domingo, 23 de novembro de 2025

Atrasados

Quando estou para iniciar uma atividade psicodramática a organização me pergunta o que fazer com os retardatários. Minha resposta, na maioria das vezes, é "deixe entrar". Por que isso? faz parte de uma curiosidade minha: Como aquele que chega sem ter participado do aquecimento ou mesmo das cenas desenroladas, capta o clima do grupo.
E quando peço exatamente isso o que tenho encontrado é uma consonância e uma ressonância totalmente harmônicas com o que aconteceu, mas não foi presenciado. O que me demonstra que o Coincosciente Moreniano, aquilo amorfo, porém construído por tudo o que aconteceu na construção grupal, é uma realidade que pode e é capturada pelos membros grupais. Algo que existe, criado pelo grupo e durando o que o grupo dura. Mas uma realidade psicodramática.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Espelho que não é espelho

 Durante esse período de alguns dias sem postar estive em várias atividades publicas de Psicodrama. Em uma, particularmente, me chamou a atenção o uso que um participante fez de uma técnica psicodramática. Ele disse: "quero fazer um espelho". O que ele fez a seguir foi uma admoestação moral do comportamento do protagonista. O psicodrama tem três técnicas básicas. A dublagem (duplo), o espelho e a inversão de papéis. Vou-me deter aqui no espelho. Para isso preciso falar do palco, um dos instrumentos do psicodrama. Por que palco? O palco tem uma função cênica, de realçar, amplificar, aquilo que lá acontece. Mas, no Psicodrama, delimita a fronteira entre a realidade real, que está na plateia, e a realidade dramática que está no palco. Entrar e sair do palco NÃO é um mero ato físico. É sair e entrar em dois mundos. A criança faz assim com extrema facilidade. Mas o adulto, não. O espelho, como técnica, possibilita que o protagonista se veja em ação. Mas, ele tem que estar FORA do palco. Ver-se como a plateia o vê. Ver-se em ação. Então, a proposta de fazer um espelho exige a saída do protagonista do palco, um ego auxiliar tomando seu papel e repetindo sua cena. Ver-se em cena e daí poder deslocar sua observação e propor saídas outras até então invisíveis dentro da cena. É ver-se filmado e dizer: "Porra, fiz isso mesmo? Falo assim mesmo?". Mas, em nenhum lugar, absolutamente nenhum lugar do Psicodrama cabe dizer ao protagonista o que ele deve sentir ou fazer. Essa é um achado, uma descoberta que há que ser feita pelo protagonista. E só assim cumprirá a meta psicoterápica: acrescentar ou mudar seu ponto de vista

sábado, 25 de outubro de 2025

Surpresa

Várias turmas de psicologia me procuram para fazerem trabalhos sobre o Psicodrama. Inicialmente desejam que responda a questionários ou uma entrevista.  Muitas vezes me pedem que sugira "alguma dinâmica ou técnica" do Psicodrama para fazerem na sala de aula. Retruco que no Psicodrama, seu método e até suas palavras são desconhecidas. Imaginem os conceitos. Os outros métodos psicoterápicos, mesmo que as pessoas desconheçam seus conceitos, as meras palavras são conhecidas. Não há estranheza numa mesa ou painel. Psicodrama, provavelmente, num painel com cerca de 20 minutos para apresentá-lo, soaria estranho, confuso, mágico ou falso. Então, sempre proponho às equipes ou turmas que experimentem uma sessão de Psicodrama. Em geral, a curiosidade estudantil faz com que aproveitem a oportunidade de vivenciar, efetivamente, uma ação psicodramática. Uma ou outra vez me surpreendo com a indisponibilidade para experimentar. Por que fazer algo presencialmente, por que não responder apenas o questionário? O que realmente me surpreende é a falta de curiosidade, a aparente burocratização de, meramente, responder a uma demanda de sala de aula. A curiosidade é virtude indispensável para a mente científica. Sua falta traduz-se por preconceito, credulidade, passividade intelectual, enfim, contínua aceitação sem questionamento.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Significado

 O epitáfio de J.L.Moreno, criador do Psicodrama foi: "Aqui jaz aquele que trouxe a alegria à Psiquiatria". Será um bufão o psicodramatista, será um eterno sorridente, será um daqueles que riem da dor alheia? Será um eterno feliz? Refletindo, acho que não. A alegria de a que Moreno se refere é a alegria de Nietsche, alegria da potência da força vital, a alegria da potência da mudança, a alegria da vida significativa. Dentro da dor, do sofrimento, do risco, do perigo, da angústia, pode existir a consciência da potência, a consciência da possibilidade de mudança. Não é felicidade, não é sorriso constante. O escritor Saint Exupéry escreveu: "Aquilo que dá sentido à vida, dá sentido à morte"; Isso é vida significativa. Penso ser essa visão Moreniana.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

deu match

 Psicodrama não é novo. Mas sempre é inovador. Estar presente num ato psicodramático é, sempre ou quase sempre, capaz de mobilizar de forma permanente sua plateia ou protagonista. O grupo psicodramático é uma enorme e profunda caixa de consonâncias e ressonâncias. Consonância é aquilo da cena que bate comigo, dá liga, da match. Ressonância são todas as minhas respostas a esses pontos de contato com a cena. Essa relação entre plateia e cena é mutuamente fertilizadora. Em um ato psicodramático realizado em uma faculdade de Psicologia, a protagonista diz, em um momento: "eu estou sentindo tudo que senti na hora". Moreno chamava o instante em que o protagonista integra uma compreensão de sua situação de catarse de integração. Não é apenas um instante de ab-reação, de descarga emocional, mas de compreensão cognitiva de sua cena. "A ficha cai". Psicodrama não é apenas desafogar, descarregar, emocionar-se. É, sim, ter um  momento Aleph, como dizia Jorge Luís Borges. Aristóteles falava em peripécia, o instante em que tudo muda, aparece uma perspectiva inexistente, até então. E por que isso seria psicoterápico? Porque o protagonista e/ou a plateia saem do imobilismo da visão única, congelada, petrificada. Em linguagem psicodramática, sai da conserva em que estava imerso, da vida que "é assim mesmo". É assim mesmo, mas talvez possa ser algo mais. Isso é Psicodrama.


sexta-feira, 26 de setembro de 2025

personagem e papel. Um esboço.

 Hoje, num atendimento, a pessoa, que convive com seu namorado há alguns anos, vai se casar em poucos dias. E ela está muito e muito nervosa, como ela diz. E pergunta, é diferente agora? Por que estou tão nervosa se já estamos juntos há tanto tempo? os papeis teatrais (role, em inglês) são desempenhados por personagens (characters}. Por exemplo, o papel de mãe em uma peça pode ser desempenhado, inicialmente, pela personagem X. Posteriormente, outra personagem Y a sequestra e a substitui no papel de mãe. O papel tem funções prescritas pelo autor.  Fora dos palcos, os papéis também têm sua expectativa de desempenho, têm seu script definido. Há papéis com alto grau de prescrição social que, praticamente congela o personagem que irá desempenhá-lo. A margem de criatividade torna-se reduzida. Há outros papéis, entretanto, em que a prescrição é somente um esboço, abrindo espaço para atuações variadas. O papel social matrimonial tem alta prescrição social. E isso inclui escolhas, ações, vestuário, comportamento e mais outros tantos. Essa paciente a que me referi, funciona com cônjuge há anos. Porém, sua titulação é de namorada e namorado. Ao casar-se, incorpora um novo papel com outra cota de demandas sociais e pessoais. A formalização do ato traduz-se pela assunção de novo papel. E a personagem (ou o personagem). A personagem desempenha múltiplos papeis. namorada, profissional, familiar, amiga. E em todos eles sua personagem é vista no desempenho de todos seus papéis. Em cada um desses papeis é possível reconhecer-se o personagem que o desempenha. Ele imprime sua marca em todas as atuações. Personagem, em português, como vejo, é o mais próximo conceito psicodramático do conceito de personalidade nas outras visões psicológicas. Como cada papel tem uma dimensão objetiva, votada para o meio e, também, prescrita pelo meio. E uma dimensão subjetiva que nos dá o diferencial no exercício de cada papel. Aquelas partes das dimensões subjetivas de todos os papéis vivenciados na vida, que, vistas em conjuntos, são constantes, são comuns, serão, ao meu ver, os personagens. 

sábado, 6 de setembro de 2025

Tempo, Espaço, Condução

Tempo, Espontaneidade, Espaço, Espontaneidade. Às vezes, parece que fazer Psicodrama é vivenciar um happening, apenas usufruindo da vivência sem nenhuma forma de organização. Não é assim. Parodiando Polonio no Hamlet "é louco, mas tem seu método". Ao Diretor cabe manter o total controle do tempo e do espaço. Embora ele seja um membro do grupo, em seu papel diferenciado ele não deve deixar-se levar pelo encantamento do momento e perder-se dentro dos critérios de tempo e espaço. O absoluto controle do tempo é vital para saber a cada momento, se há tempo para uma nova imagem, um desdobramento cênico, uma ressonância maior. Saber se cabe dar início a algo novo ou apenas acolher a manifestação. E no espaço há que se lembrar que o palco delimita os dois mundo. o Real "real" e o Real "cênico". A mais que famosa brecha realidade fantasia traduzida em um espaço concreto. Os membros da atividade não devem consultar o relógio. Se o fizerem e isso for percebido pelo Condutor ou sua unidade funcional sinaliza que o aquecimento está fraquejando. Mas a unidade funcional, a codireção, precisa saber, a cada momento onde a atividade está em relação ao tempo disponível ou contratado. Dirigir, Conduzir uma atividade socionômica é como um equilibrista que tem um olhar genérico e um um olhar específico para cada um dos malabares que esteja jogando. A visão do grupo e a visão do membro do grupo. Não é fácil, à primeira vista. Mas, é possível. Treinando, repetindo, observando e repetindo e observando. 

domingo, 17 de agosto de 2025

Não pode e não deve acontecer

 Por que o Psicodrama não tem tanta difusão no meio Psi? talvez porque o Psicodrama ser um método de ação ele necessite ser experimentado antes de ser valorizado. pelos aspectos teóricos literários não parece ser algo muito atraente á simples leitura. E como, dia a dia, o próprio exercício do Psicodrama pelo Psicodramatista vai se tornando mais psicoterapia de fala e escuta e menos de ação e cena, vai perdendo e deixando de ganhar espaços no ambiente Psi. Há muito tempo o Mestre Moysés Aguiar alertava que o Psicodrama tornava-se cada vez mais Psi e menos Drama. E isso é um enorme risco para a a continuidade desse Método. Caricaturalmente, tirar ou diminuir a sua principal ferramenta diferencial  é como emudecer e ensurdecer a Psicanálise. Simplesmente não faz sentido. A cena torna o Psicodrama o único método tridimensional, capaz de colocar e acentuar nuances de expressão impossíveis de serem percebidas num relato verbal. O Psicodrama não é uma psicoterapia corporal, mas é uma psicoterapia em que o corpo, o tom da voz, a prosódia de emissão da fala, a postura, o movimentar-se, traduz-se como expressão total de um ser humano. Em que é possível a vivência plena, no aqui  e agora, do passado vivido ou não, do presente vivido ou não, do futuro desejado ou temido. Só e exclusivamente porque temos a Cena, o mundo tridimensionalmente vivido. 

sábado, 9 de agosto de 2025

Atitude terapêutica é psicoterapia?

Therapon em grego antigo é servo, ajudante, auxiliar. Therapein, então, é servir, ajudar, auxiliar. Atitude é disposição, forma de agir ou lidar. Nossa área de trabalho nos faz entrar em contato contínuo e permanente com pessoas sofrendo de algo ou alguma coisa. Podem ser problemas de relacionamento interpessoal, afetivos amoroso, planejamento de vida, maneiras equivocadas de construir suas vida, sintomas e doenças física, sintomas e transtornos  psíquicos. Então, a atitude básica e fundamental para qualquer profissional dessa área é acolhimento, não julgamento, olhar e escuta atentos. isso é expresso pela atitude corporal, pelo olhar, pelo tom de voz. Isso é importante para todas as pessoas dessa cadeia de atendimentos. Essa ou essas  são atitudes terapêuticas. Mas, não são psicoterapêuticas. Quando vamos para o exercício profissional específico, a ação terapêutica conduzida por um profissional da área de saúde/transtorno mental tornar-se-á psicoterapêutica quando há um método além da atitude. Quando o método atua por meio de técnicas, quando há um plano estratégico de condução. A atitude terapêutica fundamenta e exala calor humano, mas a condução metódica e tecnicamente orientada é que, enfim, se torna psicoterapia. Ao longo do tempo, a acepção de servir, ajudar, auxiliar, aquilo que a personagem Escada nas comédias, os Dedé para seus Didi, o que prepara a piada para ser concluída pelo protagonista, foi sendo substituída pela acepção mais ativa, deslocando o paciente, o sujeito, de seu lugar protagônico, colocando todo o potente foco da atenção no agente terapêutico. Esse deslocamento de acepção, de sentido, ao esmaecer o papel do paciente, sujeito, é apassivador da responsabilidade final de cada um ao procurar ajuda. A Psicoterapia não é uma intervenção mecânica, não é uma mera troca de pneus. O senso comum pode nos dar a atitude terapêutica. Mas, raramente ou nunca, o senso comum é bom senso. A ação psicoterápica não é o senso comum em ação. É uma ação ou são ações embasadas em conhecimento técnico, reflexão, e na escolha de realizar o mais adequado para aquele sujeito que nos espera e aguarda e não, apenas, o que ele simplesmente deseja. São sempre dois pontos de vista no mesmo palco. Um, o paciente sujeito, que conhece o que tem, que sente. O outro, o profissional, que olha e enxerga de fora, que acrescenta uma mirada diferente. Pode-se ter uma psicoterapia direcionada para lidar específica e diretamente com o quadro clínico e, em concomitância ou em seguida, pode-se ter uma psicoterapia voltada para o a pessoa, o sujeito daquele quadro clínico. Um ser humano é sempre e sempre maior e mais complexo que qualquer patologia ou transtorno que ele possa ter.

sábado, 26 de julho de 2025

Trilha e o trilhar

 O que é fazer formação em Psicodrama? Talvez, de todos os métodos psicoterápicos o Psicodrama destoe em um aspecto (ou vários). É muito difícil escolher-se esse método a partir apenas da teoria. Em geral, inicia-se em qualquer outra situação pela leitura, estudo teórico e, a partir daí, busca-se a formação específica. Penso ser o Psicodrama uma contramão disso. A leitura do texto psicodramático raramente ou nunca traduz o que acontece no palco, na cena. Como no teatro. Embora no Teatro o texto shakespeariano exista independentemente da encenação, no Psicodrama tal não acontece. Por uma razão simples, acredito. Em um texto de Shakespeare, Sófocles, Nelson Rodrigues, procura-se e encontra-se a beleza literária e a profundidade. Mas, no texto psicodramático aparece a dúvida: Isso acontece assim mesmo? É verdade isso ou é uma mero draminha para produzir uma ab-reação, uma catarse, uma descarga de apenas alívio? Transforma, atinge, é profundo, não é teatrinho? Os textos teatrais já se sabe que são teatro. Psicodrama NÃO é Teatro. NÃO é catarse de alívio. NÃO é maquiagem do real. NÃO é mágica. NÃO é histrionismo. E como é, então? Show and Tell. Mostre e conte. Eis aí a razão da diferença. Psicodrama precisa ser vivido para ser reconhecido. Toda ação socionômica (Sociodrama, Psicodrama, Teatro Espontâneo, Axiodrama) constrói a credibilidade do método. E a credibilidade advém do reconhecimento que há um método, há uma teoria embasando as ações, não é apenas uma vivência catártica. Parodiando Polonio em Hamlet "é louco mas tem seu método". É louco pois ao se iniciar no Psicodrama (metonímia que substituiu o nome do método, Socionomia) o iniciante se depara com palavras inteiramente novas, conceitos totalmente estranhos à corrente principal. Todos os outros métodos compartilham ideias, palavras, conceitos que já fazem parte do senso comum. No Psicodrama tudo é novo, há que se reconhecer palavras novas e, principalmente, conceitos novos. Novos em relação a qualquer outro método. Exigências para o papel de psicoterapeuta novas e estranhas à visão comum. O método psicodramático é uma forma original de se ver, perceber, vivenciar o mundo e suas relações. Primeiro a curiosidade, daí o vivenciar, o experimentar, nova curiosidade, busca do método, aprendizado do método, domínio do método, ser o método. A trilha do Psicodrama é o seu trilhar.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

limites

 ontem durante uma supervisão (que chamo de hipervisão por abranger todo o atendimento clínico), apareceu uma sugestão de um filme. e nesse filme o enredo fala de uma pessoa que a troco de expor a verdade sacrifica as pessoas à sua demonstração. e o tema tornou-se quais os limites de intervenção técnica, qual a ética do da intervenção. Obviamente essa questão toca a todos os profissionais de saúde. mas, particularmente, dentro de um consultório entre duas pessoas, ou um grupo e o condutor do grupo,  Há dias, durante uma consulta, após uma pergunta minha (Há outros momentos de sua vida em que você aja se sentido ou agido dessa mesma forma?) responde a paciente, após um tempo; "Sim, tem. mas não quero falar disso". esse é o ponto. depois dessa resposta há que se formar a barra para que ela "enfrentasse a sua verdade" ou devemos respeitar os tempos de cada pessoa? Respeitar os tempos, em psicodrama é estarmos atentos para o aquecimento contínuo, sem ultrapassar o ritmo do aquecimento. Aquecimento, em Psicodrama, tal e qual o aquecimento físico, é a progressiva preparação para a dramatização. É não saltar etapas, dar ao protagonista o tempo de aproximação para sua cena. Por exemplo, no caso que relatei, propus a cena da situação atual (um escritório). à medida que ia se apropriando dos sentimentos atuais, reconhecendo-os, E, então, quando foi delineando o que poderia fazer atualmente, pedi-lhe, sem que fizesse a cena antiga, que transportasse para aquela cena, o que havia percebido da atual. Até agora não sei qual foi a cena original. 

terça-feira, 17 de junho de 2025

aguentar firme

 Li, outro dia, uma expressão de um dito filósofo: O sucesso ou o fracasso só depende de você.  E pensei como seria, em psicodrama, se, porventura, o protagonista ou o grupo trouxesse essa questão. E imaginei a cena como o protagonista trazendo uma situação em que houvesse a questão de ter havido sucesso ou fracasso. Talvez, na minha imaginação cênica, pudesse trazer todos os possíveis fatores que contribuíram para aquele final. E, com isso, pudesse trazer a importância do contexto. Imaginemos (a imaginação é a louca da casa) que uma pessoa recebe um diagnóstico de doença terminal ou degenerativa. E, dando ouvidos à questão inicial, tomasse a evolução esperada da doença como culpa pessoal, como fracasso em "não ter lutado o suficiente", em "não ter se amado o necessário", "em não ter sido forte". Há um estereótipo em todos dos filmes de ação em que uma pessoa é ferida gravemente (tiro no abdome, p.ex.) e outra personagem lhe diz: "aguente firme e trarei ajuda". Ou seja, se, ao voltarem, ele estiver morto foi porque "não aguentou firme". Não sei se continuo a pensar sobre isso ou deixo o espaço vazio para reflexão. Escolho a pausa.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Ficção Científica, Ser Humano e Psicodrama

 A Ficção Científica sempre foi um dos interesses centrais da minha vida. Robert Heinlein, Ray Bradbury, Arthur Clarke, Isaac Asimov, Phillip Dick e tantos outros. Todos, sem exceção, são científicos porque usam conceitos científicos, mas nunca foram ficção. Sempre foram um exercício imaginativo de como as coisas poderão ou poderiam ser no campo científico. São um exercício da imaginação para explorar o ser humano e as consequências do que escolhe fazer ou escolhe permitir fazer. Por isso, em geral, os finais dos textos de Sci-Fi são melancólicos, quando não aterrorizantes. O acaso, as mutações, nos trouxeram a diversidade. E a seleção natural fez seu trabalho. Acaso e Diversidade geraram o ser humano. E com ele apareceu a possibilidade de imaginar o futuro, antecipá-lo. Talvez, esse fato, mais o polegar opositor, tenham sido, mental e fisicamente, que nos permitiram sair de um animal fraco, de desenvolvimento lento, poucas ferramentas naturais de defesa,, à condição nossa. Mas, há um preço para todo avanço (e a Sci-Fi sempre lembra). Apareceu a ansiedade. Imaginar, antecipar não só para otimizar a caça, a sobrevivência, mas, também, para imaginar a fome, a morte, a dor, a separação. Fiat Lux. nasceu o par indissolúvel: Imaginação - Ansiedade. No psicodrama (em toda ação socionômica) o tempo é sempre o presente.  Aqui e Agora. Hic et Nunc. Pelo aquecimento cuidadoso e profundo é possível tornar o passado em um Como Se real no presente. Mas, também é possível trazer o futuro imaginado e sua parceira a angústia, para o Como Se no presente. Porque é no presente que agimos. É nessa fração inconcebível de tempo, o Presente, que tudo acontece. Toda mudança se faz no presente da ação. O palco psicodramático torna-se o contrário da Viagem no tempo de H.G. Wells. Nós não nos deslocamos para trás ou para frente. O psicodrama faz com que a vivência da memória e a vivência da imaginação sejam realmente vividas Como Se presentes fossem, no aqui e agora.

sábado, 17 de maio de 2025

Refletindo

 Há algum tempo vem pairando a ideia de escrever sobre a questão "reborn". Como gosto de fazer, comecei pela palavra em língua inglesa. "Reborn" significa "renascido/a em Português. Portanto, tratar-se-ia de dar um novo nascimento àquilo que houve, mas, já não há. Seria a eterna busca pelo par da relação (prole, cônjuge, ídolo) que haja morrido, de um contato, mensagem, afeto qualquer. Repor a falta, o vazio. Usado atualmente refere-se a um objeto criado especificamente. Uma colega psicodramatista, @Ivna, fez uma postagem recente que me levou a essa escrita. E como o Psicodrama (todas as ações socionômicas) tratam de relações, Psicodrama é relacional, é um tópico interessante. Relação desde sua origem latina significa narração, conexão, associação. Em um sentido material, conectar dois polos de uma bateria é colocá-los em relação. Dizer que um vírus X está relacionado com menor expectativa de vida é associar o vírus á tempo de vida. Não há nenhuma pressuposição de escolha entre os membros da equação. Não há desejo nem escolha entre o vírus e a vida, entre os polos de uma bateria. Há apenas uma ligação. Mas quando dizemos que alguém está se relacionando com alguém, o que estamos dizendo (ou a dizer, como dizem meus amigos portugueses)? Que há uma ligação bilateral, de ida e volta, entre os dois participantes dessa relação. Relação, em termos afetivos pressupõe o querer do outro, que o outro também escolheu estar na relação. Em termos psicodramáticos, uma relação em que os membros estão "juntos na mesma estrada' (música de Renato Teixeira), vendo-se e sentindo-se com a mesma interesse, o mesmo sinal de agrado ou de desagrado. Há um provérbio que diz "quando um não quer, dois não brigam". Psicodramaticamente, diríamos "quando um não quer, dois não ficam". Portanto,  um dos aspectos de uma relação com uma pessoa real é que existe essa pessoa. Existe com seus quereres e não quereres, com as escolhas pessoais do outro. Existe o outro. Existem as escolhas do outro. Assim, uma relação sadia envolve uma escolha télica, bilateral. Se fossem tomados, dentro de um processo psicodramático, como um objeto intermediário que levasse a uma posterior construção de outros vínculos, estaria no caminho terapêutico. Entretanto, a falsa relação com o reborn ela é consigo, com suas fantasias, seu único e exclusivo querer, e nela fechada.  Não há uma relação entre dois seres, não há o outro. A relação que há é de si para si. Uma relação em corredor em que nas duas pontas está a mesma pessoa. 

Obrigado, @Ivna.

domingo, 11 de maio de 2025

Dia do papel de Mãe

   Hoje é Dia das Mães. Ou o Dia do Papel de Mãe. Pensando em termos psicodramáticos (socionômicos) o papel de mãe surge da relação com pessoas em que há os atributos de continência, aceitação, limite, disciplina, incondicionalidade do afeto e, sobretudo, magia de fazer da imaginação uma  ferramenta de cura e resolução de problemas. É uma relação assimétrica entre os papéis - o de filho/a e o de mãe. Acolhimento de uma lado do papel e necessidade no outro lado dessa relação. Mas nesse papel materno cabem atores mães biológicas, mulheres, homens, amantes, amigo, profissionais de qualquer área. A função de acolhimento versus necessidade é a fundante no papel de psicoterapeuta, por exemplo. Pais podem e devem ser mães. Hoje é dia do papel materno, dia da mãe que cada um pode ser na sua relação com o outro.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...