Há cerca de 4 meses abri um canal no Youtube e no Instagram para falar de psiquiatria incluindo uma visão psicoterápica. Psiquiatria em outro Tom e @psiquitriaemoutrotom. Também comecei afazer grupos online, Ou seja, em quatro meses, inclui os meios digitais na minha atividade. Refleti sobre este Blog, que é linguagem escrita, e os canais de Youtube e Instagram, que são linguagens orais. A linguagem oral exige menos esforço, exige mais mais coerência e conteúdo sólidos por não poder ser facilmente corrigidos. A linguagem escrita cobra uma definição de assunto mais imediato, a linguagem oral permite que se construa gradativamente o assunto ou o desvio do assunto inicial. A linguagem escrita dá-me a sensação de ter registrado definitivamente algo, está ali e ali permanecerá. Aquilo que Moreno chamaria de Conserva Cultural. Mas o vídeo gravado também é uma Conserva Cultural, lá está e lá permanecerá. Assim, A conserva Cultural não depende do tipo de linguagem usada, mas sim do registro ou não registro. Mas, mesmo aquilo tornado em conserva, pode ser revitalizado por uma nova perspectiva, uma nova leitura, uma nova percepção, uma nova ação. A Espontaneidade refresca a Conserva.
terça-feira, 28 de julho de 2020
quarta-feira, 22 de julho de 2020
Aqui e agora
Vendo o documentário sobre os 40 anos do disco Refavela de Gilberto Gil, voltei-me para esse álbum. Nele há uma belíssima música, Aqui e Agora. Nela, há esse verso: o melhor lugar do mundo é aqui e agora. É o melhor e não há outro. Breve, simples e até prosaico. Mas que envolve uma postura existencial radical. Centrar-se no presente. Manter-se no aqui e agora. A experiência de viver só ocorre no presente. Mesmo a lembrança ou a imaginação são vivenciadas no presente. E o Psicodrama coloca o palco psicodramático como o lugar do aqui e agora. Tudo é feito no tempo presente: as ações, as falas. Tudo é presente. O palco psicodramático é o espaço próprio do aqui e agora.
quinta-feira, 16 de julho de 2020
Grupo
"Diferente esse Psicodrama!" (Angélica). Semanalmente nos encontramos online. Semanalmente construímosum grupo para fazeralgo juntos. Semanalmente temos o compartilhamento final em que a sensação de construção coletiva e pertinência grupal está presente. Ontem, pouco antes do horário marcado tive uma ocorrência. Um paciente com ideação suicida que me ligava do interior. Além da situação clínica em si, é uma pessoa marcada pela culpa de tudo ter e nada sentir de bom. Cancelei o evento já que não sabia o tempo que precisaria. "Cancelei o evento". Não é verdade. Se fôra um evento ele poderia ter sido cancelado. Mas, nunca foi um evento. Sempre foi uma construção coletiva. E, após mais de duas horas, quando escrevi ao grupo "Resolvido", imediatamente tive retorno, tive uma ressonância grupal. O grupo sempre esteve ali e estava ali. Aguardando, sustentando, suportando. Esta é a sensação do protagonista. E esta é a sensação do grupo. "Diferente esse Psicodrama". Não foi diferente. Foi um grupo de Psicodrama. Só isto. E basta.
sexta-feira, 3 de julho de 2020
Psicodrama virtual: teatro ou cinema
Realizando atividades psicodramáticas online percebo, no processo e em mim, diferenças da atividade psicodramática realizada presencialmente. A primeira diferença é a sensação de espacialidade, de concretude dada pela presença física. A segunda diferença é o plano de observação. Em um palco a cena, o protagonista, é observado tridimensionalmente. A cena é apreendida de uma só vez. Na tela, a experiencia é repartida em múltiplas telinhas. Uma fragmentação, um mosaico da cena. A terceira diferença ainda é no plano de visada: na tela é um plano americano, mais parecido com cinema do que com teatro: só se vê a parte superior do corpo. A quarta diferença é a ausência absoluta do toque físico, dependendo exclusivamente da voz, entonação, mensagem, mímica facial e do plano superior do corpo. A quinta diferença é a limitação quase total de movimentação A sexta diferença é a presença de múltiplos palcos, pequenos palcos, não um único que focaliza a atenção da plateia. A sétima é a presença constante e regular do acidental. O acidental passa a fazer parte inerente à cena, ao aquecimento. Seja esse acidental pela presença de pessoas passantes, de interrupções de internet, de lag, de um tempo, entre a voz e o gesto. Algo muito parecido com teatro espontâneo em rua, em ambiente aberto. Nesse momento, essas observações levam-me a crer que o uso da ferramenta virtual dependerá de uma visão mais cinematográfica do que teatral e de uma direção mais como teatro espontâneo. Cinema e Teatro Espontâneo.
terça-feira, 23 de junho de 2020
Respeito
Respeito. Palavra que revela um conceito fundamental da vida em sociedade. O que nos diz a etimologia da palavra? Respeito provém do latim Re (outra vez) + spectare (olhar). Respeitar, é assim, permitir um segundo olhar. Não permanecer com apenas o primeiro olhar. Como se o primeiro olhar fosse o olhar impulsivo, o olhar inteiramente pessoal. É como se permitir um segundo olhar fosse admitir uma segunda opinião, uma outra opinião. Respeitar alguma opinião, atitude, pessoa,a própria dor, é se permitir um segundo olhar além do olhar habitual e já conhecido. Em Psicodrama dizemos que manter-se congelado, rígido em uma visão de mundo seria uma postura, uma atitude, um olhar conservado, cristalizado. Desrespeitar, não respeitar, seria desse modo, manter uma visão cristalizada, inabalavelmente rígido e inflexível. Todo o empenho de uma dramatização leva a percepção de novos olhares sobre coisas antigas ou diferentes olhares sobre coisas novas. Admitir, experimentar um outro ou outros possíveis olhares pode, tem a possibilidade, de descristalizar, desconstruir o não respeito favorecendo o desenvolver do respeito.
sexta-feira, 19 de junho de 2020
Ignorância e burrice
Durante uma sessão psicoterápica, ocorreu-me uma frase de efeito para o momento. "A ignorância é um estado, mas a burrice é um processo". Naquele momento, como frase de impacto, fez o efeito pretendido. Depois, refletindo sobre ela, enveredei por meus pensamentos. O que será que quis dizer com isto? Ignorância é o estado de quem ignora algo e sabe que ignora. Portanto ele reconhece a ausência daquele conhecimento, podendo ser suprido, se assim desejar. O "só sei que nada sei" de Sócrates parte deste fundamento: reconhecer a ausência do conhecimento é a atitude que pode levar ao conhecimento. E o que é a burrice? Não é a ignorância. Burrice é pensar que sabe e resistir ao conhecimento que possa esclarece-lo. Esta é a razão de Sócrates usar a Ironia como forma de levar o seu oponente ao reconhecimento de sua ignorância, sair de sua posição de saber fingido. A burrice é o pretenso saber hegemônico e cristalizado, inamovível, pétreo. E o Psicodrama com isso? A repetição da cena do protagonista com ele vendo em espelho, fora do palco, permite que ele saia daquela posição de saber inquestionável e dê-se o benefício de duvidar, reconhecer sua falta de conhecimento, abrindo-se para um novo conhecimento.
terça-feira, 16 de junho de 2020
papéis, isolamento, loop
"No início do aprendizado Zen, as árvores são árvores e os rios são rios. Em meio ao aprendizado Zen, as árvores já não são árvores e os rios já não são rios. Ao fim do aprendizado Zen, as árvores são árvores e os rios são rios."
Neste momento de quarentena, isolamento social, as pessoas estão tendo que desenvolver novos papeis ou despertar papeis adormecidos. Sejam funções domésticas, sejam novas ferramentas de trabalho, sejam oportunidades novas. E isto traz à tona um conceito bem moreniano. Papéis e seu desenvolvimento. Moreno criou três expressões para se referir a isso. Role- Taking (tomada do papel), Role-Playing (desempenho de papel) e Role-Creating (criação no papel). Role-Taking é o momento em que nos deparamos com o novo papel. Nesse período de tempo aprendemos os os instrumentos, os fundamentos desse papel. Àquele que esteja nesse estágio há a admiração por quem já consegue desempenhá-lo bem e há o temos de não vir a conseguir. Em algum moimento, esses instrumentos e fundamentos se incorporam à pessoa e ela passa a desempenhar o papel com eficiência. Já consegue se percebe atuando em seu novo papel com segurança. Mas ainda há um temor e reverência às regras, um ter que agir conforme o manual, a esperar a aprovação alheia. A maior parte do tempo passamos nesse estágio. Mas, algumas pessoas, em alguns momentos, conseguem saltar para o Role-Creating. Aí, nesse momento, ele sente-se seguro para ultrapassar as regras técnicas, já não se sente tendo que responder às prescrições dos livros e mestres. Ele faz, organicamente ligado à compreensão dos fundamentos, o que é o necessário para o momento. Sua criatividade liberta-se da relação discípulo-mestre. E age.
Mas, isto não se passa apenas uma vez. Isto é dinâmico. A todo momento, estamos voltando a aprender (Role-Taking), voltando a praticar as novas aquisições (Role-Playing) e, eventualmente, voltando a criar no Papel (Role-Creating). Se assim não for, entramos na Conserva cultural moreniana, na cristalização do papel. É a perigosa sensação de saber o já sabido. A imobilidade do saber. Os papéis e seu desenvolvimento precisam ser um loop contínuo de aprendizado, domínio e criação e novo aprendizado e novo domínio e nova criação e novo aprendizado e novo domínio do papel e nova criação no papel e...
terça-feira, 9 de junho de 2020
Diretor problema
Tive uma experiência rica e curiosa. Realizei, junto com um grupo que frequenta o Espaço Livre de Psicodrama e Teatro Espontâneo, uma atividade online. O decorrer do grupo, em si, não é a questão. Mas o que aconteceu com o Diretor. Eu, nessa situação. A conexão da internet de todos estava boa, todos se viam e ouviam. A minha estava ruim. Caindo a toda hora. Em minha visão, ao cair ou interromper a conexão, todos também estariam desconectados. Isso começou a me irritar. E o grupo não me sinalizava que eu era o problema. Quando a conexão caia eles cogitavam de me falar, de me dizer que era a minha conexão que era ruim. Depois de muito tempo de hesitação, alguém disse o que todos queriam dizer. E aí dê-me conta do problema. Pedi ao grupo que significasse a experiência para cada um. Perdido, angústia, o diretor estava levando o Psicodrama para o fim. A partir daí pedi que amplificassem esse sentimento, esse significado. E apareceu nesse o grupo a situação social vivida. O Psicodrama permite, espera, deseja, faz com que aconteça, o atravessamento do protagonista pelas suas questões subjetivas, pelas questões grupais e pela questões sociais mais amplas. Assim ele é o protagonista quando sua história, sua cena, permite o espelhamento de seu mundo subjetivo, seu mundo relacional e seus papéis sociais. Pedi ao grupo um nome para esse psicodrama. "Quando o diretor é que é o problema". That's all.
quinta-feira, 4 de junho de 2020
Mentira e Realidade Suplementar
Voltando a falar de Realidade Suplementar. Há um verso de Mário Quintana que diz: "A mentira é a verdade que esqueceu de acontecer". A Realidade Suplementar é uma "mentira", uma dramatização, uma criação no palco, que "esqueceu" de acontecer ou que poderia vir a acontecer ou que temo que possa acontecer ou que desejo que aconteça.
segunda-feira, 1 de junho de 2020
Realidade suplementar
Moreno lastreou seu Psicodrama no que ele chamou de Realidade Suplementar (Surplus Reality). Ele retirou essa expressão da mais valia referida por Marx. A mais valia marxista refere-se à diferença entre o que ganha o trabalhador e o valor do produto fabricado. Em inglês surplus value. A nossa Realidade Suplementar é aquilo que falta ao protagonista para sua realização pessoal. É aquilo que, no palco psicodramático, a cena pode dar ao protagonista. Seja realizando, cenicamente, algo do passado a ser refeito. Seja no presente experimentar vidas alternativas. Seja, no futuro, possibilidades a serem exploradas. É a verdade poética da cena. A cena é dramatizada. Mas os sentimentos, emoções e calores são verdadeiros.
quinta-feira, 28 de maio de 2020
Adequação?
O normal é um conceito estatístico. Ser funcional é um conceito operacional. Estar harmônico é um conceito existencial. Responder adequada e criativamente às circunstâncias é um conceito psicodramático. A adequação em Psicodrama não é, absolutamente,submissão às pressões. Adequação para o Psicodrama é encontra a melhor resposta, a mais produtiva para a cena, a mais criativa para o drama. Portanto, encontrar, criativamente, a resposta mais adequada é pensando no conceito cênico: qual a sequencia que faz sentido para este drama? A espontaneidade amplia o leque de opções ao diminuir as censuras e proibições. a criatividade permite a melhor escolha dentre essas opções dadas pela espontaneidade.
sexta-feira, 22 de maio de 2020
Autoridade ou força?
Força é autoridade? Alguém tem autoridade? A autoridade pertence a alguém? Ou será a autoridade e o respeito algo dado pelo seu papel complementar? Um pai tem autoridade sobre o filho ou o filho dá autoridade ao pai? Reconhece a autoridade de seu papel complementar? Um chefe tem autoridade ou são seus subordinados que lhe emprestam autoridade? Não se pode impor autoridade ou respeito. Pode-se impor a força. A autoridade e o respeito não são pertencentes a quem pensa que os têm. A autoridade e o respeito são reconhecimento do outro sobre mim. Não são meus. Eu posso construir as pontes para que o outro me reconheça como autoridade e me tenha respeito. Mas o poder final concedente é o outro.
segunda-feira, 18 de maio de 2020
18/05/1889 Nascimento de Moreno
Fernando Pessoa escreveu: "Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra coisa todos os dias são meus". Num ano civil comum, a data de morte de Moreno - 14 de maio - vem primeiro do que seu nascimento -18 de maio. Quando nasceu, como todos, era só um desejo e uma promessa. Fernando pessoa diz "todo começo é involuntário". Em seu início ele era um improvável filho de comerciante sefardita. Ao fim da vida, Moreno. Como todos os seres humanos somos construções de acasos, oportunidades e talentos. Moreno tornou-se isso: acasos e genialidade. E todos os dias foram dele.
quinta-feira, 14 de maio de 2020
14/05/1974
O que pensava e sentia Moreno? Se a nossa história ajuda a entender o nosso destino, a história de Moreno é muito clara nesse aspecto. Moreno era filho de judeus sefarditas. Ou seja, judeus expulsos da Espanha/Portugal em 1492. Nascido na Romênia, então parte do império austro-húngaro, fez toda sua formação médica em Viena. Antes de ser médico tinha interesses na dignificação de perseguidos e excluídos (prostitutas, refugiados). E tudo isso dentro de uma perspectiva mística do Hassidismo. Os Hassídicos eram e são uma corrente dentro do judaísmo caracterizado pela fé absoluta na alegria e na potencia criativa de cada ser humano. Seu contato com crianças e excluídos esteve sempre presente em sua vida. A fé na potência grupal surge desde então, ainda distante das intenções terapêuticas. Antes da psiquiatria veio a Arte. O Teatro, principalmente. Mas, mesmo em seu exercício clínico era conhecido como Wunder Doktor - Doutor Maravilha, pelo seu interesse humano e pelo vínculo estabelecido com os pacientes. Da inquietação, do sofrimento, da exclusão (judeu e romeno) surge o 1 de abril de 1921. O império austro-húngaro esfacelado, sem imperador, caos econômico e social. Dentro de seu espírito rebelde, irônico, mordaz, ele convida toda a sociedade vienense para, no Dia da mentira discutir a realidade vivida. Claro que, ao ver no palco um homem de capa verde junto a um trono e uma coroa que, simplesmente, convida a quem quiser assumir a coroa que o faça, reage com violência, uma parte, e outra parte resolve entrar no jogo. Conflito aberto. Essa data marca, simbolicamente, o início do Psicodrama. Não era, efetivamente, ainda Psicodrama, nem havia conceitos nem teoria socionomica. Então, por que essa data tornou-se marcante? Por que nela aparecem as marcas fundamentais do que hoje chamamos de Psicodrama. Desafio, concretização (se não havia um rei ponha-se um trono vazio), crítica às conservas culturais (padrões de comportamento e pensamento repetidos sem questionamento), compromisso com a realidade social, coragem e confiança. Ao morrer, Moreno, retomando seus princípios hassídicos escolhe como seu epitáfio: "Aqui jaz o homem que trouxe alegria e o riso à Psiquiatria".
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Perguntas
"Quántas semanas tiene un día y quántos años tiene un mes?"
Essa pergunta encontrei no Libro de las preguntas de Pablo Neruda. Perguntas de criança, perguntas de poeta. mas dão nítida ideia da diferença entre o tempo cronológico, de relógios e calendários, e o tempo vivencial, o tempo da vida, o tempo dos acontecimentos vividos. Ao tempo vivencial, ao tempo da experiência vivida, Moreno chamava de Momento. Os gregos chamariam de Kairós, diferente do Chronus, tempo medido. Kairós, Momento, são tempos qualitativos. Chronus, relógios e calendários, são tempos quantitativos. Isto é o que acontece num palco psicodramático, num sonho, no amor, no prazer, na dor, no sofrimento. Onde o pathos é mais intenso já não se mede o tempo: vive-se o tempo.
Essa pergunta encontrei no Libro de las preguntas de Pablo Neruda. Perguntas de criança, perguntas de poeta. mas dão nítida ideia da diferença entre o tempo cronológico, de relógios e calendários, e o tempo vivencial, o tempo da vida, o tempo dos acontecimentos vividos. Ao tempo vivencial, ao tempo da experiência vivida, Moreno chamava de Momento. Os gregos chamariam de Kairós, diferente do Chronus, tempo medido. Kairós, Momento, são tempos qualitativos. Chronus, relógios e calendários, são tempos quantitativos. Isto é o que acontece num palco psicodramático, num sonho, no amor, no prazer, na dor, no sofrimento. Onde o pathos é mais intenso já não se mede o tempo: vive-se o tempo.
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