segunda-feira, 23 de março de 2020

agrupamento e grupo

Quando em Psicodrama ou qualquer outra atividade Socionômica, iniciamos sempre com o aquecimento grupal. O aquecimento em Psicodrama tem a mesma função do aquecimento na atividade física: preparar o grupo ou o músculo para a atividade em si  para evitar uma distensão, no caso do músculo, ou a impossibilidade de dramatização, na caso do Psicodrama. Mas, no Psicodrama, tem um outro objetivo: grupalizar aquelas pessoas que, até então, estão em seus papéis sociais. Só depois da grupalização, quando todos sentem-se pertencentes a um grupo, com objetivos em comum, é que poderemos mesmo realizar a ação psicodramática. Enquanto o agrupamento de pessoas não se organiza em grupo cada um estará perseguindo objetivos pessoais e não, grupais. A crise atual mostra isso. Pessoas isoladas defendendo sua vida pessoal, sem nenhuma atenção ou olhar, ao outro. Esse agrupamento "cada um por si" se opõe ao comportamento grupal em que cada qual sente-se parte e parcela constitutiva do resultado grupal.

sábado, 21 de março de 2020

Inversão de papéis

Os tempos atuais são de crise. Mas na crise é possível se aprender algo. Os psicodramatistas, os socionomistas, falam de papéis. Aqueles, que em nossa cultura, surgem do encontro de pessoas em determinadas relações. Como a terminologia psicodramática adveio do teatro, o termo papel engloba tudo aquilo que em teatro se refere a papel. Uma personagem, um script, um vocabulário, uma expressão corporal. Agora, aparece uma coisa curiosa. O papel parental, pai e mãe, se caracteriza pela preocupação de segurança e pensar no futuro. O papel de filho é o do tempo presente e da liberdade. Hoje o diálogo de pais e filhos em tempos de pandemia mostra o que é em Psicodrama, Socionomia, a inversão de papéis. "Cuidado, não saia. Se proteja. Vc é teimoso, Tem que se cuidar". Esse texto pertence ao papel parental. Mas quem está falando, hoje, esse texto, são os filhos, mas em seu papel parental. E os pais, em seu papel filial, dizem, "preciso sair, tenho o que fazer, não aguento mais ficar em casa". Isso, repito, é um exemplo claro de inversão de papéis. No Psicodrama, Socionomia, isso se torna fonte de ampliação do conhecimento do papel do outro, do papel complementar. Sem que deixemos de pensar e agir dentro de nosso papel, o enriquecemos ao vivenciar o papel de de seu complementar. Pais(filhos), Filhos (pais).

quarta-feira, 18 de março de 2020

baianos e gregos

Ontem conversando com uma paciente, ela me disse: "Em minha cabeça o tempo passa muito rápido". Pedi-lhe que fechasse os olhos e quando passasse um minuto abrisse os olhos. Quando ela abriu, havia se passado 27 segundos. Esse é um exemplo da dissociação do tempo vivenciado e do tempo cronometrado. Há uma expressão, bem baiana, quando vamos reclamar do atraso de alguém e dizemos: "Estou esperando há uma hora de relógio!". Isso é sempre motivo de gozação por quem não é baiano. Mas, nós baianos, somos Morenianos, sabemos que o tempo cronométrico, "de relógio", é um e o tempo que nós vivenciamos é outro. Moreno criou o conceito de MOMENTO para se referir ao tempo vivenciado. O tempo cronológico para os gregos era Chronus. O tempo vivenciado é Kairós. Baianos, gregos, ansiosos, todos percebem a distinção necessária entre o tempo medido e o tempo vivido.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Sócrates

Quando Sócrates usava a expressão "Só sei que nada sei" tinha um claro objetivo. Partir do zero, sem conhecimentos ou ideias ou conceitos prévios para investigar "ab ovo' (do início, do começo). Com isso sua tarefa investigatória ele a  chamava de Maiêutica (arte de parturejar, dar à luz, fazer nascer). Seu método levava ao nascimento de ideias, livrando-se de conceitos existentes. O Método Socionômico, o Psicodrama, têm muito da Maiêutica socrática. "Throw away the script" dizia Moreno. "Joguem fora o roteiro". A cena psicodramática deve ter seu significado na própria cena. O Diretor psicodramático ajuda, partureja a cena, para que nasça no protagonista uma nova compreensão. Mas uma percepção, uma compreensão apreendia pelo protagonista. Jamais imposta pelo Diretor. A ele, Diretor, cabe, ajudar a dar à luz.

sábado, 14 de março de 2020

Tele e Pequenina

Escutava uma música de Renato Teixeira, cantada por Xangai de nome "Pequenina". E nela há esse verso de beleza absurda:
"São tão claros os presságios
E os encontros dessa vida
Quando as partes combinadas
Surgem numa mesma estrada."
Esses três últimos versos me leva a pensar no conceito de TELE em Psicodrama/Socionomia. Quando as partes combinadas surgem juntas numa mesma estrada. Se vierem de sentidos contrários se aproximando ou se distanciarem por tomarem sentidos diferentes, ainda assim estarão numa mesma estrada, a relação será télica. Mas, se um se aproxima e outro se distancia ou se estão em estradas diferentes, será uma relação não-télica.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Idiota

Acabei de ler um livro, presente de uma paciente. É um livro de citações e ilustrações. Algumas delas me chamaram a atenção, neste momento:
"A mãe dos idiotas está sempre grávida". 
É um provérbio francês de domínio público. E o que chamamos de idiotas nesse contexto? É quem não concorda conosco? É quem nos contraria? É quem não gostamos? Se assim fosse seria uma mera ofensa ou infantilidade. Idios, em grego, significa "o mesmo, o próprio". Penso que, nessa acepção, o idiota é aquele que se torna monolítico no pensar e falar, quem não estabelece um clima de discussão, quem se fecha na sua visão de mundo, é quem não abre a possibilidade de respeitar a contradição. Por isso, Moreno considerava a inversão de papéis como tão importante para o ser humano. Não para haver um pensamento hegemônico. Mas, sim, para cada um poder "ver você como seus olhos e você me ver com meus olhos". Não é para simplificar. É para ampliar o universo perceptivo da realidade.

quarta-feira, 4 de março de 2020

encontros e leituras

Estou indo a São Luis do Maranhão para fazer uma atividade de Psicodrama. Este é o resultado de pequenas e espontâneas coisas que aconteceram ao longo de dois anos. A primeira foi a mensagem de uma pessoa de São Luis, estudante de Psicologia, interessada em ter uma orientação para uma apresentação de equipe sobre psicodrama. Aí se estabeleceu uma ligação que frutificou no Encontro Norte-Nordeste. Desse encontro nasceu a ideia que agora se concretiza. E daí? Para que este relato? Tudo começa com um sim. Um pedido e um  sim. Desenrola-se como aquecimento inespecífico. Uma aproximação. O  Encontro da Paraíba torna-se um aquecimento específico. Já há personagens envolvidos. E esse próximo encontro poderíamos dizer será a dramatização (trabalharemos histórias) e compartilhamento (da experiência em si e processamento da parte técnica).  Esse é um exemplo de como a leitura psicodramática da vida pode fazer-nos entender o próprio método socionômico.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Vivência

O Psicodrama, o método Socionomico, traz conceitos, termos e visões de mundo muitas vezes radicalmente diferentes das outras abordagens. Iniciar-se no Psicodrama pelo aspecto teórico apenas frequentemente redunda em desilusão ou desistência. Na palavra escrita parece ou mágica ou teatrinho ou superficial. Por isto, experienciar diretamente o Psicodrama por meio de vivências grupais prepara o terreno para a apreensão e compreensão da visão teórica trazida por Moreno. As vivências grupais são atos psicodramáticos únicos, não processuais, utilizando a sequência habitual do método, aquecimento, dramatização, compartilhamento/processamento, sendo o processamento a compreensão teórica daquilo que foi vivenciado. Sempre o experimentar do método conduz ao interesse pelo método. Aí sim, o aprofundamento teórico torna-se possível eu interesse permanente.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Parasita

Assisti ao filme Parasita. Afora qualquer discussão ou consideração sobre a  estética cinematográfica, veio-me uma distinção nem sempre fácil de fazer ou entender. Sabedoria (wisdom), conhecimento (knowledgment), esperteza (slyness). O filme trata de esperteza (slyness). A sabedoria é o conhecimento englobado pela ética. Conhecimento é um instrumento de ação na Natureza. E esperteza? Esperteza tem a ver com a sobrevivência, com o imediato, com o presente. A esperteza não inclui o futuro. É "cada dia com sua pena". O horizonte da esperteza é curto. A sabedoria vê longe. E o conhecimento é o instrumento, o óculo para se ver. Isto é a minha visão de um segmento do filme. E o Psicodrama? Que tem a ver com isso? O que pode ter a ver com isso? Sempre podemos aprender com um campos da experiência e, a partir dele, olhar para outro campo experiencial. Dirigir uma ato psicodramático, um TE, exige conhecimento, profundo conhecimento do método socionômico. Mas, para o exercício da condução grupal, é fundamental a presença da esperteza, da sagacidade cênica, do pulo-do-gato. Entretanto, essas duas condições precisam ser complementadas pela sabedoria socionômica, a visão socionômico do viver. Sem essa sabedoria, ficaremos limitados ao desempenho técnico e a manha do dirigir. Psicodrama, TE, Sociodrama, atos socionômicos, enfim, precisam dos três.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Feijoada completa

Mulher
Você vai gostar
Tô levando uns amigos pra conversar
Eles vão com uma fome que nem me contem
Eles vão com uma sede de anteontem
Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão
E vamos botar água no feijão
Mulher
Não vá se afobar
Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar
Ponha os pratos no chão, e o chão tá posto
                       Feijoada completa, Chico Buarque
Ouvindo, agora, essa música de Chico, reparei nesse verso. É a marca do Teatro Espontâneo no exercício de condução no Psicodrama/Sociodrama. Não há o que se afobar, não precisa por a mesa, não há necessidade de preparar lugar. Eles chegam com sede e fome de ontem e anteontem. É o nosso aquecimento. Tendo isso, então, põe-se os pratos no chão, apenas. Fome e sede. O chão, o chão do palco, o palco, está posto. Aquecimento e espontaneidade. Eis o Psicodrama.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Estilo de condução

"Estilo é a feição peculiar das coisas. Um modo de ser inconfundível. A fisionomia. A cara." Essa frase de Monteiro Lobato, mais uma, ficou-me na cabeça. Passemos essa ideia, esse conceito, para o exercício socionômico, para o Psicodrama, para o Teatro Espontâneo. Cada direção psicodramática, cada Diretor de Psicodrama ou TE tem seu estilo, seu modo de ser inconfundível. Há diferenças de ritmo, estética que tornam reconhecível aquele estilo. Esse é o lado artístico desse fazer. É irrepetível e tem estilo. Sempre que possível, em encontros, jornadas, congressos, é bom participar de direções não conhecidas, expor-se a conduções diferentes. Para descobrir o seu próprio estilo de conduzir.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O ficar e a Tele

E que tal pensarmos um pouco sobre o "ficar"? Claro que pessoas da minha geração têm alguma dificuldade de entender (e aceitar) o ficar. Vamos passar o olho psicodramático (socionômico) sobre o assunto. O que caracteriza o "ficar"? É um encontro mediado tão somente pela atração visual. Mas sem expectativa de continuidade. Este é o fator principal como característica desse encontro. Há um contrato implícito em que o presente é o que conta, sem futuro esperado. Mas, e se,  e se no dia seguinte algumas das duas pessoas acorda esperando uma mensagem? Quando numa relação entre dois papéis os dois concordam com o script do encontro, há uma relação télica. Quando há uma dissonância de expectativas, de projetos, de scripts, haverá uma relação não-télica. O ficar seria uma relação télica, o namoro seria uma relação télica, o esperar a mensagem que não chegará nunca, será uma relação não-télica.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Throw away the script

Em recente vídeo gravado  por Sergio Guimarães numa entrevista com Marcia Karpp (Psicodramista inglesa formada por Moreno) surge essa frase: "Moreno told us "throw away the script". Isto é a peça fundamental do edifício psicodramático. Esse edifício começou a ser construído exata,mente jogando fora os roteiros. Era o Teatro da Espontaneidade.  E jogar fora o roteiro não significa porraloquice.  E isto norteado pelo método psicodramático. Seguir um roteiro é ter algo pre-estabelecido, é ser não-espontâneo, é não fazer Psicodrama. Jogar fora o roteiro significa deixar o momento, a ocasião, a espontaneidade conduzir a direção da cena. Jogar fora o roteiro é fazer Psicodrama/Teatro Espontâneo.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O que é preciso?

O Teatro Espontâneo se sustenta no aquecimento, no ritmo e na estética. Como quem participa não tem o compromisso de fidelidade de um grupo terapêutico, ele só permanece  e participa se estiver aquecido para aquilo. É muito fácil deixar, sair, abandonar uma sessão de TE. O olho atento do Condutor/Diretor ao ritmo das cenas e na consonância da plateia mantém o aquecimento desejado. A mirada estética produz a sensação de bem feito reforçando, mais uma vez, o aquecimento. E isto é o grande presente dado ao Psicodrama e Sociodrama: ritmo e estética.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Clarice Lispector

Uma pessoa me citou um texto de Clarice Lispector. Não o conhecia e ela citava de memória. Fui atrás do texto original. Estava em suas correspondências. "Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual defeito sustenta o edifício inteiro". Claro que é uma frase bem construída e permite, abre espaço para múltiplas reflexões. Uma delas tem a ver com o Psicodrama, com o exercício psicoterápico, com a dramatização no palco psicodramático. Considerando a analogia de Clarice, o nosso edifício pessoal, é construído ao longo do tempo. E os tijolos não são todos do mesmo tamanho nem da mesma qualidade nem do mesmo formato. Mas compõem a parede, a estrutura. Retirá-los, tão somente, levando em conta apenas que eles não seguem o padrão construtivo, pode levar à queda do muro, do edifício inteiro. Daí porque a cena psicodramática permite a vivência no palco das possibilidades aventadas. É como se desse a oportunidade, que não existe no mundo da realidade real, de no mundo da realidade poética, da realidade suplementar, experimentar-se à vera sem ser de verdade. Ou seja, podemos experimentar o mexer de vários tijolos e suas consequências, mas podendo, usando os recursos psicodramáticos, ver-se de fora, repetir, experimentar outras saídas. É verdade: a priori nunca saberemos que defeito sustenta o edifício todo

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E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...