Assistindo mais uma vez a Tempos Modernos com Charlie Chaplin. A imagem das engrenagens girando permanece em mim. Carlitos girando preso nelas, embora com um sorriso no rosto. Olhando, o que vemos são rodas denteadas rodando em velocidades diferentes, com tamanhos diversos, com número de dentes variados. Girando ritmicamente. Pensando num sistema de engrenagens, quando uma delas muda seu passo todas as outras mudam também. Ou rangem, ou fazem barulho ou quebram. As relações humanas, nossos vínculos, são algo como sistema de engrenagens, Tal como essas, aquelas. Os vínculos tem seu tempo de amaciamento, em que as engrenagens no atrito mútuo, vão-se desgastando, amaciando-se, para que girem sem ruídos. Também os vínculos precisam de um tempo de cessões mútuas. E se uma delas altera seu passo, sua engrenagem complementar necessita alterar-se. Uma mudança em uma das pontas do vínculo obriga a mudança na outra ponta. Assim como na mecânica: não sendo feito o ajuste do passo, do ritmo, haverá ruído, barulho, rompimento, quebra. Estendendo a analogia, se uma das engrenagens é feita de uma material maximamente duro e e rígido, ela não se desgastará no processo de amaciamento. Não haverá ruído nem rangido, mas às custas do desgaste unilateral da engrenagem complementar, de sua destruição mesmo. Nos relacionamentos, a inflexibilidade, a rigidez, o autoritarismo de um dos lados promoverá o desgaste unilateral da engrenagem-vínculo complementar. Não haverá ruído nem rangido nem barulho. E tudo isto ás custas da destruição de um dos lados do vínculo. A paz dos cemitérios.
quinta-feira, 4 de maio de 2017
terça-feira, 25 de abril de 2017
Dentro e fora
Moreno, criador do Psicodrama, escreve: "O Diretor é um membro do grupo em papel diferenciado". Pensemos um pouco. Membro do grupo. Então, como todos os participantes do grupo, também o Diretor tem uma relação de pertinência com esse grupo. Tudo o que acontece ao grupo e no grupo o atinge, o afeta, consoa no Diretor. Papel diferenciado. No Psicodrama diz-se que alguém está diferenciado no papel quando tem consciência, percepção, daquilo que lhe acontece, daquilo que o afeta, daquilo que o toca. E que portanto, sua ação não será uma simples reação impulsiva movida exclusivamente pelo afeto dominante. A indiferenciação seria, assim, seu oposto. O Diretor de Psicodrama está, em relação ao grupo, dentro e fora. Dentro por ser um membro do grupo, atravessado por todas as contingências grupais. Fora por estar diferenciado em seu papel, mantendo sua autopercepção permanentemente ligada nos seus atravessamentos grupais. Dentro o necessário para tudo consoar em si. Fora o suficiente para agir diferenciadamente. Ou seja, o participante do grupo desenvolve e é estimulado a agir espontaneamente. Ao Diretor cabe escolher dentre suas ações possíveis espontaneamente estimuladas pelo efeito grupal, aquelas que são operacionalmente, criativamente, mais úteis, cabíveis, necessárias ao trabalho diretivo.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Amar, Respeitar...
Penso há tempos na impossibilidade do amar a todas as pessoas. Esta quase exigência nos faz sentir ou culpados ou não-seres humanos. Amar é uma relação bilateral. Em termos psicodramáticos, uma relação Télica: Em que eu e o outro nos reconhecemos e interagimos dentro do mesmo vínculo, em relação complementar e com o mesmo tipo de afeto e intensidade. Isto seria amar em sentido relacional. Usamos a mesma palavra para também nos referirmos ao cuidado a todos os seres da Natureza e à própria Natureza. Essa relação não necessita ser bilateral, complementar. Pode ser unilateral. E talvez seja melhor chamá-la não de amor, por ser este um afeto necessariamente espontâneo. O respeito, prefiro esta palavra, não precisa ser espontâneo, podendo ser ensinado, aprendido e cobrado. O respeito é o reconhecimento do outro, da existência do outro. Respeitar é reconhecer e aceitar a existência do outro, sob qualquer forma. É o respeito que pode conduzir à harmonia ou à discordância, ambas construtivas para o processo humano. Se nulificamos, reificamos o outro, o tornamos coisas, tudo se admite e nada é proibido. No julgamento em Nuremberg ficou visível essa nulificação como forma de proteger-se da culpa. Hannah Arendt chamou a isto de banalização do mal. Respeitar é reconhecer a humanidade intrínseca de todos. E o Psicodrama por ter a sua base, seu alicerce, na ideia de que somos seres relacionais, seres em relação, constrói a possibilidade do respeito com suas inversões papel e consequentes multiplicações das visões de mundo.
segunda-feira, 10 de abril de 2017
Teatro Espontâneo e Psicodrama
Sempre
temos visto escritos sobre o TE
e todos dentro da perspectiva da ressonância junto à plateia, do
potencial de transformação grupal ou dos protagonistas por meio da
estética do momento. Quero agora refletir sobre outra vertente
possível. O que muda no Diretor psicodramático que se dedica ao TE?
O que se altera na sua prática, ainda que não seja teatro
espontâneo que ele esteja realizando? Que especificidade de olhar
psicodramático tem o diretor praticante de TE?
Há alguma especificidade? Que importância tem para o psicodramista
in
status nascendi
participar de TE?
Utilizando
estas perguntas como iniciadores verbais, passemos a refletir. A
rigor, o primeiro combatente (proto-agonista) é o que primeiro põe
o pé no palco. Assim, o primeiro a proto-agonizar é o Diretor
Psicodramático. Ele, naquele momento, é o que mais arrisca, o foco
da atenção está sobre ele, espera-se um algo qualquer dele. Neste
primeiro momento, a espontaneidade/criatividade do Diretor encontra
seu maior espaço de desafio. O ritmo, a estética, a linha condutora
advirá desta mesma espontaneidade criativa. Para saber enxergar e
ouvir o grupo o Diretor precisa estar aberto, disponível, sem
armaduras ou defesas prévias. E isto é exatamente o que o trabalho
com o TE
ajuda
a desenvolver. O foco estético no TE
é o eixo onde gira a Direção. Por isto, o cuidado com o ritmo, a
fluidez, a ressonância junto ao grupo, a atenção particularmente
quanto à manutenção do aquecimento grupal. Isto é vital. Porque
se corre o risco, ao não se atentar para o aquecimento, que a
plateia se esvazie. Como não há compromisso terapêutico, a plateia
permanece enquanto se encontra motivada, interessada. Outro aspecto
importante e curioso é que o público se apropria de partes ou
trechos do acontecido. No compartilhamento é que se percebe que, da
obra realizada, cada pessoa, cada parte da plateia, pinçou,
apropriou-se de algo diferente.
Para
o Diretor é necessário não ter uma postura autoral, quem dá (ou
não dá) sentido ao acontecido é o público. Como o Diretor de TE
trabalha fora da psiquiatria/psicologia, apresentando-se sem este
aval, fica totalmente entregue ao que ele consegue construir junto
com o grupo. Sua segurança virá da sua confiança em que o grupo é
senhor e construtor de seu destino cênico. O grupo é que se dirige.
Cabe ao Diretor, tão somente, dar forma esteticamente resolvida à
dramatização.
Os
psicodramistas não precisam todos fazer TE,
mas se beneficiariam muito ao trabalhar com a ideia de ritmo e
estética, de atentar sempre e sempre para o aquecimento grupal, de
diminuir sua importância pessoal e ampliar sua confiança na
capacidade de construção grupal.
Por
isto, fazendo Teatro Espontâneo farão um melhor Sócio Psicodrama.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
falar e mostrar
"Se você me disser, é um ensaio, uma tese. Mas se você me mostrar é uma história" (Bárbara Greene). Há tempos anotei esta frase. Não conheço a autora. Mas ela define, de uma forma elegante e sintética, o olhar, as ações e o objetivo de um condutor de Psicodrama ou Teatro Espontâneo. Ajudar a construir histórias que possam ser vistas. E ao serem vistas poderem ser vivenciadas. E ao serem vivenciadas possibilitar uma nova mirada, um redimensionamento das relações.
segunda-feira, 3 de abril de 2017
O sozinho e o solitário
Estar só, sentir-se só. Sozinho, solitário. Estados de espírito não iguais, muito diferentes. Estar só é algo espacial, geográfico. É não ter pessoas em volta. Apenas isto. Sentir-se só é outra coisa. Nada tem a ver com quantidade de pessoas. Sentir-se só é consequência de uma pobreza relacional. Solidão é não ter vínculos com nada. Uma pessoa isolada geograficamente vive e sobrevive das certezas de seus laços afetivos, das lembranças e desejos. Sentir-se só, o estar em solidão, é reconhecer a inexistência, é sentir o peso da ausência de vínculos que o ancore com o mundo.
"É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte" (Fernando Pessoa)
sábado, 1 de abril de 2017
1 de Abril de 1921 é a data inaugural do PSICODRAMA. Iniciou com uma sessão aberta em um teatro, em Viena, com um convite para a discussão sobre a realidade caótica do país àquela época. Cortinas abertas, uma única cadeira vermelha em cena, uma coroa sobre ela. Moreno convida a quem quiser assumir a coroa que suba ao palco. E com este gesto de desafio, coragem e comprometimento nasceu o PSICODRAMA.
quarta-feira, 29 de março de 2017
Mitologia e reflexões
Lendo sobre Mitologia Grega refletimos e aprendemos. Harmonia é uma Deusa. E é filha de Afrodite, Deusa do Amor, erótica, sensual e bela, com Ares, Deus da Guerra, impulsivo, violento e sanguinário. Harmonia é filha de pais antagônicos, opostos. Mas, no final das contas, como para haver prole há que haver sexo, quem terminou prevalecendo foi Afrodite.
terça-feira, 28 de março de 2017
Biologia e analogia
Às vezes penso bobagens. Ok. Muitas vezes penso bobagens. Penso muito por analogias. Então, o mundo e tudo o que lhe acontece são fontes de ensinamento para mim. Há pouco pensava sobre o processo biológico do encistamento. Alguns seres unicelulares quando colocados em situação totalmente adversa se encistam. Ou seja tornam-se cistos para resistir. E assim duram muitíssimo tempo. Ao surgirem as condições favoráveis reanimam-se e voltam à vida. Durante aquele tempo em que se encistaram diminuíram ao máximo as trocas com o meio e baixaram seu metabolismo. Enquanto pensava sobre isto pensei na membrana que envolve as células. Elas individualizam essas células, mas são semi-permeáveis. Controlam as trocas com o meio, selecionando o que deve entrar e o que precisa sair. Este longo texto biológico tem sua analogia na vida relacional.O isolamento social é um encistamento social. Necessário para a sobrevivência, mas eliminando as relações que são trocas entre dois ambientes. Uma vida social construtiva pressupõe uma membrana social que nos individualiza e permite o controle das relações de troca afetiva. Uma psicoterapia relacional como é o Psicodrama propõe para os encistados a construção em palco de um meio favorável para sua volta à vida. E para os não encistados, os "normais", que a sua membrana afetiva social seja harmônica e ecologicamente assumida por eles.
segunda-feira, 27 de março de 2017
A louca da casa
Pensando sobre Teatro Espontâneo (TE) aparece uma colagem de ideias. TE é a construção coletiva de uma história grupal. É isto. E o que faz deste ISTO algo tão potente? O exercício da imaginação e sentimento grupal de pertinência. Mas, fiquemos na imaginação, por enquanto. "A louca da casa". Assim, no passado, se falava da imaginação. E essa louca da casa ficava restrita ao ambiente artístico. Aí era seu locus. Aí era permitido a ela, a louca da casa, viver e agir. Ao resto do mundo, o "mundo sério", não cabia referência a essa dama louca. Pessoas sérias, respeitáveis, são "realistas". E ser realista é estar preso a um mundo imutável, rígido, linear. Não vejo muita diferença desse pensar antigo do pensamento vigente hoje. E o Teatro Espontâneo? Um modo de ver o grupo como criador de sua história. Tornar a Louca da Casa o fio condutor da vivência grupal. Imagem em ação, imaginação. E quando se experimenta a existência e força dessa senhora louca da casa, percebe-se que o mundo sério, o mundo do real tão real, pode e necessita ser fecundado por ela. Diz Gilberto Gil: "A agulha do real nas mãos da fantasia". O Teatro Espontâneo dá mãos de fantasia à agulha do real. Intervem no real com a potencia criativa da louca da casa. Nossa imaginação.
terça-feira, 21 de março de 2017
D. Sebastião
QUINTA
/ D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL
Fernando Pessoa in Mensagem
Louco, sim, louco,
porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros
que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
sábado, 18 de março de 2017
Psicofármaco, Psicodrama: Encontro?
Diz
o Budismo entre suas Quatro Nobres Verdades: Existe a dor. O ser
humano vive sua miséria e sua grandeza por não conhecer o futuro e
querer mudar o passado. O primeiro gerando a ansiedade e o segundo
gerando a culpa. Assim, entre angústia e a culpa vive este ser
humano, demasiado humano. Hipócrates diz nos seus Aforismos: Sedar a
dor é uma obra divina. La Rochefoucauld, a certa altura, fala:
Todos sabem lidar bem com a dor … dos outros.
A
palavra Terapeuta vem do grego Therapein com o significado de “eu ajudo”.
Isto posto temos duas posições frente à dor: a de ajuda e a de
cura. Ambas provindo de atitudes existenciais diferentes. A ajuda
implica no reconhecimento do esforço e capacidade de cada indivíduo
trilhar seu caminho. A cura põe o indivíduo na posição de,
passivamente, aguardar que algo lhe seja feito. A atitude de ajuda
reconhece no outro seu potencial ao tempo em que reconhece, também,
a momentânea ou duradoura dificuldade dele atualizar seu potencial.
A atitude de cura tem um aspecto mais onipotente em que, do lado do
curador, encontra-se a saúde e a certeza enquanto do lado do
paciente estão a dúvida e a doença. A atitude de ajuda estabelece
um vínculo no qual o gradiente entre os papéis complementares é
menor, muito menor, do que na atitude de cura onde este gradiente é
um fosso quase que intransponível ou mesmo intransponível. A
atitude de ajuda, por ter um gradiente menor, permite que a inversão
de papéis seja possível. A atitude de cura, pelo fosso que origina,
cristaliza os papéis de curador e paciente.
Examinado,
desta forma, o lado côncavo das ações, olhemos o Psicofármaco e o Psicodrama. De qual ponto de vista estamos olhando? Da ajuda ou da
cura? Em ambas as terapêuticas há que se decidir: Se olho o
psicofármaco com o olhar de ajuda ele funciona como um ego auxiliar
químico para o cliente. Se o vejo com o olho da cura perpetuo no
paciente o papel de doente e em mim o papel onipotente de curador.
Ambos cristalizados. E o Psicodrama? De que ponto de vista o olhamos?
O Diretor como aquele que ajuda é bastante diferente daquele que
cura. Se o Diretor é terapeuta (eu ajudo), é dirigido, sim, pelo
grupo ou cliente, no sentido de não saber, antecipadamente, qual o
melhor para o grupo/cliente. Se o Diretor é um curador já sabe de
antemão os destinos do grupo/cliente e, ativamente, o induz/conduz
por aquele caminho. Quando meu objetivo é ajudar ao indivíduo/grupo
a encontrar sua melhor realização possível, coloco-me longe da
posição, ideologicamente determinada, de restringir meios de
auxílio. É o leito de Procusto ideológico. O Terapeuta, seja
biológico ou psicoterápico, é dirigido pela solicitação do
cliente e é o seu momento (do cliente) que seleciona os mecanismos
de ajuda, cabendo ao terapeuta (eu ajudo) estar atento e disponível
para propiciar estes meios. O exercício de qualquer forma de Terapia
(eu ajudo) é um caminho que passa entre o Desespero e a Ilusão: O
Desespero da impotência e a Ilusão da onipotência.
segunda-feira, 13 de março de 2017
Dublar, duplo
Duplo, dublê, duplicar, fazer o duplo. Em linguagem corriqueira duplo significa dobro, duas vezes algo, duplicar. E essa palavra - Duplo - é usado em Socionomia (Psicodrama, Sociodrama, Teatro Espontâneo) nomeando umas das suas técnicas fundamentais. Falemos dela um pouco. É, com certeza, a mais difícil de se compreender e usar. Fazer o duplo é colocar-se junto ao protagonista, assumir sua ´postura e expressão corporal e introduzir um novo texto que o ego auxiliar perceba como o que cabe naquele instante. A validação ou não dessa intervenção é dado pelo próprio protagonista. Faz isto com uma confirmação ou negação corporal ou verbal. NÃO é uma interpretação sobre a ação do protagonista, NÃO é uma sugestão aleatória. Por isto exige que o ego auxiliar assuma a expressão corporal, sinta o que esta postura traz à sua mente. E confie em expressá-lo. A não validação pelo protagonista não invalida o processo. O enorme cuidado é não se deixar levar pelo ânimo interpretativo, opinando em lugar de permitir que sua percepção estimulada pela postura corporal seja acionada. Quando usamos a palavra duplo, entretanto, isto pode confundir. Por isto, o mestre Moysés Aguiar sugeriu uma melhor tradução para Double, palavra em inglês, em vez de Duplo. Em nossa época talvez seja mais fácil entender o conceito técnico do Double traduzindo como DUBLAR. Em cinema e televisão dublar é traduzir em outra língua a expressão falada, mantendo o ritmo, entonação e sentido. E uma boa dublagem é sempre perceptível. Em nossa caso, pelo protagonista.
quarta-feira, 8 de março de 2017
Incomodar, Acomodar
Em uma conversa usei esta expressão: "Psicodrama, Teatro Espontâneo são mais para incomodar do que acomodar." Depois que usei, essa mesma expressão ficou me incomodando. Refleti e refleti. Para que dramatizamos e concretizamos? Para que fazemos o que fazemos? Para acomodar as pessoas e grupos? Para limpar arestas? Para que? Moreno dizia: "A segunda vez liberta a primeira." De que? De que as ações psicodramáticas são libertadoras? A resposta é: da Conserva. E em Socionomia (psicodrama, teatro espontâneo, sociodrama) conserva cultural é tal qual uma conserva em culinária: algo que permanece imune à transformações. E isto para Moreno e o Psicodrama torna-se seu objetivo de trabalho. Ajudar ao grupo ou pessoa a olhar e vivenciar sob um outro ou outros aspectos. A conserva da qual nos "libertamos" ao dramatizar uma cena é a conserva do vivenciar, do olhar. Aquilo que permanece sem transformação, repetindo-se infinitamente. As ferramentas Socionômicas propiciam às conservas saírem de sua imobilidade existencial e entrar no ciclo de mudanças da vida. E isto incomoda em lugar de acomodar. A dor ou sofrimento conhecidos tornam-se íntimos de quem sofre. Propor-se um novo olhar é sugerir uma viagem a um desconhecido. Sair de um lugar doloroso mas sabido e conhecido, e dirigir-se a uma interrogação. Psicodrama e Teatro Espontâneo incomodam. E é isto que se deseja.
quinta-feira, 2 de março de 2017
Outro que olha
Que Espontaneidade não é fazer o que se dá na telha pensamos saber. Que fazer o que se dá na telha seria melhor chamado de espontaneísmo também pensamos saber. Mas como fazer algo tão contraditório como "treinar" a Espontaneidade? Ao meu ver, criamos numa sessão de Psicodrama ou num ato de Teatro Espontâneo condições para que a Espontaneidade ocorra. Mais do que fazer coisas, seria possibilitar deixar-se de fazer coisas. A Espontaneidade existe desde o nascimento da criança. A disponibilidade para fazer qualquer coisa existe desde sempre. Com o tempo e o passar das experiências aprendemos ou passamos a temer as consequências de nossos atos. Aí a Espontaneidade começa a ser inibida." O que será que devo responder?" "Será que está certo?" O que será que ele ou ela querem saber?" "É permitido?" "E se eu errar?" " E se todos gozarem e rirem do meu erro?" "E se eu passar vergonha?". Isto torna não espontâneo o ser humano em grupo ou individualmente. O que fazemos no aquecimento, e esta sua função vital para a cena, é criar condições para que se baixem as guardas, ajudando a grupalização vivenciada. Há timidez, medo, vergonha quando nos sentimos expostos ao olhar do outro. O aquecimento, ao grupalizar visceralmente os participantes, elimina a vivência do outro que olha. Já não nos sentimos expostos porque somos parte do grupo. Vivenciar a pertinência ao grupo possibilita a Espontaneidade.
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Experimentar e refletir. Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo. Há mais de trinta anos...
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