segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Noel Rosa

 Ouvindo "Feitio de Oração" de Vadico/Noel Rosa escutei este verso: "Sambar é chorar de alegria, é sorrir de nostalgia, dentro da melodia". A construção dessa letra por Noel coloca coisas paradoxais como possíveis e necessárias. mas agrega um fator limitador: "Dentro da melodia". Isto é uma metáfora maravilhosa (para mim!) para os conceitos de Espontaneidade, Criatividade e adequação à cena. No palco do Psicodrama  ou  do Teatro Espontâneo ou de qualquer outro atividade Socionômica, cabe qualquer cena, necessita-se que haja exploração de impossíveis, mas tem que ser "dentro da melodia". Melodia, música, improvisação, tem limites a serem cumpridos, até para serem ultrapassados. Pode-se atravessar uma parede, mas há que ter a parede. A nossa "melodia" no Psicodrama/Teatro Espontâneo corresponde à adequação à cena, à resposta que faz evoluir o ato. É esta toda a diferença entre espontaneidade criadora e o mero espontaneismo.  O espontaneismo é o simples e destrutivo "falar o que vem à cabeça" sem respeitar os limites da adequação à realidade, cênica ou existencial. A Espontaneidade Criadora  pode "chorar de alegria', pode "sorrir de nostalgia", mas sempre e sempre "dentro da melodia".

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

aluno e estudante

Como o Psicodrama é um método, e método é uma forma de ver, relacional, sempre a pergunta presente é: "Em que papel?". Sendo o papel um conceito em que se admite a existência de papéis que se complementam e têm a possibilidade de se alternarem ao longo do tempo. Tendo isto em mente, pensemos em duas palavras: Aluno e Estudante. Serão sinônimos do ponto de vista psicodramático? Penso que não. Apliquemos a teoria de papéis da Teoria Socionômica Moreniana. Quem serão seus papéis complementares: Ao papel de Aluno, imediatamente, vem, o Professor. E quem é o papel complementar do Estudante? Claramente não será o Professor. Então, quem? Em minha visão, o Estudante tem como seu papel complementar o Conhecimento. Aluno x Professor. Estudante x Conhecimento.  As escolas, será que pensam nisso?

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Começo e planos

 Há um verso de Fernando Pessoa em Mensagem: "Todo começo é involuntário." De uma certa maneira, parece dizer que nada é planejado, Tudo é racionalizado a posteriori, viés de confirmação em retrospectiva. De outra maneira, parece sugerir que diante dos fatos, todo o planejamento precisa ser modificado para adaptar-se à nova conformação. Dirigir em Psicodrama é assim. Mesmo que, ainda que, haja um planejamento, o grupo impõe uma realidade que faz com que as escolhas do condutor tenham que se adaptar, adequar, encontrar  novas saídas. Criatividade e Espontaneidade. Espontaneidade para deixar o que se trouxe planejado e manejar o que se encontrou. Criatividade para as novas e adequadas ações.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Tele. outra vez

há um conceito fundamental do Psicodrama que, em grande parte não é bem compreendido. É o conceito de Tele. Frequentemente vemos e ouvimos psicodramatistas usando Tele dessa forma: "Ele tem muita Tele". " A Tele dela é ótima". Usando-se o conceito como um atributo pessoal, uma qualidade que alguns têm e outros não. Tele é um conceito relacional. Só faz sentido falar dele dentro de uma relação vincular. Tele não é um atributo bom ou ruim. É algo da relação que permite aos vinculados percebem-se como mesmo sinal afetivo. Ou como se diz na Sociometria, são congruentes. Ou seja, se eu lhe percebo como uma primeira escolha e vc também me percebe como uma primeira escolha para uma determinada ação, isso é télico. Se vc me percebe como primeira escolha e eu lhe rejeito como escolha para aquela ação, isso é não congruente, não-télico. mas, também, se nós dois nos percebemos como não sendo , um para o outro, a escolha para aquela tarefa, isso também é télico, são percepções congruentes, há mutualidade. Então, quando há mutualidade nas escolhas (Sim-Sim, Não-Não) isso é uma relação télica. Se as percepções não são congruentes, não são mútuas, em presença ou intensidade, é uma relação não-télica. por que intensidade? Por exemplo, se após uma noite de festa em que alguém haja ficado com outra pessoa, na manhã seguinte um espera uma ligação e outro nem se lembra com quem ficou, é uma relação não-télica. Ou seja, naquele momento, dentro do critério "ficar em uma festa" os dois se perceberam como primeira escolha, télico, portanto. Mas, na manhã seguinte, alguém esperou uma relação duradoura e alguém não queria isso. Não-télico.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Moreno místico

 Quando Moreno dizia que o psicodrama era muito potente para apenas ser uma ferramenta psicoterápica, em meu pensamento, isso quer dizer que , fundamentalmente, Psicodrama é uma forma de ver, sentir e agir no mundo. Para o Psicodramatista, a mudança que se opera nele é expressa em todas as relações entre papéis que ele estabelece na vida. O reconhecimento (e vivência) da teoria transforma o psicodramatista nos vínculos que ele estabelece ao longo da vida. Talvez não seja estranho que a primeira visão de Moreno do mundo relacional era uma visão mística.  o misticismo estabelece uma ligação direta  entre o mundo, a divindade e a pessoa. Entre o a sociedade, grupo, o palco e o protagonista, diriam os psicodramatistas.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

experiência

 A experiência subjetiva não é compartilhável. Ela é acessada por metáforas e analogias. "Como se". O Psicodrama ao recriar no palco, com o aquecimento necessário, a cena em seu tempo presente, e portanto, naquele momento, o tempo real, permite que tome o lugar do protagonista, tenha a amplificação da experiência do protagonista. Psicodrama é uma experiência analógica da experiência real do protagonista.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Pequenina e Tele

 Escutava uma música de Renato Teixeira, cantada por Xangai de nome "Pequenina". E nela há esse verso de beleza absurda:

"São tão claros os presságios
E os encontros dessa vida
Quando as partes combinadas
Surgem numa mesma estrada."

Esses três últimos versos me leva a pensar no conceito de TELE em Psicodrama/Socionomia. Quando as partes combinadas surgem juntas numa mesma estrada. Se vierem de sentidos contrários se aproximando ou se distanciando por tomarem sentidos diferentes, ainda assim estarão numa mesma estrada, a relação será télica. Mas, se um se aproxima e outro se distancia ou se estão em estradas diferentes, será uma relação não-télica.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Palco

 O que é o palco no Psicodrama? Não é apenas um praticável delimitado. O palco é qualquer lugar onde a ação dramática se desenrolará. Uma cadeira onde esteja sentado um paciente será seu palco. Um trecho de sala onde a cena aconteça será o palco dessa cena. O importante é o conceito que há dentro e há fora de palco. Convencionado isto é possível usar o palco e todas as técnicas psicodramáticas. Por que o dentro e fora? Porque, para o Psicodrama, entrar e sair de um palco é o exercício de entrar e sair do mundo da imaginação ou fantasia. É o que permite o "como se" psicodramático. É o que valida o espelho como técnica psicodramática. É aprender a recuperar aquilo que a criança faz, transitar entre o fantástico e o real com fluidez. O palco é criado pela ação dramática. Onde o  está corpo estará o palco.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

primeira pessoa

 Uma coisa que considero muito importante em qualquer atividade da área Psi, seja Psicodrama ou Psiquiatria, é em observar quem é o narrador da história contada. Muitas e muitas vezes é usada a terceira pessoa  do singular (você, a gente) ou a primeira pessoa do plural (nós). Uma história contada assim é como, em um palco psicodramático, a pessoa subisse e contasse assim a história. O diretor pediria, imediatamente, "fale em primeira pessoa e no tempo presente". Por que? É que ao se falar em primeira pessoa e no tempo presente deixamos de ser plateia de nossa história e passamos a protagonista dela. Seja em Psicodrama, seja em Psiquiatria.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

vínculo

Em geral quando reflito sobre algo parto sempre da etimologia da palavra. Nenhuma palavra existe à toa. Em algum momento foram criadas para responder a uma necessidade de expressão. Assim, quando  retomo a etimologia de uma palavra é como se eu ultrapassasse o senso comum e fosse mergulhar no clima original que a gerou (em Psicodrama dizemos Status Nascendi). Hoje, em uma sessão psicoterápica, estávamos tratando de relacionamento afetivo. Pedi à pessoa que se imaginasse (era online) dançando sozinha, fazendo os movimentos que lhe dessem na telha. Em seguida, pedi-lhe que segurasse em minha mão e dançássemos. Perguntei-lhe, então, que diferença havia; Ela disse-me que não podia fazer tudo o que queria, já que tinha que levar em conta que estava segurando a minha mão. Aí entrou a etimologia. Vinculo, em latim, em italiano também, é corrente. Vínculo liga, mas limita. Une, mas cria limites de ação. Aí, entrou outra palavra e sua etimologia. O vínculo pressupõe compromisso. E compromisso, ao pé da letra, é promessa mútua. Vínculo, ligação, limite, compromisso. Vínculo, núcleo do Psicodrama.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

belchior e a memória

"João, o tempo andou mexendo com a gente, sim" (Comentário a John). "Eu estou muito cansado do peso da minha cabeça" (Todo sujo de batom). Essas músicas de Belchior têm-me perturbado o juízo ultimamente. E acho que uma tem a ver com a outra. A passagem e a vivência do tempo e das coisas vividas nesse tempo. E tudo preenchendo e enchendo e pesando "na minha cabeça". E o psicodrama? nossa memória não é apenas um arquivo morto, um depósito que se empoeira com o tempo. Ela é viva. Mas pode se tornar amortecida. Fazendo com que histórias, fatos, fiquem congelados. E congelados com o pacote completo: imagens, sons, significados, afetos. Acessar esse depósito poeirento, abrir essa janela acontece nas dramatizações psicodramáticas. O pacote completo ao ser re-presentado pode ser re-significado, re-experimentado, re-dimensionado. E aí, pode acontecer que "o tempo mexendo comigo" não "pese tanto na minha cabeça".





sábado, 11 de setembro de 2021

agrupamento e grupo

O Psicodrama (todas as ferramentas Socionômicas) não é (não são) tão somente um instrumento terapêutico. É um conhecimento e uma vivência para lidar-se com as relações interpessoais, grupais e intergrupais. O conceito de aquecimento (warm-up, caldeamento) é vital para se iniciar qualquer relação. Nada pode ser construído se o terreno não for preparado. Em agricultura e engenharia é algo óbvio. Mas, curiosamente, nas relações humanas não é algo tão óbvio. Há sempre uma pressuposição que  tudo começa comigo. Que tudo depende, sempre, de mim. Pensar-se, conceber a ideia de que o grupo tem uma gestalt própria, que o grupo é muitíssimo mais do que a soma dos componentes, que o grupo é um ente próprio. Com suas idiossincrasias, com suas leis autoimpostas. E grupo não é apenas o grupo terapêutico. Qualquer agrupamento de pessoas pode ser, pelo, aquecimento devido, grupalizado, tornado grupo. Apresentar um TCC, dar uma aula, um casamento, uma reunião de trabalho, qualquer agrupamento. E só e quando um agrupamento torna-se grupo é que é possível trabalhar-se com grupo. Se não, por não estarem aquecidos, por não serem grupo, poderão ser tidos como resistentes, opositores, rebeldes, não-cooperadores. Agrupamento, aquecimento, grupo, dramatização, compartilhamento Essa é a sequencia psicodramática. E esse compartilhamento, momento em que o grupo exibe as repercussões em cada um de seus membros, repercussão afetiva e não cognitiva. o grupo repõe, devolve aos que dramatizaram as vestes afetivas de que se desnudaram  para protagonizar no palco. Agrupamento, aquecimento, grupo, protagonistas, compartilhamento. Sequencia completa dos instrumentos Socionômicos.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

outras vezes

 Em uma passagem de Moreno ele diz: "Não deixe que a próxima vez saiba demais sobre a s vezes anteriores". Isto referia-se à direção psicodramática, mas que podemos extrapolar para a vida comum. Aliás, era desejo original de Moreno que o Psicodrama fosse ferramenta para viver, não apenas tratar. Qual o objetivo de Moreno ao falar isso? Era de lembrar ao Diretor de Psicodrama que vezes boas anteriores e vezes ruins anteriores criam expectativas sobre a vez atual, tirando o frescor da espontaneidade do Momento. E isto vale para a vida. Quando lidamos com o presente, com o atual, frequentemente, quase sempre, vemos este presente pela ótica das experiências anteriores. E o momento atual, o presente, sempre exige uma resposta atrelada a ele e não ao passado.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O computador e o psicodrama

Há muito tempo li uma entrevista de um CEO de uma empresa grande da área de informática. E o entrevistador perguntou do futuro do computador. O CEO respondeu: desaparecerá. Essa resposta deu um susto no entrevistador. O argumento do CEO (há mais de 25 anos!) era que a entidade física do computador desapareceria e ele estaria embutido no dia a dia das pessoas. Previsão que se confirmou totalmente. Moreno tinha uma expectativa e um sonho que algo similar acontecesse ao Psicodrama. Que deixasse de ser uma ferramenta terapêutica, apenas, para se transformar em algo de uso cotidiano nas relações inter-pessoais, inter-grupais e inter-nacionais. Para o psicodramatista esse é e sempre será o desafio: incorporar os conceitos psicodramáticos a seu viver cotidiano. transcender o setting terapêutico, tornar o mundo o seu palco.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

O que resta é o mais importante

atendi essa semana uma pessoa que tem o diagnóstico há cerca de 20 anos de esquizofrenia paranoide. Ainda bastante sintomático, com atividade delirante e alucinatória intensa. Sua relação com a psiquiatria, os psiquiatras, os remédios, têm sido bastante tumultuadas. Todo o tempo altera as medicações, as posologias, para de tomar os remédios. E, tudo isto, ele lança sobre sua mãe. Nunca conversa ou discute com seus profissionais sobre os remédios. Ele e sua mãe. E diz, ainda, "não suporto vê-la sofrer". Ela, está desesperada, cansada, irritada. Esse foi nosso segundo contato após internação por quatro meses. Internou-se porque, suspendendo abruptamente os remédios, voltou a vivenciar crise psicótica severa. Em começo da conversa, diz ele "vc me pediu para entrar em contato, mas não suportei esperar". Volto a lhe dizer: "sua mãe pode lhe dar afeto e colo, mas divida comigo suas dificuldades." Às vezes, tudo o que o psiquiatra pode fazer é construir e manter o vínculo.

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E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...