quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Walt Disney e J.L.Moreno

 Assistindo a um documentário sobre Walt Disney e seu projeto de Disneyland e Disneyworld, um dos participantes cita uma frase que o Walt sempre repetia e cobrava dos roteiristas e todos os Imagineers. Ele usava esse neologismo, junção de Imagine e engineer, e dizia: "A história tem que guiar a experiência". O roteiro precisava guiar a experiência do usuário dos parques. Assistindo, minha mente levou-me à Moreno. Ele dizia que, diferentemente do Teatro formal, no Psicodrama o protagonista/ator criava sua própria história a partir de sua própria experiência de vida. Para Disney, a História guia a experiência do usuário. Para Moreno o protagonista usa sua experiência existencial para criar sua história.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Onirodrama, Mia Couto

 

Nenhum sonho se pode contar. Seria preciso uma língua sonhada para que o devaneio fosse transmissível. Não há essa ponte. Um sonho só pode ser contado num outro sonho. 

O outro pé da sereia- Mia Couto 

Esse livro de Mia Couto ainda não li, mas vi essa citação. E, por si só, me fez viajar. Mia chama a atenção para uma particularidade muito conhecida dos sonhos. Contá-los é bastante complicado. pela condensação das imagens, pelo ritmo, pelo anacronismo, pela superposição de cenas e personagens. Enfim, é uma experiência cotidiana que contar um sonho, transpor a linguagem onírica para a fala organizada é difícil. O Psicodrama tem uma forma de lidar que denominamos de Onirodrama. A característica principal, à semelhança do que diz Mia Couto, é dramatizar o sonho sonhado e transformá-lo em sonho que está sendo sonhado. Em lugar de contar o sonho o Diretor/Condutor pede que o protagonista construa seu local de dormida, com detalhes bem detalhados, como forma de aquecimento específico, assuma a posição habitual que assume ao deitar e inicie a atuar o sonho. As cenas vão sendo desdobradas. Cada elemento que aparece em cena pode ser explorado em outras cenas. O Onirodrama é a dramatização do sonho. É imperativo que o protagonista não inicie a narrar o sonho. Por que? Porque ao narrar nós impomos uma sequencia e uma lógica narrativa.É importante, é vital, para o Onirodrama que haja o frescor da cena atuada ex-novo, com o frescor da cena nova. Mia Couto tem razão.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Poetas, Psicodrama, Perdas

 Um comentário de uma amiga, Luiza Barros, numa postagem sobre as perdas recentes de ídolos musicais de toda uma geração, ela disse:"a tristeza será companheira de quem sobrevive". essa frase não me deixou dormir sem refletir muito. é verdade, o preço de estar vivo é ser testemunha de perdas. Há um conto antigo de Jorge Luis Borges em que ele fala do encontro com grandes figuras do passado que tinha ficado eternas. E essas figuras relatavam o quão duro é permanecer quando os nossos outros passam. Li, em algum lugar, que há culturas que consideram a morte apenas quando não há mais memória de quem foi, quando não há lembrança mais. Fernando Pessoa diz: "Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada". Ver, rever, lembrar, ter lembranças, recordar, para os que ficam é a forma e maneira de manter vivos os que que já não são. Ou estão. No palco do Psicodrama é possível lidar com as perdas, em tempo real, na realidade suplementar da verdade dramática, e estabelecer diálogos e ações impossíveis na realidade real. Os poetas falam dos que foram. O Psicodrama fala com quem está.

"Não tenho preferências para quando não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é" A. Caeiro/F.Pessoa

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Só, sozinho

  Assistindo ao filme clássico Fogo contra fogo, com os grandes Al Pacino e  Robert De Niro, há uma fala da personagem de De Niro: "I'm alone, but I'm not a lonely man". "Sou sozinho, mas não sou um solitário". E isso me pôs a pensar. Estar só, sentir-se só. Sozinho, solitário. Estados de espírito não iguais, muito diferentes. Estar só é algo espacial, geográfico. É não ter pessoas em volta. Apenas isto. Sentir-se só é outra coisa. Nada tem a ver com quantidade de pessoas. Sentir-se só é consequência  de uma pobreza relacional. Solidão é não ter vínculos com nada. Uma pessoa isolada geograficamente vive e sobrevive das certezas de seus laços afetivos, das lembranças e desejos. Sentir-se só, o estar em solidão, é reconhecer a inexistência, é sentir o peso da ausência de vínculos que o ancore com o mundo. seguindo Zeca Baleiro, o canastrão, ao contrário do ator verdadeiro, não cria vínculos entre sua personagem e a platéia. Por isso, ao cair do pano, o ator tem os aplausos e o sentimento vindo da plateia. Está só, mas não se sente só. O canastrão está sozinho. E solitário.

"Eu 'tava só, sozinho

Mais solitário que um paulistano

Que um canastrão na hora que cai o pano" 

Zeca Baleiro

"É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,

É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte"

 Fernando Pessoa

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Papéis, subjetivo, objetivo

 Há palavras em Psicodrama que uso frequentemente, mas acho que poderiam ser mais frequentemente usadas. E compreendidas. Um dos conceitos fundamentais em nosso método  e ponto de vista existencial, o Psicodrama Moreniano, é o conceito de Papel. Percebo que muitas vezes quem utiliza talvez não alcance a profundidade do conceito. Em inglês, a palavra é Role. Fica mais fácil entender sua origem. Em começo, no Teatro, tudo da personagem, texto, gestual, expressão verbal, adereços, estavam escritas e guardadas em Rolos de papel. Daí, do francês obsoleto roule veio o Role inglês. Então, a palavra e conceito advém do teatro. Texto a ser atuado pela personagem, como todas as indicações para seu melhor desempenho. Moreno, apaixonado por teatro, puxa essa palavra e amplifica e aprofunda o conceito que essa palavra representa. Do ponto de vista Moreniano todas as relações se fazem por meio de papéis. Não ná um contato real e atual entre os dois Eu de uma relação. Ele, Moreno, diz serem os papéis a parte tangível do eu. Tangível é o que toca ou pode ser tocado. Então, se as relações se estabelecem entre papéis, e se o papel é a totalidade de texto, adereços, entonação, afetos, da personagem, quando nos relacionamos os papéis podem e devem flutuar. A personagem é a mesma, porém desempenha papéis diferente. A personagem Pai pode estar no papel de protetor, cobrador, autoridade, suporte, companheiro, confidente e tantos  outros. Mesmo nos papéis profissionais em que a flexibilidade é menor (e isto acontece porque a relação médico paciente, p.ex., se faz nessa demanda, especificamente), é possível que a dimensão subjetiva do papel possa burilar e revestir o papel profissional de outras características. Daí essa ideia moreniana de perceber os papéis como tendo uma dimensão objetiva, socialmente prescrita, e uma dimensão subjetiva, que traz em si, inscrita em seu corpo, toda a sua história pessoal. Isso é que faz com os desempenhos dos mesmos papéis sejam tão diferentes dependendo da personagem que o exerce.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Tempo. Outra vez

Voltando à questão do tempo em Psicodrama. O tempo cronológico, o Chronos grego, o tempo marcado pelo relógio, é o intervalo entre dois acontecimentos, O tempo vivencial, o Kairos grego, o Momento Moreniano, é o estado de vivenciamento pleno de uma situação. Por isso, há frequentemente, uma distorção, entre a suposição de tempo decorrido em um Momento Moreniano e o que o relógio marca. "Puxa, só foram 40 minutos, pareceu muito mais, foi tão bom!". Ou o seu inverso "Só tem quinze minutos dessa aula? Parece um século!". As relações humanas não podem ser formatadas numa única exigência: precisa-se de tempo (cronológico) para isso acontecer. Para se conhecer bem algo, para se alcançar um ápice terapêutico, para se vivenciar uma relação profunda a duração não é o critério fundamental. Uma psicoterapia não será, necessariamente, melhor porque já dura há 20 anos. E o que acontece em menos tempo cronológico, não será necessariamente pior ou mais superficial. Esse é o cerne do problema. O tempo cronológico pode ou não ser profundo. O tempo Kairós, o Momento Moreniano, será sempre profundo e significativo. Nas psicoterapias vivenciamos o tempo cronológico, já que há um horário a ser cumprido. mas, também, experimentamos, por vezes, Momentos em que atingimos o alvo afetivo e cognitivo. Em que o significado e valor daqueles poucos instantes cronológicos têm tanta repercussão vital. E nas relações afetivas o mesmo ocorre. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

palavras, conceitos

 "Eu já sei o que eu penso sobre esta palavra. Mas quero saber sobre o que vc pensa". "E voce, se quiser, e estiver interessada, saberá sobre o que eu penso". Isto aconteceu em uma sessão psicoterápica. A pessoa usava palavras e, em um momento, lhe fiz essa observação. Pedi que fosse  demonstrando, dramatizando, cada uma das palavras que usava e, depois, eu fazia o mesmo com o meu conceito sobre aquela palavra. Esse momento foi muito importante para o avanço da psicoterapia. permitiu-nos, a mim e a ela, compreender dramaticamente, no palco, enxergando e escutando, que as palavras podem ser usadas igualmente. Mas, nunca sabemos, antecipadamente, o que aquela palavra representa como conceito. PS. depois, no seguir da psicoterapia psicodramática, ela , brincava, dizendo: "você é chato. Quer aprofundar tudo!"

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Agradar e desagradar

 Com um paciente em psicoterapia, conversando sobre uma possível celebração de seu aniversário, construímos um jogo de palavras. Eu pedi que que considerasse se uma comemoração seria algo de seu desagrado ou não seria de seu agrado. Proponho, agora, com quem me lê, que construamos, em nossa paisagem mental, uma cena que seja de meu inteiro desagrado, que mexe desagradavelmente comigo. E depois coloquemos a seu lado, na tela mental, uma outra cena que não seja de meu agrado, embora perceba seu valor. Perceba se há diferença subjetiva. Se o seu sentir tem nuances, se seu corpo reage diferente. Pense que nossas escolhas não são apenas pelo que queremos ou desejamos, talvez sejam pelo que não nos violenta, não nos destrói.  Pode não nos agradar, mas não nos desagrada nem nos degrada, mas agrega.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Expectar e esperar

 Esperar, ter esperança, expectar, ter expectativa. Embora palavras de etimologia próxima, talvez possamos brincar um pouco com elas. Iniciemos por expectar. Parece-me que expectar é a espera de forma ansiosa. Expectar é formular  uma imagem e aguardar que ela se concretize. Esperar, ter esperança, é abrir-se para o novo, deixar-se surpreender pelo inesperado. A expectativa pode ser frustrante. O futuro ao chegar pode não corresponder à imagem criada, à expectativa criada. Ter esperança, esperar, apenas esperar, sem imagens antecipadas, é como a criança que absorve o mundo como ele se apresenta. O adulto, expecta. A criança espera. A angústia do adulto está na expectativa da chegada do imaginado. A alegria da criança está em receber,  é alegria do que simplesmente virá. Com essa visão poética podemos pensar o Psicodrama/Teatro Espontâneo com o olhar da espera pueril, de aguardar o que virá sem preconcepções. Tomar o que vem não pelo que não foi, mas pelo que é. E isso, não tão poeticamente, é a atitude fenomenológica: Não expectar e frustrar-se, mas esperar e ver.

“Uma criança é inocência e esquecimento, um novo começo, um jogo, um moto-contínuo, um primeiro movimento, um “sim” sagrado. Para o jogo da criação um “sim” sagrado é necessário”. Nietzche
"Não deixe que a próxima vez saiba demais sobre as vezes anteriores"  Moreno

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

fundamentos e fundações

Um amigo, psicodramatista, me disse que ele estava tendo dificuldade de editar seu livro porque as editoras só viam possibilidades de venda para manuais de como fazer Psicodrama.  E o livro dele é de reflexão sobre os fundamentos do Psicodrama/Socionomia. É. Isto em qualquer área de atuação seria um problema. Agir sem fundamentação, o fazer, apenas, transforma-se em ato mecânico. Sem se conhecer e aprofundar-se nos fundamentos é como preocupar-se em construir um edifício muito bonito , mas sem ter escavado para as fundações. Aliás, é um bom símile. Na construção, necessariamente, se começa indo para baixo, cavando fundo. Em qualquer construção, trata-se de uma etapa longa, em que não se vê o "progresso" da obra. Considerando, nesse caso arquitetônico, que "progresso" é ver subir a obra. Trazendo ao nosso campo, "ver subir a obra', "progresso", seria fazer o psicodrama, exercitar as técnicas. O escavar para baixo, estabelecer as fundações da obra, seria o equivalente a estudar-se a filosofia Moreniana, os laços filosóficos do Psicodrama/Sociodrama/Socionomia. Corporificar a Espontaneidade/Criatividade. Fazer com que a técnica psicodramática esteja a serviço de uma atitude humanista, solidária, grupal, amorosa, participativa, compreendendo que cada um e todos são corresponsáveis pelo grupo/mundo. Sempre é necessário buscar as raízes de nosso Sociopsicodrama, de nossa Socionomia. Árvores sem raízes, edifícios sem fundações sólidas, métodos psicoterápicos apenas práticos, necessitam de escora, de apoiar-se em mais alguma coisa. Nossa Socionomia tem raízes, tem fundações, tem fundamentos, tem modos próprios de enxergar e atuar no mundo. Mas, nós é quem precisamos acessar essas raízes, sempre e sempre. São elas que nos possibilitam o salto criativo, o Role-Creating, a criação no papel, e não apenas a aplicação bem feita de técnicas conservadas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O Encontro

Se há palavra associada ao Sociopsicodrama, à Socionomia, à Sociometria, ou seja à toda a obra de Moreno, essa palavra é encontro. Em geral, quando nós escrevemos o fazemos assim Encontro, com a maiúscula inicial. Talvez porque, como dizia o Poetinha Vinícius, "A vida é a arte do Encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". Pela vida há encontros, esbarrões, conhecimentos. O Encontro não é apenas o ato de duas pessoas se encontrarem, eventualmente, num lugar qualquer. Por isso a inicial maiúscula. O Encontro Moreniano é quando duas pessoas, num dado instante, harmonizam suas vidas, suas histórias não contadas e contadas, suas vozes, sua complementaridade em ação. Esse Encontro é de duas existências, dois viveres, dois sentires, dois perceberes, dois agires. Não é um esbarrão. Por isso, quando acontece, se acontece, é tão pleno para quem o vive. Pode até ser outro nome para amor, não saberia diferenciá-los, mas sinto haver uma diferença, embora não consiga agora torná-la explícita. Os encontros e desencontros são constantes e até regulares. Mas, os Encontros são peças raras em nossa mala de sentimentos. E para ele acontecer, não sendo programado nem programável, o que ele precisa é que se deixe acontecer. Haja Morenianamente a Espontaneidade para deixar fluir essa possibilidade humana tão preciosa. O Poetinha tinha razão; É uma Arte esse tal de Encontro.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Alma Psicodramática

Nesse nosso recém encerrado congresso de Psicodrama voltei a ter em mente uma das formas de apresentação dos Atos Socionômicos: Além do Sociodrama, Psicodrama, também o Axiodrama. Axio em grego é eixo. Axiodrama, assim, é um ato socionômico voltado para o nosso eixo ético. O eixo dos valores humanos, não dos atos humanos, mas daquilo que preenche seu conteúdo humano. Aquilo pelo que se vale viver e até morrer. O nosso poetinha Vinícius em uma das suas letras com Toquinho diz: "Se é pra desfazer porque é que fez". O valor da vida não é natural. Natural é sobreviver. Mas, dar significado à vida é nossa tarefa humana. O verso do Poetinha pode levar a um beco sem saída existencial: "se tudo vai acabar mesmo,  então por que começar?". O significado dado pelo ser humano torna cada segundo precioso. Não é preciso chegar-se ao fim para ter que ponderar se valeu a pena ou não. Fernando Pessoa diz em verso conhecido: "Tudo vale a pena se a Alma não é pequena". E qual o tamanho da Alma do Psicodrama? Que valores éticos dão sustentação à metodologia psicodramática? Para que fazemos o que fazemos? Moreno, criador do Psicodrama, iniciou sua vida pela ética humana de solidariedade, depois foi caminhando para a vertente clínica e social. Sem sua Alma ética, sem seu eixo filosófico, sem os princípios do Encontro, sem seu conteúdo verdadeiramente amoroso de inclusão das diferenças, o Psicodrama não se diferencia de outras abordagens. Nosso recente Congresso foi um grande Ato Axiodramático. Talvez re-fundante de nossa Alma Psicodramática.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

vaidade existe?

 Como fica a vaidade humana na pele do Diretor de Psicodrama, condutor de grupo? Há um sinônimo que é fatuidade, cuja definição, "qualidade do que é efêmero, pouco importante", talvez explique melhor nosso problema.  O Diretor/condutor de um grupo é o primeiro membro do grupo a estar presente, é o membro do grupo que se torna o ponto focal para o aquecimento grupal, organizador, produtor e analista do grupo. Portanto, um papel essencial, fundamental. Mesmo em grupos autodirigidos, alguém se destaca, por estar mais aquecido, para lidar com a situação. Nesses grupos autodirigidos apenas não há o papel previamente determinado, de diretor. Mas o papel existe. Quando me refiro à vaidade, fatuidade de quem exerce o papel de Diretor grupal psicodramático, estou-me referindo ao poder inerente à função. É um poder efêmero, mas não é pouco importante. Penso ser sempre necessário a quem conduz grupo ter em mente isso: Não se deixar levar pelo brilho, poder ou, simplesmente, prazer em manipular o grupo. Moreno foi sábio quando insistiu em que o Diretor faz parte do grupo, é atravessado pelas mesmas correntes daquele grupo. O que o coloca no papel de Diretor, e o mantém, é estar diferenciado o suficiente para perceber todas as nuances de fluxo, contrafluxos, ocultamentos, dificuldades, expressas pelos membros do grupo e pelo próprio grupo. Esta postura crítica e diferenciada em relação a si, deixar-se ser atravessado e perceber o atravessamento, ajuda a ser o contraponto da natural vaidade humana. E isso, além do Psicodrama, também se refere a todos os outros grupos humanos.

sábado, 13 de agosto de 2022

Psiquiatria e Psicodrama

 Quando uso um adjetivo, sua função é a de delimitar e qualificar um substantivo. Um navio verde não é todos navios, é apenas o navio verde. Quando digo que sou Psiquiatra Psicodramatista, não estou dizendo que sou Psiquiatra E Psicodramatista, dois substantivos separados. Estou dizendo que ao modo de exercer o papel de psiquiatra agrego um modificador, um qualificador: Psicodramatista. Todos os papéis sociais têm um denominador coletivo e um diferenciador subjetivo. Neste caso o diferencial é a atitude, o olhar psicodramático.

A prescrição, a medicação, a possível internação, a vigilância, o diagnóstico, nada disto é diferente do psiquiatra não psicodramista. O que difere é o como. Reconhecer que mesmo investidos de um poder aparente (muitas vezes real) continuamos a ter no paciente psiquiátrico uma outra pessoa, em um papel complementar, com seus quereres e haveres. Ter claro que se trata de um vínculo assimétrico (eu prescrevo, ele ingere) mas que continua sendo um vínculo complementar. Naquele momento, naquele contexto, naqueles papéis, estamos estabelecendo uma relação. O psiquiatra dá o remédio mas é o paciente quem o toma. E que mais é o remédio psiquiátrico que um Ego Auxiliar químico? Por algum tempo, por muito tempo ou por todo o tempo, o remédio irá suprir o paciente com algo que neste instante ele não o tem. Ela, a medicação, nem é Deus nem o Diabo na Terra do Sol.
Antes da prescrição, entretanto, há a consulta. De regra, o paciente psiquiátrico não vem à consulta. Ele é trazido, levado, empurrado, obrigado. Quase nunca desejoso de ali estar. Como, então, estabelecer um vínculo com ele? A minha primeira pergunta, sempre, ao paciente é: “Como você se sente agora neste consultório psiquiátrico?” É a partir daí que pode se estabelecer nossa relação. Neste instante aparecem as dúvidas, os preconceitos, os medos, as imposições e chantagens familiares, as piadas. Posso passar, e às vezes passo, quase toda a consulta discutindo sobre este tema ainda sem perguntar a razão da vinda ou da “trazida”. Quando ultrapassamos este ponto, sempre ou quase sempre, já teremos criado uma relação vincular. “Eu conheço Psiquiatria mas você conhece a sua Vida”. É assim que manifesto a assimetria de nosso vínculo.
Ele sabe mais de si do que eu. Eu sei mais de doenças que ele. O que proponho é que juntemos os nossos conhecimentos e transformemos nosso encontro em alguma coisa útil e prazerosa. Neste encontro uso todos os recursos que o Psicodrama nos dá. Seja pedindo seu solilóquio em um momento de silêncio, seja dando voz a um gesto significativo, seja realizando um duplo em um outro silêncio. Principalmente, é não ficando preso à cadeira de médico. A mobilidade corporal do Diretor Psicodramático incorporada no psiquiatra aparece numa ida à janela com o paciente, em uma caminhada pelo consultório durante a entrevista. Ele sabe mais de si do que eu. Eu é que preciso me esforçar para suprir esta lacuna. E nisto está a questão da confiança. Ela não é dada, é construída. Por que deve um paciente contar a uma outra pessoa que nunca viu e sabe apenas que é médico (quando sabe!), detalhes íntimos, perturbadores, vergonhosos, pessoais? Por que o paciente tem que falar tudo ao médico psiquiatra? “Ele é seu amigo, conte tudo a ele”. Assim falam os acompanhantes. Por isso, nestes momentos da consulta, eu me apresento, digo a ele quem sou, onde e como me formei, quais meus pontos de vistas sobre psiquiatria. No papel social de psiquiatra, abro e exponho ao paciente que psiquiatra sou eu. Tenho uma biblioteca em meu consultório. Frequentemente peço ao paciente para ir lá ver o que tem e trazer algo que lhe interesse. Às vezes um livro, às vezes um objeto de decoração, uma revista. “Veja a minha biblioteca e você vai conhecer um pouco de mim”. Quando voltam, nós temos algo em comum, já podemos falar “nós”.
Sou Psiquiatra psicodramatista para aqueles que me procuram no papel de paciente psiquiátrico. Posso ser, entretanto, Psicodramatista Psiquiatra quando no curso de uma relação psicoterápica configura-se uma síndrome psiquiátrica. Se concluirmos, eu e ele, e entendermos eu e ele, que o remédio será uma utilidade, uma necessidade, haverá a prescrição e o acompanhamento clínico se dará como mais um dos fatos da vida do paciente que trabalharemos no palco psicodramático.
Finalizando e resumindo, o exercício da Psiquiatria Clínica pode ser profundamente enriquecido, sem que se transforme em uma psicoterapia “selvagem”, com a visão Psicodramática do Encontro, do Vínculo, da Complementaridade de Papéis e da Corresponsabilidade.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Analogia

 Fernando Pessoa diz em Mensagem que o "O mito é o nada que é tudo". Pegando essa afirmação talvez possamos dizer que uma analogia é um nada que é tudo. Analogia é uma relação de proporcionalidade que, entretanto, só existe nessa relação proporcional. "Uma tampa de caneta está para uma caneta assim como um chapéu está para uma cabeça". Essa é a parte desenvolvida da analogia "cadê minha tampa de minha cabeça" ao procurar meu chapéu. Exemplozinho meio fajuto, mas talvez, dê para entender. Não há nenhuma relação concreta e real entre tampa e chapéu. São coisas diferentes. Mas, ao estabelecermos uma analogia, criamos uma relação que é real enquanto dure. No Psicodrama e todas as atividades socionõmicas, as dramatizações são analógicas. Elas não são "reais'. Ali, no palco, durante a cena, se estabelece uma relação de proporcionalidade, de analogia, entre o que houve, entre o que se teme, e aquela cena. E nesse momento faz sentido. Há uma verdade poética, como dizia Moreno. A cena psicodramática é "um nada que é tudo".

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...