Li há algum tempo, uma crônica de Umberto Eco em que ele fazia uma inteligente observação sobre o ato de reconhecimento. Reconhecer e ser reconhecido, dizia ele, era, até bem pouco tempo, algo referente a uma atitude, uma ação, um gesto feito por alguém que o notabilizava diante dos outros. Um descobrimento, uma invenção, uma posição política. E aí ele faz sua pequena e aguda observação. Ser reconhecido, hoje em dia, é literalmente ter seu rosto reconhecido, ter sua fisionomia reconhecida, pela recordação de alguma mídia em que haja saído sua imagem. Não mais se trata de reconhecer algum nível de grandeza humana no outro. Mas, sim, simplesmente, reconhecer um rosto já mostrado. É a própria sociedade do espetáculo em ação. Um rosto na mídia vale mais que um feito, uma realização importante. A imagem suplanta o conteúdo.
segunda-feira, 24 de junho de 2019
sábado, 15 de junho de 2019
Soneto e Psicodrama
Soneto
Chico Buarque
Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono
Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo
Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída
Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio
Chico Buarque
Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono
Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo
Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída
Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio
Chico é sempre Chico. Mas, ao lado de ser um Poeta, há o que pode ser lido nas entrelinhas de seu poema/letra. Em Psicodrama/TeatroEspontâneo, a ideia central é permitir ao protagonista um novo olhar. Isso porque o olhar cristalizado, o olhar conservado, o olhar petrificado, para nós, Psicodramistas, é o núcleo dos problemas existenciais. Mas, psicoterapia não é salvação a todo custo. "Vou lhe salvar quer queira ou não". O poema/letra de Chico mostra que o risco e o medo de mudar, muitas e muitas vezes,impede a própria mudança. Nesse caso, o Psicodrama/Teatro Espontâneo permite que a mudança de vida ou de atitude seja realmente experimentada na realidade suplementar do palco psicodramático. E sem desafiar o medo/temor do protagonista. Mas dando a ele a segurança e a continência do como se Psicodramático.
terça-feira, 11 de junho de 2019
Dia dos Namorados/Enamorados
Para nós Psicodramistas as relações se estabelecem entre papéis. Ou seja, não existe um eu sozinho, o eu é sempre relacional. E, em cada relação mediada por papéis há sempre instantes de tomada (aprendizado) do papel, desenvolvimento desse papel e criação sobre ele. Isto continuamente num loop existencial. Cada papel constitui seu papel complementar. E essa relação pode se construir de forma simétrica ou assimétrica. O nosso grande mestre Dalmiro Bustos, num grande saque, diz que papeis assimétricos são nomeados diferentemente e papeis simétricos são nomeados com uma mesma palavra, no plural. Assim, professor/aluno, marido /mulher, pais/filhos, terapeuta/paciente são vínculos assimétricos. Amigos, namorados, inimigos, irmãos são vínculos simétricos. Então, em vínculos simétricos os dois papeis se complementam de forma paritária. assim namorados é um vínculo simétrico caracterizado pelo enamoramento. Essa condição de enamorado/enamorada é o que dá a esse vínculo a nomeação de namorados. Portanto, no dia dos namorados estaremos celebrando a condição de enamoramento, estar enamorado, estar em amor.
sábado, 1 de junho de 2019
Arte e/ou técnica
Desde
cedo quando descobri que, em Grego, a palavra techné é arte, fica
flutuando pelo meu espírito uma dúvida que nunca soube muito bem
qual era. Sentia que havia algo, mas não estava claro o que. Passei
a pensar e refletir.
Os
gregos chamavam de techné àquilo feito com habilidade e destreza.
Heródoto definia como: saber fazer de forma eficaz. Ars,
já para os latinos, conserva a mesma acepção, com outra palavra.
Na Idade Média, Ars Mechanica começou a corresponder ao que hoje
chamamos de técnica. E aí começa uma divisão entre o técnico e o
artístico. Ao primeiro termo é dada uma conotação de precisão e
seriedade que parece faltar, no senso comum, ao artístico. Ser
técnico é ser preciso, exato, científico. Sério, portanto. Ser
artístico é ser sonhador, pouco racional, impreciso. Não sério.
Um filho técnico faz o pai confiar no seu futuro. Um filho artista é
uma preocupação constante. Entretanto, ao vermos ou lermos a
descrição de um matemático da demonstração de um teorema,
percebemos que há um sentido estético na apreciação. Uma
bailarina é precisa, hábil. Há destreza em seu passo. Os longos
anos de preparação de uma bailarina, suas dores, falam de técnica,
precisão, exatidão. O exercício é Técnica. E Arte. E como Arte
inclui a estética. O gesto preciso e econômico. Como o Artesão. O
Artista sabe. E sabe fazer de forma eficaz. O Artista é exato. Chico
Buarque diz da saudade: é o revés do parto. Econômico, preciso.
Tal como E=mc2. Esta fórmula é bela. Chico é exato. Sempre o
bem-feito traduz-se em sensação estética. Podemos estar em sala de
psicoterapia, numa prancheta, em um papel escrito, um campo de
futebol, uma tela, um barro ou mármore. Tanto a nossa Arte quanto a
nossa Técnica confluem-se no bem-feito. Não nos esqueçamos que
Poesia, também em Grego, provém do verbo Poesis com significado de
fazer, fabricar. Arte ou Técnica? Arte/Técnica: exatidão e
estética, rigor e espontaneidade, precisão e leveza.
segunda-feira, 27 de maio de 2019
Teatro Espontâneo
“A
agulha do Real nas mãos da fantasia”
A linha e o linho, Gilberto Gil
Como já foi dito, o Psicodrama que fazemos hoje não é o Psicodrama que Moreno fazia. Assim também podemos falar do que convencionamos chamar Teatro Espontâneo. Moreno denominava, e assim intitulou seu livro, Teatro da Espontaneidade. Nós usamos a expressão Teatro Espontâneo. Trata-se da mesma coisa? Estamos falando de mera troca de uma locução adjetiva, da espontaneidade, pelo adjetivo correspondente, espontâneo? Não, penso que não. E é disto que tratarei a seguir.
Como as palavras são envoltórios dos conceitos, o que propomos aqui é a discussão dos conceitos embutidos nas duas situações. Lendo o livro de Moreno, percebemos que sua intenção primeira era de valorizar e sedimentar o conceito de Espontaneidade. Era o centro de sua atenção, de seu universo particular. Era a sua ferramenta para se contrapor ao conservado, petrificado, tradicional. Ao teatro morto e congelado se contrapunha a experiência espontânea. Era a sua lança diante do moinho de vento do teatro tradicional. Assim DA ESPONTANEIDADE refere-se a um substantivo, a um algo que precisa ser exibido, desenvolvido, cultivado. Todo o esforço da trupe e de Moreno era exibir diante de uma plateia descrente e atônita, um algo novo, revolucionário: a Espontaneidade. Fazendo uma dublagem (duplo) de um possível frequentador, digo: ”Puxa, não é que existe mesmo esta Espontaneidade que Moreno fala? Eu a vi no palco”. Também posso fazer outra dublagem (duplo): “por mais que eles se esforçassem não vi a Espontaneidade apregoada, vi uma bagunça completa". Como poderia ser a dublagem de um ator qualquer da trupe: “Hoje a Espontaneidade estava no palco, vi no rosto das pessoas sua surpresa". Ou então: “Tentamos de tudo, mas não deu". E Moreno, qual seria seu duplo? “Eu sabia que era possível mostrar do que a Espontaneidade é capaz!”. Ou: “Vou ter que inventar mais um jeito para esfregar na cara das pessoas que isto existe!”. Como toda dublagem, ela poderia ou não ser validada pelas pessoas, mas, para efeito de discussão consideremos que houve esta validação. A Espontaneidade era a atriz principal de seu Teatro. Todos os olhos voltados, benévola ou malevolamente, para ela. O Teatro da Espontaneidade existia e existiu, para justificar uma ideia de Moreno. Foi necessário, foi imprescindível. No contexto da época, estimular a existência da Espontaneidade era navegar contra uma corrente que via a liberdade e espontaneidade como geradoras de caos, de caos destrutivo. A década de 20 do século XX ainda era século XIX: sua estética, sua ética, sua moral era de um século XIX estendido. Moreno e Freud, trouxeram, a seu tempo, dois demônios a serem exorcizados, o sexo e a espontaneidade.
Mas, tempus fugit. O tempo passa. Ao longo do tempo, o substantivo Espontaneidade foi sendo substituída por um adjetivo, uma qualificação. Gradualmente, já não se perseguia a espontaneidade como um fim e sim um agir espontâneo, um criar espontâneo, um viver espontâneo. Uma CREAÇÃO. Em que o objetivo está no processo, no status nascendi. O Teatro Espontâneo é a criação em status nascendi. Seu objetivo, sua meta, sua realização é o próprio fazer, o construir. “mais importante do que a evolução da criação é a evolução do criador”. O ritmo, a estética são balizadores do fazer harmônico daquele grupo. No Teatro Espontâneo matricial, em que do próprio grupo emergem as histórias, o protagonista, os egos auxiliares, cada grupo ou cada agrupamento tornado grupo pelo aquecimento, tem caminhos diferentes, constrói-se diferente e tem o seu fim possível. Cada grupo obtém o que ele pode obter daquele e naquele MOMENTO (Kairós). A dublagem (duplo) possível de um membro do grupo: “Gostei de sentir que podemos fazer coisas juntos, a partir do nada”. Ou então: “Achei uma história boba, parecendo grupo amador”. O condutor do grupo: “Tinha instantes que não sabia o que fazer ou por onde ir, mas sempre confio no grupo e aonde ele me leva”. Embora trabalhoso, arriscado, demandando uma direção cuidadosa, o TE no formato matricial, sem trupe específica, possibilita ao grupo não só contar e ouvir histórias, mas, e principalmente, fazendo-se de ator e dramaturgo, construir um algo evanescente, produção possível do grupo, fotografia daquele instante vivencial, atravessado pelo social e pelo histórico, que dura o que o grupo durar, mas permanece como experiência indelével. A meta é o caminho.
Como as palavras são envoltórios dos conceitos, o que propomos aqui é a discussão dos conceitos embutidos nas duas situações. Lendo o livro de Moreno, percebemos que sua intenção primeira era de valorizar e sedimentar o conceito de Espontaneidade. Era o centro de sua atenção, de seu universo particular. Era a sua ferramenta para se contrapor ao conservado, petrificado, tradicional. Ao teatro morto e congelado se contrapunha a experiência espontânea. Era a sua lança diante do moinho de vento do teatro tradicional. Assim DA ESPONTANEIDADE refere-se a um substantivo, a um algo que precisa ser exibido, desenvolvido, cultivado. Todo o esforço da trupe e de Moreno era exibir diante de uma plateia descrente e atônita, um algo novo, revolucionário: a Espontaneidade. Fazendo uma dublagem (duplo) de um possível frequentador, digo: ”Puxa, não é que existe mesmo esta Espontaneidade que Moreno fala? Eu a vi no palco”. Também posso fazer outra dublagem (duplo): “por mais que eles se esforçassem não vi a Espontaneidade apregoada, vi uma bagunça completa". Como poderia ser a dublagem de um ator qualquer da trupe: “Hoje a Espontaneidade estava no palco, vi no rosto das pessoas sua surpresa". Ou então: “Tentamos de tudo, mas não deu". E Moreno, qual seria seu duplo? “Eu sabia que era possível mostrar do que a Espontaneidade é capaz!”. Ou: “Vou ter que inventar mais um jeito para esfregar na cara das pessoas que isto existe!”. Como toda dublagem, ela poderia ou não ser validada pelas pessoas, mas, para efeito de discussão consideremos que houve esta validação. A Espontaneidade era a atriz principal de seu Teatro. Todos os olhos voltados, benévola ou malevolamente, para ela. O Teatro da Espontaneidade existia e existiu, para justificar uma ideia de Moreno. Foi necessário, foi imprescindível. No contexto da época, estimular a existência da Espontaneidade era navegar contra uma corrente que via a liberdade e espontaneidade como geradoras de caos, de caos destrutivo. A década de 20 do século XX ainda era século XIX: sua estética, sua ética, sua moral era de um século XIX estendido. Moreno e Freud, trouxeram, a seu tempo, dois demônios a serem exorcizados, o sexo e a espontaneidade.
Mas, tempus fugit. O tempo passa. Ao longo do tempo, o substantivo Espontaneidade foi sendo substituída por um adjetivo, uma qualificação. Gradualmente, já não se perseguia a espontaneidade como um fim e sim um agir espontâneo, um criar espontâneo, um viver espontâneo. Uma CREAÇÃO. Em que o objetivo está no processo, no status nascendi. O Teatro Espontâneo é a criação em status nascendi. Seu objetivo, sua meta, sua realização é o próprio fazer, o construir. “mais importante do que a evolução da criação é a evolução do criador”. O ritmo, a estética são balizadores do fazer harmônico daquele grupo. No Teatro Espontâneo matricial, em que do próprio grupo emergem as histórias, o protagonista, os egos auxiliares, cada grupo ou cada agrupamento tornado grupo pelo aquecimento, tem caminhos diferentes, constrói-se diferente e tem o seu fim possível. Cada grupo obtém o que ele pode obter daquele e naquele MOMENTO (Kairós). A dublagem (duplo) possível de um membro do grupo: “Gostei de sentir que podemos fazer coisas juntos, a partir do nada”. Ou então: “Achei uma história boba, parecendo grupo amador”. O condutor do grupo: “Tinha instantes que não sabia o que fazer ou por onde ir, mas sempre confio no grupo e aonde ele me leva”. Embora trabalhoso, arriscado, demandando uma direção cuidadosa, o TE no formato matricial, sem trupe específica, possibilita ao grupo não só contar e ouvir histórias, mas, e principalmente, fazendo-se de ator e dramaturgo, construir um algo evanescente, produção possível do grupo, fotografia daquele instante vivencial, atravessado pelo social e pelo histórico, que dura o que o grupo durar, mas permanece como experiência indelével. A meta é o caminho.
sábado, 18 de maio de 2019
18 de maio de 1974
Há 45 anos morria. Moreno. Jacob Levy Moreno.Criador do método Socionômico, do Psicodrama, do Sociodrama, Teatro Espontâneo.Mas não é sua morte que deve ser lembrada, apenas. Mas os fundamentos filosóficos que sustentam seu método Socionômico. O ser humano é um ser em relação. A Criatividade-Espontaneidade são as raízes do desenvolvimento humano. Ver o mundo com o olhar do outro ao tempo que o outro vê o mundo com o nosso olhar. A chance de outro começo, outro olhar, a segunda vez pode libertar a primeira vez que ficou cristalizada no tempo, confiança no grupo, confiança.
"Aqui jaz aquele que trouxe alegria à psiquiatria." Este é o seu epitáfio.
E este é o seu eterno convite:
CONVITE
AO
ENCONTRO
Mais
importante
do
que
a
ciência
é
o seu
resultado,
Uma
resposta provoca uma centena de perguntas.
Mais
importante do que a poesia é o seu resultado,
Um
poema
invoca
uma centena
de
atos
heróicos.
Mais
importante do que o reconhecimento é o seu resultado,
O
resultado é dor e culpa.
Mais
importante do que a procriação é a criança,
Mais
importante do que a evolução da criança é a evolução do
criador.
Em
lugar de passos imperativos, o imperador.
Em
lugar de passos criativos, o criador.
Um
encontro de dois: olhos nos olhos, face a face.
E
quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no
lugar dos meus,
E
arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus olhos;
Então
te verei com os teus olhos
E tu me
verás com os meus olhos.
Assim,
até a coisa comum serve o silêncio
E nosso
encontro permanece a meta sem cadeias;
O lugar
indeterminado, num tempo indeterminado,
A
palavra indeterminada para o Homem indeterminado.
(Jacob
L. Moreno)
domingo, 12 de maio de 2019
Dia do Papel de Mãe
Hoje é Dia das Mães. Ou o Dia do Papel de Mãe. Pensando em termos psicodramáticos (socionômicos) o papel de mãe surge da relação com pessoas em que há os atributos de continência, aceitação, limite, disciplina, incondicionalidade do afeto e, sobretudo, magia de fazer da imaginação uma ferramenta de cura e resolução de problemas. É uma relação assimétrica entre os papéis - o de filho e o de mãe. Acolhimento de um lado do papel e necessidade no outro lado dessa relação. Mas nesse papel materno cabem atores mães biológicas, mulheres, homens, amigos, amantes, profissionais de qualquer área. A função de acolhimento versus necessidade é a fundadora do papel de psicoterapeuta, por exemplo. Pais podem e devem ser mães. E é função do papel materno. Hoje é dia do papel materno, dia da mãe que cada um pode ser na sua relação com o outro.
sábado, 11 de maio de 2019
Para que um título?
Fui convidado para uma atividade aberta na ABPS de São Paulo. E aí me foi pedido um título para o trabalho. E aí mais uma vez me deparo com algo que me deixa pensativo. Para que serve um título para um trabalho qualquer? Serve, penso, para que quem o leia já inicie seu aquecimento para a atividade, muitas coisas começam a passar pelo leitor. Favoráveis ou não. Mas todas servem para um aquecimento ainda no tempo da leitura do título. Assim, desse ponto de vista, um título é o início de um aquecimento. Bem feito ou mal feito. Então o título deve conter elementos instigadores ou inusitados ou surpreendentes ou estranhos. O que for. Mas sempre não banais nem repetitivos. Então, o título para a plateia, para o leitor, para o curioso, é sempre um aquecimento ou desaquecimento. Mas, há outro angulo que me deixa pensativo. O título para o condutor de Psicodrama/Teatro Espontâneo pode ser um enorme limitador da criatividade. Obrigar-se (eu escrevi obrigar-se!) a seguir um título planejado que corresponde a uma expectativa, a um plano, pode desconsiderar gravemente o movimento grupal, aquilo que se inicia e se desenvolve quando o grupo está se construindo. Quando uma atividade psicodramática se inicia algo novo se constrói.
"Todo começo é involuntário". Fernando Pessoa
quarta-feira, 1 de maio de 2019
E se....
E se... . Eu não devia. Eu devia. Não, eu quero.
Eita expressões problemáticas! Cada uma delas, se for perguntado ao protagonista que as expressa, qual o cenário, a paisagem mental, a imagem, a cena correspondente veremos quantos universos simultâneos acontecem em nós. E traduzindo em cenas efetivas, atualizando no palco essas paisagens mentais, trazendo ao concreto da cena o que está subjetivado, teremos a realização do Psicodrama, do Teatro Espontâneo.
Eita expressões problemáticas! Cada uma delas, se for perguntado ao protagonista que as expressa, qual o cenário, a paisagem mental, a imagem, a cena correspondente veremos quantos universos simultâneos acontecem em nós. E traduzindo em cenas efetivas, atualizando no palco essas paisagens mentais, trazendo ao concreto da cena o que está subjetivado, teremos a realização do Psicodrama, do Teatro Espontâneo.
quinta-feira, 25 de abril de 2019
3D
Regra geral não percebemos que ao falarmos, além das palavras há outras comunicações sendo produzidas e recebidas. Essas outras formas de comunicação são analógicas: a entonação da voz, a forma de pronuncia-las (prosódia), os gestos, a mímica facial, a pantomima corporal. Quando todas essas formas de comunicação são harmónicas a sensação transmitida é de credibilidade.Ainda assim, a leitura da comunicação digital, a (palavra), e da comunicação analógica (corporal) é do outro, daquele a quem se destina a mensagem. Resultado de toda essa complexa relação: grande possibilidade de confusão (con+fusão = fusão conjunta). Aí entra o Psicodrama, ao Sociodrama, o Teatro Espontâneo. O método socionômico torna-se diferenciado pela tridimensionalidade que o palco, a cena proporciona. Nela e nele pode-se observar todas as formas de comunicação e interação relacional em ação. Isto faz diferença.
segunda-feira, 15 de abril de 2019
Notre Dame
Uma cultura, uma estética de vida, um passado, uma raiz,um sonho, uma meta,um lugar. Nosso mundo está morrendo. Morrendo em seus valores, em seus ideais, em seus marcos balizadores. A Arte está presa ou destruída. O tempo, nosso tempo, nosso tempo Kairós,nosso tempo vivenciado, nosso Momento Moreniano se finda,restando o monótono tic tac do tempo cronológico e utilitário, raso e de horizonte curto. Notre Dame .
sábado, 6 de abril de 2019
Personagem, papel II
Personagem, papel. No mundo cênico, no dicionário, essas duas palavras podem ter conotação sinônimas. Mas no mundo Socionomia no mundo do Psicodrama, no mundo do Teatro Espontâneo, são diferentes. Comecemos pelo Papel. Em Moreno essa palavra denota um conceito relacional. Sempre que se fala de papel há que se falar do papel complementar. Não existe papel isolado. Assim, o Papel em Psicodrama/TE refere-se a algo que se constrói quando alguém entra em contato com outro alguém. Não existe previamente e só existe durante essa relação. E nesse caso, os papéis podem ser intercambiáveis. Papel em Socionomia é, sempre e sempre, dinâmico. Já personagem não é originalmente um conceito socionômico. Mas podemos recriá-lo em nossa visão psicodramática. Fazendo uma analogia com o palco, a personagem é o elemento material, aquele que atua. mas esse personagem, aquele que atua em cena, pode fazê-lo em múltiplos papéis, no sentido psicodramático. Uma personagem X desempenha o papel de namorado com sua amada, de filho com seu pai/mãe, de algoz para com seu subordinado, de vassalo para quem o domina. Tantas relações haja tantas papéis haverá para u o mesmo personagem. Assim, no SocioPsicodrama/TE além de se trabalhar o desenvolvimento dos papéis múltiplos, pode-se trabalhar a personagem comum a todos esses papéis. É uma ideia.
domingo, 31 de março de 2019
como iniciar no Psicodrama?
O
Psicodrama, o método Socionômico, traz conceitos, termos e visões
de mundo muitas vezes radicalmente diferentes das outras abordagens.
Iniciar-se no Psicodrama pelo aspecto teórico apenas frequentemente
redunda em desilusão ou desistência. Na palavra escrita parece ou
mágica ou teatrinho ou superficial. Por isto, experienciar
diretamente o Psicodrama por meio de vivências grupais prepara o
terreno para a apreensão e compreensão da visão teórica trazida
por Moreno. As vivências grupais são atos psicodramáticos únicos,
não processuais, utilizando a sequência habitual do método,
aquecimento, dramatização, compartilhamento e processamento, sendo o
processamento a compreensão teórica daquilo que foi vivenciado.
Sempre o experimentar do método conduz ao interesse pelo método. Aí
sim, o aprofundamento teórico torna-se possível e o interesse permanente.
quarta-feira, 20 de março de 2019
Drácula
Estava relendo pela enésima vez o Drácula, de Bram Stoker. Um livro fascinante pelo qual sou fascinado. E parei numa cena fundamental da história. Drácula já havia marcado Mirna para sua refeição noturna. Mas há um empecilho: um vampiro só pode entrar em uma casa se for convidado. Então, ele se dedica a seduzir Mirna para que à noite lhe abra a janela ao ser chamada. Essa história é contada assim pelo narrador. Mas, Mirna não sabe dessa história, os familiares e noivo dela só veem seu enfraquecimento gradativo. Para Mirna, sua anemia aguda é uma surpresa. Assim como para os outros. Quantas e quantas vezes ao escutarmos histórias vemos uma narrativa contada e recontada, sob um mesmo ângulo, sob um mesmo olhar, sob uma mesma perspectiva. Forçando um pouco a barra, imaginemos Mirna num Psicodrama. Sua queixa é estar enfraquecendo sem saber porque. Seu psicoterapeuta psicodramatista, seu Direto/Condutor, lhe pede para refazer seus passos desde o anoitecer ao tempo em que vai manifestando alto seu pensamento e seu sentimento. e pensamentos (solilóquio) Ela vai realizando sua toalete noturna e em um momento vai até a janela e abre o trinco. Interrompida nesse momento e solicitado seu solilóquio ela poderia ter dito: "estou pensando naquele cara que conheci, tão interessante. Será que ele me visitaria mesmo, como me disse?". Eis porque uma dramatização é capaz de realçar, tridimensionalmente, atos, maneirismos, tons de voz e outras manifestações do subtexto da expressão corporal, que não apareceriam na narrativa verbal. A narrativa cênica inclui e ultrapassa a narrativa verbal.
PS. A cena em Drácula, é linda.
terça-feira, 5 de março de 2019
zona de conforto e olho do furacão
Há expressões que se consagram e são usadas repetidamente sem que se pense muito se elas são ou não razoáveis. Uma delas é "zona de conforto". Geralmente é dita assim: "ele está na zona de conforto dele e não quer se arriscar". Vejamos o uso da expressão "olho do furacão" como sinônimo de estar-se em situação difícil. Pensemos: o que se chama de "olho do furacão" é a zona central de um furação onde momentaneamente nada acontece, há um céu azul, pleno, calmaria e águas tranquilas, antecedendo a virada brusca do tempo. Portanto "olho do furacão" não é apenas uma situação difícil, é uma situação que se apresenta tranquila momentos antes do desastre. E "zona do conforto"? Será que quem usa essa expressão sente-se, realmente, confortável? ou será que quem usa sente-se, de verdade, no "olho do furacão"? Ou seja, quem diz estar numa "zona de conforto" claramente percebe que está no "olho do furacão". Sabe que a merda virá, mas insiste em olhar para o céu azul e o tempo, atualmente, bom? Uma das possibilidades psicodramáticas de criar cenas de futuro é dar ao protagonista de ver o que insiste em não ver. Por temor de mudar cria uma expressão aparentemente reconfortante. "Zona de conforto"? Pois sim!
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E assim é.
Experimentar e refletir. Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo. Há mais de trinta anos...
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