Outro dia conversando com uma paciente apareceu uma dicotomia inesperada. O seu parceiro era uma excelente companhia, mas não era companheiro. Após o termino da sessão fiquei refletindo. Ser companheiro/a, ser companhia. Ambas têm sua etimologia na palavra pão, panis: o que compartilha o pão. Então o que difere? o que faz a diferença? Vamos pensar. O que seria uma companhia? Alguém que compartilha socialmente, alguém que tem uma boa conversa, alguém que topa tudo para se divertir, alguém que convive fácil em todos os círculos de amizade. E o que seria ser companheiro/a? É estar ao lado, alternando e invertendo papeis, é poder sentir o outro com a mesma sinalização afetiva, é, enfim, poder desenvolver uma relação télica. Então, a companhia é reconhecida no universo social O companheirismo é reconhecido numa relação de proximidade afetiva.
quarta-feira, 21 de junho de 2023
terça-feira, 13 de junho de 2023
Antonio, Fernando, Moreno
Hoje é 13 de Junho. Santo Antonio. De Lisboa e de Pádua. Meu onomástico. St. Antonio nasceu como Fernando. Ao ingressar na Ordem Franciscana tomou o nome de Antonio. É considerado pelos católicos como protetor de causas difíceis, buscador de parceria amorosa. E hoje é aniversário de nascimento de Fernando Pessoa, em 1888. Batizado como Fernando Antonio Nogueira Pessoa. Há um verso dele: "Todo começo é involuntário". Interpretar poesia é uma armadilha e uma traição ao poeta. Poesia sente-se. Com a cabeça e o coração. Então, para mim, esse verso remete à experiência psicodramática. Para mim, sugere que há de se aproveitar s coisas como as coisas se apresentam. Não se pode produzir o grupo ideal, o mundo ideal. Os começos são involuntários, são espontâneos, mas sua continuação necessita de criatividade. Conduzir uma atividade psicodramática qualquer com planos elaborados, roteiros a serem seguidos, sequencias de aquecimento pré-determinadas, ou seja, planejar uma atividade de Psicodrama, retira dela a experiência fundamental: Deixar-se conduzir pelo grupo. Moreno dizia: "Throw away the script". "Jogue fora o roteiro". Isso é aceitar o "involuntário" de Pessoa. Entretanto, isso tendo sido aceito (e aceitar isto é a espontaneidade moreniana), sua continuidade necessita da criatividade para melhor levá-la a cabo. Antonio, Fernando, Moreno. Buscador de parceria, inícios involuntários, espontaneidade, vínculos.
sábado, 27 de maio de 2023
Borges e Moreno
Talvez, junto a Fernando Pessoa e Herman Hesse, Jorge Luis Borges, seja um dos alicerces de meu sentir e pensar. Em um de seus grandes contos ele escreve: "O futuro não tem realidade a não ser como esperança presente, que o passado não tem realidade a não ser como lembrança presente." (Tlön, Uqbar e Orbis Tertius). Como sempre, o artista, o poeta chega primeiro e diz melhor todas as nossas verdades científicas. Esse período de Borges define toda a essência do pensar psicodramático. Zerka Moreno, companheira de Moreno e a grande sistematizadora da teoria psicodramática, em suas dramatizações sempre e sempre insistia pela contínua atenção à presentificação do protagonista e egos auxiliares. Usar o tempo presente, sempre. Nossas histórias de aventuras, infantis ou não, sempre começam por "Era uma vez" ou "Há muito tempo numa galáxia distante" ou "Cinderela era uma órfã" ou "Quando era pequeno" ou "quando eu crescer" ou "Quando for independente" ou "Quando eu for feliz". As nossas histórias são narradas no tempo passado ou num tempo futuro. No Psicodrama, seguindo Borges e Moreno, tudo no palco se passa no presente. As histórias não são contadas, nem no pretérito nem no futuro. Não são narradas, são dramatizadas, são vivenciadas, são atuadas "no como se". Mesmo o sonho não é contado. É dramatizado no presente desde o seu início. Todo o sonhado torna-se o vivido. São aquilo que Moreno chamava de verdade poética. O palco psicodramático é como se fosse uma máquina do tempo às inversas: não vai ao passado ou ao futuro, torna o futuro e o passado presentes. Essa é a razão principal do aquecimento, etapa inicial de toda atividade socionômica: trazer os membros do grupo para o presente e ajudar ao protagonista a se fundar no presente.
quinta-feira, 18 de maio de 2023
Moreno entra em cena
Fernando Pessoa escreveu: "Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra coisa todos os dias são meus". Num ano civil comum, a data de morte de Moreno - 14 de maio - vem primeiro do que seu nascimento -18 de maio de 1889. Quando nasceu, como todos, era só um desejo e uma promessa. Fernando pessoa diz "todo começo é involuntário". Em seu início ele era um improvável filho de comerciante sefardita. Ao fim da vida, Moreno. Como todos os seres humanos somos construções de acasos, oportunidades e talentos. Moreno tornou-se isso: acasos e genialidade. E todos os dias foram dele.
domingo, 14 de maio de 2023
Moreno sai de cena
quarta-feira, 10 de maio de 2023
E por que não?
Em 1968 Caetano Veloso lançou Alegria, Alegria. Seus últimos versos dizem: "Por que não, por que não?". A resposta "porque sim", vem muitas e muitas vezes de quem detém alguma forma de autoridade, parental, educacional, laboral. A pergunta de Caetano é um dos núcleos da atividade psicoterápica psicodramática. O "porque sim" corresponde ao que nós chamamos de cristalizações, visões conservadas, imutáveis, congeladas, inquestionáveis, da realidade. A busca do psicodrama pela Criatividade e Espontaneidade é o contínuo exercício do "por que não?". Por que não experimentar algo novo, uma atitude cênica que substitua a atitude existencial, já cristalizada, no palco. Experimentar sair do inquestionável e questionar. Experimentar sair do imutável e mudar, experimentar sair da conserva cultural e vitalizar a existência. O Psicodrama experimenta, questiona, in-comoda, tira do já acomodado (que nunca é cômodo), reconta histórias já tornadas históricas, experimenta o riso em lugar do choro, o choro em lugar do cínico agir. O Psicodrama não parte de ideias pré-concebidas, mas ele as questiona, ele as expõe a um outro olhar. Os problemas existenciais muitas vezes são histórias contadas e recontadas e sempre de um mesmo jeito. Se, quem conta um conto acrescenta um ponto, ao não modificarmos jamais nossa própria narrativa vital, somos expostos e vivenciamos um looping contínuo. É o tema do filme "Feitiço do tempo". Todo e cada dia é o mesmo dia. Como dizia Mário Quintana, "Quem faz um poema salva um afogado". Psicodrama pode fazer poesia.
quinta-feira, 27 de abril de 2023
Experimentar e refletir
Em todas as atividades de Psicodrama, Sociodrama, Teatro Espontâneo que realizo inicio sempre dizendo só haver duas regras: ninguém é obrigado a fazer coisa alguma, mas, antes de desistir experimente. Experimentar é, verdadeiramente, dedicar-se a vivenciar aquele instante. Não apenas tentar. Tentar, o verbo tentar, já traz embutida a concepção de se estar de "pé atrás". Tentar algo não é, decididamente, experimentar algo. Após a verdadeira experiência vem o momento de reflexão, de ponderação, de medição de ganhos e perdas. Depois desse instante reflexivo surge a possibilidade da decisão: continuar ou para e fazer algo diferente. Nos atos psicodramáticos, sociodramáticos ou de teatro espontâneo, o aquecimento realizado adequadamente propicia a experiência real e profunda da dramatização. E em cada momento, o Diretor/condutor pode interromper e sinalizar ao protagonista ou ao grupo que reflita e decida se seguiremos pelo mesmo caminho ou experimentamos outro. Mas, não apenas no palco psicodramático o experimentar e refletir são as ferramentas existenciais fundamentais. Da vida experimentada na dramatização do palco psicodramático à vida vivida nos palcos da vida. Experimentar, tão só, sem refletir, é bater cabeça, ficar sujeito aos ventos e tempestades das escolhas. Refletir sem experimentar é estagnar-se no marasmo do pensamento e raciocínio. Experimentar e refletir.
sexta-feira, 14 de abril de 2023
Papéis, papéis
"Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte."
Terra dos homens/Antoine de Saint-Exupéry
Penso que Exupéry falava de papel no sentido de propósito. Mas, no Psicodrama, papel tem outra conotação, próxima e distante do uso que se faz em teatro e cinema. Nestes, papel é quase equivalente a personagem. Embora possamos dizer que uma personagem pode desempenhar vários papéis na peça ou filme. Já no Psicodrama há algo disso, não sendo isso. Papel é um conceito psicodramático do somatório de falas e comportamentos que nos surgem numa relação e em complementaridade do contra papel. Os dois papéis se complementam sendo extremidades de um mesmo vínculo. Serem complementares significa que um é criado em função do outro. Por analogia, uma tampa está para a caneta assim como o filho está para uma mãe. Um só tem funcionalidade em razão da existência do outro. Na relação real, imaginária ou psicodramática. Portanto, a essência da ideia de papel é sua diversidade e flexibilidade. Mais vínculos, mais papéis. poder transitar entre papéis tem seu oposto na cristalização dos papéis. Em que o individuo congela um ou poucos papéis, transformando seus complementares reais em complementares imaginários. Quem cristaliza, p.ex. o papel de filho transforma todas suas relações em relação parental/filho, simplificando. Flexibilidade (para transitar entre os papéis) e multiplicidade vincular (para ter um conjunto universo de papéis, maior).
domingo, 9 de abril de 2023
A passagem
Hoje acordei com saudade de um primo bem mais velho que morreu no Chile em !971. Foi um dos poetas chamados de Geração Mapa no final da década de 50 na Bahia. E uma poesia dele, entre várias que, na distancia de 14 anos de diferença de idade, sempre me marcaram, há uma, em particular:
Pedra e musgo. Silenciosa paz, sombria quietude.
árvores mortas, troncos sazonados, berço e ataúde do mistério vital.
árvores vivas, salmos coloridos, anseios góticos arborizados no interior de estranha catedral.
A par das poderosas imagens criadas pela sua poética, do ritmo quase gregoriano medieval, há essa construção: pedra e musgo.
No Psicodrama há uma palavra, Conserva, que tem um conceito original, embora a palavra seja comum. Na acepção habitual conserva é algo feito para durar, para não ser decomposta pelo tempo. Assim é com as conservas alimentícias. Para o criador do Psicodrama, Moreno, Conserva Cultural é uma produção qualquer da cultura humana que se imobiliza ou é imobilizada. Um livro, por exemplo, enquanto está sendo gestado é algo vivo em constante mutação (Não é, Dani?). Após concluído ele não mais pertence ao autor e sim a quem o lerá. E é nesse ato de ler, por exemplo, que o conceito de conserva cultural pode ser melhor explicado. Pode-se repetir infinitas vezes um poema de Pessoa ou Borges, sempre como um poema de Borges ou Pessoa. Enquanto assim for, será uma conserva cultural. Mas, ao lermos um livro qualquer e ele ser transformado pela minha vivência, deixando de ser apenas um ícone conservado, voltará à vida. Moreno insistia que a vida precisa ser vivida dando vida às conservas culturais. Olhar a Mona Lisa como "A Mona Lisa", à distancia, sem nos apropriamos dela, sem dela fazer parte nossa, é uma conserva cultural. Quem faz essa transformação, quem vivifica essas conservas é a nossa espontaneidade/criatividade. Ela é a força vital que faz que sobre a pedra, morta e conservada, nasça o musgo vivo em transformação.
sexta-feira, 31 de março de 2023
Quem e o que
Algo que aprendi há muito tempo é que o instrumento sozinho nada é. A mão que o utiliza é que determina se será um instrumento eficaz ou não, construtivo ou não. Assim é na Medicina. Em grego Farmakon significa remédio e veneno. Porque ele pode ser ambos. Uma cirurgia não é feita pelo bisturi e sim pela mão do cirurgião. O remédio auto prescrito pode ser grandemente lesivo à saúde paciente. O ECT pode ser um instrumento heroico para um paciente com depressão refratária e ideação suicida presente. O ECT foi usado nos Gulags como instrumento de repressão. Se no uso do instrumento médico de tratamento não estiver envolvido vieses religiosos, morais ou de outras matizes, o profissional é responsável pelo seu uso. No âmbito da área psiquiátrica há os remédios e outras terapias biológicas que têm fundamentação científica e os que não a têm. No âmbito das psicoterapias, quase todas elas não foram criadas com a determinação de serem validadas. A validação é um processo que exige replicabilidade, protocolo de uso e outras exigências que quase todas as psicoterapias não podem cumprir. Mas, como as psicoterapias são mais destinadas aos seres humanos que são portadores de problemas psiquiátricos e não, propriamente, aos sintomas e sinais psicopatológicos, aquele que as utiliza precisa conhecer o terreno que está pisando para lidar com suas ferramentas psicoterápicas. A exceção à essa quase regra é a TCC por ter sido criada por Aaron Beck com a a meta de ser validada, ajustando-se às exigências formais. O Psicodrama, como todas as formas psicoterápicas não é uma camisa de força terapêutica. Ele não é aplicado independente do que o paciente apresenta. Como todas as formas psicoterápicas, a ajuda (terapia em grego é ajuda e não cura) ao ser humano caminha lado a lado com os tratamentos mais responsivos sintomaticamente. O conhecimento nunca é suficiente. O que atrapalha são as pretensões de conhecimento hegemônico. Em toda atividade profissional há profissionais com conhecimento dos efeitos e limites de seu instrumento e profissionais que só superficialmente conhecem seu próprio instrumento e seus limites. Essa é toda a diferença.
segunda-feira, 27 de março de 2023
Hoje é comemorado o Dia Mundial do Teatro. E como dizia Augusto Boal, "Todos somos Teatro. Alguns fazem Teatro". Como sou parte de um método psicoterápico, o Psicodrama, que tem suas raízes fincadas no Teatro, pensarei aqui como Psicodramatista no Dia do Teatro. Em geral, o texto das peças ou sua forma de execução são denominados de forma diferentes. Drama, tragédia, comédia, farsa, tragicomédia, burlesco. O texto ou a forma de execução. Um texto pode ser criado, escrito, para ser tragédia, mas pode ser montado como farsa ou comédia. No Psicodrama, de resto, não usamos essa terminologia classificatória. O texto e a dramatização, no Psicodrama, são do protagonista e criado por ele. A forma com que se desenrola essa dramatização pode ser ser sugerida pelo Diretor (o coordenador do grupo) ou ser desenvolvida pelo próprios atores (egos-auxiliares, no Psicodrama) e protagonista. Mas, o protagonista não é quem se coloca na linha de frente em primeiro lugar. É quem encarna e vive, em sua história, a história-tema daquele grupo, naquele momento, Assim, o protagonista é alguém que emerge do grupo, mas leva o grupo em sua dramatização. Mesmo sendo algo pessoal, naquele momento, caso ele seja o protagonista, todo o grupo sente-se contemplado. O grupo vê-se no palco. Aquela história, é sua história. Se assim não for, ele será um falso protagonista, até um bode expiatório. Estará no palco embora não sendo a voz do grupo, encarnada. No Dia Mundial do Teatro, numa época em que não está claro que tipo de cena está no palco, reverencio essa forma profundamente humana de ser. E sinto-me honrado, como Psicodramatista, de ter tão nobre origem.
sábado, 18 de março de 2023
MPB, Moreno, Corpo
Há uma belíssima música/letra do grande cantor e compositor e esquecido Taiguara chamada Hoje que diz em sua letra:
"Hoje
Trago em meu corpo as marcas do meu tempo
Meu desespero, a vida num momento
A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo"
Há um ensinamento de Moreno, contado por Zerka Moreno, que diz:
"O Corpo lembra quando a mente esquece"
Tanto o poeta quanto o psicoterapeuta perceberam a mesma coisa: Em nosso corpo as vivências se inscrevem. "Quero ficar no seu corpo feito tatuagem" (Tatuagem, Chico Buarque). Augusto Boal dizia ser o corpo o nosso palco. Por isso, baseado nisso, as dramatizações podem alcançar um nível profundidade de uma vivência mais amplo que a recordação verbal dela. No Onirodrama, Moreno sugeria que a pessoa não contasse o sonho, mas assumisse a mesma postura ao dormir, iniciasse a contar e passasse a atuar o sonho e não contá-lo. O corpo vai agindo, lembrando sem lembrar. Nas dramatizações o mesmo acontece. Uma história contada tende a ser repetida de forma cristalizada. Ao se transpor para o palco, o corpo estando presente traz consigo a memória inscrita dos movimentos e, ao serem atuados, trazem de volta algo da vivência original, o que permite a Moreno dizer que "as segunda vez libera a primeira".
quinta-feira, 9 de março de 2023
utopias
Pensando aqui sobre a palavra Utopia. Neologismo criado por Thomas More. Significando U (nenhum, não existente) Topos (lugar). Seu livro fala de um país justo, igualitário, de modo racional de vida. Mas, com o tempo, o adjetivo Utópico passou a ter a conotação de ilusório, irreal, fora da realidade. Deixou de ser uma esperança para ser uma crítica pejorativa. O ideal deveria existir como fonte alimentadora de projetos e não como fonte de desânimo.
Vejam essas citações de Moreno:
"No todo, por conseguinte, o experimento sociométrico é ainda projeto do futuro."
"O experimento principal foi visualizado como projeto mundial – esquema bem próximo da utopia, em termos de conceito –, ainda que deva ser chamado à nossa atenção, repetidamente, a fim de que não seja excluído de nossa agenda de tarefas diárias, mais práticas, da sociometria."
"O experimento sociométrico acabará por tornar-se total, não apenas em expansão e extensão, mas também em intensidade, marcando, assim, o início da sociometria política."
Ele coloca, claramente, que seu projeto é utópico, mas (Importante!), ele não pode ser separado das ações cotidianas, "das tarefas diárias". Há um ditado chinês que diz: "Antes de salvar o mundo dê três voltas dentro de casa". Essas são as nossas primeiras tarefas diárias: Nossas relações. A Utopia Moreniana se realiza na construção de relações interpessoais télicas. Do Interpessoal para o Grupal e daí para o Social. Pois, "Que adianta se ganhar o Mundo e perder a alma?". (Marcos,8:36). A alma Moreniana é relacional. Eu sou com Você. Ubuntu. Nós nos construímos e nos constituímos. A Utopia Moreniana, talvez ao contrário da Utopia de More (lugar que não existe num tempo ignorado), seguindo os passos Psicodramáticos, ela se realiza nas "tarefas diárias, práticas", no Aqui e Agora.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023
Gramática Psicodramática II
Há uma música do repertório de Zé Ramalho chamada Sinônimos. Nela o último verso diz: O Sinônimo de Amor é Amar. O sinônimo de um substantivo ser um verbo poder ser um verbo é muito curioso. Mas, faz sentido. O verbo traduz uma ação, um processo ou um estado. O substantivo Amor individualiza o nome do objeto. O verbo Amar o coloca em relação a outro alguém ou alguma coisa. O verbo Amar exige complemento direto ou indireto: ama-se alguém ou a alguém. O próprio livro de Mario de Andrade Amar, verbo intransitivo, paradoxalmente reforça isso pela situação de impossibilidade de haver uma relação entre os dois personagens. O Psicodrama dramatiza verbos de ação ou processo. Não seria possível dramatizar o substantivo Amor, substantivo. Mas é possível dramatizar o amar, verbo, de alguém por outro alguém. No caso do livro de Mário de Andrade seria possível dramatizar a intransitividade daquela relação, sua impossibilidade, mas seria do verbo Amar. E o que fica disso tudo? Ao propor uma dramatização pense sempre num verbo de processo ou ação para traduzir a intenção da cena. Os verbos de ação ou processo colocam, necessariamente, outro personagem em cena e em um contexto. Aparece o drama, o conflito, o palco surge.
sábado, 4 de fevereiro de 2023
gramática psicodramática I
Escutando um álbum de Zé Ramalho parei em uma que diz: O "sinônimo de amor é amar". À parte a poesia desse verso, ele expressa uma verdade psicodramática. Explico: é tentador no palco dramático procurar fazer dramatizações de qualquer expressão do protagonista. Mas, por exemplo, se essa palavra, amor, aparecesse e fosse solicitado ao protagonista para dramatizar o amor, seria impossível. Por que? Amor é um sentimento. Não se pode dramatizar um sentimento. Pode-se representá-lo, simbolizá-lo, denotá-lo, com uma imagem. mas dramatizá-lo, não. Explico outra vez: Drama em grego significa ação, dramatização é a ação de dramatizar. Sentimento não é ação. Só é possível dramatizar-se verbos que relacionam sujeito e objeto em forme de ação. Chorar não é possível dramatizar. Chorar a perda de um parente compõe uma cena possível. Voar não se pode dramatizar. Voar para o palácio do Rei pode ser dramatizado. Há que se transformar adjetivos e substantivos, abstratos ou concretos, em verbos de ação. Amor: imagem. amar a alguém num determinado contexto: dramatização, cena. Essa diferença apontada por Zé Ramalho é uma lição psicodramática.
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