segunda-feira, 5 de março de 2018

destino e escolha

Escutando ontem uma antiga música de Raul Seixas, Messias Indeciso. em meio à letra há esses versos: "O destino é a gente que faz na mente de quem for capaz". E pensei sobre. Pensei que o que chamamos de destino é a inexorabilidade de um projeto de vida, sua imutabilidade. É algo como aquela piada antiga de alguém caminhando em uma rua e vê uma casca de banana e diz: ai, jesus, lá vou eu cair outra vez! (enquanto continua caminhando em direção à casca de banana). Moreno disse certa vez que a verdadeira segunda vez liberta a primeira. E o que seria uma verdadeira segunda vez? Seria a dramatização com espontaneidade plena de um plano de vida congelado, de um projeto de vida inexorável, de uma conserva qualquer chamada de destino, sina, sou assim mesmo, minha vida é assim. A possibilidade de que uma dramatização em plena Espontaneidade permita, possibilite, abra a chance de abrir a conservada hipótese de destino para um novo olhar, um novo pensar. Sair do destino e caminhar para a escolha. E não para a contínua casca de banana.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O sapato de cristal

Por que o sapato de cristal da Cinderela não desaparece à meia  noite? Tudo o mais volta ao que era. O outro sapato, a carruagem, o vestido, os cavalos. Tudo. Mas o sapatinho de cristal unicamente permanece. Algo do reino da fantasia invade o reino do real. Não somente invade, mas é o que permite o encontro final. Ir ao mundo da fantasia, deixar-se conduzir pela imaginação. E, ao voltar, trazer consigo o fator transformador, o sapatinho de cristal do conto de fadas. Se isto não é uma bela alegoria do potencial transformador do Psicodrama e Teatro Espontâneo...

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Corpo e mente

Li em algum lugar da obra de Moreno: "O corpo lembra o que a mente esquece". A memória da ação persiste. A coreografia da dança executada continua impressa no corpo. Quando, por meio do aquecimento bem realizado, conseguimos como Diretores de Psicodrama/Teatro Espontâneo, que a ação seja realmente espontânea isto recupera a memória inscrita no corpo. É como se o aquecimento destravasse o controle racional permitindo que as memórias inscritas, a nossa coreografia existencial, pudesse enfim voltar ao palco.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Ação, atividade

Lendo um livro do grande biólogo contemporâneo Richard Lewontin, A Tripla Hélice. Nesse livro há esse trecho: "O ambiente não é apenas uma propriedade da região a que pertence. Ambiente é o espaço definido pelas atividades dos organismos." Essa citação refere-se a ambiente na perspectiva biológica. Porém, podemos usá-la para pensar em termos psicodramáticos, socionômicos. Como o nosso método socionômico é lastreado na ação acho que cabe a extensão da reflexão. Ação, atividade não são mera movimentação física. Andar à esmo, mover-se simplesmente, não é ação. Ação, atividade são movimentos com finalidade. É movimento com intenção. Não é mera cinesia, é praxia. Então, a ação, a atividade pode ir de um movimento de aproximação de caça, de cortejo  a um olhar  de interesse. Falar, nesse contexto, é uma ação. O silêncio pode ser ação. Daí porque o Psicodrama/Teatro Espontâneo não prescinde da fala. O discurso e o silêncio são ações da linguagem verbal. Como a mímica e a pantomima são ações da linguagem corporal. Então, o nosso ambiente, o nosso palco, é construído pelas nossas ações, pela nossa atividade.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ver em Psicodrama

É bastante comum de se ouvir: "A escuta terapêutica". Quanto pensamos em Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama, essa expressão precisa ser repensada. O Psicodrama adveio do Teatro. Teatro em Grego significa "lugar de onde se vê". Portanto, Teatro é Cena vista pela Plateia. E o ver em Teatro inclui o escutar e amplia o escutar. Em Teatro, vendo da Plateia, tudo se vê, tudo se percebe. Amplificado pelo Palco. O palco amplifica, aumenta todo significado do gesto, da postura, da voz, da prosódia, das relações corporais. O Palco, em Teatro, é uma lente de aumento. Assim, ver Teatro é muito mais do que olhar uma imagem. É ver. Tanto em Português quanto em Inglês, o verbo Ver/To See tem um sentido de compreender, saber, perceber. Ver Teatro é ver, perceber, compreender. Ver em Psicodrama é ver, perceber, compreender. Talvez possamos introduzir outra diferença entre a escuta comum e o olhar psicodramático. Como em todas as outras formas psicoterápicas o escutar é do Psicoterapeuta. A ele cabe o Escutar. Em Psicodrama, o foco da visão, percepção, compreensão está na Plateia Grupal e no Protagonista, não somente no Diretor. Não há no Psicodrama a intenção de interpretar a Cena.  A intenção fundamental da Socionomia (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) é permitir ao Protagonista e ao Grupo alcançar a sua própria visão da Cena. 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Fantasia e Realidade

Lendo um artigo de Susan Sontag. Nele há uma citação do autor teatral Eugène Ionesco: "O Teatro é um instrumento que, pela distorção da realidade, agudiza o sentido do Real". Que maravilha de sinalização para o Teatro Espontâneo! Agudizar alguma situação é levá-la ao limite, torná-la extrema. E o nosso sentido do Real anda tão amortecido, tão sem graça, tão mais do mesmo, tão anestesiado. A distorção da realidade de que fala Ionesco, essa distorção é a imaginação, a fantasia. Eis uma situação, aparentemente, paradoxal: precisamos da fantasia, da imaginação, dessa distorção da realidade, para que possamos maximizar, intensificar o nosso sentido do Real. 

"Sem a loucura que é o homem 
Mais que a besta sadia, 
Cadáver adiado que procria?"
                          in  Mensagem, Fernando Pessoa


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

sociedade comercial x sociedade afetiva

Sempre é preciso ter-se cuidado como analogias. Mas elas podem nos fazer ver com mais facilidade situações carregadas de peso afetivo. Esse é um exemplo. Sociedade significa vínculos entre sócios. Sócio em Latim é Socius: companheiro, parceiro. E, voltando, Sociedade é uma relação vincular entre sócios, entre parceiros com uma mesma finalidade. Então, a sociedade afetiva, a relação afetiva, é uma parceria entre sócios afetivos, parceiros afetivos. O capital que financia e sustenta essa sociedade afetiva é o capital afetivo. Tal como numa sociedade comercial, não é só porque uma sociedade foi constituída formal ou informalmente que funcionará. Qualquer consultor empresarial dirá que existe um tempo de maturação de qualquer empresa, de alguns anos antes que comece a dar retorno. Nesse tempo entre o início da sociedade empresarial ( e da sociedade afetiva) e sua maturação os sócios têm que continuar investindo, empenhando-se em fazê-la funcionar. As sociedades empresariais por não serem românticas têm essa clareza mais facilmente. As sociedades afetivas ainda muito preenchidas de um romantismo fantasioso, imaginam que apenas porque querem estar juntos isto será o suficiente para fazer essa sociedade funcionar. E mesmo com empenho as sociedades podem não mais serem lucrativas, serem um bom negócio. E ao se romperem essas sociedades costumam dar mais problemas do que para se constituírem. Mesmo porque há mais para se repartir. E esse a mais para repartir, se for lucrativo aguçará a ambição. Se for prejuízo, dano, estimulará a rivalidade também. Penso que para nós que lidamos com gente em relação afetiva é necessário desconstruir uma visão romântica. Essa visão romântica de que dar certo, funcionar bem, é magia, é mágica, é certeza, é obrigação. Sem investir continuamente nenhuma sociedade se sustenta e evolui.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Dar e receber

Numa sessão psicoterápica sobre dar e receber. "Sou muito generoso". "Me sinto mal, dependente, quando minha mulher paga algo para mim". Qual a relação complementar entre o papel daquele que dá e o papel daquele que recebe? É uma complementação assimétrica. ou simétrica? Aí torna-se útil o conceito de TELE em Socionomia (Psicodrama, Sociodrama). Pensemos em cena.  Numa relação de complementação simétrica, na imagem correspondente os dois estariam se olhando horizontalmente, no mesmo nível. Solilóquio dos personagens: "obrigado", "valeu", o que recebe. "Acho que fui útil","que bom que pude ajudar!", aquele que deu. Numa relação assimétrica, posta em imagem, aquele que dá olha para baixo e aquele que recebe está ajoelhado olhando para cima. Solilóquio dos personagens nesta cena: "arrogante", "está me humilhando", diz o que recebe. "Por que não se sustenta só? "Fraco e dependente!" diz aquele que dá. Explorar esses meandros das relações interpessoais mediados pelos atos de dar e receber no Psicodrama torna-se mais visível pela força da imagem representada.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Equiíbrio estático e equilíbrio dinâmico

Em múltiplas conversas fico com a impressão de que existe uma certa dicotomia existencial entre pessoas que privilegiam, desejam, buscam, a segurança e estabilidade de um lado. E de outro lado, pessoas que privilegiam, desejam, buscam, a liberdade de ação. Dito de forma complementar: Há pessoas que temem terrivelmente a instabilidade de seu futuro. E há outras pessoas que temem terrivelmente a sensação de estagnação, de paradeiro, de horizonte sempre igual. Identificar, ao longo da vida, seu temor e seu desejo, torná-los claramente definidos, assumi-los como seus, ajuda a não dar murros em ponta de faca, ao se medir por parâmetros alheios. Tentar ser empreendedor tendo um perfil de estabilidade leva a angústia e dor de estômago, Tentar concurso público  com perfil de liberdade é criar uma angústia insolúvel de aprisionamento. É a mesma diferença que existe em Física entre equilíbrio estático e equilíbrio dinâmico.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Autonomia, independência

Há muito tempo escutei duas palavras que até então julgava ou sinônimas ou quase sinônimas. Autonomia e independência. Indo à etimologia das palavras. Autós, em grego, significa próprio; nomos, em grego, significa lei, norma. Assim, autônomo é aquele que faz as suas próprias escolhas, segue sua norma pessoal. Independente é aquele que não depende. Deixando o pensamento livre para brincar com os conceitos e palavras faço uma distinção. E esta distinção é muito importante em Psicodrama. Independência ou dependência tem a ver com os aspectos objetivos, segurança material, sustentação financeira. Nesse ponto de vista, depender ou independer se refere à capacidade de viver ou sobreviver por conta própria. Enquanto autonomia refere-se à capacidade de fazer escolhas, reconhecer as próprias normas, a sua própria lei. Em um ambiente psicodramático, seja ele clínico ou teatro espontâneo,é possível colocar no mesmo palco essas duas cenas. A capacidade objetiva e suas limitações para viver e sobreviver, de um lado. A viagem pessoal de descobrir suas escolhas, suas leis, do outro lado. O encontro das limitações à autonomia interna de escolha (perda da espontaneidade) com o reconhecimento das limitações à sobrevivência objetiva faz com que trabalhar-se a cena como um todo conduz, possa iluminar e propor experiências de adequação ou confronto produtivo.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Realidade Virtual Psicodramática

Estava assistindo a um programa sobre realidade virtual. E o que é realidade virtual? Ao pé da letra é vivenciar como se fosse real uma experiência qualquer. E isto feito por uma tecnologia digitalizada específica. Pensando, pensando sobre isso. E não precisa pensar tanto. Psicodrama é Realidade Virtual. Toda o instrumental existente no Psicodrama é baseado não em tecnologia digital, mas sim em tecnologia analógica. E a nossa tecnologia analógica é a imaginação. A imaginação é o nosso instrumento do como se. O aquecimento, warming-up, em Psicodrama é a forma de ligar esse instrumento. A imaginação necessita de um tempo de aquecimento para atingir sua plenitude tecnológica. Sem esse aquecimento inicial e mantido o instrumento permanece desligado. E a Realidade Virtual Psicodramática não acontece e não acontecerá. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Ambiente e cena

"Ambiente não é apenas a região geográfica a que pertence um organismo. É o espaço criado pelo organismo em suas atividades." Esse trecho é de um eminente biólogo, Richard Lewontin. "A espontaneidade entra no nascimento e criação de uma criança, na criação de obras de arte e tecnologia, na criação de novos ambientes sociais." Esse trecho é de Moreno, criador do Psicodrama. Esse atributo da Espontaneidade assinalado por Moreno, ressalta a própria ideia do Psicodrama, da Socionomia, serem instrumentos de intervenção não apenas no intrapsíquico do indivíduo, mas na mudança e criação de formas de relação interpessoais, ambientes sociais novos e adequados. Voltando àquele biólogo citado acima, Richard Lewontin,também diz: "Se queremos conhecer o ambiente devemos consultar ao próprio." Moreno concordaria totalmente com esta visão. Se ambiente é resultado de interação, só podemos nos aproximarmos do conhecimento das relações humanas consultando a própria relação. Daí o olhar fenomenológico psicodramático não ser preconcebido, ele consulta a cena. A cena é a reconstrução do ambiente relacional onde e quando o protagonista e o grupo podem consultar, assinalar e intervir sem hipóteses subjacentes.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Moreno, modernidade, psicoterapia...

Existe na indústria de consumo algo chamado de obsolescência planejada. Esse quase palavrão quer dizer desatualização programada. Isto força, previsivelmente, busca pelo novidade, pelo novo. Isto se infiltra em toda a atividade humana. Iniciou-se pela indústria, mas vemos hoje essa busca frenética pelo novo em todos os setores de atividade humana. Até naqueles onde o peso da tradição era seu fundamento, como nas religiões. Essa planejada desatualização usa como mecanismo gerador a desqualificação da tradição, do clássico. Duas palavras hoje inimigas da modernidade suposta: tradição e clássico. O novo torna-se melhor por apenas ser novo. Trazendo para nossa área de atuação, o campo da psicoterapia, da socionomia, do psicodrama, do sociodrama, observamos a mesma desatualização planejada, a mesma desqualificação do clássico em função do apenas novo. Moreno, já há muitos anos, fazia a diferença entre novidade e criatividade. A novidade é apenas uma embalagem nova cujo conteúdo, muitas e muitas vezes, não conta. A novidade fruto dessa obsolescência planejada necessita de uma credulidade enorme, para possibilitar que a irrelevância e  falta de conteúdo não seja percebida. Moreno buscava a criatividade, a resposta nova e adequada para uma situação antiga ou uma resposta adequada para uma situação nova. Mas ele sabia que não se reinventa a roda toda as horas, todos os dias. A novidade em sua esmagadora maioria é mais do mesmo, não é uma resposta original, criativa e adequada. A novidade tende a não ser original. É uma resposta à enorme influência que a ideia de mercado tem sobre todos. 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Ligações e correntes

Na cidade de Roma há uma igreja chamada Igreja de S. Pedro Acorrentado em que há uma imagem desse santo preso em correntes. Em italiano é San Pietro in Vincoli. acorrentado em italiano é in vincoli. A palavra vínculo em português vem dessa mesma origem latina. Vinculo significa aquilo que ata, liga, une, prende. Vincular é, assim, atar, prender, ligar, unir. Em Psicodrama, na Teoria Moreniana da Socionomia, existe o conceito central de Papel. E que todas as relações interpessoais se dão por meio de papéis, acontecem entre papéis. Alguém no papel de pai se relaciona com alguém no papel de filho. a mesma coisa com todos os papéis ao se complementarem numa relação. E aquilo que une, ata, liga, prende os dois papéis complementares é o vínculo. As duas faces do conceito estão presentes na palavra. Unir e atar. Ligar e prender. Vincular-se a algo ou alguém tem sempre envolvidos esses dois lados da moeda. cada vínculo restringe algum grau de liberdade da ação autônoma. O vínculo pressupõe a perda do prender, do atar e  o ganho da união, da ligação.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Hamlet

Relendo Hamlet encontro novamente o monólogo do to Be or not to Be. E pensando nesse monólogo e nos monólogos teatrais pensei na Teoria dos Papéis de Moreno. Nessa teoria ele explicita que os nossos papéis são a parte tangível do nosso Eu. Ou seja, nós entramos em contato uns com os outros com relações que se estabelecem entre papéis. E os papéis são formas de ação e reação que surgem nessa relação. Portanto, todo vínculo pressupõe o papel complementar. Tudo sempre acontece entre dois papéis, todas as relações vinculares acontecem entre papéis. Assim ao ouvirmos "alguém é dominador, imediatamente vem a questão: o papel de dominador necessita do papel de dominado. Dessa forma, o Psicodrama, O Sociodrama, o Teatro Espontâneo, enfim o modelo Socionômico, coloca na relação entre papéis, no reconhecimento dos papéis exercidos, criativamente ou de forma conservada, repetitiva, o eixo do trabalho terapêutico. Saindo de um papel bastante frequente, o de queixoso. Que repete infinitamente a queixa e não exercita a mudança. E Hamlet? O que ele tem a ver com tudo nisto? Nada. É que os monólogos teatrais, ator único em cena, "monologando", são uma forma de entendermos algo da teoria de Papéis Moreniana. Os monólogos teatrais são monólogos, apenas objetivamente. porque sempre há um papel complementar oculto em cena. Ele não está visível em cena, mas está presente na relação com o protagonista. Todo o conteúdo de qualquer bom monólogo teatral pressupõe o outro. Embora ausente fisicamente, embora não estando em cena, o vínculo com o papel complementar  está totalmente explícito na fala. Também isto acontece nas relações terapêuticas. Tornar explícito o contra papel, o papel complementar que está aparentemente ausente nos monólogos queixosos: objetivo psicodramático.

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E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...