segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Star Wars e a Loja Mágica

 Há alguns dias estava assistindo a Império Contra-Ataca, Star Wars. E Yoda, Mestre Jedi, ao ser perguntado por Luke o que encontraria na caverna, responde: "Você encontrará o que você levar com você". Hoje, cedo, li uma provocação de um velho amigo Jorge Augusto (Gina) sobre uma técnica muita conhecida do Psicodrama, a Loja Mágica. Esse jogo dramático é simples. Alguém assume uma loja e todos do grupo podem vir pegar o que quiser e levar. Mas, há uma condição: tem que deixar algo em troca que talvez outro pegue. Se, imaginariamente, pretendo levar "criatividade", preciso escolher  o que deixar. Impulsividade, p. ex. Mas, talvez o próximo que viesse buscar  paz, escolha a impulsividade deixada pelo outro e explique :"Percebi que preciso é de mais ação, movimentar-me mais, deixar de ficar à espera". Não é certo e errado, não é bom ou ruim. É sobre perceber o que se tem e de que se precisa. É sobre sair do pensar estereotipado. Talvez haja sido o que Mestre Yoda queria fazer Luke perceber: Se não sabemos o que temos e carregamos encontraremos sempre isto pelo caminho. Ao Psicodrama/Teatro Espontâneo cabe a perspectiva do explorar, experimentar dramaticamente, de possibilitar sair dos caminhos antigos e, por isso, conhecidos e repetidos. Falando psicodramaticamente, a forma de sentir, pensar, ver e agir conservadas, tornadas conservas, fixas e imutáveis, podem ser (e são!) atingidas e modificadas pela experiência psicodramática.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

De Solstícios e Anos Novos

 Como a órbita da Terra é elíptica e o globo terrestre ocupa um dos focos da elipse, em dois períodos do ano o dia é mais longo (Solstício de Verão) ou mais curto (Solstício de Inverno). E em dois períodos, os dias e noites têm a mesma duração (Equinócios de Primavera e Outono). Nos tempos antigos esse eram sinalizadores de tempo para os seres humanos. O Equinócio de Primavera marcava o inicio do ano, do plantio. No Hemisfério Norte corresponde a meados de Março. O Solstício de Verão (meados de Junho) no Norte era comemorado com fogueiras. E o Solstício de Inverno (meados de Dezembro), como era a noite mais longa do ano, marcava o fim da trajetória de Inverno e o início da caminhada do Sol em direção à Primavera. Essa data sempre foi considerada no hemisfério Norte como a data de nascimento de grandes guias da humanidade. Krishna, Mitra, e posteriormente, Jesus, por anunciar o retorno à vida depois de  inverno rigoroso. Para nós do Hemisfério Sul prece contraditório por termos herdado a cultura do Norte. Mas, independentemente da geografia, o simbolismo permanece. O tempo sempre foi cíclico para a humanidade. Após inverno, o renascimento da primavera. Após gelo e penúria, pode-se esperar o plantio e a abundância. O tempo mítico sempre foi cíclico. Nossa cultura competitiva é que criou o tempo linear, de sucesso ou fracasso, ganhar ou perder, ser o primeiro ou ser derrotado. O fim do ano, o fechamento do ano gregoriano, traz embutido a sensação de nova chance, novos planos, novas oportunidades. "Promessas de ano-novo". Essa possibilidade de fazer de outro jeito, de experimentar outros caminhos, de fechar um ciclo e abrir novos ciclos, de sair do imobilismo trágico, é a filosofia Moreniana do Psicodrama. Que seja um feliz Solstício (Verão ou Inverno) e que seja uma nova Primavera. Que seja um novo ano!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Pra você

 Em 1970 o cantor e compositor Silvio Cesar (os mais antigos lembrarão!) lançou a música Pra Você, sucesso estourado à época. No final há esse verso: "Ah, se eu fosse você, eu voltava pra mim". Solução poética maravilhosa. E, psicodramaticamente, também. O conceito de Inversão de Papéis, não só uma das três técnicas fundamentais do Psicodrama, como é, também, o grande objetivo relacional da Socionomia. .A possibilidade de inverter os papéis numa relação permite que os dois envolvidos acrescentem a visão de mundo do  outro à sua própria. Quanto mais inversões de papéis aconteçam nos vínculos, mais eles se tornam estáveis. Menos monólogos alternados e mais diálogos reais. No verso de Sílvio César, imaginemos a cena em um palco psicodramático: o casal, o par, e um diz: "eu quero voltar para você". Invertem os papéis. Aquele que escutou a frase é quem a diz agora:: "eu quero voltar pra você". Aquele que o diz agora, ao retornar a seu papel original, tem a chance de perceber, "de dentro", como o outro se sente. Não apenas o que diz, mas como sente. Isto significa que haverá "happy end"? Não. Significa que os dois podem decidir com base na experiência do outro, acrescida à sua. Silvio César, os poetas, a arte, os artistas, como sempre, chegam primeiro e mais esteticamente bem resolvidos, aos conceitos relacionais que nós, profissionais da área penamos em descobrir.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

prurido na língua

Talvez a maior dificuldade para um psicodramatista é deixar de ter a postura e expectativa interpretativa. Essa é natural do ser humano. Perguntar "Por Que?" Pressupor o Por Que?. É quase algo instintivo, responder-se a qualquer comentário de alguém com um "por que vc fez?", por ex. A mudança que o Psicodrama cobra inicia-se no próprio psicodramatista. Aprender a ver, enxergar e propor uma cena em que o protagonista, por ele mesmo, veja e enxergue e conclua o que puder concluir. Abster-se do prurido na língua de dizer algo inteligente, mas que é sua conclusão, sua interpretação, seu ponto de vista. E não de quem, essencialmente, será o próprio agente de sua mudança: o Protagonista.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

engrenagens e vínculos

 

Assistindo mais uma vez a Tempos Modernos com Charlie Chaplin. A imagem das engrenagens girando permanece em mim. Carlitos girando preso nelas, embora com um sorriso no rosto. Olhando, o que vemos são rodas denteadas rodando em velocidades diferentes, com tamanhos diversos, com número de dentes variados. Girando ritmicamente. Pensando num sistema de engrenagens, quando uma delas muda seu passo todas as outras mudam também. Ou rangem, ou fazem barulho ou quebram. As relações humanas, nossos vínculos, são algo como sistema de engrenagens, Tal como essas, aquelas. Os vínculos tem seu tempo de amaciamento, em que as engrenagens no atrito mútuo, vão-se desgastando, amaciando-se, para que girem sem ruídos. Também os vínculos precisam de um tempo de cessões mútuas. E se uma delas altera seu passo, sua engrenagem complementar necessita alterar-se. Uma mudança em uma das pontas do vínculo obriga a mudança na outra ponta. Assim como na mecânica: não sendo feito o ajuste do passo, do ritmo, haverá ruído, barulho, rompimento, quebra. Estendendo a analogia, se uma das engrenagens é feita de uma material maximamente duro e e rígido, ela não se desgastará no processo de amaciamento. Não haverá ruído nem rangido, mas às custas do desgaste unilateral da engrenagem complementar, de sua destruição mesmo. Nos relacionamentos, a inflexibilidade, a rigidez, o autoritarismo de um dos lados promoverá o desgaste unilateral da engrenagem-vínculo complementar. Não haverá ruído nem rangido nem barulho. E tudo isto ás custas da destruição de um dos lados do vínculo. A paz dos cemitérios.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Duplo, dublagem

Dirigindo um encontro de Psicodrama/Teatro Espontâneo, em um momento precisei intervir com um Duplo (Dublagem). Algumas pessoas que não conheciam o Psicodrama perguntara, ao fim, o que era aquilo. Explicar a técnica de Duplo ou Dublagem não é muito fácil. Usar essa técnica é ainda mais difícil do que explicá-la. Vamos lá. Imaginemos uma cena. Alguém faz uma pergunta ao protagonista. Esse emudece, dando mostras fisionômicas de angustia. O Diretor pede a  um dos ego-auxiliares para fazer um Duplo. O Ego-Auxiliar aproxima-se do protagonista, assume sua postura e diz algo. O que é esse algo? Aí é o difícil de explicar e fazer. Não é uma interpretação, não é uma ajuda, não é o que o Ego-Auxiliar acha que deve dizer, não é a interpretação do Diretor. Então, o que é? Vamos a outro conceito. Outro conceito difícil. Co-Inconsciente grupal. Não é Inconsciente Coletivo Junguiano, Moreno nunca precisou esse conceito, nunca o definiu claramente. Mas, no exercício do psicodrama percebe-se o fenômeno. Quando o agrupamento de pessoas reunidas transforma-se em um grupo pelo aquecimento inespecífico, esse grupo construído funciona como um individuo. cada um dos membros do grupo é parte e parcela do grupo. Portanto, o que perpassa o grupo, perpassa cada  um dos presentes. Então, quando o Diretor pede a um Ego-Auxiliara um duplo do Protagonista, ao fazê-lo ele estará emitindo algo que pertence ao Protagonista. Não pertence ao membro que faz o papel de Ego-Auxiliar. Não é uma escolha racional, pensada. Ao se colocar na mesma posição, estando aquecido para o papel, ele "abre a voz e o tempo canta" (Chico Buarque). Neste caso, em vez do tempo, quem fala é o grupo. Por isso, a Palavra Dublagem seja uma tradução mais compreensível para "Double". O Ego-Auxiliar coloca outro texto na boca do protagonista, e esse texto advém de do Co-Inconsciente grupal. Parece mágica, mas é a resultante da coesão grupal.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Noel Rosa

 Ouvindo "Feitio de Oração" de Vadico/Noel Rosa escutei este verso: "Sambar é chorar de alegria, é sorrir de nostalgia, dentro da melodia". A construção dessa letra por Noel coloca coisas paradoxais como possíveis e necessárias. mas agrega um fator limitador: "Dentro da melodia". Isto é uma metáfora maravilhosa (para mim!) para os conceitos de Espontaneidade, Criatividade e adequação à cena. No palco do Psicodrama  ou  do Teatro Espontâneo ou de qualquer outro atividade Socionômica, cabe qualquer cena, necessita-se que haja exploração de impossíveis, mas tem que ser "dentro da melodia". Melodia, música, improvisação, tem limites a serem cumpridos, até para serem ultrapassados. Pode-se atravessar uma parede, mas há que ter a parede. A nossa "melodia" no Psicodrama/Teatro Espontâneo corresponde à adequação à cena, à resposta que faz evoluir o ato. É esta toda a diferença entre espontaneidade criadora e o mero espontaneismo.  O espontaneismo é o simples e destrutivo "falar o que vem à cabeça" sem respeitar os limites da adequação à realidade, cênica ou existencial. A Espontaneidade Criadora  pode "chorar de alegria', pode "sorrir de nostalgia", mas sempre e sempre "dentro da melodia".

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

aluno e estudante

Como o Psicodrama é um método, e método é uma forma de ver, relacional, sempre a pergunta presente é: "Em que papel?". Sendo o papel um conceito em que se admite a existência de papéis que se complementam e têm a possibilidade de se alternarem ao longo do tempo. Tendo isto em mente, pensemos em duas palavras: Aluno e Estudante. Serão sinônimos do ponto de vista psicodramático? Penso que não. Apliquemos a teoria de papéis da Teoria Socionômica Moreniana. Quem serão seus papéis complementares: Ao papel de Aluno, imediatamente, vem, o Professor. E quem é o papel complementar do Estudante? Claramente não será o Professor. Então, quem? Em minha visão, o Estudante tem como seu papel complementar o Conhecimento. Aluno x Professor. Estudante x Conhecimento.  As escolas, será que pensam nisso?

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Começo e planos

 Há um verso de Fernando Pessoa em Mensagem: "Todo começo é involuntário." De uma certa maneira, parece dizer que nada é planejado, Tudo é racionalizado a posteriori, viés de confirmação em retrospectiva. De outra maneira, parece sugerir que diante dos fatos, todo o planejamento precisa ser modificado para adaptar-se à nova conformação. Dirigir em Psicodrama é assim. Mesmo que, ainda que, haja um planejamento, o grupo impõe uma realidade que faz com que as escolhas do condutor tenham que se adaptar, adequar, encontrar  novas saídas. Criatividade e Espontaneidade. Espontaneidade para deixar o que se trouxe planejado e manejar o que se encontrou. Criatividade para as novas e adequadas ações.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Tele. outra vez

há um conceito fundamental do Psicodrama que, em grande parte não é bem compreendido. É o conceito de Tele. Frequentemente vemos e ouvimos psicodramatistas usando Tele dessa forma: "Ele tem muita Tele". " A Tele dela é ótima". Usando-se o conceito como um atributo pessoal, uma qualidade que alguns têm e outros não. Tele é um conceito relacional. Só faz sentido falar dele dentro de uma relação vincular. Tele não é um atributo bom ou ruim. É algo da relação que permite aos vinculados percebem-se como mesmo sinal afetivo. Ou como se diz na Sociometria, são congruentes. Ou seja, se eu lhe percebo como uma primeira escolha e vc também me percebe como uma primeira escolha para uma determinada ação, isso é télico. Se vc me percebe como primeira escolha e eu lhe rejeito como escolha para aquela ação, isso é não congruente, não-télico. mas, também, se nós dois nos percebemos como não sendo , um para o outro, a escolha para aquela tarefa, isso também é télico, são percepções congruentes, há mutualidade. Então, quando há mutualidade nas escolhas (Sim-Sim, Não-Não) isso é uma relação télica. Se as percepções não são congruentes, não são mútuas, em presença ou intensidade, é uma relação não-télica. por que intensidade? Por exemplo, se após uma noite de festa em que alguém haja ficado com outra pessoa, na manhã seguinte um espera uma ligação e outro nem se lembra com quem ficou, é uma relação não-télica. Ou seja, naquele momento, dentro do critério "ficar em uma festa" os dois se perceberam como primeira escolha, télico, portanto. Mas, na manhã seguinte, alguém esperou uma relação duradoura e alguém não queria isso. Não-télico.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Moreno místico

 Quando Moreno dizia que o psicodrama era muito potente para apenas ser uma ferramenta psicoterápica, em meu pensamento, isso quer dizer que , fundamentalmente, Psicodrama é uma forma de ver, sentir e agir no mundo. Para o Psicodramatista, a mudança que se opera nele é expressa em todas as relações entre papéis que ele estabelece na vida. O reconhecimento (e vivência) da teoria transforma o psicodramatista nos vínculos que ele estabelece ao longo da vida. Talvez não seja estranho que a primeira visão de Moreno do mundo relacional era uma visão mística.  o misticismo estabelece uma ligação direta  entre o mundo, a divindade e a pessoa. Entre o a sociedade, grupo, o palco e o protagonista, diriam os psicodramatistas.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

experiência

 A experiência subjetiva não é compartilhável. Ela é acessada por metáforas e analogias. "Como se". O Psicodrama ao recriar no palco, com o aquecimento necessário, a cena em seu tempo presente, e portanto, naquele momento, o tempo real, permite que tome o lugar do protagonista, tenha a amplificação da experiência do protagonista. Psicodrama é uma experiência analógica da experiência real do protagonista.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Pequenina e Tele

 Escutava uma música de Renato Teixeira, cantada por Xangai de nome "Pequenina". E nela há esse verso de beleza absurda:

"São tão claros os presságios
E os encontros dessa vida
Quando as partes combinadas
Surgem numa mesma estrada."

Esses três últimos versos me leva a pensar no conceito de TELE em Psicodrama/Socionomia. Quando as partes combinadas surgem juntas numa mesma estrada. Se vierem de sentidos contrários se aproximando ou se distanciando por tomarem sentidos diferentes, ainda assim estarão numa mesma estrada, a relação será télica. Mas, se um se aproxima e outro se distancia ou se estão em estradas diferentes, será uma relação não-télica.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Palco

 O que é o palco no Psicodrama? Não é apenas um praticável delimitado. O palco é qualquer lugar onde a ação dramática se desenrolará. Uma cadeira onde esteja sentado um paciente será seu palco. Um trecho de sala onde a cena aconteça será o palco dessa cena. O importante é o conceito que há dentro e há fora de palco. Convencionado isto é possível usar o palco e todas as técnicas psicodramáticas. Por que o dentro e fora? Porque, para o Psicodrama, entrar e sair de um palco é o exercício de entrar e sair do mundo da imaginação ou fantasia. É o que permite o "como se" psicodramático. É o que valida o espelho como técnica psicodramática. É aprender a recuperar aquilo que a criança faz, transitar entre o fantástico e o real com fluidez. O palco é criado pela ação dramática. Onde o  está corpo estará o palco.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

primeira pessoa

 Uma coisa que considero muito importante em qualquer atividade da área Psi, seja Psicodrama ou Psiquiatria, é em observar quem é o narrador da história contada. Muitas e muitas vezes é usada a terceira pessoa  do singular (você, a gente) ou a primeira pessoa do plural (nós). Uma história contada assim é como, em um palco psicodramático, a pessoa subisse e contasse assim a história. O diretor pediria, imediatamente, "fale em primeira pessoa e no tempo presente". Por que? É que ao se falar em primeira pessoa e no tempo presente deixamos de ser plateia de nossa história e passamos a protagonista dela. Seja em Psicodrama, seja em Psiquiatria.

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E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...