quinta-feira, 27 de abril de 2023

Experimentar e refletir

Em todas as atividades de Psicodrama, Sociodrama, Teatro Espontâneo que realizo inicio sempre dizendo só haver duas regras: ninguém é obrigado a fazer coisa alguma, mas, antes de desistir experimente. Experimentar é, verdadeiramente, dedicar-se a vivenciar aquele instante. Não apenas tentar. Tentar, o verbo tentar, já traz embutida a concepção de se estar de "pé atrás". Tentar algo não é, decididamente, experimentar algo. Após a verdadeira experiência vem o momento de reflexão, de ponderação, de medição de ganhos e perdas. Depois desse instante reflexivo surge a possibilidade da decisão: continuar ou para e fazer algo diferente. Nos atos psicodramáticos, sociodramáticos ou de teatro espontâneo, o aquecimento realizado adequadamente propicia a experiência real e profunda da dramatização. E em cada momento, o Diretor/condutor pode interromper e sinalizar ao protagonista ou ao grupo que reflita e decida se seguiremos pelo mesmo caminho ou experimentamos outro. Mas, não apenas no palco psicodramático o experimentar e refletir são as ferramentas existenciais fundamentais. Da vida experimentada na dramatização do palco psicodramático à vida vivida nos palcos da vida. Experimentar, tão só, sem refletir, é bater cabeça, ficar sujeito aos ventos e tempestades das escolhas. Refletir sem experimentar é estagnar-se no marasmo do pensamento e raciocínio. Experimentar e refletir. 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Papéis, papéis

 "Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte."

Terra dos homens/Antoine de Saint-Exupéry

Penso que Exupéry falava de papel no sentido de propósito. Mas, no Psicodrama, papel tem outra conotação, próxima e distante do uso que se faz em teatro e cinema. Nestes, papel é quase equivalente a personagem. Embora possamos dizer que uma personagem pode desempenhar vários papéis na peça ou filme. Já no Psicodrama há algo disso, não sendo isso. Papel é um conceito psicodramático do somatório  de falas e comportamentos que nos surgem numa relação e em complementaridade do contra papel. Os dois papéis se complementam sendo extremidades de um mesmo vínculo. Serem complementares significa que um é criado em função do outro. Por analogia, uma tampa está para a caneta assim como o filho está para uma mãe. Um só tem funcionalidade em razão da existência do outro. Na relação real, imaginária ou psicodramática. Portanto, a essência da ideia de papel é sua diversidade e flexibilidade. Mais vínculos, mais papéis. poder transitar entre papéis tem seu oposto na cristalização dos papéis. Em que o individuo congela um ou poucos papéis, transformando seus complementares reais em complementares imaginários. Quem cristaliza, p.ex. o papel de filho transforma todas suas relações em relação parental/filho, simplificando. Flexibilidade (para transitar entre os papéis) e multiplicidade vincular (para ter um conjunto universo de papéis, maior).

domingo, 9 de abril de 2023

A passagem

 Hoje acordei com saudade de um primo bem mais velho que morreu no Chile em !971. Foi um dos poetas chamados de Geração Mapa no final da década de 50 na Bahia. E uma poesia dele, entre várias que, na distancia de 14 anos de diferença de idade, sempre me marcaram, há uma, em particular:

Pedra e musgo. Silenciosa paz, sombria quietude. 

árvores mortas, troncos sazonados, berço e ataúde do mistério vital. 

árvores vivas, salmos coloridos, anseios góticos arborizados no interior de estranha catedral.

A par das poderosas imagens criadas pela sua poética, do ritmo quase gregoriano medieval, há essa construção: pedra e musgo.

No Psicodrama há uma palavra, Conserva, que tem um conceito original, embora a palavra seja comum. Na acepção habitual conserva é algo feito para durar, para não ser decomposta pelo tempo. Assim é com as conservas alimentícias. Para o criador do Psicodrama, Moreno, Conserva Cultural é uma produção qualquer da cultura humana que se imobiliza ou é imobilizada. Um livro, por exemplo, enquanto está sendo gestado é algo vivo em constante mutação (Não é, Dani?). Após concluído ele não mais pertence ao autor e sim a quem o lerá. E é nesse ato de ler, por exemplo, que o conceito de conserva cultural pode ser melhor explicado. Pode-se repetir infinitas vezes um poema de Pessoa ou Borges, sempre como um poema de Borges ou Pessoa. Enquanto assim for, será uma conserva cultural. Mas, ao lermos um livro qualquer e ele ser transformado pela minha vivência, deixando de ser apenas um ícone conservado, voltará à vida. Moreno insistia que a vida precisa ser vivida dando vida às conservas culturais. Olhar a Mona Lisa como "A Mona Lisa", à distancia, sem nos apropriamos dela, sem dela fazer parte nossa, é uma conserva cultural. Quem faz essa transformação, quem vivifica essas conservas é a nossa espontaneidade/criatividade. Ela é a força vital que faz que sobre a pedra, morta e conservada, nasça o musgo vivo em transformação. 


sexta-feira, 31 de março de 2023

Quem e o que

 Algo que aprendi há muito tempo é que o instrumento sozinho nada é. A mão que o utiliza é que determina se será um instrumento eficaz ou não, construtivo ou não. Assim é na Medicina. Em grego Farmakon significa remédio e veneno. Porque ele pode ser ambos. Uma cirurgia não é feita pelo bisturi e sim pela mão do cirurgião. O remédio auto prescrito pode ser grandemente lesivo à saúde paciente. O ECT pode ser um instrumento heroico para um paciente com depressão refratária e ideação suicida presente. O ECT foi usado nos Gulags como instrumento de repressão. Se no uso do instrumento médico de tratamento não estiver envolvido vieses religiosos, morais ou de outras matizes, o profissional é responsável pelo seu uso. No âmbito da área psiquiátrica há os remédios e outras terapias biológicas que têm fundamentação científica e  os que não a têm. No âmbito das psicoterapias, quase todas elas não foram criadas com a determinação de serem validadas. A validação é um processo que exige replicabilidade, protocolo de uso e outras exigências que quase todas as psicoterapias não podem cumprir. Mas, como as psicoterapias são mais destinadas aos seres humanos que são portadores de problemas psiquiátricos e não, propriamente, aos sintomas e sinais psicopatológicos, aquele que as utiliza precisa conhecer o terreno que está pisando para lidar com suas ferramentas psicoterápicas. A exceção à essa quase regra é a TCC por ter sido criada por Aaron Beck com a a meta de ser validada, ajustando-se às exigências formais. O Psicodrama, como todas as formas psicoterápicas não é uma camisa de força terapêutica. Ele não é aplicado independente do que o paciente apresenta. Como todas as formas psicoterápicas, a ajuda (terapia em grego é ajuda e não cura) ao ser humano caminha lado a lado com os tratamentos mais responsivos sintomaticamente. O conhecimento nunca é suficiente. O que atrapalha são as pretensões de conhecimento hegemônico. Em toda atividade profissional há profissionais com conhecimento dos efeitos e limites de seu instrumento e profissionais que só superficialmente conhecem seu próprio instrumento e seus limites. Essa é toda a diferença.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Hoje é comemorado o Dia Mundial do Teatro. E como dizia Augusto Boal, "Todos somos Teatro. Alguns fazem Teatro". Como sou parte de um método psicoterápico, o Psicodrama, que tem suas raízes fincadas no Teatro, pensarei aqui como Psicodramatista no Dia do Teatro. Em geral, o texto das peças ou sua forma de execução são denominados de forma diferentes. Drama, tragédia, comédia, farsa, tragicomédia, burlesco. O texto ou a forma de execução. Um texto pode ser criado, escrito, para ser tragédia, mas pode ser montado como farsa ou comédia. No Psicodrama, de resto, não usamos essa terminologia classificatória. O texto e a dramatização, no Psicodrama, são do protagonista e criado por ele. A forma com que se desenrola essa dramatização pode ser ser sugerida pelo Diretor (o coordenador do grupo) ou ser desenvolvida pelo próprios atores (egos-auxiliares, no Psicodrama) e protagonista. Mas, o protagonista  não é quem se coloca na linha de frente em primeiro lugar. É quem encarna e vive, em sua história, a história-tema daquele grupo, naquele momento, Assim, o protagonista é alguém que emerge do grupo, mas leva o grupo em sua dramatização. Mesmo sendo algo pessoal, naquele momento, caso ele seja o protagonista, todo o grupo sente-se contemplado. O grupo vê-se no palco. Aquela história, é sua história. Se assim não for, ele será um falso protagonista, até um bode expiatório. Estará no palco embora não sendo a voz do grupo, encarnada. No Dia Mundial do Teatro, numa época em que não está claro que tipo de cena está no palco, reverencio essa forma profundamente humana de ser. E sinto-me honrado, como Psicodramatista, de ter tão nobre origem.

sábado, 18 de março de 2023

MPB, Moreno, Corpo

 Há uma belíssima música/letra do grande cantor e compositor e esquecido Taiguara chamada Hoje que diz em sua letra: 

"Hoje

Trago em meu corpo as marcas do meu tempo

Meu desespero, a vida num momento

A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo"

Há um ensinamento de Moreno, contado por Zerka Moreno, que diz:

"O Corpo lembra quando a mente esquece"

Tanto o poeta quanto o psicoterapeuta perceberam a mesma coisa: Em nosso corpo as vivências se inscrevem. "Quero ficar no seu corpo feito tatuagem" (Tatuagem, Chico Buarque). Augusto Boal dizia ser o corpo o nosso palco. Por isso, baseado nisso, as dramatizações podem alcançar um nível profundidade de uma vivência mais amplo que a recordação verbal dela. No Onirodrama, Moreno sugeria que a pessoa não contasse o sonho, mas assumisse a mesma postura ao dormir, iniciasse a contar e passasse a atuar o sonho e não contá-lo. O corpo vai agindo, lembrando sem lembrar. Nas dramatizações o mesmo acontece. Uma história contada tende a ser repetida de forma cristalizada. Ao se transpor para o palco, o corpo estando presente traz consigo a memória inscrita dos movimentos e, ao serem atuados, trazem de volta algo da vivência original, o que permite a Moreno dizer que "as segunda vez libera a primeira". 

quinta-feira, 9 de março de 2023

utopias

 Pensando aqui sobre a palavra Utopia. Neologismo criado por Thomas More. Significando U (nenhum, não existente) Topos (lugar). Seu livro fala de um país justo, igualitário, de modo racional de vida. Mas, com o tempo, o adjetivo Utópico passou a ter a conotação de ilusório, irreal, fora da realidade. Deixou de ser uma esperança para ser uma crítica pejorativa. O ideal deveria existir como fonte alimentadora de projetos e não como fonte de desânimo. 

Vejam essas citações de Moreno:

"No todo, por conseguinte, o experimento sociométrico é ainda projeto do futuro."

 "O experimento principal foi visualizado como projeto mundial – esquema bem próximo da utopia, em termos de conceito –, ainda que deva ser chamado à nossa atenção, repetidamente, a fim de que não seja excluído de nossa agenda de tarefas diárias, mais práticas, da sociometria."

"O experimento sociométrico acabará por tornar-se total, não apenas em expansão e extensão, mas também em intensidade, marcando, assim, o início da sociometria política."

Ele coloca, claramente, que seu projeto é utópico, mas (Importante!), ele não pode ser separado das ações cotidianas, "das tarefas diárias". Há um ditado chinês que diz: "Antes de salvar o mundo dê três voltas dentro de casa". Essas são as nossas primeiras tarefas diárias: Nossas relações. A Utopia Moreniana se realiza na construção de relações interpessoais télicas. Do Interpessoal para o Grupal e daí para o Social. Pois, "Que adianta se ganhar o Mundo e perder a alma?". (Marcos,8:36). A alma Moreniana é relacional. Eu sou com Você. Ubuntu. Nós nos construímos e nos constituímos. A Utopia Moreniana, talvez ao contrário da Utopia de More (lugar que não existe num tempo ignorado), seguindo os passos Psicodramáticos, ela se realiza nas "tarefas diárias, práticas", no Aqui e Agora.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Gramática Psicodramática II

  Há uma música do repertório de Zé Ramalho chamada Sinônimos. Nela o último verso diz: O Sinônimo de Amor é Amar. O sinônimo de um substantivo ser um verbo poder ser um verbo é muito curioso. Mas, faz sentido. O verbo traduz uma ação, um processo ou um estado. O substantivo Amor individualiza o nome do objeto. O verbo Amar o coloca em relação a outro alguém ou alguma coisa.  O verbo Amar exige complemento direto ou indireto: ama-se alguém ou a alguém. O próprio livro de Mario de Andrade Amar, verbo intransitivo, paradoxalmente reforça isso pela situação de impossibilidade de haver uma relação entre os dois personagens. O Psicodrama dramatiza verbos de ação ou processo. Não seria possível dramatizar o substantivo Amor, substantivo. Mas é possível dramatizar o amar, verbo, de alguém por outro alguém. No caso do livro de Mário de Andrade seria possível dramatizar a intransitividade daquela relação, sua impossibilidade, mas seria do verbo Amar. E o que fica disso tudo? Ao propor uma dramatização pense sempre num verbo de processo ou ação para traduzir a intenção da cena. Os verbos de ação ou processo colocam, necessariamente, outro personagem em cena e em um contexto. Aparece o drama, o conflito, o palco surge.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

gramática psicodramática I

Escutando um álbum de Zé Ramalho parei em uma que diz: O "sinônimo de amor é amar". À parte a poesia desse verso, ele expressa uma verdade psicodramática. Explico: é tentador no palco dramático procurar fazer dramatizações de qualquer expressão do protagonista. Mas, por exemplo, se essa palavra, amor, aparecesse e fosse solicitado ao protagonista para dramatizar o amor, seria impossível. Por que? Amor é um sentimento. Não se pode dramatizar um sentimento. Pode-se representá-lo, simbolizá-lo, denotá-lo, com uma imagem. mas dramatizá-lo, não. Explico outra vez: Drama em grego significa ação, dramatização é a ação de dramatizar. Sentimento não é ação. Só é possível dramatizar-se verbos que relacionam sujeito e objeto em forme de ação. Chorar não é possível dramatizar. Chorar a perda de um parente compõe uma cena possível. Voar não se pode dramatizar. Voar para o palácio do Rei pode ser dramatizado. Há que se transformar adjetivos e substantivos, abstratos ou concretos, em verbos de ação. Amor: imagem. amar a alguém num determinado contexto: dramatização, cena. Essa diferença apontada por Zé Ramalho é uma lição psicodramática.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Curiar e imaginar

 Lendo um texto, publicado na Revista Brasileira de Psicodrama, escrito por Michele Vasconcelos, Karen Venâncio e Maria Cristina de Carvalho, veio-me a vontade de fazer uma multiplicação dramática do texto. Na Multiplicação Dramática (olá, Pedro!), após uma cena, as pessoas deixando-se levar pela Consonância daquela cena (repercussão em mim) apresentam uma cena (Ressonância). Não é uma cena consequência, não é uma escolha lógica ou racional, não é uma reflexão. É uma Ressonância, uma ação gerada a partir de uma Consonância com a cena-estímulo. A cena ressonante atuada por uma pessoa pode gerar e gera novas consonâncias e. portanto, novas cenas ressonantes. Viver é assim. Não é uma sequencia linear, causal. O ato de viver é preenchido por afetos consonantes e atos ressonantes. Por, isso, Moreno dizia sermos nós seres em relação. O outro, de qualquer forma, consoa em mim. E eu, de qualquer maneira, enceno uma ressonância. Consonância e Ressonância minhas do texto: Minhas pernas começam a sentirem-se inquietas, uma vontade de levantar. Levanto, abro portas, ligo para alguém, pego livro, Minha cena ressonante congela com os braços estendidos, numa posição incômoda. O solilóquio (verbalização do conteúdo que me acontece) é: "Estou muito incomodado, mas estou muito curioso". E, curiosidade está em falta no mercado. E a Imaginação, tema do texto da revista, a louca da casa, está em falta no mercado. Curiar (verbo usado na minha infância para significar ter curiosidade), Imaginar, são coisas arriscosas (como diria Xangai, mestre-cantador). Curiar e Imaginar são ações de expansão no mundo, ações prazerosas e arriscosas. É sair do conhecido, ainda que ruim, mas conhecido. Quando Pompeu dizia a seus soldados romanos "Navigar  necesse est, Viver non est necesse" (navegar é preciso, viver não é preciso) o acento estava em ser a missão maior do que os soldados.. Mas, a palavra Preciso, ser necessário, é homófona de Preciso, exatidão. Então, em navegar há rotas pré-estabelecidas que orientam o rumo, há as estrelas, há os mapas. Em viver, esta exatidão ou pretensa exatidão não existe. Cada ato, ainda que similar a outro, é um ato novo, é uma nova resposta consonante como ato anterior e com o contexto de então. Moreno chamava de Conserva Cultural ao mais do mesmo. ao repetir as rotas já conhecidas. Curiar, imaginar, poetar, encenar, no consultório, na sala de aula, em qualquer lugar ou espaço, existente ou por existir,  no viver, enfim. Obrigado, Michele, Karen e Cris.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Alegria? Pode?

 "Aqui jaz aquele que trouxe alegria à psiquiatria". Epitáfio de J.L.Moreno

"Eu nunca vi um fanático ter senso de humor, nem uma pessoa com senso de humor ser fanático" Amós Oz

"Muito riso, pouco siso" provérbio popular

Há alguns dias, conversando em uma live com amigos (Nori Cepeda, Marilene Queiroz, Gueira Vilhena) apareceu a palavra alegria. E veio-me à mente essa expressão popular que relaciona o riso à pouca profundidade de pensamento. Logo a seguir assisti a uma conversa do Dalai Lama com o Cardeal Tutu  em que ambos falam de que a alegria é a alegria da vida significativa, da compaixão. E ambos com vidas de lutas e resistências e sofrimentos atrozes. E ambos riem. A frase do escritor israelense Amós Oz encaixa-se como uma luva. Pode-se ser profundo sem ser fanático. E o fanático não ri porque não considera o outro, só a si e seu pensamento. Diz o cardeal Tutu "uma pessoa é uma pessoa por meio de outra pessoa". Esse é o significado de Ubuntu para o sul-africano. Frase que poderia ser um título de qualquer texto psicodramático. E Moreno, ao falar de alegria não fala da alegria tosca, mas da alegria da compaixão. À Psiquiatria faltava na época (na época?) compaixão, o sentir junto, a dor e a alegria. Isso é compaixão. Compaixão não é ter dó, ter pena. É poder sentir com, sentir junto, alegria ou tristeza. Derrota ou vitória. Perda ou ganho. E o fanático exclui, isola, sobrepõe sua verdade à experiência do outro. Moreno, judeu, Amós, israelense, Tutu, negro do apartheid, Dalai lama exilado de uma terra ocupada. Experiências de vida sofridas e de lutas constantes. Mas todos expressam a alegria da compaixão. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Reflexões

 Como gosto muito de literatura policial, detetives, estava lendo outro dia e me deparei com uma frase em um livro despretensioso, de Chirovici; "Acredito que as coisas que não fizemos nos definem tanto quanto as que fizemos. Aí, para variar, minha cabeça de videoclipe, associou a uma frase de Fernando Pessoa, em seu heterônimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego: "A renúncia é a libertação. Não querer é poder". Como se não fora bastante, lembrei da chamada Confissão de Maat, no julgamento dos  mortos no Antigo Egito que são 42 negativas de ações, afirmações sobre atos que não foram praticados, P. Ex " Eu não pequei. Eu não roubei com violência. Eu não furtei. Eu não assassinei homem ou mulher". Chico e Ruy Guerra na versão de Impossible Dream, dizem "Negar quando é fácil ceder",. Lembrei da desobediência civil de Thoreau, da recusa ao ato violento da Ahimsa Hindu. Ou seja, essa reflexão me pôs na direção da minha vida. Não posso me autodesculpar ou desculpar-me perante os outros por ter sida obrigado a fazer algo. Sempre há a possibilidade da recusa, do não libertador, do não fazer. Claro que todos essas negações têm preço. E alto. Há que se aceitar o preço a ser pago, aceitar a renúncia para haver libertação, 

"Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte". "Terra dos homens" Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Inícios e fins

  O ano do calendário está se encerrando. Chegará, enfim, amanhã, o dia número 365. E depois o Dia 1 estará aí. O calendário diz que as coisas terminam e recomeçam. Todo ano há um fim de ano  e há um primeiro dia do novo ano. Mas, em nós, parece que vivemos como se a estrada da vida fosse uma linha reta de mão única. Parece-nos que os começos são novidades e os fins são definitivos. Talvez por isso a culpa esteja presente sempre em nós, como se o passado fosse sempre passado, irremediavelmente passado. E o futuro nos chega como sempre oportunidades únicas, irrepetíveis, o tal do cavalo selado que só passa uma vez. "Perdeu, playboy!". E se, realmente, olharmos para as coisas como se houvesse, sempre, a possibilidade, de fazer de forma diferente aquilo que se fez e não deu certo? E se pudéssemos experimentar novos erros, em lugar de imobilizarmo-nos na culpa penitencial? Na filosofia Moreniana que embasa o Psicodrama está sempre o presente, palco do passado e da expectativa do futuro. Mas sempre o presente. Onde, ajudados pela louca da casa, a imaginação, podemos experimentar a re-visão do passado e viver o futuro. E, por fim, sair da imobilidade da culpa e da dor (do passado) e da imobilidade do temor (do futuro). Psicodrama é mais do que exercício de técnicas psicodramáticas. Psicodrama é o exercício contínuo da flexibilidade como instrumento do viver. Que possamos cometer erros novos. Porque repeti-los não é inteligente, e não tê-los é estarmos imóveis e imobilizados na vida.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Poetas

 Há uma grande música de Monarco e Ratinho, portelenses de raiz, chamada Coração em Desalinho: "Numa estrada dessa vida te encontrei". Há outra, de Renato Teixeira, gravada por Xangai, chamada "Pequenina": "São tão claros os presságios e os encontros dessa vida quando as partes combinadas surgem numa mesma estrada". O poeta florentino, Dante, inicia o Inferno, em sua Divina Comédia, dizendo: "Em meio da estrada dessa vida". Três poetas, mesma metáfora. A vida como estrada que tem início e tem fim. Dante chama a atenção do meio da estrada, do processo de amadurecimento, que não é no início nem no fim. Em meio à vida. Monarco e Ratinho dizem que a estrada-vida é o local de encontros. Renato Teixeira, enfim, diz "quando as partes combinadas surgem numa mesma estrada", quando pessoas por combinação, por acordo, aparecem, surgem, encontram-se na vida-estrada. Esses poetas psicodramáticos (ou o Psicodrama será a visão poética aplicada à saúde relacional?) definem o nosso Encontro Moreniano; Acontece no processo da vida, quando as partes da relação combinam, acordam em estar numa mesma estrada. E aí, prosseguindo a visão poético-psicodramática, acrescentamos um outro conceito, muitas e muitas vezes de difícil compreensão. Tele. Tele é quando as partes combinam, seja em seguir juntos numa mesma estrada, ou seguirem separados, em sentidos opostos, mas na mesma estrada. Ou há relação télica quando as partes estão combinadas, em estarem juntas ou estarem separadas. A mesma estrada é a estrada da com-preensão. Ambos com-preendem e con-cordam. A relação é não-tèlica quando "as partes" não estão combinadas, quando nem estão na mesma estrada. Estrada, sentido do caminho, acordo, desacordo, compreensão. A relação não-Télica resulta no "coração em desalinho". Obrigado aos poetas de sempre e de agora.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Psicodrama e Natal

  A origem do Natal está nas comemorações do Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Solstícios são os pontos da trajetória terrestre em que os hemisférios estão mais próximos (verão) ou mais distantes (inverno) do Sol. Assim, para as tradições místicas do Hemisfério Norte, esse período era quando, em seu hemisfério, Dezembro, a inclinação da Terra em relação ao Sol, voltava a se aproximar, quando o Inverno anunciava o seu fim, quando as esperanças de um novo plantio, de um degelo, surgiam, respondendo à expectativa da espera. Nas tradições místicas isso era o símbolo da renovação, do anúncio de um novo tempo. Avatares e deuses eram comemorados nesse dia. Krishina, Mitra, por exemplo. Por isto a tradição cristã aproveitou-se desse simbolismo. E isso que tem a ver com o nosso Psicodrama/Teatro Espontâneo? Nada. E tudo. Moreno, o criador do Método Socionômico (Psicodrama, Teatro Espontâneo, Sociodrama) era um judeu imbuído das tradições judaicas, principalmente da filosofia hassídica. E esse Hassidismo tinha por base a renovação, a fé na transformação, a esperança de um recomeço. Socionomia, Sociodrama, Psicodrama Morenianos são sempre fundados nessa atitude de mudança, transformação, um novo olhar, uma nova chance, um outro começo.

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...