sábado, 28 de dezembro de 2019

Icaro

Ícaro quis chegar ao Sol. Suas asas coladas com cera derreteram. Ele caiu. Irremediavelmente IMPOTÊNCIA tem seu antônimo na ONIPOTÊNCIA. Impotência é o estado em que se cai ao se pretender Onipotente e descobrir-se incapaz de sê-lo. Refiro-me à presunção e vaidade como os principais inimigos invisíveis e impalpáveis da Direção psicodramática. Ambas levando à indiferenciação no papel diretivo. Quando o diretor  pretende (e em inglês, o verbo to pretend significa fingir) ser o centro irradiante, ele se perde da sua condição de membro do grupo em papel diferenciado. Ele se isola do grupo. Ícaro.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

espontaneidade, criatividade

Há uma frase de Moreno, chamada por ele de mandamento, que diz: "Sê espontâneo!". Embora dele, contradiz-se. Usar o modo imperativo para referir-se à espontaneidade é uma contradição, um paradoxo, mesmo. É como se dizer: seja livre. A espontaneidade é a liberdade total de opções, o conjunto-universo de possibilidades. Como pode estar limitada por uma ordem, por um imperativo? Diz Millor Fernandes que quem dá pode tirar.  A liberdade, a espontaneidade não são autorizadas de fora para dentro, e sim, de dentro para fora.  A criatividade, sim, é quem faz as melhores escolhas, levando em questão o contexto, o momento. A espontaneidade é o Caos completo, a matéria-prima de onde a criatividade  (Cosmos) escolhe e organiza a melhor, a mais adequada solução.
E escrevo em letras minúsculas, espontaneidade e criatividade, para lembrar o conceito que não são entidades  para uso especial, em ocasiões especificas, para se retirar de um baú de utilidades. São parte essencial do viver. A espontaneidade e a criatividade são quem nos tira da condição de autômatos quase vivos.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Natal e Psicodrama

  A origem do Natal está nas comemorações do Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Solstícios são os pontos da trajetória terrestre em que os hemisférios estão mais próximos (verão) ou mais distantes (inverno) do Sol. Assim, para as tradições místicas do Hemisfério Norte, esse período era quando, em seu hemisfério, Dezembro, a inclinação da Terra em relação ao Sol, voltava a se aproximar, quando o Inverno anunciava o seu fim, quando as esperanças de um novo plantio, de um degelo, surgiam, respondendo à expectativa da espera. Nas tradições místicas isso era o símbolo da renovação, do anúncio de um novo tempo. Avatares e deuses eram comemorados nesse dia. Krishina, Mitra, por exemplo. Por isto a tradição cristã aproveitou-se desse simbolismo. E isso que tem a ver com o nosso Psicodrama/Teatro Espontâneo? Nada. E tudo. Moreno, o criador do Método Socionômico (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) era um judeu imbuído das tradições judaicas, principalmente da filosofia hassídica. E esse Hassidismo tinha por base a renovação, a fé na transformação, a esperança de um recomeço. Socionomia, Sociodrama, Psicodrama Morenianos são sempre fundados nessa atitude de mudança, transformação, um novo olhar, uma nova chance, um outro começo.

domingo, 22 de dezembro de 2019

ortodontia, fisioterapia, psicoterapia


Quando falamos ou ouvimos a palavra papel, em geral, é como se ouvíssemos ou falássemos algo como representação, falsidade ou não verdadeiro. Transpondo do contexto teatral para a vida. Quando Moreno se apropria da palavra papel (Role, em inglês) ele o usa num contexto particular, o da socionomia. O cerne do pensamento Moreniano é  que o ser humano é um ser relacional. Portanto, todo o pensamento socionômico, moreniano, está numa frase dele: "Não é que não haja o mundo intrapsíquico, mas me interessa o interpsíquico". E papel, então? No dizer moreniano o papel surge quando interage.   com outro papel. O papel sempre pressupõe o papel complementar. Ele não existe só. Para haver paternidade ou maternidade há que haver o papel de filho, real e concreto, imaginário ou não. Toda intervenção num papel não é uma intervenção isolada do mundo. Há que se ver esse papel interagindo em outros contextos ou com outros papéis complementares. Isto tudo para falar sobre algo que escutei ultimamente. "Já faço tratamento ortodôntico (ou fisioterápico) há anos e não funciona". Pergunto sempre: E você vai às revisões mensais (ou sessões ou exercícios em casa) regularmente, sem faltar? Sempre ouço essas respostas: "Às vezes não, mas já era para ter produzido algum efeito". Isto também ocorre em psicoterapia. Há uma espécie de fantasia onipotente colocada no profissional pelo cliente/paciente. Em termos socionômicos diremos que a relação paciente - profissional exige os dois papéis: o profissional e o cliente. Ambos se complementam mutuamente. Não é possível exercer o papel de psicoterapeuta sem que o outro assuma o papel de cliente ou paciente. Enfim, Psicoterapeuta e paciente complementam-se para desempenhar um ato. Algo diametralmente oposto ao ato cirúrgico complexo. o cirurgião desemprenha seu papel quase completamente independentemente de seu complementar o paciente na maca. Quase. Porque há que se contar com a reação orgânica no ato cirúrgico. O paciente - cliente de psicoterapia tem o papel protagônico na relação terapêutica. O papel complementar de psicoterapeuta corresponderia mais ao "escada" do circo ou teatro: aquele que prepara a piada, prepara o desfecho, cria as condições cênicas. Mas a piada, o desfecho é do protagonista.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

confiança no método

Com o longo tempo e grande número de atividades públicas de Teatro Espontâneo/Sociodrama trago reflexões sobre circunstancias difíceis desta categoria de atividade socionomica, mas que podem ser estendidas a outras formas de exercício psicodramático.
Divido em expectativas e contexto físico. O contexto grupal terapêutico é bastante diferente do contexto grupal em uma atividade aberta, pública. Uma questão importante que o Diretor/Condutor deve atentar é que no contexto terapêutico os participantes têm um compromisso tácito de frequência e permanência no grupo. Em uma atividade pública as pessoas entram e saem na medida de sua conveniência ou interesse. O único empecilho para a saída antecipada do participante seria a vergonha de atravessar o espaço físico. Nestas atividades abertas, públicas mais do que nunca o aquecimento é vital. Torna-se mandatório perceber a queda de atenção do participante, estar vigilante para o ritmo da cena, para o interesse despertado porque nada prende a pessoa como membro do grupo, só este interesse. Daí porque quem trabalha com TE é tão cuidadoso quanto ao ritmo da cena e é tão cioso do aquecimento. O julgamento crítico negativo do grupo é exibido clara e cruamente pela saída progressiva dos participantes. Temos outra dificuldade que é fruto até próprio bom desenrolar da atividade de TE. É quando dentro de uma história criada emerge uma situação pessoal que pela sua intensidade não pode apenas ser acolhida à parte do desenrolar. É quando se entra no conflito ético de precisar trabalhar como Psicodrama Público quando a proposta era de TE. As poucas vezes em que isto aconteceu a cena original foi congelada e levantada a questão para a pessoa e para o grupo de como seguiríamos. Alguma vez houve acordo da pessoa e do grupo para trabalharmos a questão pessoal. Em uma ocasião, como Diretor/Condutor tomei a iniciativa de não dar prosseguimento ao trabalho embora aceite pelo grupo e pela pessoa por considerar que, naquele momento, não havia nem haveria continência para um trabalho de cunho terapêutico stricto sensu. Mas, enfim, este é um risco inerente a todo trabalho grupal e, ainda que devamos nos prevenir, às vezes não há como evitar lidar com este dilema. A decisão será sempre levando em conta o grupo, a pessoa e a sensibilidade télica do Diretor/Condutor.
A outra parte de dificuldade refere-se ao contexto físico, ao espaço destinado ao trabalho. O espaço há que ser proporcional ao tamanho do grupo. Grupo grande em espaço pequeno é tão problemático quanto grupo pequeno em espaço muito grande. O primeiro é complicado pela limitação de movimento e o segundo complica pela sensação grupal de pequenez, como se reduzisse a importância do grupo, acentuando seu pequeno tamanho. A compatibilização é muito importante para o aquecimento e desdobramento do trabalho. A presença de cadeiras fixas torna-se um empecilho considerável. Neste caso pode-se pensar nos corredores, na parte da frente das cadeiras. Tudo na dependência do tamanho do grupo. Em último caso, há a possibilidade de fazer-se o aquecimento nos próprios lugares, usando mais a palavra. Cantos, jogos verbais, desafios entre partes do auditório podem ser usados deixando os poucos espaços livres para a cena em si. Não nos esqueçamos nunca que a palavra também pode ser uma forma de ação. Locais sem cadeiras, espaços abertos, podem não ser muito bons para pessoas com limitações físicas ou com idade avançada. Isto favoreceria a saída precoce destas pessoas, não por desinteresse, mas por desconforto. Então, é necessário perceber os sinais de desconforto físico, minimizá-los se possível, ou trabalhar a saída delas de maneira que não seja desaquecimento para o grupo e que elas, ao sair, não se sintam inteiramente frustradas ou discriminadas.
Estes são alguns exemplos de dificuldades no exercício do ato socionomico em espaço público ou aberto. Entretanto, lembremos alguns pontos: não esperemos a situação ideal; o método psicodramático pressupõe que tomemos a realidade tal como ela se apresenta; o Diretor/Condutor não carrega o grupo, não é o responsável solitário pelas decisões e escolhas; cabe ao Diretor/Condutor, seguindo o método socionômico, ter sempre em mente que ele é membro do grupo, em papel diferenciado; trazer para o grupo os problemas e dificuldades porque ao grupo cabe encontrar a forma melhor e adequada de lidar com estes percalços.
Enfim, o método socionômico é a nossa ferramenta para lidar com as dificuldades operacionais. Há que se viver o método, tornando-o parte inerente do exercício de todos, todos mesmos, instantes da atividade grupal. Ou seja, dificuldades e problemas podem ser aquecimento.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Escolhas

Há dois dias realizamos nossa última sessão do ano de Teatro Espontâneo/Psicodrama. O interesse em manter essa atividade, aberta e livre, é dar aos curiosos, interessados, amantes e conhecedores, a oportunidade de estar em um espaço onde o olhar psicodramático, a espontaneidade e criatividade estejam em ação. E há dois dias, todos os que lá estiveram, foram presenteados com uma história de Paulo. Quando escolhi essa imagem (essa do blog) para representar esse grupo, fiz pensando em escolhas e compromissos. E a história de Paulo era sobre isso, essencialmente. Toda escolha tem uma perda envolvida. Ao se escolher um dos caminhos, o outro deixará de ser percorrido. Por isto a encruzilhada imobiliza: o que se ganhará pode ser igual ao que se perderá. Ao se fazer a escolha há que se pensar nos preços a serem pagos, o outro caminho que deixará de ser percorrido. Obrigado à Paulo pelo presente de sua história. Obrigado a todos os que lá estiveram e compartilharam, profundamente, daquele Momento Moreniano.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Simpson

Uma das figuras mais interessantes do mundo Pop ocidental é Homer Simpson. Ele é, explicitamente e sem culpa, a caricatura perfeita do senso comum. Mas, ou por causa disso, ele tem ou lhe são atribuidas, frases reveladoras. "A pressuposição é a mãe de todas as merdas". Esta frase realiza, de forma minimalista, a essência da direção psicodramática. Pressupor ao dirigir uma cena psicodramática é interferir, de forma autoral, na narrativa do protagonista. A merda, no caso, é o desaquecimento da cena ou sua inexpressividade cênica. O Diretor, seguindo a Homer Simpson, necessita seguir a cena e o protagonista. Sua função é facilitar, promover os meios para que melhor se desenrole a cena. O que temos, a todo custo, de evitar é promover a cena que, como diretor, queremos ver ou temos curiosidade para testar nossa hipótese. Nossa pressuposição, portanto. Meu mestre em Psicodrama, Paulo Amado, me dizia: "O Diretor é cego, deve se deixar guiar pelo protagonista". O guiar, nesse sentido, é permitir todos os desdobramentos possíveis da cena trazida pelo protagonista, é usar todos os recursos que o Psicodrama/TE trazem em benefício cênico. A nossa interferência reside em limpar a cena, fazer recortes da cena, iluminar a cena, seguir os caminhos sugeridos. Mas, o guia, o norte, será sempre o protagonista. Jamais deverá ser nossa curiosidade, nossas hipóteses, nossos pré-conceitos. É, nesse sentido, que o Psicodrama é fenomenólogico.

sábado, 30 de novembro de 2019

A alegria

Estou pensando sobre o epitáfio de Moreno: "Aqui jaz aquele que trouxe alegria à Psiquiatria". Como qualquer expressão, essa pode ser entendida de várias formas. Um forma é ver nela o quanto de bufão tinha Moreno, de histriônico, exagerado. Uma outra forma é de chamar a atenção para a completa e total ignorância desse estado de humor dentro da Psiquiatria/Psicologia/Psicodrama. Não só ignorância, mas também  a total desqualificação da alegria no ambiente psicoterápico. A dor, o sofrimento, a tristeza, esses estados, esses sim, são supervalorizados. A Alegria, nesta área PSI, quando aparece é em seu estado desproporcional e inadequado e patológico, a Mania ou Hipomania. Propriamente falando do e no Psicodrama/TE, tenho a impressão que existe uma busca incessante pelo tema doloroso, pela cena triste, pelo choro, enfim. Eu acho que alguns diretores de Psicodrama (e outros psicoterapeutas) só se sentem validados pela catarse dolorosa e, jamais, pelo riso aberto e espontâneo. Mas, às vezes o chorar pode ser uma conserva psicodramática: Uma forma já estereotipada para lidar com a própria vida. Aí, o viés do riso espontâneo pode ou poderia ser mais libertador do que o choro.
Mas o riso interminável que transcende tanto os fracassos quanto os êxitos preenche a plateia... Seria bom conhecer a origem do riso... Acho que o riso teve início quando Deus viu a si. Foi no sétimo dia da criação que Deus, o Criador, voltou a olhar para os seus últimos seis dias de trabalho – e estourou – gargalhando de si... Esta é também a origem do teatro... sim, enquanto ele ria, rapidamente cresceu um palco sob os seus pés. Ei-lo aqui, embaixo de nós”. Moreno

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Não só no palco!

Quaisquer que sejam as situações, clínicas, aulas, conferencia, o que quer que sejam, pode-se pensar em usar a metodologia psicodramática. Não como dramatização em si. Mas pensar na estrutura básica e fundamental do Psicodrama, TE ou Sociodrama. Aquecimento, dramatização, compartilhamento e processamento. Fora das atividades sociátricas específicas, fora do palco psicodramático, essa estrutura pode ser mantida. Visualizemos uma coordenação de uma mesa de temas livres em um congresso. Nada mais diferente do palco clínico. Entretanto, ali temos um agrupamento de pessoas esperando a transformação para um grupo, um diretor (o coordenador da mesa) e protagonistas. Portanto, aquecer o agrupamento de pessoas é grupalizar, prepará-las para o que virá. Cabe ao coordenador fazê-lo, saber quem são as pessoas, os motivos de ali estar, de onde veem. Isto pode ser feito em pouquíssimos minutos. Dirigir os protagonistas na cena, já que apresentar o tema é a própria dramatização. Estar atento ao aquecimento grupal, mostrado no interesse da plateia, cuidar para que o protagonista-apresentador não perca o ritmo e desaqueça-se, desaquecendo a plateia. A transição entre as cenas-apresentações. O compartilhamento seria aqui dar voz ao grupo. E, caso seja necessário, o processamento seria o apanhado final que dê coesão às cenas-apresentações. Podemos transpor para qualquer outra situação grupal e essa estrutura será útil, operacional e enriquecedora.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Coreografia

Li em algum lugar da obra de Moreno: "O corpo lembra o que a mente esquece". A memória da ação persiste. A coreografia da dança executada continua impressa no corpo. Quando, por meio do aquecimento bem realizado, conseguimos como Diretores de Psicodrama/Teatro Espontâneo, que a ação seja realmente espontânea isto recupera a memória inscrita no corpo. É como se o aquecimento destravasse o controle racional permitindo que as memórias inscritas, a nossa coreografia existencial, pudesse enfim voltar ao palco.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Papéis e Papéis

Há palavras que usamos e de tanto usá-las acabamos por ir modificando ou alterando o conceito nela embutido. No Psicodrama/TE/Socionomia há a palavra Papel. Papel, em inglês Role, advém do teatro. Era o rolo em que estava impresso, escrito, o texto para cada ator. Então, papel é o conteúdo (texto e ação) de cada personagem em uma cena. Quando Moreno trouxe sua experiência do teatro para sua criação, o Psicodrama, trouxe muita da terminologia teatral. Papel é uma dessas palavras. Mas há aqui algo diferente. O papel desempenhado por uma personagem, numa peça de teatro ou num filme, é fixado no roteiro, no script, no "rolo". Não cabe ao ator alterações em seu desempenho. Tudo já lhe está prescrito. O que sai do estabelecido é dito "caco", uma intervenção pessoal no texto estabelecido. Portanto, no uso habitual papel é algo pré-estabelecido pelo autor do script, roteiro, "rolo". Moreno considerava, e a Socionomia assim pensa, ser o ser humano um ser em relação. Ele, essencialmente, necessita de estabelecer relações com outras pessoas, seres vivos, objetos, ideias, símbolos. O ser humano não apenas necessita, mas só assim se estrutura. As relações, os vínculos que estabelecemos, são o que nos constrói, nos constitui. Para Moreno, para a Socionomia, para o Psicodrama, para o TE, Papel é a nossa forma de atuação quando entro em contato com outra pessoa, objeto ou o que seja, quando estabelecemos relações, vínculos. E esta relação é relacional (redundância aqui necessária). Não pré-existe. É móvel, flutuante, dependendo do desempenho dos dois papéis que se complementam. Papel e papel complementar. Um constrói o outro, um estabelece o outro, um cria o outro. Quando os papéis perdem essa fluidez, essa mobilidade, esta capacidade de adaptação, os papeis se congelam, se cristalizam, e traduzem-se em repetições enfadonhas e destrutivas. Daí o centramento da Socionomia Moreniana na Espontaneidade/Criatividade.

domingo, 27 de outubro de 2019

Selfie e o Psicodrama

Selfie ou autorretrato (quando falávamos português) é ver-se numa imagem fotografada por si. O que difere de uma foto tirada por outra pessoa? Penso ser o ângulo. Numa fotografia qualquer nos vemos como algo fora de nós. Vemo-nos como os outros nos veem. Num autorretrato (selfie) somos o agente e e o objetivo. Aquele que faz e, simultaneamente, é o centro da atenção. Estamos sempre mais próximos na selfie que numa foto comum. O olhar de quem fotografa é o olhar fotografado. E daí? Há esta ideia pairando em minha cabeça. A interpretação é como uma foto tirada de nós por outra pessoa. A experiência psicodramática é como uma Selfie, um autorretrato. Somos nós vendo a nós. O foco é dado por mim, O ângulo é orientado por mim. Sou autor e ator de minha foto: Selfie. Sou autor e ator de minha história: Psicodrama/Teatro Espontâneo

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Que viva o Teatro Espontâneo!

Interessante (ou doloroso) que o Teatro Espontâneo seja colocado como uma outra forma de instrumento de intervenção na Sociatria, denominação dada em Socionomia ao conjunto de Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama e TE. Na prática, no dia a dia, o TE é colocado como o filho meio cabeça de vento, criativo, mas pouco sério, sem muito futuro. As pessoas sérias, os psicodramistas sérios fazem Psicodrama, Sociodrama ou Axiodrama. TE não. TE é para artista, extrovertido, diversão. Bom de se ver. Apenas. E como isto tem sido ruim e danoso ao desempenho da direção de qualquer ato socionômico. O sempre lembrado, por mim e por muitos, Moysés Aguiar, costumava dizer que o Psicodrama tornava-se cada vez mais Psico e cada vez menos Drama. O nosso diferencial, nosso sustentáculo, nosso pilar, o palco, a cena estavam sendo deixada cada vez mais de lado em nome do enfoque Psico. E o que podemos com o TE? Teatro Espontâneo é bom, é necessário, é vital, para todos os que trabalham com a Sociatria e a visão Socionômica de vida. Não é só para a plateia que o TE é importante. mas para o profissional socionômico. E por que? Por que ao dirigir um TE aprende-se a construir e dramatizar histórias. Aprende-se a desenvolver o senso de história. Aprende-se a descobrir o que pode ser dramatizado e o que não pode. Aprende-se a manter atenção plena do aquecimento grupal, sob pena de nada acontecer. Aprende-se que a atenção à estética da cena aumenta, potencializa a eficácia da dramatização. Aprende-se que o ritmo da cena é tudo. Aprende-se que não levar o ritmo em conta compromete terrivelmente o aquecimento grupal. Enfim, fazer TE, para qualquer que seja o psicodramista, faz com que ele faça o que faz melhor e com maior potência. Teatro Espontâneo é o tronco central onde corre a seiva da Socionomia. Dele saem os ramos de Psicodrama (TE aplicado à clínica, a uma história individual), o Sociodrama (TE aplicado a temas de papeis sociais), o Axiodrama (TE em que o tema da sua história são valores éticos). E também ao lado pedagógico/organizacional. Tudo é Teatro Espontâneo, aplicado a situações especificas ou grupos específicos ou temas específicos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

As voltas que o mundo dá: A estrada enevoada

Motivo: Teatro Espontâneo (TE) na Jornada de Psicodrama da PROFINT. Espaço: Uma sala cheia de obras de arte deixando um espaço central para o palco. Público: Estudantes de Psicodrama, estudantes de Psicologia, profissionais. Todos expectantes. Pouquíssimos haviam experimentado um TE. Sentimento prévio da Direção: Privilégio e temor. Privilégio pela beleza do espaço e temor pela possibilidade de dano a alguma peça pela movimentação dos participantes. Fala o Diretor: propõe um aquecimento minimalista evitando grandes rompantes físicos. Depois de algumas ações aparece uma imagem escolhida pelos participantes: Uma estrada enevoada. Apenas isto. E é esta imagem que conduz o resto do trabalho. O Diretor pede quatro voluntários para “fazer qualquer coisa”. Risadas depois, surgem os quatro atores. Constrói-se uma primeira cena experimental. Caminhoneiro e ajudante numa estrada esburacada. Os dois atores, desaquecidos, são caricaturalmente engraçados. Cena congelada. Ao grupo é perguntado a sensação, o sentimento do momento. “Perdida, não sei aonde vai dar”: O sentimento mais presente no grupo naquele instante. Peço que compartilhem histórias com este clima de se estar perdido, não se ver à frente, não ver saída. Aparecem várias histórias. Uma com forte intensidade emocional: Mãe falece, filhas em casa, filho, único homem, é obrigado a retornar de outro estado, abandonando a vida já construída para cuidar de tudo o que ficou. Clima pesado. Peço ao dono da história para usá-la como enredo inicial de nosso TE.
O grupo escolhe dois personagens, André (o filho) e Ana (a filha). Uma atriz espontânea escolhe ser André, 30 anos. Outra atriz espontânea escolhe ser Ana, 18 anos. Espaço e tempo: Quarto de Ana, dia seguinte ao sepultamento da mãe. Ana chorosa na cama. André tenta animá-la e a consolar: “Você precisa voltar à realidade, encarar a realidade”. Diz isto em voz baixa e contida, com gestual discreto. Ana responde aos gritos: “Eu perdi a minha mãe!”. A cena prossegue com André pouco incisivo, com argumentos racionais, balançando a cabeça de um lado ao outro, lentamente. Peço-lhe seu solilóquio. “Estou sem saber o que fazer, eu também sofro por ela ter só 18 anos, mas ela devia compreender!”. O incômodo da plateia é perceptível. Congelada a cena, peço um duplo da plateia para o personagem que quisesse. “Estou irritado, muito irritado com você! “, fazendo o duplo de André dirigindo-se a Ana. Com a cena congelada pergunto se alguém quer ocupar algum lugar na cena. A primeira pessoa entra no palco com muita disposição. Entretanto, quando a cena começa ela começa a diminuir o ritmo e a repetir o mesmo gesto de balançar a cabeça. Seu solilóquio: “Não sei mais o que fazer”. Em seguida, o dono do duplo “estou irritado” se apresenta. Entra no quarto, dirige-se a Ana deitada, chorando e fala em tom autoritário e incisivo: “Você não só tem 18 anos, você já tem 18 anos”. “Só temos nós agora”. Ana retruca com violência: “eu perdi minha mãe ontem, você que mais o quê?”. Este dialogo é congelado pela violência das palavras, intensidade emocional e proximidade física das personagens. E é pedido que continue em câmara lenta gestual, mas acentuando a intensidade verbal. Uma pessoa entra, no papel de uma vizinha, D. Maria. Ela entra no quarto, no palco, abruptamente, dirigindo-se a Ana. André grita:”Como você entrou, o que você está fazendo aqui?”. .D. Maria abraça Ana, a beija, a conforta. Peço a André seu solilóquio: “O que esta  mulher está fazendo, este problema é só nosso, que invasão é essa!” Diz isto balançando a cabeça veementemente. Pergunto se mais alguém quer experimentar e uma pessoa ocupa o lugar de Ana. Recomeça a cena da briga, sem a vizinha. Mas agora Ana agride a André: “Você não estava aqui, você foi fazer sua vida longe daqui, eu estive aqui, eu fiquei com minha mãe!”. A cena continua com Ana acuando a André: “Você quer que eu fique logo bem para poder voltar a sua vida!”. André a olha sem resposta. Seu solilóquio: “Não tenho saída”. Solilóquio de Ana: “Te peguei!”. Paro a cena aqui e olhando a plateia há uma participante francamente comovida, tremendo. Diz em seu solilóquio:”Foi isso que vivi quando meu irmão foi assassinado”. Chora muito, mas dá-se por satisfeita com a continência grupal. Dirijo-me ao dono da história e ele diz: “Foi sofrido e doloroso ver tudo de novo, mas foi bom para poder continuar lidando com tudo”. A vizinha Maria diz ter pedido o pai há dois meses e não suportar ver uma família desfeita. O primeiro André compartilha sua grande necessidade de controlar e controlar-se, de manter o equilíbrio. A primeira Ana (estudante de Psicodrama) conta ser sua primeira vez que se dispõe voluntariamente para entra em um papel e ficou surpresa em perceber que tudo era real para ela. O “irritado” André, o segundo André, fala de sua própria experiência quando ele teve que ser o “André” durante uma crise familiar, “escondendo o que sentia para ajudar aos outros”. A última Ana conta sua história de abuso, bullying e incapacidade de reagir diante de agressões. O grupo me pergunta: “Tom, você não vai compartilhar?”. Conto-lhes, então, ser esta também minha história. Também fui ”André”, também tive que engolir o sofrimento em função de lidar com a situação, também fui obrigado a deixar coisas para fazer coisas, em um tempo de minha vida. A plateia olha-me com perplexidade e simpatia.
Tudo isto que aconteceu durou uma hora e 15 minutos.
E agora? O que é TE (Teatro Espontâneo)? É a alma-mater da Sociatria. No método socionômico as intervenções são agrupadas no título Sociatria. Psicodrama, Sociodrama, Axiodrama. Geralmente aí é incluído o TE, como se fora outro instrumento de intervenção grupal. O que proponho é não ser o TE um outro instrumento sociátrico, mas, sim, o verdadeiro tronco de onde se originaram os ramos Psicodrama, Sociodrama e Axiodrama. Ou como Moysés Aguiar dizia, um guarda-chuva sob o qual estavam as modalidades citadas. Desta maneira de ver, um TE em que a história e o papel protagônico são desempenhados pelo representante grupal, ou dito de outra forma, quando o enredo pertence ao ator, tem-se um Psicodrama. Se o TE é tematizado em papeis sociais, num grupo em que o foco está nesses papeis sociais, na história daquele grupo, teremos um Sociodrama. Se enfim, o TE está centrado em temas de natureza ética, valores éticos, aí teremos um Axiodrama.
Mas, o que é TE? É a dramatização de uma historia criada pelo grupo. É uma obra coletiva na criação e execução. O aquecimento leva a imagens, histórias. Ao grupo cabe transformá-las em narrativas dramatizáveis. Isto é o fundamento do TE. Recriar, retomar, a capacidade infantil de criar e contar histórias. O senso de história: início, desenrolar, conflito, resolução. Em nosso TE vivenciado naquela Jornada Sergipana, após o aquecimento o grupo escolhe sua imagem-tema daquela tarde: uma estrada cheia de neblina. A primeira encenação foi literal. Uma estrada, a neblina, um caminhão, dois personagens. Em seguida a esta cena, o grupo diz-se, sente-se, demonstra estar perdido, sem saber aonde ir. O clima de desnorteamento passa pelo grupo. Essa primeira ação dramatizada produziu o aquecimento necessário para a dramatização de outro tipo de estrada enevoada, a estrada da vida. Como este era o tema protagônico daquele grupo, naquele momento, houve consonância e ressonância da plateia. Em cada instante em que havia um ponto de tensão maior, um ponto de paralisia de ação, ao grupo era devolvido a possibilidade de intervir, introduzindo atores novos ou personagens novos. O aparecimento da personagem Maria, elemento salvador no triangulo dramático (perseguidor-vítima-salvador); dos novos André, da nova Ana conduzem a um clímax dramático. E no TE, como em qualquer manifestação artística, cabe ao espectador, à plateia, dar sentido, dar significado àquilo mostrado e vivenciado.O grupo coloca a legenda na foto.O grupo no TE ou o protagonista no TE chamado de Psicodrama. A primeira imagem escolhida , da estrada enevoada, pode ser a legenda dos gestos desesperançosos de balançar a cabeça dos André, na fala “não sei mais o que fazer”, na violência da impotência.
“No meio da estrada da vida”. Assim começa a Divina Comédia de Dante Alighieri. O filme de Fellini “A estrada” tem o mesmo tema. Na maturidade ou em qualquer momento, a estrada pode tornar-se cheia de neblina. Em que tudo parece incerto e duvidoso. Em que não se vê propriamente o caminho. Quando os sentimentos vigentes são de perdição, impotência, raiva.
Assim foi o nosso TE. Assim é o Teatro Espontâneo.
       “Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro.”  Mensagem, Fernando Pessoa

                                         

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Felicidade?

Estava lendo um livro besta, policial. Mas, neste livro, apareceu um conceito que me deixou intrigado. Lá estava numa fala de um personagem: "A felicidade é resultado de uma relação entre expectativa e realidade". Ou seja, pensando um pouco, quanto menor a expectativa e menor a realidade, menor será a felicidade? Uma pessoa dentro de seu mundo delirante, em que a realidade compartilhada pelos outros não é vivenciada por ela, sua expectativa é limitada pela sua realidade delirante, apenas. Ou uma pessoa com zero expectativa quanto a si, caso sua realidade lhe oferte cem por cento, ele será feliz? E afinal de contas o que seria felicidade? O poeta Rilke tem um verso em que diz: "todos conhecem a espera angustiosa diante de um palco vazio: ergue-se o pano sobre o cenário de um adeus". Martinho da Vila diz: "Felicidade, passei no vestibular, mas a faculdade é particular". Vinícius, o poetinha Vinícius: "A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar, gira tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar". Felicidade não é um conceito da área PSI. Felicidade é um conceito existencial. "Pursuit to happiness" . Perseguir, buscar a felicidade, ir atrás, é dar concretude a algo que é resultado de algo e  não causa de alguma coisa. Buscar felicidade é esquecer que felicidade é o resultado de uma ação. Não é a condição para a ação. Desta forma de pensar, felicidade não é objetivo para psicoterapia ou psiquiatria. Pode-se ser assintomático e infeliz. E vice-versa, sintomático,  mas feliz.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...