segunda-feira, 2 de abril de 2018

consumo, espetáculo, papéis.

Há alguns dias escrevi sobre um comentário de Umberto Eco sobre o duplo sentido da palavra reconhecimento. Uma forma em que reconhecimento é uma homenagem que se presta a quem realizou um ato, tomou uma atitude, descobriu algo, inventou algo, escreveu, pintou ou esculpiu algo, que tenha sido importante para a nossa sociedade humana. Outra forma de se utilizar o termo é literal, reconhecer é lembra-se haver visto aquela cara, aquele rosto, aquele corpo. E essa ultima forma é a expressão de nossa sociedade de espetáculo atual. Hoje pela manhã vinha dirigindo e ouvi uma banal propaganda. Ela terminava com essa assinatura: Quem não é reconhecido não será consumido. Cheguei a parar o carro para anotar a frase. Límpida, transparente e sincera. É a sociedade de espetáculo embalada para consumo. Para Moreno, para a Socionomia, para o Psicodrama, os papéis desempenhados na vida têm uma dimensão objetiva e uma dimensão subjetiva. A primeira reflete o script oficial e  a segunda introduz a variável pessoal nesse desempenho de papéis. O que escrevi acima mostra a condição rasa, superficial, pouquíssimo profunda com que os papéis sociais são atuados nesse momento de nossa vida.

terça-feira, 27 de março de 2018

Provérbios

"Gato escaldado tem medo de água fria". Dito de outra maneira: um gato que foi queimado com água fervendo foge da mera visão de qualquer água, antes mesmo de saber se seria água quente ou fria. Se os provérbios refletem um conhecimento acumulado de experiências, esse provérbio é o cerne dos transtornos psíquicos. Do ponto de vista psicológico a água fervendo pode ter sido concretamente H2O a cem graus como pode ter sido uma água imaginada, fantasiada, vista ou ouvida. O resultado é o mesmo; foge-se de qualquer coisa que se assemelhe a água. A vida do nosso gato passa a ser regida pelo medo, pela fuga, pela evitação, pela angústia. O Psicodrama, no dizer de Moreno, insistia que uma verdadeira segunda vez pode libertar a primeira. Uma verdadeira segunda vez acontece no palco psicodramático, é recriado nele, é dramatizado nele. O protagonista psicodramático tem a possibilidade, no palco, na cena psicodramática, de experimentar as temperaturas vivenciais de suas águas existenciais. O método psicodramático por meio de suas técnicas, possibilita essa segunda experiência. E ao nosso gato é possível e provável que redimensione suas relações com sua vida e seus vínculos.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Saúde do Psicoterapeuta

Pesquisando em dicionários (Houaiss, Aurélio), encontramos para Saúde, além da definição clássica da OMS, outras acepções: Robustez, vigor, energia; Estado corporal e psíquico que permite desenvolver as tarefas diárias; Boa disposição, bem-estar; Capacidade para suportar, aguentar, ter paciência para. É a esta última acepção que vamos dedicar a nossa atenção.
Todo papel, seguindo Moreno, tem uma face convexa, voltada para fora, objetiva, pública e uma face côncava, voltada para dentro, subjetiva, privada. Examinemos as duas faces. Na dimensão objetiva, o papel de terapeuta tem uma expectativa social de que ele seja “compreensivo”, “aguente tudo”: afinal ele é “terapeuta!”. Nos outros papéis em que também há grande interação humana, ainda assim, a expectativa encontra-se voltada para o desempenho de uma tarefa específica. O médico, a enfermeira, o professor tem interação humana constante mas medicam, cuidam, ensinam. É isto que é a sua tarefa e nisto está o olhar expectante. Em nosso caso, é a própria relação entre nós e o paciente/grupo que é o objetivo. A relação em si é que é a nossa tarefa e nela está o olhar expectante. E, na dimensão subjetiva, o que nós aguentamos, suportamos? Em um dia de trabalho de um psicoterapeuta, todas as suas horas são preenchidas com algum grau de desarmonia, incômodo ou sofrimento. O nosso papel complementar, ao nos procurar, chega com alguma nuance de indiferenciação. Obviamente, esta indiferenciação vai nos exigir uma diferenciação clara e límpida em nosso próprio papel. Isto é como passar o tempo com andas (perna de pau). Ou andar em um piso molhado e escorregadio. Exige atenção continuada, focalização permanente, cuidado constante. Todo o tempo “ligado” na relação com o paciente/grupo. Um dia, vários dias, meses, anos. Porém, o ser/terapeuta desempenha também outros papéis. E, ao complementar estes outros papéis, por um movimento pendular existencial, pode indiferenciar-se. Nos seus outros vínculos tenderá a ser impaciente, chato, possessivo, exigente, incompreensivo ou qualquer outra coisa. Contanto que esteja de folga do exercício contínuo e desgastante da diferenciação. Nessas outras relações poderá lhe faltará disposição ou o bem-estar ou o vigor ou a capacidade de suportar e de ter paciência. No caso deste ferreiro, o espeto necessita ser de pau. A emenda, entretanto, tende a ser pior que o soneto. As relações amorosas podem ser, e são, profundamente afetadas por este efeito rebote, tornando difícil se estar na outra ponta do vínculo afetivo com um psicoterapeuta.
Para complicar um pouco mais, esse bumerangue volta-se também para a própria relação com o paciente/grupo. É a isto que se denomina de “burn-out”: o desgaste físico, psíquico e comportamental do profissional. “Os sintomas somáticos compreendem: exaustão, fadiga, cefaleias, distúrbios gastrointestinais, insônia e dispneia. Humor depressivo, irritabilidade, ansiedade, rigidez, negativismo, ceticismo e desinteresse são os sintomas psicológicos. A sintomatologia principal se expressa no comportamento; fazer consultas rápidas, colocar rótulos depreciativos, evitar os pacientes e o contato visual, são alguns exemplos ilustrativos. Um profissional que está “burning-out”, tende a criticar tudo e todos que o cercam, tem pouca energia para as diferentes solicitações de seu trabalho, desenvolve frieza e indiferença para com as necessidades e o sofrimento dos outros, tem sentimentos de decepção e frustração e comprometimento da auto-estima. O problema está exposto. Tal qual uma fratura é dita exposta. Mas será este o Triste Fim de Policarpo Quaresma? Nós não precisamos encarnar (e acreditar) no papel de quem tudo suporta ou que de tudo compreendemos. Somos ajudantes (terapeutas) do processo e não o ator principal. Somos aquilo que, em Teatro e Circo, se chama de “escada”. Nos Trapalhões, Didi é o principal e Dedé o “escada”. A ele cabe a tarefa de preparar a cena que terá o seu desfecho nas mãos do protagonista. Ao “escada” cabe o ritmo, a atenção para os detalhes e adequação da pergunta (o “escada” não conclui: ele faz perguntas muitas vezes óbvias!). Claro que trabalhar todo o tempo com pessoas tendo essa intensidade, proximidade e relevância, será sempre delicado, mas a criatividade de ocupar o papel de “escada”, coadjuvante em cena, evitará a cristalização do personagem Super-Terapeuta: só aparece a impotência onde antes existia a onipotência.

Falhei em tudo

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá só encontrei ervas e árvores

E quando havia gente era igual à outra.

Tabacaria – Álvaro de Campos/Fernando Pessoa



segunda-feira, 19 de março de 2018

Eco, Millôr

Novamente lendo Umberto Eco. Em uma de suas crônicas ele se refere ao uso da palavra Reconhecimento. E distingue duas conotações. Uma em que Reconhecimento é o preito de homenagem feito pelas pessoas diante de atos ou atitudes ou obras realizadas por alguém. O que se reconhece é algo de valor. Outra conotação da palavra reconhecimento liga-se ao ato de ser visto. Reconhecer, nesse caso, é saber que já viu aquele rosto em algum lugar. É a nossa sociedade do espetáculo em que tudo é feito pensando nessa segunda conotação do reconhecer. Faz-se  algo para ser visto se fazendo algo. E, portanto, ser reconhecido nas ruas e nas mídias. Moreno dizia que todos os papéis tem uma dimensão objetiva e uma dimensão subjetiva. A uniformização, a padronização, dos desempenhos dos papéis sociais em sua dimensão objetiva traz consigo o apequenamento, o pouquíssimo aprofundamento da dimensão subjetiva do desempenho desses papéis. E aí lembro-me de um Hai-Kai do Mestre Millôr Fernandes:
"Ah, como são iguais
esses caras diferentes!"

quarta-feira, 14 de março de 2018

Outra estrela se apaga

"I could be bounded in a nutshell and count myself a king of infinite space, were it not that I have bad dreams", Hamlet, Shakespeare. (eu poderia estar preso numa casca de noz e mesmo assim me considerar rei de espaços infinitos. Se não tivesse sonhos maus). Essa frase hamletiana tornou-se muito conhecida pela citação feita por Stephen Hawking em seu livro Universo numa Casca de Noz. E o Psicodrama com isso, que é que tem? Esse trecho de Shakespeare nos remete ao enorme poder da imaginação em relação às limitações materiais. E também ao poder destrutivo dos sonhos maus. O Psicodrama usa da nossa imaginação para o seu Como Se. Todo o trabalho inicial, mas contínuo, do aquecimento visa manter a imaginação em atividade. O sonho mau, os sonhos maus shakespearianos, acontecem quando o aquecimento decai, a imaginação fraqueja,  a dramatização torna-se representação forçada. Aí a casca de noz volta a se fechar sobre o protagonista e o grupo, limitando-os e os prendendo à realidade imediata. 

terça-feira, 13 de março de 2018

Teatro Espontâneo e Psicodrama

Com o longo tempo e grande número de atividades públicas de Teatro Espontâneo/Psicodrama/Sociodrama penso algumas coisas sobre fazer essas atividades socionômicas em circunstâncias difíceis. Divido em expectativas e contexto físico. O contexto grupal terapêutico é bastante diferente do contexto grupal em uma atividade aberta, pública. Uma questão importante que o Diretor/Condutor deve atentar é que no contexto terapêutico os participantes têm um compromisso tácito de frequência e permanência no grupo. Em uma atividade pública as pessoas entram e saem na medida de sua conveniência ou interesse. O único empecilho para a saída antecipada do participante seria a vergonha de atravessar o espaço físico. Nestas atividades abertas, públicas mais do que nunca o aquecimento é vital. Torna-se mandatório perceber a queda de atenção do participante, estar vigilante para o ritmo da cena, para o interesse despertado porque nada prende a pessoa como membro do grupo, só este interesse. Daí porque quem trabalha com TE é tão cuidadoso quanto ao ritmo da cena e é tão cioso do aquecimento. O julgamento crítico negativo do grupo é exibido clara e cruamente pela saída progressiva dos participantes. Temos outra dificuldade que é fruto até próprio bom desenrolar da atividade de TE. É quando dentro de uma história criada emerge uma situação pessoal que pela sua intensidade não pode apenas ser acolhida à parte do desenrolar. É quando se entra no conflito ético de precisar trabalhar como Psicodrama Público quando a proposta era de TE. As poucas vezes em que isto aconteceu a cena original foi congelada e levantada a questão para a pessoa e para o grupo de como seguiríamos. Alguma vez houve acordo da pessoa e do grupo para trabalharmos a questão pessoal. Em uma ocasião, como Diretor/Condutor tomei a iniciativa de não dar prosseguimento ao trabalho embora aceite pelo grupo e pela pessoa por considerar que, naquele momento, não havia nem haveria continência para um trabalho de cunho terapêutico stricto sensu. Mas, enfim, este é um risco inerente a todo trabalho grupal e, ainda que devamos nos prevenir, às vezes não há como evitar lidar com este dilema. A decisão será sempre levando em conta o grupo, a pessoa e a sensibilidade télica do Diretor/Condutor.
A outra parte de dificuldade refere-se ao contexto físico, ao espaço destinado ao trabalho. O espaço há que ser proporcional ao tamanho do grupo. Grupo grande em espaço pequeno é tão problemático quanto grupo pequeno em espaço muito grande. O primeiro é complicado pela limitação de movimento e o segundo complica pela sensação grupal de pequenez, como se reduzisse a importância do grupo, acentuando seu pequeno tamanho. A compatibilização é muito importante para o aquecimento e desdobramento do trabalho. A presença de cadeiras fixas torna-se um empecilho considerável. Neste caso pode-se pensar nos corredores, na parte da frente das cadeiras. Tudo na dependência do tamanho do grupo. Em último caso, há a possibilidade de fazer-se o aquecimento nos próprios lugares, usando mais a palavra. Cantos, jogos verbais, desafios entre partes do auditório podem ser usados deixando os poucos espaços livres para a cena em si. Não nos esqueçamos nunca que a palavra também pode ser uma forma de ação. Locais sem cadeiras, espaços abertos, podem não ser muito bons para pessoas com limitações físicas ou com idade avançada. Isto favoreceria a saída precoce destas pessoas, não por desinteresse, mas por desconforto. Então, é necessário perceber os sinais de desconforto físico, minimizá-los se possível, ou trabalhar a saída delas de maneira que não seja desaquecimento para o grupo e que elas, ao sair, não se sintam inteiramente frustradas ou discriminadas.
Estes são alguns exemplos de dificuldades no exercício do ato socionomico em espaço público ou aberto. Entretanto, lembremos alguns pontos: não esperemos a situação ideal; o método psicodramático pressupõe que tomemos a realidade tal como ela se apresenta; o Diretor/Condutor não carrega o grupo, não é o responsável solitário pelas decisões e escolhas; cabe ao Diretor/Condutor, seguindo o método socionômico, ter sempre em mente que ele é membro do grupo, em papel diferenciado; trazer para o grupo os problemas e dificuldades porque ao grupo cabe encontrar a forma melhor e adequada de lidar com estes percalços.
Enfim, o método socionômico é a nossa ferramenta para lidar com as dificuldades operacionais. 
Há que se viver o método, tornando-o parte inerente do exercício de todos, todos mesmos, instantes da atividade grupal. Ou seja, dificuldades e problemas podem ser aquecimento.

sexta-feira, 9 de março de 2018

TE e PD

O Teatro Espontâneo (TE) é um instrumento analógico e estético de impulsionar mudanças tendo aplicações desde a lúdica à terapêutica. Para psicodramistas que não trabalham ou não desejam trabalhar especificamente com TE, posso perguntar. O que interessa a um diretor de Psicodrama (PD) ou Sociodrama (SD) fazer TE? O Diretor em Sociatria (é como Moreno denomina os instrumentos de intervenção Socionômicos) é essencialmente o primeiro protagonista. É ele quem primeiro entra em luta (agon), é ele quem primeiro pisa em um vazio, é ele quem confia na incerteza. A Espontaneidade, real e vivenciada, do Diretor é a chave e o metrônomo do desenvolvimento do grupo. O TE privilegia a estética da cena, o ritmo, o aquecimento grupal. Com isso, participar ou fazer TE dá ao diretor de PD ou SD possibilidades de  introduzir noções de ritmo e estética permitindo que o papel de Diretor seja enriquecido e ampliado. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

destino e escolha

Escutando ontem uma antiga música de Raul Seixas, Messias Indeciso. em meio à letra há esses versos: "O destino é a gente que faz na mente de quem for capaz". E pensei sobre. Pensei que o que chamamos de destino é a inexorabilidade de um projeto de vida, sua imutabilidade. É algo como aquela piada antiga de alguém caminhando em uma rua e vê uma casca de banana e diz: ai, jesus, lá vou eu cair outra vez! (enquanto continua caminhando em direção à casca de banana). Moreno disse certa vez que a verdadeira segunda vez liberta a primeira. E o que seria uma verdadeira segunda vez? Seria a dramatização com espontaneidade plena de um plano de vida congelado, de um projeto de vida inexorável, de uma conserva qualquer chamada de destino, sina, sou assim mesmo, minha vida é assim. A possibilidade de que uma dramatização em plena Espontaneidade permita, possibilite, abra a chance de abrir a conservada hipótese de destino para um novo olhar, um novo pensar. Sair do destino e caminhar para a escolha. E não para a contínua casca de banana.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O sapato de cristal

Por que o sapato de cristal da Cinderela não desaparece à meia  noite? Tudo o mais volta ao que era. O outro sapato, a carruagem, o vestido, os cavalos. Tudo. Mas o sapatinho de cristal unicamente permanece. Algo do reino da fantasia invade o reino do real. Não somente invade, mas é o que permite o encontro final. Ir ao mundo da fantasia, deixar-se conduzir pela imaginação. E, ao voltar, trazer consigo o fator transformador, o sapatinho de cristal do conto de fadas. Se isto não é uma bela alegoria do potencial transformador do Psicodrama e Teatro Espontâneo...

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Corpo e mente

Li em algum lugar da obra de Moreno: "O corpo lembra o que a mente esquece". A memória da ação persiste. A coreografia da dança executada continua impressa no corpo. Quando, por meio do aquecimento bem realizado, conseguimos como Diretores de Psicodrama/Teatro Espontâneo, que a ação seja realmente espontânea isto recupera a memória inscrita no corpo. É como se o aquecimento destravasse o controle racional permitindo que as memórias inscritas, a nossa coreografia existencial, pudesse enfim voltar ao palco.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Ação, atividade

Lendo um livro do grande biólogo contemporâneo Richard Lewontin, A Tripla Hélice. Nesse livro há esse trecho: "O ambiente não é apenas uma propriedade da região a que pertence. Ambiente é o espaço definido pelas atividades dos organismos." Essa citação refere-se a ambiente na perspectiva biológica. Porém, podemos usá-la para pensar em termos psicodramáticos, socionômicos. Como o nosso método socionômico é lastreado na ação acho que cabe a extensão da reflexão. Ação, atividade não são mera movimentação física. Andar à esmo, mover-se simplesmente, não é ação. Ação, atividade são movimentos com finalidade. É movimento com intenção. Não é mera cinesia, é praxia. Então, a ação, a atividade pode ir de um movimento de aproximação de caça, de cortejo  a um olhar  de interesse. Falar, nesse contexto, é uma ação. O silêncio pode ser ação. Daí porque o Psicodrama/Teatro Espontâneo não prescinde da fala. O discurso e o silêncio são ações da linguagem verbal. Como a mímica e a pantomima são ações da linguagem corporal. Então, o nosso ambiente, o nosso palco, é construído pelas nossas ações, pela nossa atividade.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ver em Psicodrama

É bastante comum de se ouvir: "A escuta terapêutica". Quanto pensamos em Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama, essa expressão precisa ser repensada. O Psicodrama adveio do Teatro. Teatro em Grego significa "lugar de onde se vê". Portanto, Teatro é Cena vista pela Plateia. E o ver em Teatro inclui o escutar e amplia o escutar. Em Teatro, vendo da Plateia, tudo se vê, tudo se percebe. Amplificado pelo Palco. O palco amplifica, aumenta todo significado do gesto, da postura, da voz, da prosódia, das relações corporais. O Palco, em Teatro, é uma lente de aumento. Assim, ver Teatro é muito mais do que olhar uma imagem. É ver. Tanto em Português quanto em Inglês, o verbo Ver/To See tem um sentido de compreender, saber, perceber. Ver Teatro é ver, perceber, compreender. Ver em Psicodrama é ver, perceber, compreender. Talvez possamos introduzir outra diferença entre a escuta comum e o olhar psicodramático. Como em todas as outras formas psicoterápicas o escutar é do Psicoterapeuta. A ele cabe o Escutar. Em Psicodrama, o foco da visão, percepção, compreensão está na Plateia Grupal e no Protagonista, não somente no Diretor. Não há no Psicodrama a intenção de interpretar a Cena.  A intenção fundamental da Socionomia (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) é permitir ao Protagonista e ao Grupo alcançar a sua própria visão da Cena. 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Fantasia e Realidade

Lendo um artigo de Susan Sontag. Nele há uma citação do autor teatral Eugène Ionesco: "O Teatro é um instrumento que, pela distorção da realidade, agudiza o sentido do Real". Que maravilha de sinalização para o Teatro Espontâneo! Agudizar alguma situação é levá-la ao limite, torná-la extrema. E o nosso sentido do Real anda tão amortecido, tão sem graça, tão mais do mesmo, tão anestesiado. A distorção da realidade de que fala Ionesco, essa distorção é a imaginação, a fantasia. Eis uma situação, aparentemente, paradoxal: precisamos da fantasia, da imaginação, dessa distorção da realidade, para que possamos maximizar, intensificar o nosso sentido do Real. 

"Sem a loucura que é o homem 
Mais que a besta sadia, 
Cadáver adiado que procria?"
                          in  Mensagem, Fernando Pessoa


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

sociedade comercial x sociedade afetiva

Sempre é preciso ter-se cuidado como analogias. Mas elas podem nos fazer ver com mais facilidade situações carregadas de peso afetivo. Esse é um exemplo. Sociedade significa vínculos entre sócios. Sócio em Latim é Socius: companheiro, parceiro. E, voltando, Sociedade é uma relação vincular entre sócios, entre parceiros com uma mesma finalidade. Então, a sociedade afetiva, a relação afetiva, é uma parceria entre sócios afetivos, parceiros afetivos. O capital que financia e sustenta essa sociedade afetiva é o capital afetivo. Tal como numa sociedade comercial, não é só porque uma sociedade foi constituída formal ou informalmente que funcionará. Qualquer consultor empresarial dirá que existe um tempo de maturação de qualquer empresa, de alguns anos antes que comece a dar retorno. Nesse tempo entre o início da sociedade empresarial ( e da sociedade afetiva) e sua maturação os sócios têm que continuar investindo, empenhando-se em fazê-la funcionar. As sociedades empresariais por não serem românticas têm essa clareza mais facilmente. As sociedades afetivas ainda muito preenchidas de um romantismo fantasioso, imaginam que apenas porque querem estar juntos isto será o suficiente para fazer essa sociedade funcionar. E mesmo com empenho as sociedades podem não mais serem lucrativas, serem um bom negócio. E ao se romperem essas sociedades costumam dar mais problemas do que para se constituírem. Mesmo porque há mais para se repartir. E esse a mais para repartir, se for lucrativo aguçará a ambição. Se for prejuízo, dano, estimulará a rivalidade também. Penso que para nós que lidamos com gente em relação afetiva é necessário desconstruir uma visão romântica. Essa visão romântica de que dar certo, funcionar bem, é magia, é mágica, é certeza, é obrigação. Sem investir continuamente nenhuma sociedade se sustenta e evolui.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Dar e receber

Numa sessão psicoterápica sobre dar e receber. "Sou muito generoso". "Me sinto mal, dependente, quando minha mulher paga algo para mim". Qual a relação complementar entre o papel daquele que dá e o papel daquele que recebe? É uma complementação assimétrica. ou simétrica? Aí torna-se útil o conceito de TELE em Socionomia (Psicodrama, Sociodrama). Pensemos em cena.  Numa relação de complementação simétrica, na imagem correspondente os dois estariam se olhando horizontalmente, no mesmo nível. Solilóquio dos personagens: "obrigado", "valeu", o que recebe. "Acho que fui útil","que bom que pude ajudar!", aquele que deu. Numa relação assimétrica, posta em imagem, aquele que dá olha para baixo e aquele que recebe está ajoelhado olhando para cima. Solilóquio dos personagens nesta cena: "arrogante", "está me humilhando", diz o que recebe. "Por que não se sustenta só? "Fraco e dependente!" diz aquele que dá. Explorar esses meandros das relações interpessoais mediados pelos atos de dar e receber no Psicodrama torna-se mais visível pela força da imagem representada.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...