quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
Respeito
Respeito. Palavra que revela um conceito fundamental da vida em sociedade. O que nos diz a etimologia da palavra? Respeito provém do latim Re (outra vez) + spectare (olhar). Respeitar, é assim, permitir um segundo olhar. Não permanecer com apenas o primeiro olhar. Como se o primeiro olhar fosse o olhar impulsivo, o olhar inteiramente pessoal. É como se permitir um segundo olhar fosse admitir uma segunda opinião, uma outra opinião. Respeitar alguma opinião, atitude, pessoa,a própria dor, é se permitir um segundo olhar além do olhar habitual e já conhecido. Em Psicodrama dizemos que manter-se congelado, rígido em uma visão de mundo seria uma postura, uma atitude, um olhar conservado, cristalizado. Desrespeitar, não respeitar, seria desse modo, manter uma visão cristalizada, inabalavelmente rígido e inflexível. Todo o empenho de uma dramatização leva a percepção de novos olhares sobre coisas antigas ou diferentes olhares sobre coisas novas. Admitir, experimentar um outro ou outros possíveis olhares pode, tem a possibilidade, de descristalizar, desconstruir o não respeito favorecendo o desenvolver do respeito.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
Ano e erros novos
Penso que uma virada de ano, uma mudança de data, pode ser apenas uma coisa cronológica, uma virada de calendário. Mas também pode ser um ritual pessoal de dar sentido à própria vida. As coisas serão ou não banais de acordo com o significado que agreguemos a elas. Então, nesse Ano Novo cronológico, desejo a todos que cometam erros novos. Porque repeti-los é nada ter aprendido com a experiência. Não tê-los representa uma completa imobilidade na vida.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
A saúde do psicodramatista
Pesquisando em dicionários (Houaiss, Aurélio), encontramos para Saúde, além da definição clássica da OMS, outras acepções: Robustez, vigor, energia; Estado corporal e psíquico que permite desenvolver as tarefas diárias; Boa disposição, bem-estar; Capacidade para suportar, aguentar, ter paciência para. É a esta última acepção que vamos dedicar a nossa atenção. Todo
papel, seguindo Moreno, tem uma face convexa, voltada para fora,
objetiva, pública e uma face côncava, voltada para dentro,
subjetiva, privada. Examinemos as duas faces. Na dimensão objetiva,
o papel de terapeuta tem uma expectativa social de que ele seja
“compreensivo”, “aguente tudo”: afinal ele é “terapeuta!”.
Nos outros papéis em que também há grande interação humana,
ainda assim, a expectativa encontra-se voltada para o desempenho de
uma tarefa específica. O médico, a enfermeira, o professor tem
interação humana constante mas medicam, cuidam, ensinam. É isto
que é a sua tarefa e nisto está o olhar expectante. Em nosso caso,
é a própria relação entre nós e o paciente/grupo que é o
objetivo. A relação em si é que é a nossa tarefa e nela está o
olhar expectante. E, na dimensão subjetiva, o que nós aguentamos,
suportamos? Em um dia de trabalho de um psicoterapeuta, todas as suas
horas são preenchidas com algum grau de desarmonia, incômodo ou
sofrimento. O nosso papel complementar, ao nos procurar, chega com
alguma nuance de indiferenciação. Obviamente, esta indiferenciação
vai nos exigir uma diferenciação clara e límpida em nosso próprio
papel. Isto é como passar o tempo com andas (perna de pau). Ou andar
em um piso molhado e escorregadio. Exige atenção continuada,
focalização permanente, cuidado constante. Todo o tempo “ligado”
na relação com o paciente/grupo. Um dia, vários dias, meses, anos.
Porém, o ser/terapeuta desempenha também outros papéis. E, ao
complementar estes outros papéis, por um movimento pendular
existencial, pode indiferenciar-se. Nos seus outros vínculos tenderá
a ser impaciente, chato, possessivo, exigente, incompreensivo ou
qualquer outra coisa. Contanto que esteja de folga do exercício
contínuo e desgastante da diferenciação. Nessas outras relações
poderá lhe faltar disposição ou o bem-estar ou o vigor ou a
capacidade de suportar e de ter paciência. No caso deste ferreiro, o
espeto necessita ser de pau. A emenda, entretanto, tende a ser pior
que o soneto. As relações amorosas podem ser, e são muitas vezes, profundamente
afetadas por este efeito rebote, tornando difícil se estar na outra
ponta do vínculo afetivo com um psicoterapeuta.
Para
complicar um pouco mais, esse bumerangue volta-se também para a
própria relação com o paciente/grupo. É a isto que se denomina de
“burn-out”:
o desgaste físico, psíquico e comportamental do profissional. “Os
sintomas somáticos compreendem: exaustão, fadiga, cefaleias,
distúrbios gastrointestinais, insônia e dispneia. Humor depressivo,
irritabilidade, ansiedade, rigidez, negativismo, ceticismo e
desinteresse são os sintomas psicológicos. A sintomatologia
principal se expressa no comportamento; fazer consultas rápidas,
colocar rótulos depreciativos, evitar os pacientes e o contato
visual, são alguns exemplos ilustrativos. Um profissional que está
“burning-out”, tende a criticar tudo e todos que o cercam, tem
pouca energia para
as diferentes solicitações de seu trabalho, desenvolve frieza e
indiferença para com as necessidades e o sofrimento dos outros, tem
sentimentos de decepção e frustração e comprometimento da
autoestima.
O
problema está exposto. Tal qual uma fratura é dita exposta.
Mas
será este o Triste Fim de Policarpo Quaresma? Nós não precisamos
encarnar (e acreditar) no papel de quem tudo suporta ou que de tudo
compreendemos. Somos ajudantes (terapeutas) do processo e não o ator
principal. Somos aquilo que, em Teatro e Circo, se chama de “escada”.
Nos Trapalhões, Didi é o principal e Dedé o “escada”.
A ele cabe a tarefa de preparar a cena que terá o seu desfecho nas
mãos do protagonista. Ao “escada”
cabe o ritmo, a atenção para os detalhes e adequação da pergunta
(o “escada” não conclui: ele faz perguntas muitas vezes
óbvias!). Claro que trabalhar todo o tempo com pessoas tendo essa
intensidade, proximidade e relevância, será sempre delicado, mas a
criatividade de ocupar o papel de “escada”, coadjuvante em cena,
evitará a cristalização do personagem Super Terapeuta: só aparece
a impotência onde antes existia a onipotência.
Falhei em tudo
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá só encontrei ervas e árvores
E quando havia gente era igual à outra.
Tabacaria – Álvaro de Campos/Fernando Pessoa
domingo, 29 de dezembro de 2019
Destino, escolhas
Ouvindo hoje músicas que ganharam o Oscar escutei "Que será, Que será", cantada por Doris Day. Esse é o tema de "O homem que sabia demais", dirigido por Hitchcock. E o que tem isso, além de curiosidade? É essa expressão comum no mundo latino: O que será, será. Ouvida, escutada, vivenciada, é algo como: nada a fazer, seu destino está traçado, não adianta lutar nem tentar alterar nada. Tudo já está definido. É melhor relaxar e não dar murro em ponta de faca (outra expressão coloquial). Num filme de suspense hitchcockiano faz sentido introduzir o tema da inexorabilidade, da irreversibilidade, do destino trágico da personagem, deixando a surpresa para o final. Mas, e na vida? Diz Raul Seixas, em uma de suas músicas: "O destino é a gente que faz, na mente de quem for capaz". Moreno dizia que a segunda vez podia libertar a primeira, referindo-se à dramatização, com a realidade do Como Se do palco. "O que será, será". "Não se dá murro em ponta de faca". "O destino é a gente que faz". "A segunda vez (dramatizada) liberta a primeira (vivida) da cristalização do destino". Destino ou escolha?
sábado, 28 de dezembro de 2019
Icaro
Ícaro
quis chegar ao Sol. Suas asas coladas com cera derreteram. Ele caiu.
Irremediavelmente IMPOTÊNCIA tem seu antônimo na ONIPOTÊNCIA.
Impotência é o estado em que se cai ao se pretender Onipotente e
descobrir-se incapaz de sê-lo. Refiro-me à presunção e vaidade
como os principais inimigos invisíveis e impalpáveis da Direção
psicodramática. Ambas levando à indiferenciação no papel
diretivo. Quando o diretor pretende (e em inglês, o verbo to
pretend significa fingir) ser o centro irradiante, ele se perde da
sua condição de membro do grupo em papel diferenciado. Ele se isola
do grupo. Ícaro.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
espontaneidade, criatividade
Há uma frase de Moreno, chamada por ele de mandamento, que diz: "Sê espontâneo!". Embora dele, contradiz-se. Usar o modo imperativo para referir-se à espontaneidade é uma contradição, um paradoxo, mesmo. É como se dizer: seja livre. A espontaneidade é a liberdade total de opções, o conjunto-universo de possibilidades. Como pode estar limitada por uma ordem, por um imperativo? Diz Millor Fernandes que quem dá pode tirar. A liberdade, a espontaneidade não são autorizadas de fora para dentro, e sim, de dentro para fora. A criatividade, sim, é quem faz as melhores escolhas, levando em questão o contexto, o momento. A espontaneidade é o Caos completo, a matéria-prima de onde a criatividade (Cosmos) escolhe e organiza a melhor, a mais adequada solução.
E escrevo em letras minúsculas, espontaneidade e criatividade, para lembrar o conceito que não são entidades para uso especial, em ocasiões especificas, para se retirar de um baú de utilidades. São parte essencial do viver. A espontaneidade e a criatividade são quem nos tira da condição de autômatos quase vivos.
terça-feira, 24 de dezembro de 2019
Natal e Psicodrama
A origem do Natal está nas comemorações do Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Solstícios são os pontos da trajetória terrestre em que os hemisférios estão mais próximos (verão) ou mais distantes (inverno) do Sol. Assim, para as tradições místicas do Hemisfério Norte, esse período era quando, em seu hemisfério, Dezembro, a inclinação da Terra em relação ao Sol, voltava a se aproximar, quando o Inverno anunciava o seu fim, quando as esperanças de um novo plantio, de um degelo, surgiam, respondendo à expectativa da espera. Nas tradições místicas isso era o símbolo da renovação, do anúncio de um novo tempo. Avatares e deuses eram comemorados nesse dia. Krishina, Mitra, por exemplo. Por isto a tradição cristã aproveitou-se desse simbolismo. E isso que tem a ver com o nosso Psicodrama/Teatro Espontâneo? Nada. E tudo. Moreno, o criador do Método Socionômico (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) era um judeu imbuído das tradições judaicas, principalmente da filosofia hassídica. E esse Hassidismo tinha por base a renovação, a fé na transformação, a esperança de um recomeço. Socionomia, Sociodrama, Psicodrama Morenianos são sempre fundados nessa atitude de mudança, transformação, um novo olhar, uma nova chance, um outro começo.
domingo, 22 de dezembro de 2019
ortodontia, fisioterapia, psicoterapia
Quando falamos ou ouvimos a palavra papel, em geral, é como se ouvíssemos ou falássemos algo como representação, falsidade ou não verdadeiro. Transpondo do contexto teatral para a vida. Quando Moreno se apropria da palavra papel (Role, em inglês) ele o usa num contexto particular, o da socionomia. O cerne do pensamento Moreniano é que o ser humano é um ser relacional. Portanto, todo o pensamento socionômico, moreniano, está numa frase dele: "Não é que não haja o mundo intrapsíquico, mas me interessa o interpsíquico". E papel, então? No dizer moreniano o papel surge quando interage. com outro papel. O papel sempre pressupõe o papel complementar. Ele não existe só. Para haver paternidade ou maternidade há que haver o papel de filho, real e concreto, imaginário ou não. Toda intervenção num papel não é uma intervenção isolada do mundo. Há que se ver esse papel interagindo em outros contextos ou com outros papéis complementares. Isto tudo para falar sobre algo que escutei ultimamente. "Já faço tratamento ortodôntico (ou fisioterápico) há anos e não funciona". Pergunto sempre: E você vai às revisões mensais (ou sessões ou exercícios em casa) regularmente, sem faltar? Sempre ouço essas respostas: "Às vezes não, mas já era para ter produzido algum efeito". Isto também ocorre em psicoterapia. Há uma espécie de fantasia onipotente colocada no profissional pelo cliente/paciente. Em termos socionômicos diremos que a relação paciente - profissional exige os dois papéis: o profissional e o cliente. Ambos se complementam mutuamente. Não é possível exercer o papel de psicoterapeuta sem que o outro assuma o papel de cliente ou paciente. Enfim, Psicoterapeuta e paciente complementam-se para desempenhar um ato. Algo diametralmente oposto ao ato cirúrgico complexo. o cirurgião desemprenha seu papel quase completamente independentemente de seu complementar o paciente na maca. Quase. Porque há que se contar com a reação orgânica no ato cirúrgico. O paciente - cliente de psicoterapia tem o papel protagônico na relação terapêutica. O papel complementar de psicoterapeuta corresponderia mais ao "escada" do circo ou teatro: aquele que prepara a piada, prepara o desfecho, cria as condições cênicas. Mas a piada, o desfecho é do protagonista.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
confiança no método
Com
o longo tempo e grande número de atividades públicas de Teatro
Espontâneo/Sociodrama trago reflexões sobre circunstancias difíceis
desta categoria de atividade socionomica, mas que podem ser
estendidas a outras formas de exercício psicodramático.
Divido
em expectativas e contexto físico. O contexto grupal terapêutico é
bastante diferente do contexto grupal em uma atividade aberta,
pública. Uma questão importante que o Diretor/Condutor deve atentar
é que no contexto terapêutico os participantes têm um compromisso
tácito de frequência e permanência no grupo. Em uma atividade
pública as pessoas entram e saem na medida de sua conveniência ou
interesse. O único empecilho para a saída antecipada do
participante seria a vergonha de atravessar o espaço físico. Nestas
atividades abertas, públicas mais do que nunca o aquecimento é
vital. Torna-se mandatório perceber a queda de atenção do
participante, estar vigilante para o ritmo da cena, para o interesse
despertado porque nada prende a pessoa como membro do grupo, só este
interesse. Daí porque quem trabalha com TE é tão cuidadoso quanto
ao ritmo da cena e é tão cioso do aquecimento. O julgamento crítico
negativo do grupo é exibido clara e cruamente pela saída
progressiva dos participantes. Temos outra dificuldade que é fruto
até próprio bom desenrolar da atividade de TE. É quando dentro de
uma história criada emerge uma situação pessoal que pela sua
intensidade não pode apenas ser acolhida à parte do desenrolar. É
quando se entra no conflito ético de precisar trabalhar como
Psicodrama Público quando a proposta era de TE. As poucas vezes em
que isto aconteceu a cena original foi congelada e levantada a
questão para a pessoa e para o grupo de como seguiríamos. Alguma
vez houve acordo da pessoa e do grupo para trabalharmos a questão
pessoal. Em uma ocasião, como Diretor/Condutor tomei a iniciativa de
não dar prosseguimento ao trabalho embora aceite pelo grupo e pela
pessoa por considerar que, naquele momento, não havia nem haveria
continência para um trabalho de cunho terapêutico stricto sensu.
Mas, enfim, este é um risco inerente a todo trabalho grupal e, ainda
que devamos nos prevenir, às vezes não há como evitar lidar com
este dilema. A decisão será sempre levando em conta o grupo, a
pessoa e a sensibilidade télica do Diretor/Condutor.
A
outra parte de dificuldade refere-se ao contexto físico, ao espaço
destinado ao trabalho. O espaço há que ser proporcional ao tamanho
do grupo. Grupo grande em espaço pequeno é tão problemático
quanto grupo pequeno em espaço muito grande. O primeiro é
complicado pela limitação de movimento e o segundo complica pela
sensação grupal de pequenez, como se reduzisse a importância do
grupo, acentuando seu pequeno tamanho. A compatibilização é muito
importante para o aquecimento e desdobramento do trabalho. A presença
de cadeiras fixas torna-se um empecilho considerável. Neste caso
pode-se pensar nos corredores, na parte da frente das cadeiras. Tudo
na dependência do tamanho do grupo. Em último caso, há a
possibilidade de fazer-se o aquecimento nos próprios lugares, usando
mais a palavra. Cantos, jogos verbais, desafios entre partes do
auditório podem ser usados deixando os poucos espaços livres para a
cena em si. Não nos esqueçamos nunca que a palavra também pode ser
uma forma de ação. Locais sem cadeiras, espaços abertos, podem não
ser muito bons para pessoas com limitações físicas ou com idade
avançada. Isto favoreceria a saída precoce destas pessoas, não por
desinteresse, mas por desconforto. Então, é necessário perceber os
sinais de desconforto físico, minimizá-los se possível, ou
trabalhar a saída delas de maneira que não seja desaquecimento para
o grupo e que elas, ao sair, não se sintam inteiramente frustradas
ou discriminadas.
Estes
são alguns exemplos de dificuldades no exercício do ato socionomico
em espaço público ou aberto. Entretanto, lembremos alguns pontos:
não esperemos a situação ideal; o método psicodramático
pressupõe que tomemos a realidade tal como ela se apresenta; o
Diretor/Condutor não carrega o grupo, não é o responsável
solitário pelas decisões e escolhas; cabe ao Diretor/Condutor,
seguindo o método socionômico, ter sempre em mente que ele é
membro do grupo, em papel diferenciado; trazer para o grupo os
problemas e dificuldades porque ao grupo cabe encontrar a forma
melhor e adequada de lidar com estes percalços.
Enfim,
o método socionômico é a nossa ferramenta para lidar com as
dificuldades operacionais. Há que se viver o método, tornando-o
parte inerente do exercício de todos, todos mesmos, instantes da
atividade grupal. Ou seja, dificuldades
e problemas podem ser aquecimento.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
Escolhas
Há dois dias realizamos nossa última sessão do ano de Teatro Espontâneo/Psicodrama. O interesse em manter essa atividade, aberta e livre, é dar aos curiosos, interessados, amantes e conhecedores, a oportunidade de estar em um espaço onde o olhar psicodramático, a espontaneidade e criatividade estejam em ação. E há dois dias, todos os que lá estiveram, foram presenteados com uma história de Paulo. Quando escolhi essa imagem (essa do blog) para representar esse grupo, fiz pensando em escolhas e compromissos. E a história de Paulo era sobre isso, essencialmente. Toda escolha tem uma perda envolvida. Ao se escolher um dos caminhos, o outro deixará de ser percorrido. Por isto a encruzilhada imobiliza: o que se ganhará pode ser igual ao que se perderá. Ao se fazer a escolha há que se pensar nos preços a serem pagos, o outro caminho que deixará de ser percorrido. Obrigado à Paulo pelo presente de sua história. Obrigado a todos os que lá estiveram e compartilharam, profundamente, daquele Momento Moreniano.
domingo, 8 de dezembro de 2019
Simpson
Uma das figuras mais interessantes do mundo Pop ocidental é Homer Simpson. Ele é, explicitamente e sem culpa, a caricatura perfeita do senso comum. Mas, ou por causa disso, ele tem ou lhe são atribuidas, frases reveladoras. "A pressuposição é a mãe de todas as merdas". Esta frase realiza, de forma minimalista, a essência da direção psicodramática. Pressupor ao dirigir uma cena psicodramática é interferir, de forma autoral, na narrativa do protagonista. A merda, no caso, é o desaquecimento da cena ou sua inexpressividade cênica. O Diretor, seguindo a Homer Simpson, necessita seguir a cena e o protagonista. Sua função é facilitar, promover os meios para que melhor se desenrole a cena. O que temos, a todo custo, de evitar é promover a cena que, como diretor, queremos ver ou temos curiosidade para testar nossa hipótese. Nossa pressuposição, portanto. Meu mestre em Psicodrama, Paulo Amado, me dizia: "O Diretor é cego, deve se deixar guiar pelo protagonista". O guiar, nesse sentido, é permitir todos os desdobramentos possíveis da cena trazida pelo protagonista, é usar todos os recursos que o Psicodrama/TE trazem em benefício cênico. A nossa interferência reside em limpar a cena, fazer recortes da cena, iluminar a cena, seguir os caminhos sugeridos. Mas, o guia, o norte, será sempre o protagonista. Jamais deverá ser nossa curiosidade, nossas hipóteses, nossos pré-conceitos. É, nesse sentido, que o Psicodrama é fenomenólogico.
sábado, 30 de novembro de 2019
A alegria
Estou pensando sobre o epitáfio de Moreno: "Aqui jaz aquele que trouxe alegria à Psiquiatria". Como qualquer expressão, essa pode ser entendida de várias formas. Um forma é ver nela o quanto de bufão tinha Moreno, de histriônico, exagerado. Uma outra forma é de chamar a atenção para a completa e total ignorância desse estado de humor dentro da Psiquiatria/Psicologia/Psicodrama. Não só ignorância, mas também a total desqualificação da alegria no ambiente psicoterápico. A dor, o sofrimento, a tristeza, esses estados, esses sim, são supervalorizados. A Alegria, nesta área PSI, quando aparece é em seu estado desproporcional e inadequado e patológico, a Mania ou Hipomania. Propriamente falando do e no Psicodrama/TE, tenho a impressão que existe uma busca incessante pelo tema doloroso, pela cena triste, pelo choro, enfim. Eu acho que alguns diretores de Psicodrama (e outros psicoterapeutas) só se sentem validados pela catarse dolorosa e, jamais, pelo riso aberto e espontâneo. Mas, às vezes o chorar pode ser uma conserva psicodramática: Uma forma já estereotipada para lidar com a própria vida. Aí, o viés do riso espontâneo pode ou poderia ser mais libertador do que o choro.
“Mas o riso interminável que transcende tanto os fracassos quanto os êxitos preenche a plateia... Seria bom conhecer a origem do riso... Acho que o riso teve início quando Deus viu a si. Foi no sétimo dia da criação que Deus, o Criador, voltou a olhar para os seus últimos seis dias de trabalho – e estourou – gargalhando de si... Esta é também a origem do teatro... sim, enquanto ele ria, rapidamente cresceu um palco sob os seus pés. Ei-lo aqui, embaixo de nós”. Moreno
“Mas o riso interminável que transcende tanto os fracassos quanto os êxitos preenche a plateia... Seria bom conhecer a origem do riso... Acho que o riso teve início quando Deus viu a si. Foi no sétimo dia da criação que Deus, o Criador, voltou a olhar para os seus últimos seis dias de trabalho – e estourou – gargalhando de si... Esta é também a origem do teatro... sim, enquanto ele ria, rapidamente cresceu um palco sob os seus pés. Ei-lo aqui, embaixo de nós”. Moreno
terça-feira, 19 de novembro de 2019
Não só no palco!
Quaisquer que sejam as situações, clínicas, aulas, conferencia, o que quer que sejam, pode-se pensar em usar a metodologia psicodramática. Não como dramatização em si. Mas pensar na estrutura básica e fundamental do Psicodrama, TE ou Sociodrama. Aquecimento, dramatização, compartilhamento e processamento. Fora das atividades sociátricas específicas, fora do palco psicodramático, essa estrutura pode ser mantida. Visualizemos uma coordenação de uma mesa de temas livres em um congresso. Nada mais diferente do palco clínico. Entretanto, ali temos um agrupamento de pessoas esperando a transformação para um grupo, um diretor (o coordenador da mesa) e protagonistas. Portanto, aquecer o agrupamento de pessoas é grupalizar, prepará-las para o que virá. Cabe ao coordenador fazê-lo, saber quem são as pessoas, os motivos de ali estar, de onde veem. Isto pode ser feito em pouquíssimos minutos. Dirigir os protagonistas na cena, já que apresentar o tema é a própria dramatização. Estar atento ao aquecimento grupal, mostrado no interesse da plateia, cuidar para que o protagonista-apresentador não perca o ritmo e desaqueça-se, desaquecendo a plateia. A transição entre as cenas-apresentações. O compartilhamento seria aqui dar voz ao grupo. E, caso seja necessário, o processamento seria o apanhado final que dê coesão às cenas-apresentações. Podemos transpor para qualquer outra situação grupal e essa estrutura será útil, operacional e enriquecedora.
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
Coreografia
Li em algum lugar da obra de Moreno: "O corpo lembra o que a mente esquece". A memória da ação persiste. A coreografia da dança executada continua impressa no corpo. Quando, por meio do aquecimento bem realizado, conseguimos como Diretores de Psicodrama/Teatro Espontâneo, que a ação seja realmente espontânea isto recupera a memória inscrita no corpo. É como se o aquecimento destravasse o controle racional permitindo que as memórias inscritas, a nossa coreografia existencial, pudesse enfim voltar ao palco.
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Papéis e Papéis
Há palavras que usamos e de tanto usá-las acabamos por ir modificando ou alterando o conceito nela embutido. No Psicodrama/TE/Socionomia há a palavra Papel. Papel, em inglês Role, advém do teatro. Era o rolo em que estava impresso, escrito, o texto para cada ator. Então, papel é o conteúdo (texto e ação) de cada personagem em uma cena. Quando Moreno trouxe sua experiência do teatro para sua criação, o Psicodrama, trouxe muita da terminologia teatral. Papel é uma dessas palavras. Mas há aqui algo diferente. O papel desempenhado por uma personagem, numa peça de teatro ou num filme, é fixado no roteiro, no script, no "rolo". Não cabe ao ator alterações em seu desempenho. Tudo já lhe está prescrito. O que sai do estabelecido é dito "caco", uma intervenção pessoal no texto estabelecido. Portanto, no uso habitual papel é algo pré-estabelecido pelo autor do script, roteiro, "rolo". Moreno considerava, e a Socionomia assim pensa, ser o ser humano um ser em relação. Ele, essencialmente, necessita de estabelecer relações com outras pessoas, seres vivos, objetos, ideias, símbolos. O ser humano não apenas necessita, mas só assim se estrutura. As relações, os vínculos que estabelecemos, são o que nos constrói, nos constitui. Para Moreno, para a Socionomia, para o Psicodrama, para o TE, Papel é a nossa forma de atuação quando entro em contato com outra pessoa, objeto ou o que seja, quando estabelecemos relações, vínculos. E esta relação é relacional (redundância aqui necessária). Não pré-existe. É móvel, flutuante, dependendo do desempenho dos dois papéis que se complementam. Papel e papel complementar. Um constrói o outro, um estabelece o outro, um cria o outro. Quando os papéis perdem essa fluidez, essa mobilidade, esta capacidade de adaptação, os papeis se congelam, se cristalizam, e traduzem-se em repetições enfadonhas e destrutivas. Daí o centramento da Socionomia Moreniana na Espontaneidade/Criatividade.
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E assim é.
Experimentar e refletir. Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo. Há mais de trinta anos...
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