sábado, 18 de março de 2023

MPB, Moreno, Corpo

 Há uma belíssima música/letra do grande cantor e compositor e esquecido Taiguara chamada Hoje que diz em sua letra: 

"Hoje

Trago em meu corpo as marcas do meu tempo

Meu desespero, a vida num momento

A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo"

Há um ensinamento de Moreno, contado por Zerka Moreno, que diz:

"O Corpo lembra quando a mente esquece"

Tanto o poeta quanto o psicoterapeuta perceberam a mesma coisa: Em nosso corpo as vivências se inscrevem. "Quero ficar no seu corpo feito tatuagem" (Tatuagem, Chico Buarque). Augusto Boal dizia ser o corpo o nosso palco. Por isso, baseado nisso, as dramatizações podem alcançar um nível profundidade de uma vivência mais amplo que a recordação verbal dela. No Onirodrama, Moreno sugeria que a pessoa não contasse o sonho, mas assumisse a mesma postura ao dormir, iniciasse a contar e passasse a atuar o sonho e não contá-lo. O corpo vai agindo, lembrando sem lembrar. Nas dramatizações o mesmo acontece. Uma história contada tende a ser repetida de forma cristalizada. Ao se transpor para o palco, o corpo estando presente traz consigo a memória inscrita dos movimentos e, ao serem atuados, trazem de volta algo da vivência original, o que permite a Moreno dizer que "as segunda vez libera a primeira". 

quinta-feira, 9 de março de 2023

utopias

 Pensando aqui sobre a palavra Utopia. Neologismo criado por Thomas More. Significando U (nenhum, não existente) Topos (lugar). Seu livro fala de um país justo, igualitário, de modo racional de vida. Mas, com o tempo, o adjetivo Utópico passou a ter a conotação de ilusório, irreal, fora da realidade. Deixou de ser uma esperança para ser uma crítica pejorativa. O ideal deveria existir como fonte alimentadora de projetos e não como fonte de desânimo. 

Vejam essas citações de Moreno:

"No todo, por conseguinte, o experimento sociométrico é ainda projeto do futuro."

 "O experimento principal foi visualizado como projeto mundial – esquema bem próximo da utopia, em termos de conceito –, ainda que deva ser chamado à nossa atenção, repetidamente, a fim de que não seja excluído de nossa agenda de tarefas diárias, mais práticas, da sociometria."

"O experimento sociométrico acabará por tornar-se total, não apenas em expansão e extensão, mas também em intensidade, marcando, assim, o início da sociometria política."

Ele coloca, claramente, que seu projeto é utópico, mas (Importante!), ele não pode ser separado das ações cotidianas, "das tarefas diárias". Há um ditado chinês que diz: "Antes de salvar o mundo dê três voltas dentro de casa". Essas são as nossas primeiras tarefas diárias: Nossas relações. A Utopia Moreniana se realiza na construção de relações interpessoais télicas. Do Interpessoal para o Grupal e daí para o Social. Pois, "Que adianta se ganhar o Mundo e perder a alma?". (Marcos,8:36). A alma Moreniana é relacional. Eu sou com Você. Ubuntu. Nós nos construímos e nos constituímos. A Utopia Moreniana, talvez ao contrário da Utopia de More (lugar que não existe num tempo ignorado), seguindo os passos Psicodramáticos, ela se realiza nas "tarefas diárias, práticas", no Aqui e Agora.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Gramática Psicodramática II

  Há uma música do repertório de Zé Ramalho chamada Sinônimos. Nela o último verso diz: O Sinônimo de Amor é Amar. O sinônimo de um substantivo ser um verbo poder ser um verbo é muito curioso. Mas, faz sentido. O verbo traduz uma ação, um processo ou um estado. O substantivo Amor individualiza o nome do objeto. O verbo Amar o coloca em relação a outro alguém ou alguma coisa.  O verbo Amar exige complemento direto ou indireto: ama-se alguém ou a alguém. O próprio livro de Mario de Andrade Amar, verbo intransitivo, paradoxalmente reforça isso pela situação de impossibilidade de haver uma relação entre os dois personagens. O Psicodrama dramatiza verbos de ação ou processo. Não seria possível dramatizar o substantivo Amor, substantivo. Mas é possível dramatizar o amar, verbo, de alguém por outro alguém. No caso do livro de Mário de Andrade seria possível dramatizar a intransitividade daquela relação, sua impossibilidade, mas seria do verbo Amar. E o que fica disso tudo? Ao propor uma dramatização pense sempre num verbo de processo ou ação para traduzir a intenção da cena. Os verbos de ação ou processo colocam, necessariamente, outro personagem em cena e em um contexto. Aparece o drama, o conflito, o palco surge.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

gramática psicodramática I

Escutando um álbum de Zé Ramalho parei em uma que diz: O "sinônimo de amor é amar". À parte a poesia desse verso, ele expressa uma verdade psicodramática. Explico: é tentador no palco dramático procurar fazer dramatizações de qualquer expressão do protagonista. Mas, por exemplo, se essa palavra, amor, aparecesse e fosse solicitado ao protagonista para dramatizar o amor, seria impossível. Por que? Amor é um sentimento. Não se pode dramatizar um sentimento. Pode-se representá-lo, simbolizá-lo, denotá-lo, com uma imagem. mas dramatizá-lo, não. Explico outra vez: Drama em grego significa ação, dramatização é a ação de dramatizar. Sentimento não é ação. Só é possível dramatizar-se verbos que relacionam sujeito e objeto em forme de ação. Chorar não é possível dramatizar. Chorar a perda de um parente compõe uma cena possível. Voar não se pode dramatizar. Voar para o palácio do Rei pode ser dramatizado. Há que se transformar adjetivos e substantivos, abstratos ou concretos, em verbos de ação. Amor: imagem. amar a alguém num determinado contexto: dramatização, cena. Essa diferença apontada por Zé Ramalho é uma lição psicodramática.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Curiar e imaginar

 Lendo um texto, publicado na Revista Brasileira de Psicodrama, escrito por Michele Vasconcelos, Karen Venâncio e Maria Cristina de Carvalho, veio-me a vontade de fazer uma multiplicação dramática do texto. Na Multiplicação Dramática (olá, Pedro!), após uma cena, as pessoas deixando-se levar pela Consonância daquela cena (repercussão em mim) apresentam uma cena (Ressonância). Não é uma cena consequência, não é uma escolha lógica ou racional, não é uma reflexão. É uma Ressonância, uma ação gerada a partir de uma Consonância com a cena-estímulo. A cena ressonante atuada por uma pessoa pode gerar e gera novas consonâncias e. portanto, novas cenas ressonantes. Viver é assim. Não é uma sequencia linear, causal. O ato de viver é preenchido por afetos consonantes e atos ressonantes. Por, isso, Moreno dizia sermos nós seres em relação. O outro, de qualquer forma, consoa em mim. E eu, de qualquer maneira, enceno uma ressonância. Consonância e Ressonância minhas do texto: Minhas pernas começam a sentirem-se inquietas, uma vontade de levantar. Levanto, abro portas, ligo para alguém, pego livro, Minha cena ressonante congela com os braços estendidos, numa posição incômoda. O solilóquio (verbalização do conteúdo que me acontece) é: "Estou muito incomodado, mas estou muito curioso". E, curiosidade está em falta no mercado. E a Imaginação, tema do texto da revista, a louca da casa, está em falta no mercado. Curiar (verbo usado na minha infância para significar ter curiosidade), Imaginar, são coisas arriscosas (como diria Xangai, mestre-cantador). Curiar e Imaginar são ações de expansão no mundo, ações prazerosas e arriscosas. É sair do conhecido, ainda que ruim, mas conhecido. Quando Pompeu dizia a seus soldados romanos "Navigar  necesse est, Viver non est necesse" (navegar é preciso, viver não é preciso) o acento estava em ser a missão maior do que os soldados.. Mas, a palavra Preciso, ser necessário, é homófona de Preciso, exatidão. Então, em navegar há rotas pré-estabelecidas que orientam o rumo, há as estrelas, há os mapas. Em viver, esta exatidão ou pretensa exatidão não existe. Cada ato, ainda que similar a outro, é um ato novo, é uma nova resposta consonante como ato anterior e com o contexto de então. Moreno chamava de Conserva Cultural ao mais do mesmo. ao repetir as rotas já conhecidas. Curiar, imaginar, poetar, encenar, no consultório, na sala de aula, em qualquer lugar ou espaço, existente ou por existir,  no viver, enfim. Obrigado, Michele, Karen e Cris.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Alegria? Pode?

 "Aqui jaz aquele que trouxe alegria à psiquiatria". Epitáfio de J.L.Moreno

"Eu nunca vi um fanático ter senso de humor, nem uma pessoa com senso de humor ser fanático" Amós Oz

"Muito riso, pouco siso" provérbio popular

Há alguns dias, conversando em uma live com amigos (Nori Cepeda, Marilene Queiroz, Gueira Vilhena) apareceu a palavra alegria. E veio-me à mente essa expressão popular que relaciona o riso à pouca profundidade de pensamento. Logo a seguir assisti a uma conversa do Dalai Lama com o Cardeal Tutu  em que ambos falam de que a alegria é a alegria da vida significativa, da compaixão. E ambos com vidas de lutas e resistências e sofrimentos atrozes. E ambos riem. A frase do escritor israelense Amós Oz encaixa-se como uma luva. Pode-se ser profundo sem ser fanático. E o fanático não ri porque não considera o outro, só a si e seu pensamento. Diz o cardeal Tutu "uma pessoa é uma pessoa por meio de outra pessoa". Esse é o significado de Ubuntu para o sul-africano. Frase que poderia ser um título de qualquer texto psicodramático. E Moreno, ao falar de alegria não fala da alegria tosca, mas da alegria da compaixão. À Psiquiatria faltava na época (na época?) compaixão, o sentir junto, a dor e a alegria. Isso é compaixão. Compaixão não é ter dó, ter pena. É poder sentir com, sentir junto, alegria ou tristeza. Derrota ou vitória. Perda ou ganho. E o fanático exclui, isola, sobrepõe sua verdade à experiência do outro. Moreno, judeu, Amós, israelense, Tutu, negro do apartheid, Dalai lama exilado de uma terra ocupada. Experiências de vida sofridas e de lutas constantes. Mas todos expressam a alegria da compaixão. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Reflexões

 Como gosto muito de literatura policial, detetives, estava lendo outro dia e me deparei com uma frase em um livro despretensioso, de Chirovici; "Acredito que as coisas que não fizemos nos definem tanto quanto as que fizemos. Aí, para variar, minha cabeça de videoclipe, associou a uma frase de Fernando Pessoa, em seu heterônimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego: "A renúncia é a libertação. Não querer é poder". Como se não fora bastante, lembrei da chamada Confissão de Maat, no julgamento dos  mortos no Antigo Egito que são 42 negativas de ações, afirmações sobre atos que não foram praticados, P. Ex " Eu não pequei. Eu não roubei com violência. Eu não furtei. Eu não assassinei homem ou mulher". Chico e Ruy Guerra na versão de Impossible Dream, dizem "Negar quando é fácil ceder",. Lembrei da desobediência civil de Thoreau, da recusa ao ato violento da Ahimsa Hindu. Ou seja, essa reflexão me pôs na direção da minha vida. Não posso me autodesculpar ou desculpar-me perante os outros por ter sida obrigado a fazer algo. Sempre há a possibilidade da recusa, do não libertador, do não fazer. Claro que todos essas negações têm preço. E alto. Há que se aceitar o preço a ser pago, aceitar a renúncia para haver libertação, 

"Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte". "Terra dos homens" Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Inícios e fins

  O ano do calendário está se encerrando. Chegará, enfim, amanhã, o dia número 365. E depois o Dia 1 estará aí. O calendário diz que as coisas terminam e recomeçam. Todo ano há um fim de ano  e há um primeiro dia do novo ano. Mas, em nós, parece que vivemos como se a estrada da vida fosse uma linha reta de mão única. Parece-nos que os começos são novidades e os fins são definitivos. Talvez por isso a culpa esteja presente sempre em nós, como se o passado fosse sempre passado, irremediavelmente passado. E o futuro nos chega como sempre oportunidades únicas, irrepetíveis, o tal do cavalo selado que só passa uma vez. "Perdeu, playboy!". E se, realmente, olharmos para as coisas como se houvesse, sempre, a possibilidade, de fazer de forma diferente aquilo que se fez e não deu certo? E se pudéssemos experimentar novos erros, em lugar de imobilizarmo-nos na culpa penitencial? Na filosofia Moreniana que embasa o Psicodrama está sempre o presente, palco do passado e da expectativa do futuro. Mas sempre o presente. Onde, ajudados pela louca da casa, a imaginação, podemos experimentar a re-visão do passado e viver o futuro. E, por fim, sair da imobilidade da culpa e da dor (do passado) e da imobilidade do temor (do futuro). Psicodrama é mais do que exercício de técnicas psicodramáticas. Psicodrama é o exercício contínuo da flexibilidade como instrumento do viver. Que possamos cometer erros novos. Porque repeti-los não é inteligente, e não tê-los é estarmos imóveis e imobilizados na vida.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Poetas

 Há uma grande música de Monarco e Ratinho, portelenses de raiz, chamada Coração em Desalinho: "Numa estrada dessa vida te encontrei". Há outra, de Renato Teixeira, gravada por Xangai, chamada "Pequenina": "São tão claros os presságios e os encontros dessa vida quando as partes combinadas surgem numa mesma estrada". O poeta florentino, Dante, inicia o Inferno, em sua Divina Comédia, dizendo: "Em meio da estrada dessa vida". Três poetas, mesma metáfora. A vida como estrada que tem início e tem fim. Dante chama a atenção do meio da estrada, do processo de amadurecimento, que não é no início nem no fim. Em meio à vida. Monarco e Ratinho dizem que a estrada-vida é o local de encontros. Renato Teixeira, enfim, diz "quando as partes combinadas surgem numa mesma estrada", quando pessoas por combinação, por acordo, aparecem, surgem, encontram-se na vida-estrada. Esses poetas psicodramáticos (ou o Psicodrama será a visão poética aplicada à saúde relacional?) definem o nosso Encontro Moreniano; Acontece no processo da vida, quando as partes da relação combinam, acordam em estar numa mesma estrada. E aí, prosseguindo a visão poético-psicodramática, acrescentamos um outro conceito, muitas e muitas vezes de difícil compreensão. Tele. Tele é quando as partes combinam, seja em seguir juntos numa mesma estrada, ou seguirem separados, em sentidos opostos, mas na mesma estrada. Ou há relação télica quando as partes estão combinadas, em estarem juntas ou estarem separadas. A mesma estrada é a estrada da com-preensão. Ambos com-preendem e con-cordam. A relação é não-tèlica quando "as partes" não estão combinadas, quando nem estão na mesma estrada. Estrada, sentido do caminho, acordo, desacordo, compreensão. A relação não-Télica resulta no "coração em desalinho". Obrigado aos poetas de sempre e de agora.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Psicodrama e Natal

  A origem do Natal está nas comemorações do Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Solstícios são os pontos da trajetória terrestre em que os hemisférios estão mais próximos (verão) ou mais distantes (inverno) do Sol. Assim, para as tradições místicas do Hemisfério Norte, esse período era quando, em seu hemisfério, Dezembro, a inclinação da Terra em relação ao Sol, voltava a se aproximar, quando o Inverno anunciava o seu fim, quando as esperanças de um novo plantio, de um degelo, surgiam, respondendo à expectativa da espera. Nas tradições místicas isso era o símbolo da renovação, do anúncio de um novo tempo. Avatares e deuses eram comemorados nesse dia. Krishina, Mitra, por exemplo. Por isto a tradição cristã aproveitou-se desse simbolismo. E isso que tem a ver com o nosso Psicodrama/Teatro Espontâneo? Nada. E tudo. Moreno, o criador do Método Socionômico (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) era um judeu imbuído das tradições judaicas, principalmente da filosofia hassídica. E esse Hassidismo tinha por base a renovação, a fé na transformação, a esperança de um recomeço. Socionomia, Sociodrama, Psicodrama Morenianos são sempre fundados nessa atitude de mudança, transformação, um novo olhar, uma nova chance, um outro começo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Walt Disney e J.L.Moreno

 Assistindo a um documentário sobre Walt Disney e seu projeto de Disneyland e Disneyworld, um dos participantes cita uma frase que o Walt sempre repetia e cobrava dos roteiristas e todos os Imagineers. Ele usava esse neologismo, junção de Imagine e engineer, e dizia: "A história tem que guiar a experiência". O roteiro precisava guiar a experiência do usuário dos parques. Assistindo, minha mente levou-me à Moreno. Ele dizia que, diferentemente do Teatro formal, no Psicodrama o protagonista/ator criava sua própria história a partir de sua própria experiência de vida. Para Disney, a História guia a experiência do usuário. Para Moreno o protagonista usa sua experiência existencial para criar sua história.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Onirodrama, Mia Couto

 

Nenhum sonho se pode contar. Seria preciso uma língua sonhada para que o devaneio fosse transmissível. Não há essa ponte. Um sonho só pode ser contado num outro sonho. 

O outro pé da sereia- Mia Couto 

Esse livro de Mia Couto ainda não li, mas vi essa citação. E, por si só, me fez viajar. Mia chama a atenção para uma particularidade muito conhecida dos sonhos. Contá-los é bastante complicado. pela condensação das imagens, pelo ritmo, pelo anacronismo, pela superposição de cenas e personagens. Enfim, é uma experiência cotidiana que contar um sonho, transpor a linguagem onírica para a fala organizada é difícil. O Psicodrama tem uma forma de lidar que denominamos de Onirodrama. A característica principal, à semelhança do que diz Mia Couto, é dramatizar o sonho sonhado e transformá-lo em sonho que está sendo sonhado. Em lugar de contar o sonho o Diretor/Condutor pede que o protagonista construa seu local de dormida, com detalhes bem detalhados, como forma de aquecimento específico, assuma a posição habitual que assume ao deitar e inicie a atuar o sonho. As cenas vão sendo desdobradas. Cada elemento que aparece em cena pode ser explorado em outras cenas. O Onirodrama é a dramatização do sonho. É imperativo que o protagonista não inicie a narrar o sonho. Por que? Porque ao narrar nós impomos uma sequencia e uma lógica narrativa.É importante, é vital, para o Onirodrama que haja o frescor da cena atuada ex-novo, com o frescor da cena nova. Mia Couto tem razão.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Poetas, Psicodrama, Perdas

 Um comentário de uma amiga, Luiza Barros, numa postagem sobre as perdas recentes de ídolos musicais de toda uma geração, ela disse:"a tristeza será companheira de quem sobrevive". essa frase não me deixou dormir sem refletir muito. é verdade, o preço de estar vivo é ser testemunha de perdas. Há um conto antigo de Jorge Luis Borges em que ele fala do encontro com grandes figuras do passado que tinha ficado eternas. E essas figuras relatavam o quão duro é permanecer quando os nossos outros passam. Li, em algum lugar, que há culturas que consideram a morte apenas quando não há mais memória de quem foi, quando não há lembrança mais. Fernando Pessoa diz: "Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada". Ver, rever, lembrar, ter lembranças, recordar, para os que ficam é a forma e maneira de manter vivos os que que já não são. Ou estão. No palco do Psicodrama é possível lidar com as perdas, em tempo real, na realidade suplementar da verdade dramática, e estabelecer diálogos e ações impossíveis na realidade real. Os poetas falam dos que foram. O Psicodrama fala com quem está.

"Não tenho preferências para quando não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é" A. Caeiro/F.Pessoa

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Só, sozinho

  Assistindo ao filme clássico Fogo contra fogo, com os grandes Al Pacino e  Robert De Niro, há uma fala da personagem de De Niro: "I'm alone, but I'm not a lonely man". "Sou sozinho, mas não sou um solitário". E isso me pôs a pensar. Estar só, sentir-se só. Sozinho, solitário. Estados de espírito não iguais, muito diferentes. Estar só é algo espacial, geográfico. É não ter pessoas em volta. Apenas isto. Sentir-se só é outra coisa. Nada tem a ver com quantidade de pessoas. Sentir-se só é consequência  de uma pobreza relacional. Solidão é não ter vínculos com nada. Uma pessoa isolada geograficamente vive e sobrevive das certezas de seus laços afetivos, das lembranças e desejos. Sentir-se só, o estar em solidão, é reconhecer a inexistência, é sentir o peso da ausência de vínculos que o ancore com o mundo. seguindo Zeca Baleiro, o canastrão, ao contrário do ator verdadeiro, não cria vínculos entre sua personagem e a platéia. Por isso, ao cair do pano, o ator tem os aplausos e o sentimento vindo da plateia. Está só, mas não se sente só. O canastrão está sozinho. E solitário.

"Eu 'tava só, sozinho

Mais solitário que um paulistano

Que um canastrão na hora que cai o pano" 

Zeca Baleiro

"É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,

É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte"

 Fernando Pessoa

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Papéis, subjetivo, objetivo

 Há palavras em Psicodrama que uso frequentemente, mas acho que poderiam ser mais frequentemente usadas. E compreendidas. Um dos conceitos fundamentais em nosso método  e ponto de vista existencial, o Psicodrama Moreniano, é o conceito de Papel. Percebo que muitas vezes quem utiliza talvez não alcance a profundidade do conceito. Em inglês, a palavra é Role. Fica mais fácil entender sua origem. Em começo, no Teatro, tudo da personagem, texto, gestual, expressão verbal, adereços, estavam escritas e guardadas em Rolos de papel. Daí, do francês obsoleto roule veio o Role inglês. Então, a palavra e conceito advém do teatro. Texto a ser atuado pela personagem, como todas as indicações para seu melhor desempenho. Moreno, apaixonado por teatro, puxa essa palavra e amplifica e aprofunda o conceito que essa palavra representa. Do ponto de vista Moreniano todas as relações se fazem por meio de papéis. Não ná um contato real e atual entre os dois Eu de uma relação. Ele, Moreno, diz serem os papéis a parte tangível do eu. Tangível é o que toca ou pode ser tocado. Então, se as relações se estabelecem entre papéis, e se o papel é a totalidade de texto, adereços, entonação, afetos, da personagem, quando nos relacionamos os papéis podem e devem flutuar. A personagem é a mesma, porém desempenha papéis diferente. A personagem Pai pode estar no papel de protetor, cobrador, autoridade, suporte, companheiro, confidente e tantos  outros. Mesmo nos papéis profissionais em que a flexibilidade é menor (e isto acontece porque a relação médico paciente, p.ex., se faz nessa demanda, especificamente), é possível que a dimensão subjetiva do papel possa burilar e revestir o papel profissional de outras características. Daí essa ideia moreniana de perceber os papéis como tendo uma dimensão objetiva, socialmente prescrita, e uma dimensão subjetiva, que traz em si, inscrita em seu corpo, toda a sua história pessoal. Isso é que faz com os desempenhos dos mesmos papéis sejam tão diferentes dependendo da personagem que o exerce.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...