terça-feira, 26 de novembro de 2024

De como o Psicodrama está vivo e atuante em todos os aspectos da Vida.

De como o Psicodrama está vivo e atuante em todos os aspectos da Vida.

Ontem foi a festa, online, do Prêmio FEBRAP 2024, do Congresso Brasileiro de Psicodrama. E contarei como uma história. No primeiro semestre recebo um convite da presidente do Congresso presencial, Graça Campos, para fazer parte da comissão que atribuiria o aludido prêmio. Com a amiga de sempre, Rosana Rebouças, sob a coordenação do amigo de sempre, Devanir Merengué. Ao longo de vários encontros online e mensagens, fomos nos construindo enquanto grupo. Peculiaridades, formas de pensar, maneiras de ser. Enfim, tornamo-nos um grupo com uma tarefa: Não julgar, mas ponderar sobre os trabalhos. E foram chegando. Alguns rápidos, outros demorados. Alguns tivemos bastante tempo para ler. Outros, chegados prestes ao apagar das luzes tivemos que ler sobre pressão do tempo. E fomos conversando, refletindo, ponderando, voltando a conversar, tornando a ponderar (No sentido exato de atribuir peso). E fomos chegando, após longos e vivenciados meses, a um resultado. E apareceu um consenso. Uma luz parecia advir dos ensaios. Uma mesma luz. a luz dos Morenos. A presença corpórea, em carne e sangue, dos autores em seus trabalhos. Uma profundidade abissal de reflexões. Um estender conceitual e denso dos conceitos Morenianos. "Sem os quais a vida (Psicodramática) é nada, sem os quais se quer morrer' (Jobim e Vinícius, com licença poética). Encantamo-nos. A luz Moreniana emitida por eles nos alcançou com a força da verdade humana. E a luz continua. Decide-se que, em vez de premio pecuniário, publicaríamos um livro. Um e-book. Com os cinco autores que representavam e contemplavam todas as facetas psicodramáticas. Todas, mesmo. Tivemos um encontro presencial em que a magia psicodramática revelou-se mais uma vez. O agrupamento de autores transformou-se em um grupo. UM GRUPO. Aquilo que seria um trabalho burocrático transformou-se num ato psicodramático prolongado. O grupo se estendeu além congresso. E veio a noite de ontem. Muitas e muitas pessoas prestigiaram. A direção de Devanir foi minimamente intervencionista. Ele pediu que os autores "vendessem" seus trabalhos. E novamente a magia surge. Os autores são atores de seus papéis. Vimos a construção de cada ensaio em falas de dez minutos. O parto. A dor e a delícia (obrigado, Caetano) de cada partejar. A grande, a enorme, contribuição dos Morenos: O corpo, a mente, o espírito, o amor como ato. "O sinônimo de Amor é amar" (C.Augusto,C.Noam,Paulo Sérgio Valle). Amar é ação de amar. Essa lição do Psicodrama. Autores, Comissão, membros diretoria da FEBRAP, participantes. Todos banhados na magia Psicodramática que transforma atos burocráticos em atos psicodramáticos. A teoria Socionômica vive enquanto pensarmos, sentirmos e agirmos como psicodramatistas. No exercício profissional, nas relações pessoais. Na vida enfim. Aos criadores do livro resta a certeza de que responderam ao tema do Congresso: "Que mundo queremos? Eu, Você, Nós"

sábado, 23 de novembro de 2024

Voltando a Zerka e Moreno

 Venho pensando há algum tempo na palavra vivência. Talvez minhas reflexões desgostem algumas pessoas, mas penso valer a pena pensarmos. O grande Millôr Fernandes já dizia: livre pensar é só pensar. Segundo a Marcia Karp, uma das últimas discípulas diretas de Moreno e Zerka, ele dizia sempre "Throw away the script". "Jogue fora o roteiro". Pela própria essência do Psicodrama e de todas as ferramentas Socionômicas, essa essência é contrária a planejar, ter roteiro, pressupor, criar uma meta a ser alcançada, ter um final desejado e programado. É tudo que difere das chamas vivências. Elas têm título, já indicando o caminho a ser seguido e o fim a ser alcançado, têm roteiro já definido, têm aquecimento planejado. Chegam ao fim desejado, mas diferem de um Psicodrama aberto (e de todas as atividades socionômicas), em que o aquecimento decorre do mapeamento do agrupamento, em que o tema protagônico vai se desenvolvendo e sendo criado pelo grupo, em que o emergente grupal se destaca na peneira espontânea, em que o protagonista o é por, naquele instante, naquele momento, naquele já então grupo, sua história ter pedaços e partes da história de todos naquele Momento Moreniano. O Psicodrama aberto (e tudo o mais em Socionomia), é arriscado, vive ao sabor do aquecimento, do grupo e do Condutor. Ele chegará sempre ao que naquele pedaço de tempo foi ´possível chegar naquele grupo, naquele recorte de tempo, naquele flash de vida. "Throw Away the Script".

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

TE e Psicodrama

  Regra geral, ao falarmos de Teatro Espontâneo (TE) o que sinto que as pessoas escutam é algo como lúdico, interessante, mas, Pra Quê? Se observarmos os textos psicodramáticos mais iniciais, o TE é colocado como um dos tipos de intervenção sociátricas, ao lado do Psicodrama, Axiodrama e Sociodrama. O mestre Moysés Aguiar tinha outro ponto de vista, do qual comungo. Dizia ele que o TE seria o grande guarda-chuva da socionomia, e sob ele estariam os outros tipos de intervenção. assim, o TE aplicado à história pessoal seria o Psicodrama. O TE aplicado a grupos de papéis sociais seria o Sociodrama e o TE aplicado a temas éticos teríamos o Axiodrama. E que vantagens poderíamos ter ao assim pensarmos?. O TE insiste sempre em alguns pontos. Aquecimento contínuo, estética e ritmo. E, na prática, observando e participando de inúmeros atos socionômicos, percebemos que esses três focos, em geral, não são observados e nas direções não se vê essa preocupação. Por que o aquecimento contínuo? Porque aquecer um grupo ou um protagonista ou um ego auxiliar não é uma etapa que, uma vez acontecida, já está garantida. Durante todo o desenrolar do Ato manter o grupo ou protagonista ou ego auxiliar aquecidos, ou seja, centrados na cena, impede que a psicodramatização seja transformada em mera encenação, sem verdade dramática. Quanto ao ritmo, vemos que muitas e muitas vezes o Diretor dirige a cena sem observar o impacto da cena no grupo, sem perceber que a cena está lenta, enrolada, chata, e o grupo já se desaqueceu, se desligou do palco. E estética? Há sempre várias formas de se fazer algo, mas há formas mais bem acabadas, mais redondas, mas cuidadas. E essas formas têm mais impacto que as formas mal ajustadas, mal acabadas. Nenhum Diretor de Psicodrama precisa, necessariamente, fazer o Teatro espontâneo. Mas, todos se beneficiariam da visão de Moysés Aguiar. Minha anual e eterna homenagem ao Mestre em seu nono ano em que saiu do palco, neste dia.


quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Pessoa, palavras, descrições

 Pensava comigo que estamos perdendo o uso de palavras e nos deixando, cada vez mais, usar palavras extremas. esquecendo as nuances intermediárias. Isso veio à mente ao ler poesia e como o poeta consegue construir, em nós, o estado de espírito análogo ao dele ao escrever. Palavras, neologismos, formas diversas de pintar essa paisagem mental, como dizia Fernando Pessoa. Quando vamos rarefazendo nosso vocabulário pessoal, ao mesmo tempo, vamos retirando as nuances de cor e vendo cada vez mais em preto e branco, ou tons de cinza. O discurso pobre em palavras é pobre em nuances, e aglutina coisas variadas numa mesma caixa. O médico clínico, o psiquiatra , o psicoterapeuta, percebe como a autodescrição ou contação de uma história torna-se superficial. Nosso Psicodrama, com o recurso da Psicodramatização ou da simples formação de imagens, pode trazer ao protagonista uma visão de tonalidades diferentes, não descritas antes pela linguagem mais sumária. "Não é bem isso", "não é bem assim",  "não, não, é muito menos ou muito mais". A poesia, a literatura, a arte, acrescenta mais nuances e variações à descrição da paisagem mental de Pessoa.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Palco

 "Minha alma cheira a talco, como um bumbum de bebê". Ao falarmos a palavra palco essa musica de Gil vem à cabeça. O palco no psicodrama é um dos instrumentos fundamentais para seu exercício pleno. Pode ser um palco como o de Moreno em Beacon, pode ser um praticável, um espaço delimitado fisicamente ou consensualmente. Mas um palco. Existe uma intencionalidade no uso do palco, similar ao Teatro: O palco amplifica a cena, torna-a o centro das atenções, dá relevo, profundidade ao desenrolar cênico. porém, além disso, há um plus fundamentado na teoria socionômica moreniana. No palco prevalece a verdade dramática, a verdade poética, a fantasia, a realidade suplementar. Na plateia prevalece a realidade objetiva, a consensual do grupo, a "real". Assim, entrar e sair do palco numa atividade Socionomica tem um significado muitíssimo mais profundo. É entrar e sair da Realidade Suplementar, é atravessar a fenda, a separação entre realidade "real" e realidade dramática. É poder, como adultos, voltar a transitar entre esses dois mundos. A nossa pretensa maturidade, mais que uma fissura, cria um verdadeiro abismo intransponível entre o mundo que vivemos e o mundo fantástico, suplementar. Só tendo um palco e conhecendo seu poder instrumental poderemos usar adequadamente o recurso do Espelho. Ao sairmos do palco e vermos a nossa cena reencenada, a vemos da plateia, a vemos do mundo "real", a vemos como um outro qualquer a veria. Ou seja Nos vemos em ação. Cheira a talco, cheira a bebê, nos remete à infância, à origem de tudo, ao status nascendi de nossas cenas. Palco.

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Puxa!

 Voltando a um tema algo complicado no Psicodrama. Há algum tempo usa-se a palavra empatia com muita frequência. "Vc não tem empatia", "vc precisa desenvolver empatia". a forma como é dita e cobrada lembra um atributo moral ou uma virtude ou m defeito em sua ausência. etimologicamente, empatia vem do grego em (dentro) + pathos (sentimento). O que seria "sentir de dentro" uma tradução aproximada. Até hoje em Grécia é usada nesse sentido. A capacidade de colocar-se no lugar no outro sentindo aproximadamente o que ele (o outro) sente. Em fenomenologia não não é usada como um atributo ou virtude moral. É uma ferramenta de investigação. E essa ferramenta pressupõe um preparo para ser exercida. esse preparo é uma profunda e honesta depuração dos prejulgamentos, dos preconceitos. com isso feito no maior rigor pode ser exercida como ferramenta diagnóstica. Mas, isso sempre exige que haja uma validação por parte do investigado. Foi dessa forma que o psiquiatra e filósofo Karl Jaspers trouxe para a psiquiatria o conhecimento da fenomenologia. E Moreno? Ele estava desenvolvendo um conceito de empatia, mão dupla. Essa empatia recíproca, base da relação entre papéis, ele chamou de Tele. Algo que, à distância permitia que duas pessoas em relação pudessem se perceber com mais nitidez. Ele expressou isso num poema escrito muito tempo antes do próprio conceito: Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face, e quando você estiver perto arrancarei seus olhos e os colocarei no lugar dos meus; arrancarei os meus olhos e os colocarei no lugar dos seus; então verei você com os seus olhos e você me verá com os meus olhos. Essa empatia dupla de Moreno, a Tele, não seria mais um instrumento investigatório, mas sim a base de compreensão do das escolhas soicoométricas. Ou seja, é a possibilidade de nos reconhecermos com os mesmos sinais que possibilita uma relação saudável. Isso significa que se eu e outra pessoa nos vemos e nos percebemos como inimigos, p.ex., isso é télico. porque seria pouco saudável se o vejo como inimigo e ele como amigo, simplificando. Para que não se transforme em um atributo que uns têm e outros não, que uns têm muito e outros o têm pouco, Moysés Aguiar nos ajudou trazendo a ideia de projeto cênico comum. Ou seja, numa peça, em um palco, os personagens precisam se complementar. nas relações, caso eu esteja num drama romântico e a outra pessoa em uma comédia satírica seria um projeto não télico. É algo da construção das relações, não é uma qualidade pessoal. As relações é que podem ser télicas ou não télicas, e não as pessoas envolvidas.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

E, finalmente, o que é Psicodrama?

 Hoje estive com uma turma de psicologia para fazermos uma manhã de Psicodrama. A maioria nada conhecia de Moreno e Psicodrama. Como manhã de informação e formação foi muito produtiva. mas, ao final, duas pessoas me questionaram sobre a palavra adequação que leram sobre espontaneidade e criatividade. A dúvida deles: É algo de enquadramento em normas? É para ajustar as pessoas às normas sociais? Pena que foi entre nós três e a professora que me convidou. Pena que os outros já haviam saído. Mas, como talvez eles estejam me lendo em algum momento, e como sei, que essa questão sempre e sempre perpassa quem entra em contato com Moreno e Cia, parece ser agora um bom momento. O pensamento do psicodramatista é na Cena. Não apenas na cena desenrolada em um palco explícito, não apenas no palco psicodramático. Sempre que os papéis entram em relação, nós temos uma cena. E quando nos referimos á capacidade de reagir ou agir de forma adequada, absolutamente não é pensando numa adequação moral. Mas, à cena que está se desenrolando naquela relação. O espontaneísmo seria a resposta impulsiva, levando em conta, tão somente, os desejos pessoais. A reação ou ação criativa leva em conta o outro em sua resposta. É a mais adequada àquela cena naquele encontro. Daí porque Moreno referia-se à respostas cristalizadas, conservadas (no jargão psicodramático). A resposta tornada habitual, fixa, imutável. A ação repetida sem outras razões que a repetição. A história contada numa narrativa imutável. A Socionomia Moreniana busca que criemos e experimentemos outros pontos de vista, outras formas de agir. A Socionomia visa IN-Comodar. Sair da comodidade conservada, do angulo de mirada fixo, da opinião congelada, do sentimento fossilizado. Esse é o objetivo. Nada tem de moralizante, normalizador, nem estímulo à impulsividade. É o espaço do experimentar e refletir.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Congresso e reflexões

 Depois de um congresso de Psicodrama muitas coisas vêm à cabeça. Psicodrama é um Método, lastreado numa Filosofia. Psicodrama (Socionomia seria o termo mais correto, mas o hábito faz o monge). Sem isso o Psicodrama transforma-se apenas numa aplicação de técnicas. O ser humano é um Ser sempre em relação. Essa é a base. Portanto, o Outro, o papel complementar em múltiplos papéis, é tão nosso constituidor quanto o somos dele. O Outro precisa ser visto como Tu, não como o ele, tão só o ele. mas, repito, como um Tu. Alguém a quem complemento e que me complementa. Simples. mas complexo. Exige a disposição, o afeto, a possibilidade de inverter os papéis, assim ganhando o acréscimo da visão do outro. Ele é meu Tu e eu posso seu o tu dele. Eu sou o outro do outro. Tudo isso não é Método. É a filosofia Moreniana que, perdida, despersonaliza o nosso fazer num mero exercício técnico e estético. Quando faço essa observação é para lembrar que o Psicodrama, a Socionomia, a filosofia Moreniana, são para o dia-a-dia, não apenas para o consultório. Pode-se aprender psicodrama, mas há que se tornar Psicodramatista.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A agulha do real

 Uma das coisas que me incomodam e surpreendem nas redes é a contínua cobrança de que tudo é possível, tudo só depende da pessoa, que a derrota é sempre consequência de inação pessoal. Surpreso porque uma das coisas importantes num trabalho psicoterápico é o reconhecimento dos limites. Claro, esses limites podem ser imaginários, serem criações pessoais. Mas há os limites impostos pela realidade. Reconhecer o limite não é ser limitado por eles, necessariamente. Simplesmente, é saber contra o que está brigando.  A falta do limite gera o espontaneísmo das ações. No Psicodrama,  onde a fantasia é estimulada, o próprio palco exerce um limite à ação espontânea. Fora do palco é a realidade "real". No palco é a realidade dramática, a nossa chamada realidade suplementar. Ao se montar uma cena delimitando-se, por exemplo uma parede, podemos atravessá-la por uma ação magica, mas sabemos que há uma parede. Se porventura, o protagonista a ultrapassa, impulsivamente, a cena será remontada para incluir a solução espontânea, porém adequada ao real. O que vemos nas redes é um estimulo à ação impulsiva junto à culpabilidade pela não obtenção do que deseja. Como se dissesse: você pode tudo, se não consegue é por fraqueza, falta de persistência, falta de vontade. Ou seja, o mundo é onipotentemente seu. E o contrário, o antônimo de onipotência é impotência, é a sensação de fracasso. Por isso volto ao mestre Gilberto Gil: "A agulha do real nas mãos da fantasia", em  A Linha e o Linho. É isto.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

"Capricho"

 Há expressões de minha infância: "Ser caprichoso", fazer as coisas "No capricho". Significava ser cuidadoso no que fazia, fazer o melhor possível, não ser desleixado, alinhavando as coisas. E há o perfeccionismo. "Não consigo nem pensar em errar!", frase de uma paciente O temor de cometer um erro torna-se tão grande que o perfeccionista torna-se lento, fazendo e refazendo, tornando-se, na prática, improdutivo ou pouco produtivo. E isso é o oposto de ser "caprichoso", "cuidadoso". A rigidez e imobilidade são sempre, em a natureza, sinônimos ou indicadores de não vida. A Vida é mudança, flexibilidade. O "caprichoso" sente o prazer do fim de sua obra, goza de sua ação. E as pessoas presas do medo do erro, perfeccionistas, são  ou tornam suas vidas rígidas, imóveis, desnaturadas. E com isso não usufruem do prazer do ato bem feito, do ato realizado. Estão sempre esperando algo melhor do que conseguiram, estão sempre deixando de se gratificar, vivendo num contínuo do "podia ser melhor". E, se me perguntarem em que o Psicodrama (ou qualquer outra forma psicoterápica) poderia ser útil? Permitir que aquela pessoa perceba ou descubra seu temor de errar, sua necessidade de se proteger da crítica antecipada, sua permanente necessidade de controlar o futuro. Tarefa que, por ser impossível, torna o perfeccionista um candidato à experiência de sentir-se derrotado, ao longo de sua vida. 

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Propaganda e Psicodrama

 Gosto de observar propaganda. Elas, como são destinadas a vender um produto, captam a essência do Zeitgeist , do espírito do tempo, de forma pragmática. Vi um outdoor (em português (???), em inglês seria billboard). Lá estava: "Qual a diferença entre homens e ícones". O produto a ser vendido era um curso para transformar as pessoas em celebridades (?), em "ícones". Estava de carona e tive tempo de ler e pensar. Ícone em grego é imagem, estátua. Na igreja Bizantina aqueles quadros são chamados de Ícones. E pensei. No Psicodrama privilegiamos a flexibilidade, a mudança, e chamamos de conservas culturais àquelas situações que são tomadas sempre de uma mesma maneira, não são recriadas. A conserva é o que se mantém inalterado, fixo, estável. A Espontaneidade Criatividade permitem que se reelabore a conserva, lhe dê uma novo uso, uma nova saída, uma nova e adequada resposta, em lugar da mera repetição. A conserva cultural cria a cultura ( Que aliteração!), mas sem ser renovada e recriada conduz à imobilidade. Aí ela se torna uma questão psicodramática. As respostas emocionais e comportamentais conservadas constituem (Outra aliteração!), os sintomas, as nossas queixas humanas. E aí? que tem a ver com o outdoor? Uma imagem é uma conserva cultural. Algo fixo, preservado, sempre o mesmo, mas submetido ao desgaste temporal. O que me vem à cabeça é a cena bíblica da mudança da mulher de  Lot em uma estátua de sal. Imóvel no tempo, sem ação, sem vida, sem autonomia. Uma condenação pela violação de uma ordem. E, hoje buscamos nos transformar em ícones. Presos à nossa imagem exposta e consumida nas chamadas redes sociais (redes comerciais). De punição tornou-se meta, símbolo de sucesso. Ser condenado a uma eterna e imutável imagem, sem escolha, sempre presos a si, sem vínculos. Para o Psicodrama, seria o nosso antidestino.

domingo, 21 de julho de 2024

duplo/dublagem e outras coisas

 Lendo alguns escritos e em algumas direções, percebi uma certa confusão, importante confusão, entre a técnica fundamental do duplo e a tomada de papel. Vamos ao começo. O  Duplo ou dublagem (em inglês, double).remete ao primeiro Universo, à fase de total indiferenciação entre a criança e o outro. Nessa fase, o caos primitivo, há uma completa mescla entra a criança e o papel parental. Portanto, a criança e a mãe, p.ex., são fundidos pela indiferenciação. Dessa forma, a mãe pode sentir o que a criança sente, porém ela PODE expressar verbalmente. Uma experiência cotidiana nos papéis parentais. O Duplo remete a essa fase. Então, não é um pensamento, uma interpretação racional, não é uma sugestão, um ensinamento, que o diretor/terapeuta ou o ego auxiliar pensa que é o melhor para o protagonista da cena. Mas, assumindo sua postura, abrindo-se à espontaneidade do momento, deixar vir a si o que o protagonista PODE estar sentindo e não expressa. É a isso que Moysés Aguiar chamava de dublagem. Tal como em um filme, o texto é a fala do ator dita em uma língua que não entendemos, apenas o diretor ou ego auxiliar o dubla para a linguagem verbal. Não é uma interpretação ou racionalização do protagonista, mas verdadeiramente uma dublagem em outra língua. Mas, como os italianos diriam traduttori, traditori - tradutor, traidor. Após a dublagem/duplo é necessário, imprescindível, perceber a validação ou não validação pelo protagonista. Por um gesto de concordância ou negação, por uma verbalização confirmatória ou não. O Duplo/Dublagem não se valida por si, pela "sapiência" do diretor/terapeuta. É como um tradutor de um texto ter que perguntar ao autor do texto se apreendeu o sentido real do que escreveu. É um caminho proposto pelo diretor/terapeuta,  trilhado pelo protagonista. 

sábado, 6 de julho de 2024

Analogias e metáforas

Lendo um filósofo espanhol, Ortega y Gasset: Ele descreve um passeio por um bosque/floresta. E vai descrevendo os sons. Um canto de pássaro lhe chama a atenção, sobrepondo-se aos outros sons. E, no momento seguinte, ele dirige a atenção para os sons que haviam se tornado fundo, tornando-os figura. E, aí acontece o toque genial. Todos os sons ali estão, todos são simultâneos. Mas, somos nós que, ao intencionalmente, dirigir a atenção para um determinado objeto, ou lembrança, ou desejo, os tornamos figura ou fundo. Bela metáfora para a psicoterapia. E, em especial, para o Psicodrama. Tudo está sempre aqui conosco. É nossa direção do olhar, a nossa intenção, que torna algo aparente ou oculto, superficial ou profundo. Lembro que Verdade em grego é Aletheia. Literalmente Não Esquecimento.. As verdades não são inventadas.  São desvelamento, revelação, reencontro, dar-se conta, olhar em outra perspectiva, trazer o fundo para figura e deixar a, até então, figura, no fundo, transformando-as de imagens fixas em cenas móveis. Todas as psicoterapias assim fazem, cada uma com seu método. Mas, o Psicodrama, ao tridimensionalizar em cena, ao permitir que o protagonista veja com seus olhos a sua cena, potencializa essa transformação de algo fixo e imutável em algo dinâmico

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Uau!

 Hoje, 3 de Julho, é data de nascimento de Franz Kafka, Em 1883. Lendo um de seus Aforismos, há este: "Há dois pecados humanos capitais, dos quais se derivam todos os outros: impaciência e indolência. Por impaciência foram os humanos expulsos do Paraíso; por indolência não regressaram. Entretanto talvez haja somente um pecado capital: a impaciência. Por impaciência foram expulsos, por impaciência não regressaram." Claro que essa é a história do ser humano. mas, acho que podemos, à luz de Kafka, olhar as ações de direção do Diretor/Condutor psicodramático. Impaciência e indolência. E, novamente, impaciência. Vamos iniciar pela indolência ou preguiça ou acomodamento. Isso nos conduz, ao dirigir, a estabelecer planos rígidos, pré-determinados, que nos desobrigariam (que ilusão!) da faina de encontramo-nos com o imprevisto, de lidar o aqui e agora. E a impaciência? Impor o tempo do Condutor ao grupo é impaciência. Urgir pela dramatização, é impaciência. Forçar um protagonista, é impaciência. Atropelar o aquecimento, é impaciência. E essa última observação kafkiana, de que a impaciência sozinha é responsável por todos os outros pecados? Trazendo a nosso mundo psicodramático, diria, de maneira escatológica,, que "toda merda PODE se tornar adubo". Essa é a maneira que expresso em grupos de psicodrama publico ou teatro espontâneo, a minha visão de que não há erros irreversíveis numa direção psicodramática, não há pecados de direção, desde que possamos nos abrir a que todo acontecimento pode ser a próxima cena em status nascendi, pode ser o germe da próxima dramatização. Só se tornará uma "merda" se nos ativermos à aparência, à frustração, à impotência. Dando-se uma funcionalidade de aquecimento, de experimentação, de possibilidade de um novo rumo, de se escutar o que o grupo deseja, a alquimia escatológica, merda em adubo, se fará.

sábado, 22 de junho de 2024

Junhos e Psicodramas

 Esta época, principalmente no Norte e Nordeste, são as chamadas Festas Juninas. Santo Antonio (13/06), S. João (24/06) e S. Pedro (29/06). Cada uma com suas tradições, ritos e simbolismos. Estamos chegando ao S. João. E, nesta festa, havia e ainda há, o pular a fogueira. E quando duas pessoas pulam juntas a fogueira são chamados de compadres e comadres de fogueira. O Compadrio, de qualquer natureza, em todos os países latinos, sempre teve uma força de associação e compromisso enormes. O compadre e a comadre sempre foram considerados substitutos do papel parental, com quase igual ou igual, na ausência dos pais, responsabilidade. Nunca foi uma banalidade apenas social. E isto me remete ao grupo, à cena psicodramática. Até hoje dizemos: :"Esse cara pulou uma gueira". Ou seja, escapou de um risco ou perigo. Compartilhar riscos e perigos, compartilhar experiências boas ou ruins. Compartilhar = Com + Partilhar. Experienciar juntos. Essa é a força constitutiva de um grupo. No Psicodrama, na cena psicodramática, os riscos e experiências não são físicos, como nas fogueiras da via. Mas, expor-se, desnudar-se, mostrar-se, abrir sua própria Caixa de Pandora, é vivenciado como uma fogueira. Estar juntos nesse momento protagônico, consolida o grupo. E quem constrói essa possibilidade é o aquecimento inicial do grupo e a manutenção do aquecimento durante a atividade grupal. Aquecimento, fogueira, queimor, calor, mudança de estado, rituais de compadrio, coesão grupal, continência para o protagonista, amor grupal. E viva S. João e a cultura popular! Evoé!

Postagem em destaque

E assim é.

Experimentar e refletir.  Este blog é um espaço para mostrar ideias sobre o psicodrama, sobre o teatro espontâneo.  Há mais de trinta anos...