Realizando atividades psicodramáticas online percebo, no processo e em mim, diferenças da atividade psicodramática realizada presencialmente. A primeira diferença é a sensação de espacialidade, de concretude dada pela presença física. A segunda diferença é o plano de observação. Em um palco a cena, o protagonista, é observado tridimensionalmente. A cena é apreendida de uma só vez. Na tela, a experiencia é repartida em múltiplas telinhas. Uma fragmentação, um mosaico da cena. A terceira diferença ainda é no plano de visada: na tela é um plano americano, mais parecido com cinema do que com teatro: só se vê a parte superior do corpo. A quarta diferença é a ausência absoluta do toque físico, dependendo exclusivamente da voz, entonação, mensagem, mímica facial e do plano superior do corpo. A quinta diferença é a limitação quase total de movimentação A sexta diferença é a presença de múltiplos palcos, pequenos palcos, não um único que focaliza a atenção da plateia. A sétima é a presença constante e regular do acidental. O acidental passa a fazer parte inerente à cena, ao aquecimento. Seja esse acidental pela presença de pessoas passantes, de interrupções de internet, de lag, de um tempo, entre a voz e o gesto. Algo muito parecido com teatro espontâneo em rua, em ambiente aberto. Nesse momento, essas observações levam-me a crer que o uso da ferramenta virtual dependerá de uma visão mais cinematográfica do que teatral e de uma direção mais como teatro espontâneo. Cinema e Teatro Espontâneo.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021
quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
Fisioterapia, Psicodrama
Escutei de minha fisioterapeuta esta frase: "A melhor postura, a melhor posição corporal, é a próxima!". Na hora que escutei percebi que essa seria uma legenda para a intenção do Psicodrama. Nenhuma atitude corporal é correta se for mantida muito tempo. A flexibilidade é o que torna a atitude corporal mais ou menos sadia. Tal qual a expectativa do Psicodrama.
domingo, 3 de janeiro de 2021
Novidade, originalidade
Novidade, originalidade. Em dicionários são dados como sinônimos. Mas, serão? Novidade refere-se à temporalidade, ao mais recente no tempo, ao novo. Originalidade refere-se a dar origem a, a iniciar um rumo diferente. Fotografar a Mona Lisa em preto e branco pode ser uma novidade, mas será original? Mas quando o pintor dadaísta Marcel Duchamp pintou a Mona Lisa de cavanhaque e bigode foi original. Não era apenas algo recente, mas sim dava origem a uma visão diferente do ato de pintar. A criatividade tem a ver com a originalidade e não com a novidade. O que o Psicodrama/Teatro Espontâneo busca é a criatividade do ato original, da nova e adequada resposta a uma antiga questão ou a resposta adequada à uma questão antiga.. Nova? Contradição? O novo pode ser original e original é uma nova forma. Então, por que essa diferença? Um casal pode ter formas novas de brigar dentro do quadro antigo de relacionamento. Visto de fora do palco é mais do mesmo. Podem ser formas de briga novas, mas não serão respostas originais, criativas. Serão novas formas da mesma velha briga. Às vezes, a resposta criativa poderá ser uma formulação antiga já tornada obsoleta. A resposta dita nos evangelhos "Vai e não peques mais", sem culpa ou penitência, é antiga. Mas será que hoje em dia poderia ser a resposta criativa e original?
quinta-feira, 24 de dezembro de 2020
Natal e Psicodrama
A origem do Natal está nas comemorações do Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Solstícios são os pontos da trajetória terrestre em que os hemisférios estão mais próximos (verão) ou mais distantes (inverno) do Sol. Assim, para as tradições místicas do Hemisfério Norte, esse período era quando, em seu hemisfério, Dezembro, a inclinação da Terra em relação ao Sol, voltava a se aproximar, quando o Inverno anunciava o seu fim, quando as esperanças de um novo plantio, de um degelo, surgiam, respondendo à expectativa da espera. Nas tradições místicas isso era o símbolo da renovação, do anúncio de um novo tempo. Avatares e deuses eram comemorados nesse dia. Krishina, Mitra, por exemplo. Por isto a tradição cristã aproveitou-se desse simbolismo. E isso que tem a ver com o nosso Psicodrama/Teatro Espontâneo? Nada. E tudo. Moreno, o criador do Método Socionômico (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) era um judeu imbuído das tradições judaicas, principalmente da filosofia hassídica. E esse Hassidismo tinha por base a renovação, a fé na transformação, a esperança de um recomeço. Socionomia, Sociodrama, Psicodrama Morenianos são sempre fundados nessa atitude de mudança, transformação, um novo olhar, uma nova chance, um outro começo.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
Ah, o descanso!
Andei pensando sobre o descanso. E aí vi que talvez houvesse três formas de se falar de descanso. Uma seria não fazer nada e manter esse pensamento de deixar de fazer algo presente todo o tempo, como um dique represando a corrente do fazer algo. Outra seria oposta, fazer nada, ou seja, abster-se de fazer qualquer coisa e usufruir disso, sentir todo o prazer do nada. A outra forma seria o genuíno interesse por outro objeto. A primeira forma é a primeira que vem à mente ao se pensar em descanso e é a que maioria das pessoas buscam: um esforço imenso e cansativo para descansar. A segunda forma advém das práticas meditativas, o verdadeiro ócio, a suspensão de toda ação. A última maneira tem a ver com o Psicodrama. Quanto mais vínculos desenvolvemos, mais papéis podemos desempenhar. Quanto mais papéis, mais interesses. Quanto mais interesses, mais possibilidade de alterná-los. Assim, talvez descansemos do desempenho de um papel atuando outro papel. Se sou psiquiatra e psicoterapeuta, o descanso desse papel pode ser o papel de leitor, nadador, bate-papeador. E desses, o descanso adviria do papel de avô. E desse o descanso viria do papel de escritor. A séria é infinita para quem se torna aberto (espontâneo) ao desenvolvimento de interesses, vínculos, papéis, novos
sábado, 12 de dezembro de 2020
Lágrima e alegria
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
Prazer, dor, transformação
"O samba é o pai do prazer;
O samba é o filho da dor;
O grande poder transformador."
Desde que o samba é samba, Gil e Caetano
Hoje é dia do Samba. Essa música foi composta por Gil e Caetano comemorando os 25 anos do movimento tropicalista. Mais além da beleza da música e letra, há algo. A posição que eles colocam o samba, intermediária entre a dor e o prazer, chama a minha atenção. A acentuação que essa posição tem um poder transformador, chama a minha atenção. Transmutando a dor recebida no prazer criado. Algo bem alquímico, lato sensu. Isto é Arte. Essa alquimia é Arte. E o exercício psicodramático é isso. Dor em prazer, merda em adubo, paralisia em movimento, cristalização em mudança.
domingo, 22 de novembro de 2020
Música e filme
A antiga banda Engenheiros do Hawaii gravou uma música em que tem esses versos: "Ouça o que digo, não ouça ninguém!". Dito assim fica óbvia a contradição inerente à frase: obedecer a uma ordem de desobedecer. Mas se olharmos só a estrutura da frase, do verso, veremos como ela faz parte de todos os manuais de autoajuda, de pretensos gurus, de professores autotitulados. De todos que se consideram portadores de mensagens especiais e únicas. No filme "Advogado do Diabo, Al Pacino na personagem John Milton (o Diabo) diz " a vaidade é o meu pecado favorito". Em nossa área de atuação, a área PSI (Psiquiatria, Psicologia, Psicoterapia, Psicodrama), tanto os Engenheiros do Hawaii quanto John Milton podem ter, e têm, razão.
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
Sensação de segurança e segurança
Ontem e hoje, com dois clientes de Psicodrama, apareceu o binômio segurança-insegurança. E também surgiu a expressão "sensação de segurança". Durante o trabalho psicodramático, ao dramatizar situações de segurança ou insegurança é que brotou a expressão "sensação de segurança". A reflexão do paciente foi: "é, foi a sensação de estar seguro que perdi". Sensação de segurança é algo a priori, não é racional nem racionalizável. A ideia de segurança é racional, se traduz por ações para aumentar a segurança objetiva. Mas não traz, necessariamente, a sensação de segurança. A insegurança é racionalizável: estou inseguro por.... Para ficar seguro faço .... Mas, a sensação apriorística de segurança é sensação, é subjetiva, não demonstrável. E quando isso se perde? E como se recupera?
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
Pessoa e Moreno
Em um apontamento de Fernando Pessoa, por ele atribuído a Ricardo Reis, ele diz que Poesia não é um derramamento de emoção mas sim a emoção submetida à disciplina do ritmo e da métrica. Em outro poema - Isto – ele diz: “Dizem que finjo e minto tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração”. Não vejo melhor definição de Teatro Espontâneo. O protagonista sente com a imaginação e tem sua emoção sob a disciplina do ritmo e da estética. Este é o antídoto do espontaneísmo e da impulsividade histriônica. Em “Autopsicografia” diz Pessoa: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, na dor lida sentem bem. “Não as duas que ele teve, mas só a que eles não têm.” O protagonista finge a dor que, efetivamente, tem e estas são as suas duas dores: a sentida e a dramatizada. Os participantes, quando não aquecidos, não envolvidos, sentem apenas a que eles não tem. Em Medicina, quando se fala de alergia, há o conceito de Atopia: pessoas que, diante de estímulos comuns, de intensidade pequena, reagem de forma brusca e excessiva. O olhar poético é o olhar “atópico”. O poeta reage de forma marcante e profunda diante de estímulos banais ou simples ou comuns. Diante do grave, do pesado, todos reagem, mas diante do já visto e não enxergado, só o poeta. Mário Quintana diz: “O poeta não lê poesia. O poeta lê os classificados”.
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
gato escaldado
Há pouco tempo, numa sessão psicoterápica, usei uma expressão antiga: "Gato escaldado tem medo de água fria". E trabalhamos sobre este tema. O gato foi verdadeiramente escaldado, jogaram água fervendo nele. O episódio gerador é verdadeiro, foi experimentado. Mas, a partir daí, ele tem medo de água fria. O que faz o gato temer água fria e dela se afastar? À distancia, não há como distinguir água fervendo de água fria. À distancia, a imagem é a mesma. E dela ele foge. Para saber a temperatura há que experimentar, colocando a pata na água. Mas, para o observador que já sabe que a água é fria parece estranho, doentio, , maluquice, fugir de uma água que é fria. Mas, só o observador sabe que a água é fria. O gato tem uma lembrança real, inscrita em seu corpo da queimadura. O Psicodrama possibilita, ao criar cenas dramatizadas em palco, o experimentar das águas. "A segunda vez liberta a primeira", diz Moreno.
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
Afeto e Psicodrama
Nesta última semana estivemos envolvidos no Congresso Brasileiro de Psicodrama online. Apresentei um escrito tocando no assunto do afeto e a direção psicodramática. Em geral, os afetos são desprivilegiados em comparação à cognição. Entretanto, como a afetividade é a qualificação da experiência do humana, é aquilo que adjetiva o viver, esta característica faz da afetividade um orientador da experiência humana. Na direção psicodramática, seja em Psicodrama ou Teatro Espontâneo, afetividade do diretor/condutor, ou seja, sua diferenciação em perceber afetivamente o grupo, faz desse estado sua bússola sociométrica para direcionar suas ações e escolhas do processo de dirigir/conduzir.
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
Só, sozinho revisitado
Assistindo ao filme clássico Fogo contra fogo, com os grandes Al Pacino e Robert De Niro, há uma fal da personagem de De Niro: "I'm alone, but I'm not a lonely man". "Sou sozinho, mas não sou um solitário". E isso me pôs a pensar. Estar só, sentir-se só. Sozinho, solitário. Estados de espírito não iguais, muito diferentes. Estar só é algo espacial, geográfico. É não ter pessoas em volta. Apenas isto. Sentir-se só é outra coisa. Nada tem a ver com quantidade de pessoas. Sentir-se só é consequência de uma pobreza relacional. Solidão é não ter vínculos com nada. Uma pessoa isolada geograficamente vive e sobrevive das certezas de seus laços afetivos, das lembranças e desejos. Sentir-se só, o estar em solidão, é reconhecer a inexistência, é sentir o peso da ausência de vínculos que o ancore com o mundo.
"Eu 'tava só, sozinho
Mais solitário que um paulistano
Que um canastrão na hora que cai o pano"
Zeca Baleiro
"É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte"
Fernando Pessoa
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
Figura e fundo
Durante uma atividade online psicodramática de supervisão surge uma história de uma primeira visita, quando estudante, de um hospital psiquiátrico. A pessoa conta que foi abordada por um "paciente" e não sabia o que falar e ficou muda, calada. Proponho a recriação da cena. No momento que a personagem-paciente surge perguntando onde fica o ponto de ônibus, interrompo a cena e peço seu solilóquio. Diz ela: "não sei o que devo e se devo falar. ão sei se piorarei ele com o que disser". Peço-lhe para fazer essa cena em outro ambiente. Numa rua comum. E uma pessoa, desempenhada pelo mesmo ego-auxiliar, lhe pergunta onde fica o ponto de ônibus mais próximo. Ela responde naturalmente, dando as indicações necessárias. Proponho um espelho das duas cenas e lhe pergunto a diferença. O contexto, o cenário. Num cenário de hospital quem não é funcionário, é paciente. Num contexto, num cenário de rua, são pessoas se encontrando. O contexto, o cenário, criam pressuposições que direcionam nossa ação. O fundo interfere na percepção da figura. E o nosso Psicodrama ajuda a perceber isso ao recriar e criar cenários e contextos e cenas.
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
con-fusão de papéis
Uma das coisas mais ouvida, ultimamente, é que as pessoas estão cansadas, irritadas, exauridas e exaustas. E o Psicodrama tem algo para dizer.
Todos nós desempenhamos múltiplos papéis na vida. Parceiro afetivo, pais, profissionais, torcedor de time, membro de partido político, membro de uma religião, pais, filhos etc. Cada papel desses tem seu papel complementar mediados por um vínculo afetivo. E cada papel desses ,também, tem seu espaço, seu palco,seu cenário, seu tempo. ainda que pudéssemos estar sobrecarregados de papéis sociais no mundo pré-pandemia, agora, durante a pandemia, a situação sofreu alterações. Os papéis sociais continuam a existir. Aqueles que já tínhamos, continuamos a tê-los. Mas agora é diferente. Agora, durante este tempo pandêmico, todos os papéis sociais estão sendo desempenhados no mesmo locus, no mesmo cenário, ao mesmo tempo. Um pai, trabalhando, online,responde ao filho que está tendo aula online, sentados na mesma mesa onde tomaram o desjejum e aguardamo o almoço. A mãe, também sentada à mesa, trabalhando online, responde como mãe à discussão entre pai e filho, enquanto responde à colega de trabalho no Zoom. O cenário não mudou,os tempos se superpõem os papéis se mesclaram, as respostas afetivas estão mais confusas que anteriormente. A demanda de solicitações simultâneas e múltiplas está produzindo exaustão e tédio. A semana tinha sete dias, com fisionomias diferentes. Hoje a semana semana se compõe de um único dia ´prolongado, onde tudo acontece, mas tudo é monotonamente repetitivo. Os atores desempenham várias peças, sem mudar de cenário, e misturando as falas de cada personagem.
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E assim é.
Experimentar e refletir. Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo. Há mais de trinta anos...
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