esse papel pode e deve ser ocupado por outro ou outros membros do grupo. Ou seja, pedir ao grupo um encaminhamento para aquela cena. Dirigir um grupo não é carregá-lo nas costas.
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
Canhoto e psiquiatra
Há um poema de Drummond - Poema das sete faces - que diz:
"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse; vai, Carlos! Ser gauche na vida."
"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse; vai, Carlos! Ser gauche na vida."
Por coincidência ou não, estava lendo esse poema ontem. E ontem foi o Dia do Psiquiatra. E ontem, também, descobri depois, foi o dia Internacional dos Canhotos. Coincidência? Pode ser. Mas ilumina a relação das pessoas com os psiquiatras e com os canhotos. Gauche, sinistro, zurdo, canhoto. Sempre se temeu os canhotos. Tanto que dextra em latim é a mão direita e quem tem habilidade em algo é destro. E sinistro é o canhoto em latim e também algo atemorizante, ameaçador. Gauche é canhoto, mas também incapaz, sem aptidão. A destreza é da mão direita. O sinistro é da mão esquerda. E o que tem isso de milenar preconceito contra os canhotos com a Psiquiatria? Tanto quanto o canhoto, o psiquiatra é temido, é tido como um exercício sinistro, e, em geral, o psiquiatra é tido como inábil ou incapaz de um olhar mais abrangente ou refinado. Para a Medicina em geral, para o público em geral, o psiquiatra é o canhoto, o inábil, o sinistro. Por isso faz sentido comemorarmos no mesmo dia os canhotos e os psiquiatras
domingo, 11 de agosto de 2019
Dia do papel de Pai
Feliz Dia do papel de pai. O papel de pai inclui o papel biológico de doador de metade da contribuição genética da futura criança. Mas não se esgota nisso. Nem inclui apenas o patrimônio XY. Nem apenas a relação de consanguinidade. Ser pai é desempenhar a função, simultaneamente, protetora e estimuladora. Criativo no explorar novos mundos e conservador para preservar a continuidade. Gerador de confiança e primeiro desafio a ser enfrentado. Parceiro e mestre e aprendiz. Rigor e compreensão. Pode-se ser pai sem pai se ser. Pode-se desempenhar o papel de pai sem ter tido ou sido pai na expressão biológica. É possível, sim, ser pai de gente, de animais, plantas e coisas. Feliz dia daqueles que, em qualquer circunstância, são tudo isso. E tudo isso suportado pelo amor incondicional.
domingo, 4 de agosto de 2019
Sociometria e liderança
Pensando sobre a Sociometria de Moreno vem à mente a distinção entre popularidade e estrela sociométrica. O teste sociométrico é feito a partir de um critério definido explicitamente. A partir daí cada pessoa faz suas escolhas de parceria: preferencia, rejeição ou indiferença. Realizado o teste sociométrico, a popularidade é reconhecida pela maior número de escolhas unilaterais feitas a partir daquele critério explícito. A Estrela Sociométrica, entretanto, é a pessoa com maior número de escolhas recíprocas positivas. Ou dito de outra forma: o líder popular é resultado de escolhas unilaterais. A estrela sociométrica é um líder vincular. Como há reciprocidade entre ele e quem o escolheu mapeia-se, então, uma rede vincular. O que determina o grau de influência e genuína liderança naquele grupo. Portanto, popularidade, sociometricamente falando, é menos importante que capacidade de vinculação.
domingo, 28 de julho de 2019
Sanidade - proporcionalidade - adequação
Conversando, um dia, com uma paciente, digo-lhe, entre brincando e falando sério, que só quem quer ser normal é quem já foi a psiquiatra. As outras pessoas são o que são, nunca se avaliam se estariam sendo normais ou não. Só que já pôs os pés em um consultório psiquiátrico cria esse parâmetro inexistente que é ser 100 % "normal' em 100 % das situações. E aí ela me perguntou: o que é ou seria estar sadio? Disse-lhe, sem pensar, mas com convicção: Sanidade é proporcionalidade. No mesmo instante, pensei comigo: é a isto que Moreno dizia ser adequação, resposta adequada. Não é conformação, mas, sim, proporcionalidade. A resposta adequada, proporcionalmente, à cena proposta pelo estímulo.
quinta-feira, 18 de julho de 2019
Hércules?
Uma vez, há muito tempo, ouvi em um painel um psicodramista dizer esta frase: "Dirigir um grupo é uma tarefa hercúlea!". Estava nos passos iniciais do Psicodrama e isto me chocou. Hercúleo remete à Hércules, aos Doze trabalhos de Hércules. Será a direção psicodramática o Décimo Terceiro trabalho de Hércules? Como estava nos meus começos do papel de Psicodramatista não tinha clareza para entender o meu incômodo. Com o tempo, participando de grupos dirigidos por pessoas diferentes, em múltiplos lugares, fui clareando meu antigo e ainda presente incômodo. Realmente. Há Diretores Psicodramáticos que fazem da Direção uma tarefa pesada, difícil, hercúlea mesmo. E há outros diretores em que no seu dirigir sentimos e vemos fluidez, leveza, delicadeza. Nada hercúleo. Talvez afrodítico (terrível, eu sei!). E o que faz essa diferença? Não é a formação em A ou B, não é a influência de Bermudez ou Moreno. Após mais de trinta anos nesse palco psicodramático penso que achei uma luz. Os diretores que transformam o ato de dirigir um grupo em uma tarefa pesada, hercúlea, literalmente consideram que o grupo depende deles, eles carregam o grupo em suas costas. Pesado, hercúleo, duro. Os diretores que compreendem ser a direção de um grupo algo que não inclui carregá-lo, mas compartilhar, direcionar, consultar, perceber-se num papel diferenciado de membro do grupo ao tempo em que é diretor. Esses diretores transmitem uma leveza, uma fluidez e delicadeza que não é de Hércules, mas de Baco ou Afrodite.
sexta-feira, 5 de julho de 2019
Pressa e rapidez
Um dia, conversando com uma amiga em um bar em São Paulo, ela, brincando, fala da neta que diz: "A pressa é inimiga da rapidez". Quase caio da cadeira (embora já existisse varias bolachas de chopp ali). Realmente. Pela boca de uma criança saia uma assertiva profunda. O que é pressa? A que responde a pressa? Pressa é tentar se livrar de uma tarefa, pressa é sentir-se atrasado para algo, pressa é não poder atrasar, pressa é resposta à ansiedade. E o que é rapidez? É resultado do domínio de uma técnica ou de um método que faz com que alguém realize algo com eficácia e eficiência. É o resultado de se conhecer os caminhos ou os modos de andar. Rapidez tem a ver com precisão. Pressa é, geralmente, ineficaz e ineficiente. Há um ditado popular que diz: " o apressado come cru". A sabedoria popular tem razão. O apressado não dá o tempo de cozimento necessário e obtém um prato mal feito. Transpondo para a direção psicodramática a pressa no aquecimento, a pressa na busca da cena protagônica, a pressa na busca do protagonista, a pressa em fazer dar certo, leva o apressado a obter cenas cruas, dramatizações cruas, nada saborosos e, principalmente, indigestos.
terça-feira, 2 de julho de 2019
E quando?
E quando os olhares não mais convergem, não mais se olham, não mais se veem? E quando os atores estão em peças diferentes embora no mesmo palco? E quando os atores já não servem de escada um para o outro? E quando atuar transforma-se em um contínuo suportar, apenas suportar? E quando the show must go on? Isto seria um relacionamento qualquer em sua fase ou momento difícil, sob o olhar do Psicodrama.
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