sábado, 22 de junho de 2024

Junhos e Psicodramas

 Esta época, principalmente no Norte e Nordeste, são as chamadas Festas Juninas. Santo Antonio (13/06), S. João (24/06) e S. Pedro (29/06). Cada uma com suas tradições, ritos e simbolismos. Estamos chegando ao S. João. E, nesta festa, havia e ainda há, o pular a fogueira. E quando duas pessoas pulam juntas a fogueira são chamados de compadres e comadres de fogueira. O Compadrio, de qualquer natureza, em todos os países latinos, sempre teve uma força de associação e compromisso enormes. O compadre e a comadre sempre foram considerados substitutos do papel parental, com quase igual ou igual, na ausência dos pais, responsabilidade. Nunca foi uma banalidade apenas social. E isto me remete ao grupo, à cena psicodramática. Até hoje dizemos: :"Esse cara pulou uma gueira". Ou seja, escapou de um risco ou perigo. Compartilhar riscos e perigos, compartilhar experiências boas ou ruins. Compartilhar = Com + Partilhar. Experienciar juntos. Essa é a força constitutiva de um grupo. No Psicodrama, na cena psicodramática, os riscos e experiências não são físicos, como nas fogueiras da via. Mas, expor-se, desnudar-se, mostrar-se, abrir sua própria Caixa de Pandora, é vivenciado como uma fogueira. Estar juntos nesse momento protagônico, consolida o grupo. E quem constrói essa possibilidade, é o aquecimento inicial do grupo e a manutenção do aquecimento durante a atividade grupal. Aquecimento, fogueira, queimor, calor, mudança de estado, rituais de compadrio, coesão grupal, continência para o protagonista, amor grupal. E viva S. João e a cultura popular! Evoé!

quarta-feira, 12 de junho de 2024

novidade ou originalidade

Há tempos venho refletindo sobre o uso do adjetivo. Não, não será algo gramatical. Mas, ao fato de que há tempos o adjetivo passa a compor palavras que se referem a coisas antigas, tradicionais ou já estabelecidas. Algo como neo psicodrama, psicanálise concreta, pilates estrutural. Acho que dá para entender. A justaposição de um adjetivo dá uma aparência (apenas aparência) de novidade, coisa fresca, distinta de coisas antigas e ultrapassadas. É comercial, vende a ideia, compra-se a ideia. E a fila anda. Mas, onde está a consistência? Onde está o fundamento? Para o Psicodrama Moreniano, para Moreno, originalidade não é o mesmo de novidade. As novidades podem não ser originais Embora o original seja uma novidade. Confuso o meu pensamento? Vamos indo. Novidade refere-se à temporalidade, ao mais novo no tempo cronológico, ao mais recente. Tal como os modelos novos da marca da maçã. E originalidade? Essa tem a ver com origem, a partir dela algo se origina. A criação original dá origem a um novo caminho. A criação nova é apenas, e quase tão somente, uma maquiagem de algo mais antigo. Novidade é uma forma comercial de vender algo antigo ou tradicional em uma embalagem nova. Isso é fato de marketing. Mas, para nós, profissionais da área psicoterápica ou médica? Qual o nosso risco e o risco de quem compra a ideia da novidade ser necessariamente melhor que aquilo mais antigo no tempo? O risco é aquilo que já mencionei. A falta de fundamento e consistência. O Psicodrama nasceu no século XX, em sua primeira metade. Estamos centenários. E há muita coisa nova, novíssima, quase que anual. E nós? Em lugar do desespero, talvez o aprofundamento. o voltar às raízes, o apropriar-se verdadeira e existencialmente dos conceitos psicodramáticos, criados e e tornados sólidos ao longo do tempo. Voltar ao substantivo, à coisa-em si. O substantivo é duradouro, o adjetivo é circunstancial. Psicodrama é um método substantivo, tem substância, tem solidez, tem consistência. E é centenário.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

papéis...

 Pensava como é difícil o psiquiatra ou psicoterapeuta deixar a posição de autoridade e compartilhar com o paciente/cliente o seu próprio tratamento. Também para quem trabalha com educação essa dificuldade está presente. O que o Psicodrama traz, tal como Paulo Freire, é que cada pessoa tem que ser, dentro de suas possibilidades, agente de seu tratamento ou sua educação. A relação é assimétrica, sem dúvida. Mas é complementar. A cada uma das partes há um excesso e uma falta. Ao paciente/estudante há um conhecimento de sua vida e seus conhecimentos e há uma falta de um direcionamento e um ordenamento. Ao psiquiatra/psicoterapeuta/educador há um acúmulo de conhecimento técnico, mas uma falta intensa do conhecimento do outro. Isso é que torna a relação entre esses dois papéis complementares. A assimetria decorre mais da posição. Um está e outro vem. Um paga, outro recebe. Um tem um papel de ofertar  algo, o outro tem um papel demandante algo. Um está mais organizado, mais estruturado, outro mais desorganizado, e mais desestruturado. Talvez exatamente por isso crie a assimetria. mas Moreno, destacou a inversão de papéis. Com isso é possível pensar-se que os papéis podem se intercambiar. Assim, é possível pensar-se que o estudante pode em determinado instante ser o professor e o professor ser o estudante. O Paciente pode trazer luz à uma situação, colocando-o no polo de terapeuta. Ao se cristalizarem definitivamente,médico/paciente,professor/estudante/, psicoterapeuta/cliente, dão lugar às patologias relacionais. Moreno sempre acentuou que os papéis devem ser flutuantes ao sabor de seu desempenho. É o que torna os relacionamentos mutuamente saudáveis, construtivos e férteis.

sábado, 18 de maio de 2024

Livre pensar é só pensar

 Qual a diferença entre vaidade, autoestima, orgulho, autogratificação, arrogância? pensava como essas palavras referem-se a atitudes similares ou, pelo menos, confundíveis. Quando a vaidade se distancia da autoestima? Quanto a autogratificação se aproxima da vaidade? E a arrogância? Algo que pensava: Todas são atitudes relacionais. Seja, em relação a si ou ao outro. Sempre há um outro. Na autoestima existe o eu comigo. Como me estimo, qual minha estimativa de mim. Baixa, alta, depreciativa, afirmativa. Na vaidade talvez já exista o desejo de exibir aos outros sua descoberta de seus atributos. No orgulho, além de uma grande auto estimativa , existe a satisfação excessiva. Fácil diferenciar? Não, até escrevendo acho difícil. Talvez, autoestima seja a minha e orgulho seja a do outro. E arrogância? É o exercício dos despotismo agressivo misturado com a vaidade. E, talvez, tudo termine sendo aquilo que escrevi. O que é meu, o que são atitudes minhas são positivas, têm uma conotação positiva. E, quando esses mesmos atributos estiverem no outro, eu os veja com valoração negativa. Daí porque a inversão de papéis moreniana, psicodramática, tenha seu lugar de possibilitar nova perspectiva de nossa visão de mundo conservada, cristalizada.

domingo, 12 de maio de 2024

Dia do papel de Mãe

  Hoje é Dia das Mães. Ou o Dia do Papel de Mãe. Pensando em termos psicodramáticos (socionômicos) o papel de mãe surge da relação com pessoas em que há os atributos de continência, aceitação, limite, disciplina, incondicionalidade do afeto e, sobretudo, magia de fazer da imaginação uma  ferramenta de cura e resolução de problemas. É uma relação assimétrica entre os papéis - o de filho/a e o de mãe. Acolhimento de uma lado do papel e necessidade no outro lado dessa relação. Mas nesse papel materno cabem atores mães biológicas, mulheres, homens, amantes, amigo, profissionais de qualquer área. A função de acolhimento versus necessidade é a fundante no papel de psicoterapeuta, por exemplo. Pais podem e devem ser mães. Hoje é dia do papel materno, dia da mãe que cada um pode ser na sua relação com o outro.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Raul e Psicodrama

Escutando pela enésima vez Raul Seixas, volto a ouvir Sociedade Alternativa. E lá está uma frase, escrita no sec. XX por Crowley, mas já presente em escritos Rosacruzes anteriores: "Faz o que Tu queres pois é tudo da Lei." E por que escrevo sobre isto aqui? Porque, em geral, o conceito que se tem da palavra Espontaneidade, alicerce do Psicodrama, é de que ser espontâneo é fazer o que se quer e o que se tem vontade. Não, não é definitivamente isso. Isso é espontaneísmo. O contrário do que se objetiva no Psicodrama. Voltemos à frase. Misticamente falando, há duas particularidades. Uma é "o que Tu queres". A outra é "Lei". O Querer aí refere-se não apenas a desejar, mas aquilo que realmente importa em sua vida. Aquilo que, sem o que, nada faria sentido. Não é um querer qualquer, volúvel e flutuante. E Lei, é a Lei universal da Harmonia. Não a lei da justiça comum. Voltando para o Psicodrama, a confusão é parecida. Espontaneidade não é FAZER. Fazer é ação. E Espontaneidade é um estado. Um estado de disponibilidade, o mais perto possível da absoluta disponibilidade. É estar sem impedimentos, bloqueios ou temores prévios à ação. Ser Espontâneo é Estar Espontâneo. E para que? Para abrir espaço à Ação criativa, à CRIATIVIDADE. Espontaneidade = estado de disponibilidade sem coibições. Criatividade =  a melhor escolha para aquela cena, para aquele momento. Quanto menos Espontâneo, menor repertório de escolhas adequadas. Quanto mais Espontâneo, mais possibilidades de escolha da melhor resposta. E isso, com certeza, é diferente, profundamente diferente, de fazer-se o que se lhe dá na telha.

sábado, 27 de abril de 2024

Filme

Assisti ao filme Guerra Civil (aquele com Wagner Moura). E hoje lembrei-me dele. E de tudo que tem de impactante no filme, há esta frase emblemática: "Que tipo de americano você é?". Essa frase poderia ser mais ampla ainda: "Que tipo de ser humano vc é?" Ou ainda: "E você é ser humano?". Lembrei-me do título do livro de Moreno: "Quem sobreviverá?" Lembrei-me do tema do nosso XXIV Congresso Brasileiro de Psicodrama: "Que mundo nós queremos? Eu, Tu, Nós". No fundo esse é o nosso problema. Nós e Eles. Essa constante dicotomia. Quem não está comigo está contra mim. Outra era e é a ideia fundante do Psicodrama:  O ser humano é um ser em relação. Ou seja, ele se constitui na relação com o outro. O Outro não é o nosso oponente. É o nosso constituidor. Por isso a pergunta do filme, para mim, é tão impactante. Não há tipos de seres humanos. De alta categoria ou baixa categoria, ser humano de verdade ou sub-humano.  Não há gradações de importância para ser um ser humano. Desumanizar, tirar o status de humano, é o passo facilitador para pura eliminação dos seres ditos não-humanos. Ser humano e pronto. Apenas e tanto. Merecedor de vida, dignidade e respeito. Por ser humano.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Solidão vendida

 Vi uma propaganda do mercado imobiliário cujo título era: "Exclusividade é Sublime". A par do mau gosto de usar um adjetivo referente a um sofisticado sentimento (sublime), essa ideia de exclusividade ser a meta é discutível à luz da teoria Socionômica de Moreno. Tirando esse uso torpe da palavra sublime, vamos olhar a palavra exclusividade. "Qualidade do que pertence unicamente a uma pessoa". Sob essa ótica a solitária de uma penitenciária poderia ser vendida com a mesma propaganda. Mas, veja, na penitenciária é punição máxima, estar excluído do convívio de todos, estando totalmente só. Mas, como? Estar só é visto corretamente no sistema prisional como punição máxima. E é realmente. Mas, para vender um produto isto passa a ser desejável? Ser único, não ter com quem compartilhe. Assim também são vendidas ilhas, condomínios, peças de roupa. E a ideia de que o ser humano é um ser relacional? Que só existe na relação entre as pessoas? Ideia Moreniana que os tempos desfizeram. Vendem exclusividade e a pessoas compram solidão.

domingo, 14 de abril de 2024

Professor, Estudante

 Há alguns dias um grupo de estudantes de Psicologia me procurou porque querem fazer uma intervenção grupal usando o teatro espontâneo. Eles fizeram o trabalho intelectual, leram livros do mestre Moysés Aguiar, treinaram entre si. Enfim,  nos reunimos, presencialmente, como foi uma demanda minha. Durante cerca de três horas estivemos juntos experimentando o Psicodrama. Ao final, quando lhes peço o compartilhamento da noite, recebo algumas observações: "Não esperava que fosse assim, pensei que seria uma aula", Há no Sufismo (uma corrente mística muçulmana) uma expressão que diz: "Ensina-me a aprender." No papel complementar ao de professor não está o de aluno e, sim, o de estudante. Aluno é passivo na relação com quem ensina, apenas deixa-se encher e preencher com aquilo que vem do professor. Estudante é papel ativo, ele busca o conhecimento, não espera que ele venha até ele. Educação, Maestria são profundamente diferentes de instrução. Instrução é alguém pegar seu conhecimento e colocá-lo dentro do instruído/aluno. Educação, etimologicamente ex-ducere, conduzir para fora. Ajudar a trazer de DENTRO do Estudante o que lá está ou pode estar, a seu modo e tempo. Construir com ele o conhecimento. E aí ambos aproveitam e crescem em conhecimento. Um complementa o outro. Papéis complementares assimétricos.  Professor - Estudante.

sábado, 6 de abril de 2024

Sagan, Heráclito, Medusa, Conserva Cultural


Carl Sagan era um astrofísico dedicado à divulgação do pensar científico, que se contrapõe ao pensar dogmático das crenças. Em uma de suas inúmeras palestras captei esta frase: "As nossas preferências não determinam o que é verdade." Não é porque gosto ou não gosto, me contraria ou não, me agride ou não, que os fatos são ou deixam de ser verdadeiros. Ciência é sempre e sempre uma aproximação de uma verdade. Jamais será uma verdade absoluta. A essência da Ciência é a dúvida. Não a dúvida da descrença. mas a dúvida metódica, que abre novos caminhos, que não se satisfaz com: "É assim e pronto!", que aguça a curiosidade. Aliás, esta palavra curiosidade, tem sua raiz etimológica na palavra latina "CUR", que significa "Por Que?". Ciência é pergunta, é curiosidade, é desafio ao já sabido, é o antidogma. E isso me lembra muito à Moreno e a postura e atitude psicodramática. Moreno referia-se às "Conservas Culturais", ao conhecimento cristalizado e imóvel. É o nunca questionar, é o nunca perguntar-se " e por que não?", é o " E se experimentarmos diferente?", é o "se fizermos diferentes?", é o "vamos experimentar e ver?". No palco psicodramático chagam histórias de vida prontas. Tom Zé diz em "Parque Industrial": "É somente requentar e usar". Isso é conserva Cultural. Requentar e usar. Mas, cuidado. às vezes tem-se que usar e comer a comida requentada. Mas, e se experimentássemos, na própria comida requentada descobrir um sabor novo, comê-la de outra maneira, perceber o verdadeiro sabor do prato, mesmo requentado? A Conserva Cultural não é o objeto, a palavra. A Conserva Cultural propriamente dita é a nossa atitude conservadora, strictu sensu, que paralisa a vida. Heráclito já dizia: "Não se entra duas vezes no mesmo rio". A Vida, o Mundo, são mutantes, flexíveis. O olhar de Medusa é que petrificava. É o nosso olhar, a nossa forma de experienciar o mundo que petrifica e o torna uma conserva cultural.

terça-feira, 19 de março de 2024

Pais

 Hoje seria aniversário de meu pai. 112 anos faria. E hoje, aos 70 anos, sinto falta de ter uma pessoa mágica, que tudo resolve, em que confiava plena e totalmente. Hoje pesa estar nesse lugar. Lugar que para outros é mágico, poderoso, solucionador de problemas. Dá para entender, mutatis mutandis, a expressão evangélica que todos tem um lugar para dormir e só o Filho do Homem não tem onde repousar. Em escala, a tarefa dos pais é assim. É o fim da linha, posto da último esperança. E eles não têm onde repousar. A missão torna-se maior que o bem estar pessoal. O outro se torna mais importante do que meu próprio estar bem. É fácil gerar pessoas. Mas, não é fácil ser pais. Transcender-se por amor.

domingo, 10 de março de 2024

Notícia de jornal

 "A dor da gente não sai no jornal". Trecho da música, "Noticia de jornal", de Haroldo Barbosa, também gravada por Chico Buarque (procurem ouvir). Pois é. A dor pode não se revelar à visão dos outros. "Quem vê cara, não vê coração". Ditado popular e verdadeiro. Olhar-se no espelho é uma   mão dupla. Vejo meu reflexo e esse reflexo produz em mim uma reação de similaridade. A Neurociência fala de neurônio espelho.  Algo como "me torno o que vejo em mim". Então, uma imagem especular cuidada pode levar a pessoa que olha a sentir-se algo melhor. E o contrário também é verdadeiro. Ver-se descuidado, semblante triste, reforça a sensação depressiva. E o nosso Psicodrama? Ele tem entre suas técnicas fundamentais o chamado Espelho. E o Espelho usa o palco como se tornasse possível a pessoa ver-se agindo de fora, sendo plateia de si. O Diretor/Condutor, após uma cena determinada, solicita ao protagonista que saia do palco para ver, em seu lugar, um ego Auxiliar reencenando o que aconteceu antes. Ao sair do palco, saindo do mundo do Como Se, indo para a plateia, o protagonista vê-se em ação. Seu gestual, sua expressão facial, seu tom de voz, sua prosódia sua interação. Vê-se, enfim. E para que? Ao contrário da interpretação de uma história contada que traduz o ponto de vista do psicoterapeuta, aqui é a própria pessoa que tem a chance de ver-se e ter uma nova opinião, uma nova dúvida. Muda-se algo na mirada da vida. Inclui-se o ponto de vista observacional e relacional do outro. Não, a dor da gente não sai no jornal. Mas, no palco psicodramático o protagonista tem a possibilidade de perceber isto. Que, como dizia Moreno , a nossa cabeça não é transparente. E por assim ser, a dor transforma a todos em ilhas, isoladas sem relações entre elas. O vínculo é o istmo/ponte que muda a ilha em continente. O palco psicodramático e todas as suas técnicas fundamentais promovem essa construção de pontes vinculares, transformando ilhas em penínsulas.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Alunos? Mestres

O Pai do Psicodrama, Jacob Levy Moreno, e a Mãe (sim, Zerka Moreno foi a Mãe do Psicodrama atual) quando falavam de papeis. E Papel é  a maneira pela qual pessoas envolvidas em um vínculo exibem traços culturais e pessoais, de forma  ativa e  complementar. E ao falarem da dinâmica dos papéis nos ensinam que ao entrarmos numa relação vincular qualquer, pessoal ou profissional, no primeiro momento, Role Taking (Tomada de Papel), há tanto temores quanto desejos. É quando apreendemos e aprendemos o be-a-ba do papel. É quando parece inalcançável, é quando se precisa persistir ainda que a voz interior diga que não dará certo. Em algum momento, a relação começa a fluir, percebemos, ainda com temor, mas já com alegria e prazer que fazemos direitinho. Esse momento chamamos Role Playing. Um parêntese: a tradução habitual é desempenho. To Play é um verbo muito mais rico do que o verbo desempenhar. To play é atuar (cenicamente), é tocar um instrumento, é jogar, é brincar. Não é, tão só e friamente, desempenhar mecânica e assepticamente. Role-Playing inclui todos aqueles sentidos que perdemos na tradução. Eventualmente, em circunstâncias cruciais, quando os manuais já não nos dão suporte, o supervisor já não tem respostas, algumas criam soluções originais, fora do script. Um salto sem paraquedas na certeza de voar. Role Creating (Criação no papel).  Coração dispara, garganta seca. O estômago contrai. Um parto.  Maiêutica (partejar em grego e em Sócrates) psicodramática. Como os partos, não acontecem sempre. Como os partos, alegria faz par com temor. Como os partos damos à luz uma ação original. Com prazer, alegria e um sincero "como pude fazer isso?". E voltamos a desenvolver a ação partejada. Uma cria nova. E essa história não nem deve ser vista como sucessão de fases. A vida é dinâmica, as relações são dinâmicas. A cada momento podemos passar pelos modos de funcionar. É uma dança circular e continua. E sendo assim, vitaliza as relações entre papéis, elas não se cristalizam, não se fossilizam. Desejar, aprender/apreender, fazer, desejar, aprender, fazer. E criar quando nos permitimos colocar o pé no vazio. A imagem do filhote de passarinho que nunca voou saindo do ninho. As asas foram criadas, mas quem as bate somos nós. Isso não é crença que visa sempre o resultado. Isso é Fé, confiança no método. Salto no escuro.
Esse texto é dedicado aos membros da PROFINT. Alunos? Não. Mestres.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Carnaval e Psicodrama

Carnaval. "Carnis levare", Início dos quarenta dias da Quaresma, quando o comer carne é proibido. Cristianização da Lupercália romana. E nessa festa há o que falar. O calendário romano iniciava-se em março, mês dedicado à principal divindade romana, o deus Marte. Então, no mês anterior era o mês da purificação e da fertilidade. Em 15 de fevereiro (Februarius em Latim, februs = purificação) Era a Lupercália, terceiro dia dessa comemoração. Rito em que homens nus corriam açoitando com tiras de pele de animal todos e, principalmente as mulheres. Ser açoitada por esses chicotes e marcadas pelo sangue do sacrifício, era sinal de fertilidade. Mas, o caos era completo. Caos, sem organização, em que os hábitos eram invertidos, papéis eram invertidos, exibição de uma desinibição sem freios. Esgotava-se o ano civil com essa explosão catártica e fértil. E o nosso Psicodrama? Durante muito tempo o Teatro da Espontaneidade de Moreno foi associado a um happening, a um "laissez faire". A um caos. A quase uma lupercália onde nada é proibido e tudo é permitido. E ainda agora,  a maioria das pessoas associa espontaneidade com descontrole e exposição, "fazer o que dá na cabeça". Algo atemorizante muitas vezes. Espontaneidade, para Moreno, é ter liberdade de se fazer e Criatividade, sempre associada, a capacidade, o poder de fazer a melhor escolha, para a cena, para a vida. Ser mais espontâneo, diminuindo as restrições, é ter mais possibilidades de escolha para o ato criativo. Não falamos nem pensamos, no Psicodrama, na espontaneidade solta, descolada da ação criativa. Espontaneidade sem criatividade é espontaneísmo. Desenvolver, aumentar a Espontaneidade é diminuir as  restrições prévias, os "não pode" antecipados, os prejulgamentos, as pressuposições. Numa atividade psicodramática esse é o objetivo de nosso Aquecimento (Caldeamento, Warming up). E para que? Para possibilitar a escolha da melhor ação criativa na Cena. Seja na Cena, seja na Vida. Espontaneidade é um estado, Criatividade é uma ação. 

domingo, 21 de janeiro de 2024

O côncavo e o convexo

Escrevo sobre Psicodrama, sempre relacionado com as coisas da vida, no consultório e além consultório. E por que faço isto? Porque, apesar do psicodrama ser mais que centenário, ainda é um ilustre desconhecido para o senso comum. Como entre a palavra psico e a palavra drama parece que a palavra drama chama mais a atenção. Drama, dramático, teatro, teatrinho, banalidade. E psico, remete à psicologia, psicoterapia. Seria um teatrinho em que apenas se representa uma atitude dramática? E olhem que a palavra drama e dramático já tem algo de desqualificante, leviano, no uso cotidiano. Não. O Psicodrama advém do Teatro, mas não é Teatro. Teatro é re(a)presentação de algo escrito ou imaginado, por um autor,e atuado por um ator ou atriz. As técnicas psicodramáticas vêm do fazer teatral, o palco é do Teatro. Mas a peça é a história daquela pessoa ou grupo. O protagonista em uma peça teatral é a personagem central re(a)presentada por um ator. No Psicodrama o protagonista/autor atua sua vida no aqui e agora. O texto é vivido naquele instante. No palco teatral, tal como descrito por Aristóteles, é a plateia que sente o impacto da catarse da história. Não o ator/atriz. Esse sentiu o impacto na leitura, nos ensaios, na criação da personagem. Não na hora da atuação. Naquele momento é a personagem quem atua.. No Psicodrama é o protagonista e o grupo que vivenciam o impacto catártico de sua própria história. As técnicas psicodramáticas são para o protagonista/autor também ser a plateia de si. ver-se em cena. O Psicodrama, fenomenologicamente, põe o protagonista para experimentar os múltiplos papéis em cena. As várias posições de olhar de cada papel com o qual se relaciona. O palco no Psicodrama é experiência de multiplicar miradas e visões, de incorporar, além da sua já existente, outras formas e maneiras de conhecer e experienciar o mundo e suas relações. O drama que cuidamos é o Drama do existir de cada um em seus múltiplos papéis e vínculos. É o dentro e o fora, o subjetivo e o objetivo, o côncavo e o convexo.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...