domingo, 22 de dezembro de 2024
Natal e Psicodrama
A origem do Natal está nas comemorações do Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Solstícios são os pontos da trajetória terrestre em que os hemisférios estão mais próximos (verão) ou mais distantes (inverno) do Sol. Assim, para as tradições místicas do Hemisfério Norte, esse período era quando, em seu hemisfério, Dezembro, a inclinação da Terra em relação ao Sol, voltava a se aproximar, quando o Inverno anunciava o seu fim, quando as esperanças de um novo plantio, de um degelo, surgiam, respondendo à expectativa da espera. Nas tradições místicas isso era o símbolo da renovação, do anúncio de um novo tempo. Avatares e deuses eram comemorados nesse dia. Krishina, Mitra, por exemplo. Por isto a tradição cristã aproveitou-se desse simbolismo. Entre nós é o Solstício de verão, dia mais longo, noite, qualquer que seja o tipo de noite, mais curta. E isso que tem a ver com o nosso Psicodrama/Teatro Espontâneo? Nada. E tudo. Moreno, o criador do Método Socionômico (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) era um judeu imbuído das tradições judaicas, principalmente da filosofia hassídica. E esse Hassidismo tinha por base a renovação, a fé na transformação, a esperança de um recomeço. Socionomia, Sociodrama, Psicodrama Morenianos são sempre fundados nessa atitude de mudança, transformação, um novo olhar, uma nova chance, um outro começo. Noites mais e mais curtas, dias e dias mais longos. Que seja assim e assim seja para cada pessoa e para todas as pessoas.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2024
estudante e aluno
Nunca fui professor de alunos. Sempre fui professor de estudantes. Em termos psicodramáticos, toda relação se dá entre papéis complementares. O complementar do aluno é o instrutor. O aluno relaciona-se com a instrução, apenas. O papel complementar do estudante é o próprio conhecimento, o professor é o meio de despertar o interesse e compartilhar experiência. Há uma semana recebo um convite (um presente) de um professor de psicologia. Para dar uma entrevista a um grupo que que apresentaria um trabalho sobre Psicodrama. Tivemos um encontro online, longo. E, como sempre considero importante, marquei um encontro grupal e presencial. Aqui um parênteses. Em, geral, os outros métodos psicoterápicos podem ser apreendidos pela leitura de textos confiáveis. Com o Método socionômico, o psicodrama, considero que, sem a experiência direta de uma atividade psicodramática, torna-se quase impossível apreender-se a essência do método. Um relato de um ato psicodramático, para quem nunca o haja vivenciado, pode ser visto como mágico, mágica ou teatrinho (com esse ar depreciativo, mesmo). E, esse pequeno grupo de cinco estudantes, vivenciou uma sessão psicodramática. E hoje eles apresentaram. Mostro, por orgulho deles e de nosso método, algumas depoimentos: "Resumo de conversa: foi foda pra caramba!", "A turma e o professor demonstraram encantamento e curiosidade sobre a nossa experiência. Foi realmente algo muito rico pra nós, enquanto grupo, mas para turma também, que não fazia ideia de como funcionava o psicodrama na prática", "Foi muito bem aceito pela turma". No começo, fiz uma diferença entre estudante e aluno. E que nunca fui professor de alunos e sim de estudantes. As pessoas, em si, não são uma coisa ou outra. Essa relação vincular se constrói pelos que estão interessados. E, nesse caso, o papel do professor é vital, é essencial. Ele não é o detentor do conhecimento, não é fornecedor desse conhecimento, não é um instrutor de saber. Educar ( em latim ex-ducere, conduzir para fora, algo que já está ali, e não enfiar goela abaixo algo estranho à pessoa). obrigado Luzia, Jessika, Fernanda, Eduardo, Juliane. Estudantes, enfim.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2024
Novamente Poesia
Há um conhecido poema de Robert Frost, The road not taken ( O caminho não trilhado) que faz referência a alguém que chega em uma floresta e há dois caminhos a partir dali. Frost lamenta que sendo apenas um terá que escolher. Ele escolhe o mais convidativo pela textura da grama. Ao fim, ele diz:
"A estrada se partiu no bosque amarelado –
Tomei dos dois caminhos o menos trilhado,
E justamente isso fez a diferença."
"Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference."
E é isto: A escolha faz toda a diferença, e não há como saber como seria o outro caminho caso houvesse sido trilhado. Talvez em universos paralelos possam existir outros Frost que houvessem tomado o outro caminho. Mas, seria o outro Frost. Em cada um dos universos paralelos poderiam existir outros Frost caminhando outros caminhos. Mas, não o mesmo Frost caminhando todos os caminhos. Mas, na imaginação, naquilo que o Psicodrama chama de Realidade Suplementar (que não é tão somente imaginação) é possível experimentar-se COMO SE fossem reais os outros caminhos (os outros mundos possíveis ou até impossíveis) A questão central é qual o nível de aquecimento (isso é o cerne da psicodramatização) que transforma a imaginação simples numa experiência de Realidade Suplementar. O COMO SE acontece quando a experiência afetiva colore de realidade a cena imaginada. É como uma experiência onírica em vigília. Não é, mas É. É como se fosse. É criada para o Protagonista uma (ou umas) realidades que suplementam a então vivida ou imaginada. E isso pode acrescentar ao poema de Frost um toque vivenciado do experienciar. Moreno chamava a isso a Verdade Poética, que não é a dos poetas, mas do próprio protagonista de sua própria história.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2024
O Samba do Psicodrama.
Escutava hoje, Dia Nacional do Samba, Feitio de Oração, de Noel Rosa e Vadico. E hoje, embora seja a centésima milionésima vez que escuto essa canção, escutei um verso de outro jeito: "Sambar é chorar de alegria, É sorrir de nostalgia, Dentro da melodia". E mais de cinquenta anos depois, Gil e Caetano fazem Desde que o Samba é Samba: "O samba é o pai do prazer, O samba é o filho da dor, O grande poder transformador". E contemporâneo à Noel e Vadico, Jacob Moreno criava o Psicodrama. E a que leva esse mashup, essa vitamina de frutas diversas? Várias coisas brotam. Uma, que pode-se dramatizar tudo o que for dramatizável num palco, mas "Dentro da melodia". Há que se respeitar os limites da cena dramática, do palco psicodramático. Sair da melodia, desafinar, corresponde às atuações espontaneístas e não espontâneas. Àquelas ditadas pela impulsividade e não pelo aquecimento específico para a cena. E palco psicodramático, tal como o samba, tem o poder transformador de acolher a dor e o prazer. dando-lhes a oportunidade de serem vistos e percebidos pelos seus outros lados. A Terceira Margem do Rio, diria Guimarães Rosa..
terça-feira, 26 de novembro de 2024
De como o Psicodrama está vivo e atuante em todos os aspectos da Vida.
De como o Psicodrama está vivo e atuante em todos os aspectos da Vida.
Ontem foi a festa, online, do Prêmio FEBRAP 2024, do Congresso Brasileiro de Psicodrama. E contarei como uma história. No primeiro semestre recebo um convite da presidente do Congresso presencial, Graça Campos, para fazer parte da comissão que atribuiria o aludido prêmio. Com a amiga de sempre, Rosana Rebouças, sob a coordenação do amigo de sempre, Devanir Merengué. Ao longo de vários encontros online e mensagens, fomos nos construindo enquanto grupo. Peculiaridades, formas de pensar, maneiras de ser. Enfim, tornamo-nos um grupo com uma tarefa: Não julgar, mas ponderar sobre os trabalhos. E foram chegando. Alguns rápidos, outros demorados. Alguns tivemos bastante tempo para ler. Outros, chegados prestes ao apagar das luzes tivemos que ler sobre pressão do tempo. E fomos conversando, refletindo, ponderando, voltando a conversar, tornando a ponderar (No sentido exato de atribuir peso). E fomos chegando, após longos e vivenciados meses, a um resultado. E apareceu um consenso. Uma luz parecia advir dos ensaios. Uma mesma luz. a luz dos Morenos. A presença corpórea, em carne e sangue, dos autores em seus trabalhos. Uma profundidade abissal de reflexões. Um estender conceitual e denso dos conceitos Morenianos. "Sem os quais a vida (Psicodramática) é nada, sem os quais se quer morrer' (Jobim e Vinícius, com licença poética). Encantamo-nos. A luz Moreniana emitida por eles nos alcançou com a força da verdade humana. E a luz continua. Decide-se que, em vez de premio pecuniário, publicaríamos um livro. Um e-book. Com os cinco autores que representavam e contemplavam todas as facetas psicodramáticas. Todas, mesmo. Tivemos um encontro presencial em que a magia psicodramática revelou-se mais uma vez. O agrupamento de autores transformou-se em um grupo. UM GRUPO. Aquilo que seria um trabalho burocrático transformou-se num ato psicodramático prolongado. O grupo se estendeu além congresso. E veio a noite de ontem. Muitas e muitas pessoas prestigiaram. A direção de Devanir foi minimamente intervencionista. Ele pediu que os autores "vendessem" seus trabalhos. E novamente a magia surge. Os autores são atores de seus papéis. Vimos a construção de cada ensaio em falas de dez minutos. O parto. A dor e a delícia (obrigado, Caetano) de cada partejar. A grande, a enorme, contribuição dos Morenos: O corpo, a mente, o espírito, o amor como ato. "O sinônimo de Amor é amar" (C.Augusto,C.Noam,Paulo Sérgio Valle). Amar é ação de amar. Essa lição do Psicodrama. Autores, Comissão, membros diretoria da FEBRAP, participantes. Todos banhados na magia Psicodramática que transforma atos burocráticos em atos psicodramáticos. A teoria Socionômica vive enquanto pensarmos, sentirmos e agirmos como psicodramatistas. No exercício profissional, nas relações pessoais. Na vida enfim. Aos criadores do livro resta a certeza de que responderam ao tema do Congresso: "Que mundo queremos? Eu, Você, Nós"
sábado, 23 de novembro de 2024
Voltando a Zerka e Moreno
Venho pensando há algum tempo na palavra vivência. Talvez minhas reflexões desgostem algumas pessoas, mas penso valer a pena pensarmos. O grande Millôr Fernandes já dizia: livre pensar é só pensar. Segundo a Marcia Karp, uma das últimas discípulas diretas de Moreno e Zerka, ele dizia sempre "Throw away the script". "Jogue fora o roteiro". Pela própria essência do Psicodrama e de todas as ferramentas Socionômicas, essa essência é contrária a planejar, ter roteiro, pressupor, criar uma meta a ser alcançada, ter um final desejado e programado. É tudo que difere das chamas vivências. Elas têm título, já indicando o caminho a ser seguido e o fim a ser alcançado, têm roteiro já definido, têm aquecimento planejado. Chegam ao fim desejado, mas diferem de um Psicodrama aberto (e de todas as atividades socionômicas), em que o aquecimento decorre do mapeamento do agrupamento, em que o tema protagônico vai se desenvolvendo e sendo criado pelo grupo, em que o emergente grupal se destaca na peneira espontânea, em que o protagonista o é por, naquele instante, naquele momento, naquele já então grupo, sua história ter pedaços e partes da história de todos naquele Momento Moreniano. O Psicodrama aberto (e tudo o mais em Socionomia), é arriscado, vive ao sabor do aquecimento, do grupo e do Condutor. Ele chegará sempre ao que naquele pedaço de tempo foi ´possível chegar naquele grupo, naquele recorte de tempo, naquele flash de vida. "Throw Away the Script".
quinta-feira, 14 de novembro de 2024
TE e Psicodrama
Regra geral, ao falarmos de Teatro Espontâneo (TE) o que sinto que as pessoas escutam é algo como lúdico, interessante, mas, Pra Quê? Se observarmos os textos psicodramáticos mais iniciais, o TE é colocado como um dos tipos de intervenção sociátricas, ao lado do Psicodrama, Axiodrama e Sociodrama. O mestre Moysés Aguiar tinha outro ponto de vista, do qual comungo. Dizia ele que o TE seria o grande guarda-chuva da socionomia, e sob ele estariam os outros tipos de intervenção. assim, o TE aplicado à história pessoal seria o Psicodrama. O TE aplicado a grupos de papéis sociais seria o Sociodrama e o TE aplicado a temas éticos teríamos o Axiodrama. E que vantagens poderíamos ter ao assim pensarmos?. O TE insiste sempre em alguns pontos. Aquecimento contínuo, estética e ritmo. E, na prática, observando e participando de inúmeros atos socionômicos, percebemos que esses três focos, em geral, não são observados e nas direções não se vê essa preocupação. Por que o aquecimento contínuo? Porque aquecer um grupo ou um protagonista ou um ego auxiliar não é uma etapa que, uma vez acontecida, já está garantida. Durante todo o desenrolar do Ato manter o grupo ou protagonista ou ego auxiliar aquecidos, ou seja, centrados na cena, impede que a psicodramatização seja transformada em mera encenação, sem verdade dramática. Quanto ao ritmo, vemos que muitas e muitas vezes o Diretor dirige a cena sem observar o impacto da cena no grupo, sem perceber que a cena está lenta, enrolada, chata, e o grupo já se desaqueceu, se desligou do palco. E estética? Há sempre várias formas de se fazer algo, mas há formas mais bem acabadas, mais redondas, mas cuidadas. E essas formas têm mais impacto que as formas mal ajustadas, mal acabadas. Nenhum Diretor de Psicodrama precisa, necessariamente, fazer o Teatro espontâneo. Mas, todos se beneficiariam da visão de Moysés Aguiar. Minha anual e eterna homenagem ao Mestre em seu nono ano em que saiu do palco, neste dia.
quarta-feira, 30 de outubro de 2024
Pessoa, palavras, descrições
Pensava comigo que estamos perdendo o uso de palavras e nos deixando, cada vez mais, usar palavras extremas. esquecendo as nuances intermediárias. Isso veio à mente ao ler poesia e como o poeta consegue construir, em nós, o estado de espírito análogo ao dele ao escrever. Palavras, neologismos, formas diversas de pintar essa paisagem mental, como dizia Fernando Pessoa. Quando vamos rarefazendo nosso vocabulário pessoal, ao mesmo tempo, vamos retirando as nuances de cor e vendo cada vez mais em preto e branco, ou tons de cinza. O discurso pobre em palavras é pobre em nuances, e aglutina coisas variadas numa mesma caixa. O médico clínico, o psiquiatra , o psicoterapeuta, percebe como a autodescrição ou contação de uma história torna-se superficial. Nosso Psicodrama, com o recurso da Psicodramatização ou da simples formação de imagens, pode trazer ao protagonista uma visão de tonalidades diferentes, não descritas antes pela linguagem mais sumária. "Não é bem isso", "não é bem assim", "não, não, é muito menos ou muito mais". A poesia, a literatura, a arte, acrescenta mais nuances e variações à descrição da paisagem mental de Pessoa.
quarta-feira, 16 de outubro de 2024
Palco
"Minha alma cheira a talco, como um bumbum de bebê". Ao falarmos a palavra palco essa musica de Gil vem à cabeça. O palco no psicodrama é um dos instrumentos fundamentais para seu exercício pleno. Pode ser um palco como o de Moreno em Beacon, pode ser um praticável, um espaço delimitado fisicamente ou consensualmente. Mas um palco. Existe uma intencionalidade no uso do palco, similar ao Teatro: O palco amplifica a cena, torna-a o centro das atenções, dá relevo, profundidade ao desenrolar cênico. porém, além disso, há um plus fundamentado na teoria socionômica moreniana. No palco prevalece a verdade dramática, a verdade poética, a fantasia, a realidade suplementar. Na plateia prevalece a realidade objetiva, a consensual do grupo, a "real". Assim, entrar e sair do palco numa atividade Socionomica tem um significado muitíssimo mais profundo. É entrar e sair da Realidade Suplementar, é atravessar a fenda, a separação entre realidade "real" e realidade dramática. É poder, como adultos, voltar a transitar entre esses dois mundos. A nossa pretensa maturidade, mais que uma fissura, cria um verdadeiro abismo intransponível entre o mundo que vivemos e o mundo fantástico, suplementar. Só tendo um palco e conhecendo seu poder instrumental poderemos usar adequadamente o recurso do Espelho. Ao sairmos do palco e vermos a nossa cena reencenada, a vemos da plateia, a vemos do mundo "real", a vemos como um outro qualquer a veria. Ou seja Nos vemos em ação. Cheira a talco, cheira a bebê, nos remete à infância, à origem de tudo, ao status nascendi de nossas cenas. Palco.
segunda-feira, 7 de outubro de 2024
Puxa!
Voltando a um tema algo complicado no Psicodrama. Há algum tempo usa-se a palavra empatia com muita frequência. "Vc não tem empatia", "vc precisa desenvolver empatia". a forma como é dita e cobrada lembra um atributo moral ou uma virtude ou m defeito em sua ausência. etimologicamente, empatia vem do grego em (dentro) + pathos (sentimento). O que seria "sentir de dentro" uma tradução aproximada. Até hoje em Grécia é usada nesse sentido. A capacidade de colocar-se no lugar no outro sentindo aproximadamente o que ele (o outro) sente. Em fenomenologia não não é usada como um atributo ou virtude moral. É uma ferramenta de investigação. E essa ferramenta pressupõe um preparo para ser exercida. esse preparo é uma profunda e honesta depuração dos prejulgamentos, dos preconceitos. com isso feito no maior rigor pode ser exercida como ferramenta diagnóstica. Mas, isso sempre exige que haja uma validação por parte do investigado. Foi dessa forma que o psiquiatra e filósofo Karl Jaspers trouxe para a psiquiatria o conhecimento da fenomenologia. E Moreno? Ele estava desenvolvendo um conceito de empatia, mão dupla. Essa empatia recíproca, base da relação entre papéis, ele chamou de Tele. Algo que, à distância permitia que duas pessoas em relação pudessem se perceber com mais nitidez. Ele expressou isso num poema escrito muito tempo antes do próprio conceito: Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face, e quando você estiver perto arrancarei seus olhos e os colocarei no lugar dos meus; arrancarei os meus olhos e os colocarei no lugar dos seus; então verei você com os seus olhos e você me verá com os meus olhos. Essa empatia dupla de Moreno, a Tele, não seria mais um instrumento investigatório, mas sim a base de compreensão do das escolhas soicoométricas. Ou seja, é a possibilidade de nos reconhecermos com os mesmos sinais que possibilita uma relação saudável. Isso significa que se eu e outra pessoa nos vemos e nos percebemos como inimigos, p.ex., isso é télico. porque seria pouco saudável se o vejo como inimigo e ele como amigo, simplificando. Para que não se transforme em um atributo que uns têm e outros não, que uns têm muito e outros o têm pouco, Moysés Aguiar nos ajudou trazendo a ideia de projeto cênico comum. Ou seja, numa peça, em um palco, os personagens precisam se complementar. nas relações, caso eu esteja num drama romântico e a outra pessoa em uma comédia satírica seria um projeto não télico. É algo da construção das relações, não é uma qualidade pessoal. As relações é que podem ser télicas ou não télicas, e não as pessoas envolvidas.
terça-feira, 1 de outubro de 2024
E, finalmente, o que é Psicodrama?
Hoje estive com uma turma de psicologia para fazermos uma manhã de Psicodrama. A maioria nada conhecia de Moreno e Psicodrama. Como manhã de informação e formação foi muito produtiva. mas, ao final, duas pessoas me questionaram sobre a palavra adequação que leram sobre espontaneidade e criatividade. A dúvida deles: É algo de enquadramento em normas? É para ajustar as pessoas às normas sociais? Pena que foi entre nós três e a professora que me convidou. Pena que os outros já haviam saído. Mas, como talvez eles estejam me lendo em algum momento, e como sei, que essa questão sempre e sempre perpassa quem entra em contato com Moreno e Cia, parece ser agora um bom momento. O pensamento do psicodramatista é na Cena. Não apenas na cena desenrolada em um palco explícito, não apenas no palco psicodramático. Sempre que os papéis entram em relação, nós temos uma cena. E quando nos referimos á capacidade de reagir ou agir de forma adequada, absolutamente não é pensando numa adequação moral. Mas, à cena que está se desenrolando naquela relação. O espontaneísmo seria a resposta impulsiva, levando em conta, tão somente, os desejos pessoais. A reação ou ação criativa leva em conta o outro em sua resposta. É a mais adequada àquela cena naquele encontro. Daí porque Moreno referia-se à respostas cristalizadas, conservadas (no jargão psicodramático). A resposta tornada habitual, fixa, imutável. A ação repetida sem outras razões que a repetição. A história contada numa narrativa imutável. A Socionomia Moreniana busca que criemos e experimentemos outros pontos de vista, outras formas de agir. A Socionomia visa IN-Comodar. Sair da comodidade conservada, do angulo de mirada fixo, da opinião congelada, do sentimento fossilizado. Esse é o objetivo. Nada tem de moralizante, normalizador, nem estímulo à impulsividade. É o espaço do experimentar e refletir.
segunda-feira, 16 de setembro de 2024
Congresso e reflexões
Depois de um congresso de Psicodrama muitas coisas vêm à cabeça. Psicodrama é um Método, lastreado numa Filosofia. Psicodrama (Socionomia seria o termo mais correto, mas o hábito faz o monge). Sem isso o Psicodrama transforma-se apenas numa aplicação de técnicas. O ser humano é um Ser sempre em relação. Essa é a base. Portanto, o Outro, o papel complementar em múltiplos papéis, é tão nosso constituidor quanto o somos dele. O Outro precisa ser visto como Tu, não como o ele, tão só o ele. mas, repito, como um Tu. Alguém a quem complemento e que me complementa. Simples. mas complexo. Exige a disposição, o afeto, a possibilidade de inverter os papéis, assim ganhando o acréscimo da visão do outro. Ele é meu Tu e eu posso seu o tu dele. Eu sou o outro do outro. Tudo isso não é Método. É a filosofia Moreniana que, perdida, despersonaliza o nosso fazer num mero exercício técnico e estético. Quando faço essa observação é para lembrar que o Psicodrama, a Socionomia, a filosofia Moreniana, são para o dia-a-dia, não apenas para o consultório. Pode-se aprender psicodrama, mas há que se tornar Psicodramatista.
segunda-feira, 26 de agosto de 2024
A agulha do real
Uma das coisas que me incomodam e surpreendem nas redes é a contínua cobrança de que tudo é possível, tudo só depende da pessoa, que a derrota é sempre consequência de inação pessoal. Surpreso porque uma das coisas importantes num trabalho psicoterápico é o reconhecimento dos limites. Claro, esses limites podem ser imaginários, serem criações pessoais. Mas há os limites impostos pela realidade. Reconhecer o limite não é ser limitado por eles, necessariamente. Simplesmente, é saber contra o que está brigando. A falta do limite gera o espontaneísmo das ações. No Psicodrama, onde a fantasia é estimulada, o próprio palco exerce um limite à ação espontânea. Fora do palco é a realidade "real". No palco é a realidade dramática, a nossa chamada realidade suplementar. Ao se montar uma cena delimitando-se, por exemplo uma parede, podemos atravessá-la por uma ação magica, mas sabemos que há uma parede. Se porventura, o protagonista a ultrapassa, impulsivamente, a cena será remontada para incluir a solução espontânea, porém adequada ao real. O que vemos nas redes é um estimulo à ação impulsiva junto à culpabilidade pela não obtenção do que deseja. Como se dissesse: você pode tudo, se não consegue é por fraqueza, falta de persistência, falta de vontade. Ou seja, o mundo é onipotentemente seu. E o contrário, o antônimo de onipotência é impotência, é a sensação de fracasso. Por isso volto ao mestre Gilberto Gil: "A agulha do real nas mãos da fantasia", em A Linha e o Linho. É isto.
segunda-feira, 19 de agosto de 2024
"Capricho"
Há expressões de minha infância: "Ser caprichoso", fazer as coisas "No capricho". Significava ser cuidadoso no que fazia, fazer o melhor possível, não ser desleixado, alinhavando as coisas. E há o perfeccionismo. "Não consigo nem pensar em errar!", frase de uma paciente O temor de cometer um erro torna-se tão grande que o perfeccionista torna-se lento, fazendo e refazendo, tornando-se, na prática, improdutivo ou pouco produtivo. E isso é o oposto de ser "caprichoso", "cuidadoso". A rigidez e imobilidade são sempre, em a natureza, sinônimos ou indicadores de não vida. A Vida é mudança, flexibilidade. O "caprichoso" sente o prazer do fim de sua obra, goza de sua ação. E as pessoas presas do medo do erro, perfeccionistas, são ou tornam suas vidas rígidas, imóveis, desnaturadas. E com isso não usufruem do prazer do ato bem feito, do ato realizado. Estão sempre esperando algo melhor do que conseguiram, estão sempre deixando de se gratificar, vivendo num contínuo do "podia ser melhor". E, se me perguntarem em que o Psicodrama (ou qualquer outra forma psicoterápica) poderia ser útil? Permitir que aquela pessoa perceba ou descubra seu temor de errar, sua necessidade de se proteger da crítica antecipada, sua permanente necessidade de controlar o futuro. Tarefa que, por ser impossível, torna o perfeccionista um candidato à experiência de sentir-se derrotado, ao longo de sua vida.
terça-feira, 6 de agosto de 2024
Propaganda e Psicodrama
Gosto de observar propaganda. Elas, como são destinadas a vender um produto, captam a essência do Zeitgeist , do espírito do tempo, de forma pragmática. Vi um outdoor (em português (???), em inglês seria billboard). Lá estava: "Qual a diferença entre homens e ícones". O produto a ser vendido era um curso para transformar as pessoas em celebridades (?), em "ícones". Estava de carona e tive tempo de ler e pensar. Ícone em grego é imagem, estátua. Na igreja Bizantina aqueles quadros são chamados de Ícones. E pensei. No Psicodrama privilegiamos a flexibilidade, a mudança, e chamamos de conservas culturais àquelas situações que são tomadas sempre de uma mesma maneira, não são recriadas. A conserva é o que se mantém inalterado, fixo, estável. A Espontaneidade Criatividade permitem que se reelabore a conserva, lhe dê uma novo uso, uma nova saída, uma nova e adequada resposta, em lugar da mera repetição. A conserva cultural cria a cultura ( Que aliteração!), mas sem ser renovada e recriada conduz à imobilidade. Aí ela se torna uma questão psicodramática. As respostas emocionais e comportamentais conservadas constituem (Outra aliteração!), os sintomas, as nossas queixas humanas. E aí? que tem a ver com o outdoor? Uma imagem é uma conserva cultural. Algo fixo, preservado, sempre o mesmo, mas submetido ao desgaste temporal. O que me vem à cabeça é a cena bíblica da mudança da mulher de Lot em uma estátua de sal. Imóvel no tempo, sem ação, sem vida, sem autonomia. Uma condenação pela violação de uma ordem. E, hoje buscamos nos transformar em ícones. Presos à nossa imagem exposta e consumida nas chamadas redes sociais (redes comerciais). De punição tornou-se meta, símbolo de sucesso. Ser condenado a uma eterna e imutável imagem, sem escolha, sempre presos a si, sem vínculos. Para o Psicodrama, seria o nosso antidestino.
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Experimentar e refletir. Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo. Há mais de trinta anos...
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